17 dezembro 2007

O purista

¿Viram só o decreto do Aldo Rebelo? ¡Q coisa, hem, gente?

Uma das entidades mais engraçadas em debate sobre línguas é o purista. É uma pessoa tão engraçada q faz rir até gente burra e/ou desinformada.

Purista é uma espécie de faxineiro de floresta. Vê um pozinho, uma sujeirinha, uma pocinha, e já quer passar um aspirador, um paninho, um rodo. Não admira q passe a vida a reclamar.

O purista vê na língua uma quantidade alarmante de galicismos e anglicismos. (Gozado q é sempre ou galicismo ou anglicismo; nunca é, digamos, niponismo — nunca sugerem 'suchí' ou 'chiátisso'.) E o purista é em tal grau tacanho q nunca sugere algo q preste. É sempre "Ah, não usa essa palavra, não. Usa essa outra aqui, que não é exatamente o que você quer dizer, mas pelo menos não é galicismo."

HAHAHAHAHA

¿Querem ver?

Aqui vão algumas frases usando as sugestões de puristas pra "corrigir" em português da gema certos galicismos:

carnê
Não esqueça de quitar teu bloco de prestações do IPTU.

controle:
É importante manter superintendência da taxa de colesterol.
Perdi o domínio remoto da tevê.
O Padilha assumiu o governo societário da firma.

dossiê:
O Ministério Público vai encaminhar a pasta da Colgate à Justiça Federal.

enquete:
Fizemos uma sondagem de opinião e, ¿quer saber?, ninguém acha.

envelope:
Coloquei a carta na sobrecarta errada.

greve:
Os pedreiros entraram em parede.

Só um gostinho. Já deu pra entender, né?

E não poderia deixar de citar um "anglicismo":

conforto (no sentido de "bem-estar físico"):
Depois q ganhou a mega-sena, ele vive com muito aconchego.

Nessas horas, é bom lembrar o q escreveu na década de 1880 o Aluísio de Azevedo, um escritor aparentemente dotado dum alto grau de plausócitos nas veias:

"A França é a sede do pensamento humano ... Como não havemos de ter galicismos? Como não havemos de adotar a França como senhora, se é ela quem nos dá os costumes, as lições, a nomenclatura científica, a literatura moderna, o realismo, o teatro, a arte, a política, o cancã e o deboche? Se é ela quem nos explica o que nós somos, o que são os fenômenos naturais que na história de Portugal se acham explicados pelo milagre; se é ela quem nos diz como devemos andar na rua, viver em casa, comer, beber, dormir e até multiplicar-nos; se é ela quem nos prescreve a moda, quem faz o caráter e os vestidos de nossa mulher e filhas, quem talha o pensamento e as fardas de nossos ministros de Estado, de nossos conselheiros, se é ela quem destrói as nossas crises políticas e as nossas dispepsias; se é ela quem nos dá os tratados de economia política e o xarope La Rose?!"

Troca 'França' e 'galicismo' por 'Euá' e 'anglicismo', e pronto: Aluísio de Azevedo redux.

10 comentários:

Andre disse...

E isso sem levar em consideração que qualquer língua é exatamente a mistura de várias outras!

Ah, e aquele negócio do "deletar", que vem do inglês, só que não é uma palavra de origem inglesa. É latina, e, não por acaso, em português temos uma outra palavra com a mesma origem do inglês "delete": indelével.
Ou seja, deletar só não é uma palavra originalmente portuguesa por puro acaso, pq outras com a mesma raiz existem!

Andre disse...

Nossa, o texto ficou um lixo. O que eu quis dizer, e não sei se consegui com sucesso (!), é dizer que "indelével" tem a mesma origem da palavra inglesa "delete". Não que "delete" seja a origem de "indelével". As duas tem a mesma origem latina! Era isso!

Permafrost disse...

Êi, tinha ficado claro da primeira vez. E é isso mesmo: "qqer língua é uma mistura de várias outras". E justamente existe 'deletar' porque não é a mesma coisa q apagar. Se fosse a mesma coisa, então não existiriam programas em q 'erase' é uma coisa e 'delete' é outra.

Tem gente q faz besteira, tipo chamar 'tijela' de 'bowl'; mas até isso é normal e faz parte do mundo: pois não se pode emudecer os imbecis, não é? É tudo parte da geléia.

Motta disse...

Pablo do céu!!! Purista ou não, normativo ou não, pelo amor do Chefe, tigela é com "g"!!!!!!

Permafrost disse...

The question is which
is to rule with a token:
the ones who do speak
or the ones that are spoken?

'tij/gela', 'tijolo' e 'telha' têm a mesma origem (e lembro q esta última se grafa 'teja' em espanhol).

Exceto em momentos de abjeto conformismo, defendo q 'tij/gela' se grafe com J, pra registrar o parentesco com 'tijolo' e 'teja'.

Linha disse...

http://sobrevoo.wordpress.com/2007/12/30/o-rio-que-corre-pela-minhaldeia/

Neanderthal disse...

Uma dúvida, Hamburguer é anglicismo ou Germanismo?

Neanderthal disse...

Mais uma consulta:

Meu amigo disse que irá "desforcastear" o fechamento de um negócio no software de pipeline.

Isso é anglicismo?

Rildo Hora disse...

Mano véio, pára com isso!
Aceitar o erro também vale, sabe não? Senão fica fácil, o tal do jogo. Tipo quando éramos crianças, né? "-Gooooollll!!!!!" "-Não valeu, não valeu!!" "-Mas foi gol, cê não viu?" "-Eu sou o dono da bola, não valeu senão não tem mais jogo!!"
Think it over.

Rildo Hora disse...

Selo de autenticidade para o de cima. me referi ao "tigela" com "j", amigo. Um grande abraço.

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