27 dezembro 2007

O Natal do presente, aqui e agora

Todo o leitorado deste blogue deve bem imaginar o q diria nosso espectável doutor sobre o Natal: q é uma festa de origem pagã baseada no solstício de inverno, q pouco ou nada tem a ver com o nascimento de Jesus, q não é totalmente reconhecido pela cristandade, &c &c — coisas q muita gente sabe.

Outro aspecto muito lembrado é q trata-se do solstício de inverno no hemisfério NORTE, importado pra este hemisfério pelos descendentes de europeus q sabiam contar os dias mas ainda não estavam totalmente convencidos de q a Terra era redonda.

Enfim, todos imaginam q o doutor diria coisas do tipo.

Mas é no Natal q o doutor vê o q o Brasil realmente é. De fato, poucas ocasiões permitem q se veja isso com tanta clareza como a época em torno ao solstício de verão — em particular, viajando pelo interior do país.

O Brasil é um assentamento europeu — meio interrompido, meio largado, meio improvisado — no limiar entre a Europa e o desconhecido, entre a civilização e as terras de ninguém. O povo traz a Europa na bagagem ignorando q as culturas viajam bem na horizontal porém mal na vertical. É muito complicado.

Se jogar fora a bagagem é impossível, cada país precisa pelo menos fazer sua própria síntese. Nos Euá — um país q já amadureceu de sua adolescência de assentamento europeu e agora faz jus a sua independência —, a síntese foi adaptar um mito dinamarquês e criar o Papai Noel de hoje, absorvendo o visual dos tons vermelhos e verdes e... ¡pumba! descarregando anualmente dezenas de filmes com aqueles tons ironicamente idênticos aos da bandeira de Portugal.

Já o Brasil está longe de fazer sua própria síntese do Natal. Longe. Looooooooooooooooonge. Natalinamente, o Brasil é um mero derivado europeu terceirizado pros Euá. Os ideais natalinos são coados e diluídos progressivamente desde os centros europeus e euaenses até a mais longínqua colônia desbravadora do sertão mato-grossense, perdendo no caminho sua razão de ser e pintando o mundo com uma cor desconexa e desorientada.

¿Quer ver? Nem precisa ir tão longe.

Esta é uma pataquada q a Disneylândia fez pra este Natal:



Note o título dessa música — We’re All In This Together (estamos todos juntos nessa) — e os lugares-comuns da letra, tipo “everyone is special in their own way” (cada um é especial a seu modo).

¿Q raios?

Pois vendo o vídeo abaixo, do 1° Encontro de Papais Noéis de Guaramirim — uma cidade de 31mil habitantes em Sta Catarina —, essas palavras da Disney, os lugares comuns da co-operação e da boa-vontade, mudam de sentido e passam a soar cínicos, perversos e até um pouco sinistros:



¿Como assim, “we're all in this together/everyone is special in their own way”?

¡Homessa! É óbvio q não estamos todos no mesmo barco.

O Dr Plausível acha engraçadíssimo ver ex-portugueses, ex-italianos, ex-caboclos, ex-cafuzos e ex-mamelucos fardados de Papai Noel cozinhando sob o sol de dezembro em toda cidadezeca do Brasil. Mas é claro q este não é o único país do hemisfério sul a sofrer as babaquices de festejar o Natal seguindo a estética do outro hemisfério. Pra comparar, veja o desfile de Natal em Launceston, uma cidade de 71mil habitantes na Austrália — um país cuja população é mais ou menos a mesma da grande SPaulo.



E aqui, no mesmo desfile, uma banda de gaitas de fole tocando Jingle Bells. Vc pode até não gostar do som, mas pelo menos a banda é afinada e ensaiada:



Comparando as coisas, confirma-se q coreografias e comportamentos escriptados não são o forte do Brasil – mas, neste caso pelo menos, talvez porque o Natal tenha sido coreografado e escriptado lá onde o solstício do inverno é em dezembro. A maior parte do Brasil está entre o Trópico de Capricórnio e o Equador. A Europa e os Euá estão inteirinhos entre Trópico de Câncer e o Pólo Norte. Não tinha como dar em algo plausível.
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Adendo:

Prestando atenção nos vídeos, o leitorado há de notar três ironias totalmente involuntárias — do tipo q faz o doutor destroncar as costelas de rir.

(1) Apesar de a Disney insistir q “we're all in this together”, a bandinha de Guraramirim q aparece ao final toca em suas liras desafinadas aquela marchinha do Assis Valente cuja letra diz:

“Eu pensei q todo mundo fosse filho de Papai Noel.”

Só isso já garante uma gargalhada. Mas tem mais.

(2) A letra é sobre alguém q pede “felicidade” ao Papai Noel. Claro q esse presente ele não dá:

“Já faz tempo que pedi
Mas o meu Papai Noel não vem.
Com certeza já morreu
Ou, então, felicidade é brinquedo q não tem.”

E ¿essa música é tocada onde? onde? Claro, num encontro de Papais Noéis.

Por aí se atesta q brasileiro em geral não tem ouvido pra ironias. Mas há exceções. Essa música tem o sarcástico título Boas Festas.

(3) O sarcasmo do “boas festas” do Assis Valente é o cinismo do “happy holidays” da Disney.

Sabedores de q o solstício de inverno foi seqüestrado por cristãos, a Disney não pode desejar Feliz Natal publicamente sem ofender as minorias reclamonas de judeus, muçulmanos, &c, q também aproveitam o bonde do solstício. Note no vídeo q, depois q a rapaziada deseja “Merry Christmas”, ouve-se um “Happy Holidays” em off. Das duas uma: ou algum cristão atrevido cinicamente desviou a cena pra aparecer só o áudio; ou alguém cautelosamente enxertou o cínico “happy holidays” mais tarde, durante a edição de som.

E nos Euá essas coisas acontecem mesmo, acredite.

17 dezembro 2007

O purista

¿Viram só o decreto do Aldo Rebelo? ¡Q coisa, hem, gente?

Uma das entidades mais engraçadas em debate sobre línguas é o purista. É uma pessoa tão engraçada q faz rir até gente burra e/ou desinformada.

Purista é uma espécie de faxineiro de floresta. Vê um pozinho, uma sujeirinha, uma pocinha, e já quer passar um aspirador, um paninho, um rodo. Não admira q passe a vida a reclamar.

O purista vê na língua uma quantidade alarmante de galicismos e anglicismos. (Gozado q é sempre ou galicismo ou anglicismo; nunca é, digamos, niponismo — nunca sugerem 'suchí' ou 'chiátisso'.) E o purista é em tal grau tacanho q nunca sugere algo q preste. É sempre "Ah, não usa essa palavra, não. Usa essa outra aqui, que não é exatamente o que você quer dizer, mas pelo menos não é galicismo."

HAHAHAHAHA

¿Querem ver?

Aqui vão algumas frases usando as sugestões de puristas pra "corrigir" em português da gema certos galicismos:

carnê
Não esqueça de quitar teu bloco de prestações do IPTU.

controle:
É importante manter superintendência da taxa de colesterol.
Perdi o domínio remoto da tevê.
O Padilha assumiu o governo societário da firma.

dossiê:
O Ministério Público vai encaminhar a pasta da Colgate à Justiça Federal.

enquete:
Fizemos uma sondagem de opinião e, ¿quer saber?, ninguém acha.

envelope:
Coloquei a carta na sobrecarta errada.

greve:
Os pedreiros entraram em parede.

Só um gostinho. Já deu pra entender, né?

E não poderia deixar de citar um "anglicismo":

conforto (no sentido de "bem-estar físico"):
Depois q ganhou a mega-sena, ele vive com muito aconchego.

Nessas horas, é bom lembrar o q escreveu na década de 1880 o Aluísio de Azevedo, um escritor aparentemente dotado dum alto grau de plausócitos nas veias:

"A França é a sede do pensamento humano ... Como não havemos de ter galicismos? Como não havemos de adotar a França como senhora, se é ela quem nos dá os costumes, as lições, a nomenclatura científica, a literatura moderna, o realismo, o teatro, a arte, a política, o cancã e o deboche? Se é ela quem nos explica o que nós somos, o que são os fenômenos naturais que na história de Portugal se acham explicados pelo milagre; se é ela quem nos diz como devemos andar na rua, viver em casa, comer, beber, dormir e até multiplicar-nos; se é ela quem nos prescreve a moda, quem faz o caráter e os vestidos de nossa mulher e filhas, quem talha o pensamento e as fardas de nossos ministros de Estado, de nossos conselheiros, se é ela quem destrói as nossas crises políticas e as nossas dispepsias; se é ela quem nos dá os tratados de economia política e o xarope La Rose?!"

Troca 'França' e 'galicismo' por 'Euá' e 'anglicismo', e pronto: Aluísio de Azevedo redux.

12 dezembro 2007

A esperança como negócio (4)

Nosso empedernido doutor já tratou da esperancite na escala política nacional, mas é preciso dizer q essa doença −variante da hipoplausibilose− ataca no mundo inteiro. Ultimamente tá um tal de ter esperança na raça humana q vou te contar. Êitcha. Gente não aprende.

Na edição de 6 out último, a NewScientist publicou um artigo (q vc pode ler aqui) teressantíssimo sobre sustentabilidade. Diz q Cuba é (ainda) o único país q pode se gabar de promover um desenvolvimento sustentável. “¿Des. sust.? ¿Que porra é essa?” diriam meus leitores mais vicerais. Sei lá. Nem o artigo consegue definir direito. Mas dá pra entender, não dá? Si o planeta ¹aumenta o IDH −ou seja, a expectativa de vida, a alfabetização, a escolaridade e o PIB per capita−, ²usando menos de 100% de sua superfície pra alimentar a população, então dá pra ²sustentar o ¹desenvolvimento, não?

Mas aí os caras fizeram um gráfico pra responder ä pergunta: si fosse pra ter a população inteira do planeta com o IDH dos Euá ou da Europa ocidental, ¿precisaria da área de quantos planetas pra sustentar essa gente toda? Ou seja, já q só há UM planeta, cuja área não é extensível, ¿qual seria a população ideal pra preencher esses requisitos basiquérrimos do IDH? Veja o gráfico abaixo:



Lembrando q o IDH é o básico da vida digna e não as esdruxulâncias do conforto, pelo gráfico se vê q, pra q os 6,5 BILHÕES de coitados deste planteta tenham uma vida razoável, seria preciso ter quase 3 (três) planetas Terra pra sustentá-los no IDH da Europa ocidental e mais de 5 (cinco) no IDH dos Euá.

HAHAHAHAHAHA

Também se vê q, de todos os países com IDH maior q 0,8, apenas Cuba pode ser modelo de des. sust., pois si 6,5 BILHÕES de coitados vivessem no nível cubano, a gente só precisaria de 80% da superfície do planeta, deixando o resto pros outros bichos.

¿Não é hilariante, a esperança?

Depois, na edição de 27 out, um leitor (q provavelmente toma Plausibilol® regularmente) escreveu o seguinte:

«Se, tal como a maioria concorda, a população mundial chegar à 10 BILHÕES em 2070, será preciso ter 1,3 planetas pra sustentar o mundo todo mesmo q o IDH médio se restrinja ao de Cuba. ... Pra q o mundo todo vivesse tão bem qto se vive na Europa ocidental hoje, a população mundial precisaria ser de cerca de 2 bilhões.»

¿Não é de espapaçar os miolos?

E aí vem gente com toda aquela esperança. Alguém teria q sair piparoteando orelhas pelo mundo todo, mostrando q, mesmo sem fome, sem guerras, sem poluição, sem aquecimento global, simplesmente NÃO É POSSÍVEL q todos vivam ãã... “dignamente” — em particular, si o índice do “dignamente” aumenta à olhos vistos à cada vez q a tecnologia inventa mais uma geringonça, ou à cada vez q alguém desempacota mais uma teoria humanitária globalizante.

Não há o q discutir ou adicionar ä Teoria Econômica Plausível: a pobreza é o estado natural do ser humano, e o crescimento econômico depende da produção incansável de bebês pobres.

03 dezembro 2007

Hans Rosling e suas bolinhas amestradas

Li uma vez q o centro de São Paulo parece Nova Iorque em 1950. Hoje vi q o Brasil atual é o q era a Suécia em 1953.

Veja aqui.

Ou seja, tenha um filho agora e aposte em teu neto.

Se quiser ir direto à fonte, aqui está.

[Agradecimentos ao Barnabé.]