30 janeiro 2008

"Eu, gênio."

Hitler deve ser o sujeito com a pior fama em todo o universo. É a personificação do Mal.

Mas, na verdade, pessoas como nosso estiloso doutor sabem q "o Mal" não é tão ruim assim. Uma pesquisa qqer, de qqer tamanho, há de revelar q as pessoas identificam o Mal com uma intenção de causar dor ou de fazer outras coisas desagradáveis tais como destruir o q já está pronto. Mas, dado q se procura combatê-lo com preces, esperanças e "o poder do amor", ninguém deve levar o Mal muito a sério. No mínimo, não é tão temido ou detestado qto se quer fazer crer. Hitler é considerado mau não porque tivesse intenção de fazer o Mal, mas porque agiu com indiferença e foi, em retrospecto, incompetente.

Ninguém teme o Mal tanto qto teme a Indiferença. Ninguém detesta o Mal tanto qto detesta a Incompetência. Não fosse assim, ¿por que cargas d'água teria surgido a eugenia?

Até um paracelso do darwinismo como Richard Dawkins chegou a dizer q Hitler, além de tantas maldades, também teve a desfaçatez de desabonar a eugenia. Pra Dawkins, a equação pós-Hitler q ficou na cabeça das pessoas é:

Hitler = o Mal
Hitler = eugenia
portanto, eugenia = o Mal

Um sujeito inteligente como Dawkins não cometeria a estultícia de aventar a eugenia seriamente. Mas, como biólogo, ele não acha essa uma idéia tão ruim. É antipática, desagradável, mecânica e idealista, mas não de todo ruim. Pois ¿não é eugenia o q se faz com os rebanhos, os bichos de estimação e os vegetais? Se existe o objetivo e a esperança – com a qual gente tão desenganada como Freud morreu e morre – de "uma vida melhor" no futuro, ¿por que não já garanti-la ceifando na raiz "a origem de todo o Mal", isto é, "as gentes de baixa qualidade"?

O Dr Plausível, claro, cai no gargalho. A eugenia como método acabaria sendo só mais um passatempo humano, tal como as religiões e as ideologias políticas – nas palavras de Arundhati Roy, "an obstacle race, with a prize at the end". Mas, embora risível, não é essa a característica hilariante.

Hilariante é q instituir a eugenia é totalmente desnecessário. Basta estigmatizar o estupro: homens e mulheres, em suas próprias escolhas, já promovem a eugenia conscientemente e de comum acordo; o estupro é a única situação em q o desejo eugênico bilateral é contrariado por uma das partes. E embora as mulheres disfarcem suas imperfeições sob a maquiagem, a roupa e a plástica, e os homens disfarcem as suas sob a organização, o método e a hierarquia, e muito embora o jogo da sedução seja, como sempre foi, um palco de enganações, fingimentos, bom-mocismos e hipocrisias, a natureza se encarrega de eugenizar a população bonitinho e com mais eficácia do q qqer racionalização a priori conseguiria.

Em resumo: os indiferentes e os incompetentes – não os maus – vão sendo ceifados, implacavelmente.

21 janeiro 2008

Sucho de frutha em thela de cinemha

The silly people don't know their own silly business.
Henry Higgins, in Pygmalion, GBShaw


Tá cada vez mais impossível ir ao cinema com nosso esfuziante doutor sem passar alguns momentos gargalhando. Se não é o preço do ingresso, é o da pipoca; se não é no trailer, é na publicidade pré-filme; se não é na primeira metade do filme, é na segunda. Vou te contar, viu. Alguns cinemas já nem se incomodam de passar os trailers: passam logo a publicidade, na certa porque paga mais. Ou seja, é q nem tv a cabo: vc paga os olhos da cara pra ver anúncios. O doutor já cancelou a tv a cabo, mas ainda vai ao cinema. Logologo vai desistir também do telão e virar usuário de pirataria.

Sesdias, sua liberdade de escolha foi funestamente pisoteada por um anúncio desse suco-novo-igual-aos-velhos — Fruthos. O doutor desandou a rir e gargalhar e expectorar e, é claro, o cinema todo riu junto... e, é claro, pelo motivo errado. Veja o estopim aqui:



¡Ô miasarma! ¡¡Ôôôôô miasarma!!

É assombroso o estrabismo desse anúncio. Tira sarro de gente q não pensa e está obviamente dirigido à mesma gente q não pensa. É o mesmo q dizer:

"Ô idiota, deixa de ser idiota seguindo as modas inventadas por nutricionistas. Prefira ser idiota seguindo a moda inventada por NOSSO nutricionista."

HAHAHAHAHAHAHAHA

E ¿¡¿¡¿"frutas colhidas com todo carinho"?!?!?

HAHAHAHAHAHAHAHA

Acho q ninguém nasceu ontem, né? Imagina se o peão vai colher a laranja "com todo carinho", puxando do galho delicadamente pra não machucar a árvore, deitando a fruta numa caminha de cetim acolchoado... aiaiai... "Frutas colhidas com todo carinho"... êitcha. ¿Pra q catso serve uma frase dessas num comercial de suco industrializado se não pra estimular a idiotice do público?

A mensagem é tão despistada q talvez os próprios criadores do anúncio... ãã...

Deixa pra lá.

E ¿q catso tá fazendo esse H no meio de Fruthos? aiaiaiaiaiaiai

AI AI AI AI AI AI AI

Mas é sério, leitor. Pra quem já leu The Omnivore's Dilemma, de Michael Pollan, não há de escapar a cretinice do anúncio ao contrapor produtos naturais como alho, brócolis e peixe a um produto industrializado q — além do suco concentrado de praxe mais uma quantidade cinicamente viciante de açúcar — contém acidulante, estabilizante, antioxidante, nossa velha conhecida água e um composto tetricamente chamado de "aroma idêntico ao natural" — ou seja, um suco igualzinho a todos os outros sucos industrializados da prateleira q, pelo menos, não insultam a inteligência do povão.

Vida curta.

02 janeiro 2008

Troppi cuochi

Reunião familiar de fim de ano é qdo nosso elucubrante Dr Plausível fica meio largadão ali no canto da sala bizoiando a biblioteca da parentalha. Parente pode ser aquela água toda, mas poucas coisas há neste mundo injusto melhores q gargalhar honestamente com irmãos, primos e cunhados. Sesdias o doutor tava lá com uns parentes q assinam a Folha, todos exímios cozinheiros, e passou ótimos momentos gargalhando em família em volta duma amostra grátis q a Folha enviou duma coleçãozinha de receitas com o imaginativo, criativo e evocativo nome Cozinha de País a País.

O livreco em questão intitulou-se Itália 2 — ou seja, é o 2° volume dedicado à cozinha Italiana.

Mas, mas... receitas de ¿musse de damasco? (francês com chinês) ¿¿gazpacho?? (espanhol) risoto ¿¡¿ao curry?!? (indiano) O doutor chamou a parentalha em volta e daí em diante foi só risada.

Logo na intro, o texto já solta aquele cheiro de minestrone requentado de soborô insosso e mal cozido.

Veja esta amostra, sobre massa de macarrão:

A história ensina que as primeiras versões de massa a partir do cozimento da mistura de farinha e água, são do século 490 a.C. (1) ... Esse alimento mágico (2) rapidamente se difunde a ponto de, na Idade Média (3), revelar o status social de seus apreciadores (4). As massas frescas e recheadas eram típicas nas mesas dos ricos, enquanto as secas e planas ... eram encontradas nas mesas dos pobres. Apesar de tudo (5), um alimento revolucionário (6) e ao alcance de todos.

(1) Na verdade, o q a história ensina é q os chineses já comiam espaguete 2 mil anos a.C.

(2) ???? Súbito aparecimento do locutor da Globo.

(3) De 490 a.C. até a idade média são uns 1500 anos; ¿isso é "rapidamente"?

(4) Tipo, um pedreiro faminto de Sorrento comendo macarrão pq é barato e fácil de fazer virou "apreciador".

(5) O doutor e a parentalha ficaram vários minutos tentando entender o q é "apesar de tudo" nessa frase; ¿apesar de tudo o quê? ¿apesar de "revelar o status social"? ¿apesar de ser comido por ricos e pobres? ¿Q catso?

(6) HAHAHAHAHAHAHAHA Um alimento com uma tradição de uns 1500 anos devia parecer revolucionaríssimo na Idade Média. O próprio Marxcarrão.

Agora vejam estas delícias. Animam qqer jantar.

salada vegetariana de arroz
... Esta receita pode ser feita com arroz arbóreo ou com arroz comum, mas, se a ocasião for um dia especial, deve-se usar o arroz parboilizado.
HAHAHAHAHAHAHA
Ou seja, se for uma ocasião comum, use arroz arbóreo; mas se for especial, use um arroz q qqer restaurante a beira de estrada usa.

salada morna de couve-flor:
... Apesar de não ser originária da Itália, esta criação contemporânea é muito apreciada pelos italianos...
E apesar de não ser originária da Itália, é justamente por ISSO q foi incluída neste volume de cozinha italiana, capice?

nhoque com camarões
... a batata, q é outro ícone da cozinha italiana...
... E da alemã, da inglesa, da portuguesa, da boliviana, da canadense, da brasileira, da chilena...

tamboril com cítricos
... Ao contrário de muitos peixes, o tamboril não tem escamas...
É. Ao contrário dos muitos peixes q não estão entre os muitos peixes q NÃO têm escamas, o tamboril TAMBÉM não tem escamas.
Aliás, ¿esse "muitos" peixes dá a impressão de
a) mais de 50%, ou
b) menos de 50%?
Costuma ser menos pois, senão, dir-se-ia "a maioria dos peixes", não?

camarões aromáticos
... O camarão é um produto raro na Itália...
Mas tem tanto, mas TANTO italiano pedindo camarão qdo viaja pro exterior, cara. Nem te conto.

peru colorido
... Muito adequada a almoços informais que reúnam gente jovem e alegre...
¿Quê? ¿De volta aos anos 50?
"Ei, tchurma, já q somos um grupo de gente jovem e alegre, ¿q tal almoçarmos um peru colorido?"

musse de damasco
... O damasco é uma fruta originária da China e do Oriente Médio ... agrega sabor a esta musse...
Tendi. Vc pega uma sobremesa de origem francesa, coloca uma fruta chinesa e ¡presto! ¡pimpoglione! ¡sparadrappo! Sem falar q o damasco "agrega" sabor a esta musse q JÁ É de damasco...

frango à siciliana
... Atualmente, a Sicília é um dos maiores produtores de frutas cítricas (laranja e limão) do mundo. Estas frutas dão um toque de requinte a este frango...
¿Requinte? O Brasil é o segundo maior produtor de bananas do mundo. ¿Esta fruta dá um toque de requinte ao picadinho?

E por falar em banana...

torta de banana à italiana
... Na Itália, a banana é produto raro...
E é por ISSO q figura tão visivelmente na culinária italiana.

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O doutor tem um pouco de dó de jornal q tenta alavancar as vendas com ofertas desse tipo. E tem mais dó ainda da imprensa brasileira, q (como já se disse aqui) aparentemente não tem idéias, não tem redatores, não tem iniciativa. O comentário q fiz no início sobre o nome dessa coleçãozinha é mais sarcástico do q parece à primeira vista, pois a "Cozinha de País a País" é adaptada da idéia, redação e iniciativa do jornal espanhol El País. A Folha nem sequer teve a presença de espírito de adaptar o trocadilho do título (na Espanha, o leitor recebia um número da coleção a cada edição de domingo de El País — portanto, "Cocina de País a País").

Claro q a Folha não é o único jornal a enfiar gororobas editoriais goela abaixo dum público apéptico, sob a desculpa de "cultura" ou "informação". É apenas um exemplo. E fica bem evidente do quê é exemplo qdo se compara o produto ao eslôgã enganoso q o promove: (grifos meus) "Qualquer um vai poder ser especialista na culinária de qualquer país." Mesmo descontando o zeitgeist do Ratatouille, alguém no caminho entre a idéia original e o produto final obviamente agiu de má fé. Se não isso, então grande parte dos vários intelectos por trás dessa coleção e promoção ingenuamente desacreditam na capacidade q um texto seu tem de não significar nada.