01 fevereiro 2008

Alvará

Em toda sua fecunda vida, nosso extrapolante doutor jamais viu mais de 10 minutos de carnaval por ano. Pode parecer q ele é um austero portador de gastrite; mas, embora viva tendo dor de barriga, é de rir.

Desta vez foi a celeuma essa da proibição dum carro alegórico no carnaval carioca.

Veja aqui, q achei aqui.

¿Não é de esparramar a muxiba de rir?

HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Tenha dó, gente.

Vêm uns caras e juram de morte os autores de uns cartuns com Maomé. Vêm outros e proíbem q desfile um carro alegórico engraçadíssimo q ridiculariza o nazismo com mais eficácia do q qqer coisa q já veio antes (inclusive Chaplin brincando com o globo). E ¿o motivo é q "a mensagem poderia ser interpretada de maneira errada pelo público"? E q ¿¡¿"carnaval ... não é o espaço certo para a discussão desse tema"?!?

HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Claro, não tenha dúvida alguma, dona-de-casa. O público ia pensar q a Viradouro está promovendo o nazismo e a matança de mais 6 milhões de judeus, não é verdade? Pois o "público" ¿não é esse povo imbecil q perde a noção do q está fazendo toda vez q vê uma suástica?

"¡Olha lá uma suástica! Oh... oh... Nossa, ¿por que minha roupa tá rasgando? ¡¡Tou virando o Hulk!! GLUÁGLUÁGLUÁGLUÁGLUÁ ¡¡¡Olha lá um gay judeu preto milionário!!! MORRE MORRE MORRE GLUÁGLUÁGLUÁGLUÁGLUÁ"

Claro está também q se o desfile da Viradouro não fosse embargado por um
grupo judeu, teria q ser embargado por alguma ONG exterminadora de mau gosto. O tema escolhido foi "É de arrepiar". Aí os sambistas viradoidos se juntaram e pensaram,

Joquinha do Ariri: Xovê... ¿O q é q é de arrepiar? Hmmm...
Moscão: ¡Sexo!
Joquinha do Ariri: Boa. Podemo fazer um carro alegórico com... com umas camas, assim...
Vasquinho da Rapeize: Cama, cama... [pausa] ¡Kama Sutra, Kama Sutra!
Joquinha do Ariri: Genial. Registra a idéia aí no papel. E ¿q mais é de arrepiar?
Moscão: hmm....
Vasquinho da Rapeize: ããã...
Aldenilde Sá: Ó, não sei de vocês, mas eu fico arrepiada com barata.
Joquinha do Ariri: ¡Genial, genial! Escreve aí.

E assim por diante, com o resultado q se planejou o desfile da Viradouro com oito carros alegóricos com temas "ligados ao arrepio" – entre eles: o frio, o Kama Sutra, o holocausto, o nascimento e... as baratas.

HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Esse desembeste do pensamento voando pra todo lado pode ser a coisa mais normal em carnaval – e o Dr Plausível admite q conhece pouquíssimo do assunto. Mas tinha q ser um carioca pra inventar um desfile desses. O doutor acredita q a coisa mais maravilhosa do carioca e de seu carnaval é sua inconsciência praiana, seu talento folgazão pra boiar na superfície acima de todos os escuros e horrendos emaranhados de intrigas abissais no mundo real. É muito triste q venha gente lá do outro lado do espectro emborcar e lançar às profundezas de seu emaranhamento uma simples molecagem de mau gosto, impedindo q o "público" chegue a suas próprias conclusões.

Esse Hitler realmente foi um babacão. Por causa dele, agora há q impetrar à antissepsia judaica o direito de me privar de formar uma opinião sobre o assunto pífio dum carro alegórico. Êitcha.

Mas o pior é q a escola de samba gastou uma grana preta com o projeto e construção do carro, e não é a primeira vez q uma liminar embarga um desfile. É como construir uma casa e depois ser obrigado a demoli-la porque não atende a normas de construção civil ad hoc. Não parece justo q a legislação não inclua em seus códigos e normas precisamente o quê pode ser feito ou dito. Se pra construir uma casa é preciso um alvará de construção, então acho q, pra construir coisas como um carro alegórico, a lei deveria incluir o requerimento dum Alvará de Inocuidade q fosse vistoriado por um padre, depois por um sacerdote, e aí um mulá, um dervixe, um rabino, um monge, um druida, um xamã, um dalai-lama, um presbítero, um capelão, um zaco, um abdalá, um pai-de-santo, um pastor, um agapeto, um imame, um alfaqui, um bonzo e um pajé.

Oh... ¡¡Mas isso seria censura, não?! Q HORROR! Q HORROR!

7 comentários:

Pracimademoá disse...

Chaplin brincando com o globo era diferente: Chaplin era judeu.Acabei de dizer isso nos comentários do interney.

Se ele não fosse judeu, PQP, sim, era bem capaz de ser acusado de estar tripudiando sobre todas as vítimas do nazismo. O povo é tapado sim. Você mora aqui nesse mundo e consegue esquecer-se disto?

Permafrost disse...

• A questão do Chaplin é um pouco mais complicada. O filme é de 1940. Embora na época ele tivesse dito q "Hitler must be laughed at", mais tarde acho q admitiu q não teria feito aquelas piadas todas se já se soubesse a extensão das crueldades nazistas. Mas de modo geral, acho q vc tá certo sobre o doispesos-duasmedidas.

• O povo certamente é tapado. Mas note q escrevi 'público' entre aspas duplas (por algum motivo será, não?). Meu ponto aí é sobre a diferença entre o discurso judaico/germânico e a prática carioca, e sobre a hipoplausibilose castradora em esperar uma uniformidade de conduta entre todos os segmentos de uma sociedade ou de um planeta, e a partir dessa hipoplausibilose instituir, prescrever e injungir essa uniformidade. Talvez seja apenas um caso de choque de civilizações entre a antissepsia judaica/germânica e o destrambelho carnavalesco carioca. Entre os dois, sou mais o carioca, nessa questão: sempre acho q limitar o senso de humor é o mesmo q aniquilá-lo por completo ("Daquilo vc pode rir; disto não pode." "Ah, bom saber. E pràquilo de q posso rir, ¿preciso marcar hora com antecedência?").

Herpes da Fonseta disse...

A Viradouro cochilou. Se fica proibida de desfilar o carro representando uma pilha de corpos de judeus mortos e também não pode ter passistas fantasiados de Hitler ou mostrando uma suástica, então a escola poderia inverter tudo. Poderia colocar uma suástica no braço de cada cadáver, botar os passistas de quipá e tranças e, dançando no topo da pilha de cadáveres nazistas, um destaque fantasiado de rabino. A homenagem ao povo judeu seria incontestável, apesar de ainda ser de mau gosto.

Permafrost disse...

É, e poderiam chamar o resultado de "A Solução Final".

Surrealismo do Acaso disse...

Eu revi meus conceitos, tinha concordado plenamente com a posição adotada pela juíza que concedeu a antecipação da tutela. Lendo o seu texto, pareceu que a posição dela foi mesmo equivocada, não que eu defenda a exposição dos corpos, mas ela não podia interferir da forma com que fez. A pretensa ofensa que o carro poderia causar é de uma avaliação subjetiva que transcende qualquer poder Judiciário terceiro-mundista, e sim, ela CENSUROU, impôs multa e até escreveu discurso.

Permafrost disse...

¿Cê vê só? Os advogados talvez havia muito tempo já soubessem da alegoria e esperassem o momento mais propício pra jogar o gambito da urgência. A poucos dias do início do carnaval, não dá nem pra pensar em recorrer. Truque velho sempre dá certo.

Rildo Hora disse...

Revisionismo.

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