13 novembro 2007

O googlette

Admito q não é fácil entender alguns raciocínios do Dr Plausível, como alguém q dissesse "Ah, hoje de manhã vou comprar uns tomates, aproveitar e pagar umas contas, e depois à tarde vou entender um raciocínio do doutor."

Mas tá aumentando a freqüência com q nosso enigmático doutor dá de nariz contra uma porta.

Uma dessas portas é o pesquisador de Google, o googlette. O Google tem se tornado cada vez mais a fonte padrão de referência pra assuntos intra-internet, embora todo mundo reconheça q é dúbio, escorregadio e manipulado. A principal característica dele q é tida como contrapeso a esses obstáculos é q o Google tem toda a cara de ser... ãã... completo. Tem tanta coisa, né, ué? Só pode ser completo. O mundo inteiro tá no Google, não tá? Então.

Antes era: não passa na tv = não existe.

Hoje é: não está no Google = não existe.

HAHAHAHAHAHAHA

Mas o bom de ser discípulo do Dr Plausível é q ele ensina a prestar atenção na ESCALA das coisas. Há q lembrar o CDA:

mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima
mas nem por isso me achariam no Google

Ainda bem q não tinha Google à época do JLBorges. Imaginem o diálogo:

JLBorges: ¡Tou dizendo q vi com meus próprios olhos! Um verbete na enciclopédia sobre Uqbar, q falava do Orbis Tertius e...
Bioy Casares: Toma jeito, Zé Luís. Não tem nada no Google.

Mas o pior mesmo é o massacre contra o senso de humor promovido pela impressão de q tudo se sabe. Falando de Borges, se Funes não conseguia dormir porque não se esquecia de nada, o googlette não consegue rir porque pensa q pode saber tudo.

Êitcha.
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Adendo:

Pode-se eXtender a definição de 'googlette' pra 'pessoa-referente'. Pro googlette não existe nada q não esteja devidamente referenciado, seja num dicionário ou numa enciclopédia, seja na CARAS ou na NewScience. A pergunta recorrente do googlette é "¿onde vc viu isso?". O googlette não enxerga as palavras: só vê as informações. (Está claro, espero, q na interneta o googlette pode nem ser uma pessoa, mas uma persona.)

Pro googlette, as informações são tijolos claros e inquebráveis q nunca se entrecruzam pelo mero prazer de. O q se perde ao ser uma pessoa-referente é o senso de humor q vem da ambigüidade e sutileza da comunicação. Se vc faz uma piada óbvia com alguma informação claramente espúria e o ouvinte pede referência a uma otoridade, vc já sabe q o senso de humor e o simancol plausibilático caíram juntos do 8° andar durante uma briga feia.

Pior, vc já sabe q tá falando com alguém q fala muito em "cultura", do jeito peculiar com q o brasileiro usa essa palavra: "cultura" é coisa séria – uma espécie de nirvana q vc atinge depois de ler trocentos livros, ver trocentos filmes, ouvir trocentas sinfonias e turistar em trocentos países. Nunca ocorre ao googlette q o objetivo de ler, ver, ouvir e turistar é sempre, em última análise, rir.

12 comentários:

Pracimademoá disse...

Eu estou sentindo falta de duas coisas nessa conversa: o contexto e a abordagem filosófica que a ausência do contexto permite.

Eu tenho uma teoria: pensemos numa característica de personalidade ao acaso: burro, inteligente, corajoso, covarde, honesto, ladrão etc. Digamos que seja GAY. Se o mundo inteiro acreditar que você é gay, então eu acho que você é mesmo. Você pode espernear e garantir a todo mundo que não é gay. Inútil. Se o mundo inteiro pensar que você é, você passa a ser para todos os efeitos práticos. O comportamento das pessoas e até o desenrolar de alguns acontecimentos serão correspondentes a esta hipótese, logo ela passa a ser fato: você é gay, e está acabado.

Ninguém é "o que é". Somos todos produto do que achamos que somos, do que tentamos ser e do que as pessoas que compartilham conosco a realidade acham que nós somos. Como somos sempre minoria (um contra rapa), somos muito mais o que as pessoas acham que somos do que qualquer outra coisa que a nossa vaidade possa querer. O que cada um de nós acha que é não passa de nossa pequena ilusão particular, que alimenta-se de vaidade, anseios, receios e outras substâncias propícias à criação de pragas e parasitas.

Todo mundo gosta de pensar que é o que é porque, ao postular este raciocínio, na verdade defende a percepção que tem de si mesmo e quer que ela seja homologada como "a verdadeira". É muito desagradável e difícil aceitar que, após todas as nossas tentativas de manipulação, a decisão final sobre todas as definições do que somos ou não sempre estará em poder dos outros.

Já vou chegar no Google.

Você pode alegar, jurar e provar que nunca teve relações sexuais com nenhum homem e que "prestigia" a senhora sua patroa todos os dias. Mas muitos senão todos os detalhes da sua vida sexual estão além do contexto que me diz respeito. É algo que eu não vejo nem me interessa, principalmente se estes detalhes não forem aceitos pela versão de "realidade" que eu considerar "oficial". A vida sexual que só você vê está à margem da realidade, logo não é tão "real" quanto você provavelmente gostaria que fosse.

A realidade é uma moeda corrente: não é aceita em qualquer lugar. Depende do contexto e da disposição de todas as pessoas que habitam o mesmo contexto têm de aceitá-la e movimentá-la. É tolice achar que existe uma moeda universal aceita em todas as nações. É tolice achar que existe uma verdade incontestável e acima de todas as outras se esta suposta verdade não encontra tração no mesmo terreno em que marchamos.

Então é perfeitamente possível que algo que não conste no Google deixe simplesmente de existir para todos os efeitos práticos de um determinado contexto e/ou grupo de pessoas de qualquer tamanho, quiçá o mundo inteiro, assim como praticamente não existem as pessoas que parecem morar no mesmo prédio em que eu moro, já que estou aqui há oito anos e nem sei qual é o nome delas. A Internet é muito mais "real" para mim do que o meu condomínio. E eu estou cer

Pracimademoá disse...

...
E eu estou certo de que algo chamado "Internet" jamais existiu para vários moradores deste mesmo suposto condomínio.

Então, se você contar pra gente que duelo foi esse que você travou na Rede com alguém que achou por bem esfregar o Google na sua cara, talvez eu possa tomar partido e dizer que você está certo. Mas, mesmo assim, eu não posso prometer. Vai depender do contexto.

Permafrost disse...

Não foi UMA ocasião. E nada de sério, tampouco, nenhum "duelo". São só várias (muitas) ocasiões intra- e extra-internet em q o doutor se recusa a pausar, respirar e descer dois ou três degraus na escala cognitiva: sair das piadas e descer aos fatos, sair do humor e descer ao pudor.

Aliás, belo texto esse, hem. Minha única ressalva é q, ao perceber isso q vc percebe, e ver-se a si mesmo categorizando a realidade e resumindo infinitas coisas em alguns poucos e parcos conceitos, como todo o mundo faz, o próximo passo, pra compensar a inutilidade do esforço, é RIR, ora pois não?

PS: veja o adendo.

palpiteiro disse...

Deixe comigo que eu estou rindo a valer - e no mau sentido :)))))))))

Pracimademoá, o dr. quis fazer um chiste sem graça e cortaram a dele. Dê uma olhada no blog do Alexandre Soares Silva.

Pracimademoá disse...

Credo, gente. Que blog ruim aquele, hein? Eu achava que não podia existir blog pior que o do Cardoso, mas agora já não tenho tanta certeza. Jamais tomarei decisão quanto a isso, porque não volto a um nem outro nunca mais. Mesmo que eu vivesse 1.000 anos, a vida é curta demais pra isso.

Mas eu também fiquei com vontade de ver uma foto do Epaminondas...

Permafrost disse...

Nossa, ¿q blogue é esse, o do Cardoso?

Eu disse...

Ô, rapá,

Em vez de ficar papagaiando aqui, e se distanciar cada vez mais da idéia central do blog, ainda por cima usando um nome que eu, do alto da minha ignorância e burrice concebi num dia de bebedeira e desatino, vai lá no YouTube e vê, ou melhor, ouve a gente tocando e recebendo elogios(!). Imediatamente, porra! E, cara, vc. não sabe o quanto os ignorantes e ou burros dão de risada!

Herpes da Fonseta disse...

Você economizaria saliva se dissesse que o "googlette" é um fundamentalista. O fundamentalista acha que é possível chegar ao fundamento dos fatos, que é possível saber tudo (daí sua paranóia) e portanto não entende o que é senso de humor.

Homero disse...

Ótimas sacadas, mas Borges não é José Luis, é JORGE Luis.

Samuel Spoilermann disse...

O abismo que existe entre nossa capacidade de criar maquininhas bacanas e nossa inspiração para bem usá-las é escandaloso. Televisão e internet, vendo bem, são coisas até admiráveis. Mas o uso que fazemos delas... ...nossa vocação é antiga e não se nega: bem antes de saber escrever, sabíamos fazer ferramentas e armas. Progresso técnico é a nossa praia; usar a técnica é outra história.
Queria, a propósito, ver o doutor fazendo o diagnóstico do Orkut e da Wikipedia. Catei nos arquivos e não achei.

Permafrost disse...

Samuel,
Acho q há esse abismo, sim. Mas pra mim é na verdade um abismo entre o gênio inventivo de poucos e a prostração usuária dos muitos. O progresso técnico resulta na proliferação de nós usuários q, caso fôssemos privados de benefícios produzidos alhures, votaríamos instantaneamente à era das cavernas.

Sobre o Orkut e a Wikipedia, ¿o q vc quis dizer?

Eduardo Marques disse...

Acabo de conhecer seu blog. Adorei as suas idéias. Quando tiver mais tempo, vou ler mais. Xéu!!

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