17 setembro 2007

sementes estranhas

Nosso epifânico doutor – q, como resenhista literário dos Cadernos de Plausibilática, tem uma longa bibliografia crítica oral – publicou hoje uma resenha na Copa de Literatura Brasileira, ditada impromptu via telefone desde Basra, onde ora ministra um curso de Plausobélica Mirim a um grupo de moscas.

14 setembro 2007

Origens lingüísticas do atraso brasileiro, parte 3

Após ler o adendo a este artigo, o Alex Castro me aperguntou a següinte coisa:
«mas agora eu queria te ver explicando pq a lingua portuguesa nao produz porshes... o que ela tem intrinsicamente de diferente, digamos, do ingles ou do alemao que a impede de fazer isso ou ou aquilo... alias, isso ou aquilo o que?»
Levei a pertinente indagation a nosso embasbacante doutor, q me arrespondeu numa conversa de quase 14 horas, ao mesmo tempo chatíssima e interessantíssima. (¡Vai dar exemplo assim lá em Torquemada!) Posso dizer, sem medo de passar ridículo, q não me alembro nem de 10% do q ele disse, embora eu tenha, por assim dizer, “pegado a idéia geral” – essa categoria de pensamento q é o ganha-pão de professor de faculdade.

Tãovamolá.

a tese
A civilização – entendida como o processo complexificante de civilizar – depende da acumulação de instruções e obediência a elas: qto mais complexa e civilizada é uma cultura, tanto mais instruções se descobrirá permeando toda sua estrutura. Uma instrução é qqer declaração q direcione uma ação: leis, decretos, regras, manuais, avisos, comandos, &c.

Uma instrução sempre almeja a explicitude. Pra ser explícita, uma instrução precisa ser seca, direta e clara. Sem instruções assim, é impossível juntar 10 mil pessoas numa organização amparada por uma comunidade de 100 mil, inserida numa cidade de 1 milhão, suprida por um país de 10 milhões, e esperar q aquelas 10 mil construam Porsches.

A tese do doutor é simples. O português e o espanhol, com suas rocoquices e frescuras, são línguas em q a explicitude dá trabalho demais. O brasilês é pior ainda. Já o inglês, o alemão e o japonês são línguas explícitas: secas, diretas, claras. A explicitude das instruções vem duma característica presente mais claramente no japonês: o ideograma. O ideograma é um símbolo imutável: vc bate o olho e já vê o q é, sem referência à gramática circundante. Em ing, ale e jap, essa imutabilidade está presente também na língua falada: as palavras têm poucas variantes gramaticais (em inglês, por exemplo, adjetivos, preposições, artigos e advérbios são imutáveis; verbos têm no máximo 5 formas, exceto o be q tem 8; substantivos só mudam em número). Assim, as instruções podem ser dadas como seqüências de ideogramas.

Além disso, essas línguas mantêm a mesma ortografia há séculos, auxiliando a função ideogramática de seus vocábulos.

exemplo inglês
Veja este exemplo, tirado do manual de treinamento de novos funcionários duma firmeca inglesa:
Let trainee read task instructions.
Allow trainee time to complete task.
Report task completion to your supervisor.
Ou seja, com uma série seca de palavras-ideogramas, a instrução diz q o treinador deve deixar o treinando ler as instruções duma tarefa, dar um tempo pra q ele a realize e, qdo este terminar, avisar o supervisor dele (do treinador) q a tarefa foi terminada.

Tente escrever essas instruções em português. Pior: tente em brasilês. Vc vai ter q incluir preposições, artigos, concordâncias; vai ter q acochambrar as traduções de 'allow time', 'report' e 'completion', e pra arrematar, vai ter q dar um jeito de esclarecer q é o supervisor do treinador e não o do treinando q deve ser avisado.

Essas coisas ocupam um espaço precioso na cabeça do portuguesante e, pior, um tempo precioso em sua vida.

A seguir, dois exemplos de instruções originalmente idealizadas e redigidas em português. Vc vai querer chiar q esses exemplos todo o mundo vê q foram mal redigidos, &c. Mas nem se incomode. A questão q o doutor quer esclarecer não tem a ver diretamente com a redação.

exemplo brasilês 1
Uma lei promulgada pelo governo do estado de SPaulo determina q o seguinte aviso deve ser afixado em toda porta de elevador no estado.
ANTES DE ENTRAR NO ELEVADOR, VERIFIQUE SE O MESMO ENCONTRA-SE PARADO NESTE ANDAR.
Ok. Essa é velha. Largamente criticado e escarnecido. Mas atente pros detalhes.

“ANTES DE ENTRAR NO ELEVADOR ... NESTE ANDAR”
• Ô, Pedro Bó, só é possível entrar no elevador se ele está parado neste andar. Se entro no elevador, ele não pode estar na quarta dimensão dum buraco negro. Só por essa, o aviso já parece saído de alguém de mente confusa.

“...VERIFIQUE SE...”
• Ou seja, não precisa CONFIRMAR QUE ele está no andar. Basta verificar SE ele está ali.
– Ok, já abri a porta e verifiquei. Ele NÃO está. ¿Posso atravessar a porta agora?

“...O MESMO...”
• Questão gramatical amplamente discutida na internet, orkut, &c, onde se tende a sugerir “...verifique se ELE se encontra...”. (Note o seguinte, leitor: grande bosta. Essa é a parte do aviso semanticamente MENOS absurda, e ¿o q acontece? Milhões de portuguesantes reclamam dela pq trata-se duma questão formal. Êitcha.)

“...ENCONTRA-SE PARADO...”
• ¿Como assim, “encontra-se” parado? ¿Pq, se dissesse “está parado”, daria a impressão de “está quebrado”?
– Olha lá aquele cara na esquina. ¿Ele encontra-se parado ao lado do poste?
– Olha lá o sapato no chão. ¿Ele encontra-se jogado embaixo da cama?
– Olha lá meu carro. ¿Ele encontra-se estacionado em frente ao banco?

“...NESTE ANDAR.”
• Não, Pedro Bó, estou neste andar pra pegar o elevador no andar de cima.

Parafraseando a mensagem lógica desse aviso, o q ele de fato DIZ é algo assim:
Antes de entrar no elevador, veja se é possível NÃO entrar. Se for possível entrar, entre. Se NÃO for possível entrar, entre assim mesmo.
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

A barbaridade do aviso existente não quer dizer q a idéia central dele não possa ser facilmente expressa em português. Veja:
CUIDADO! NÃO ATRAVESSE ESTA PORTA SE O ELEVADOR NÃO ESTIVER DO OUTRO LADO.
Simples, não?

exemplo brasilês 2
A rocoquice do português confunde o redator. Ele acha q a instrução q redige é tão pedante qto a gramática q quer usar. Observe esta protuberância, excretada por não menos q o Ministério da Saúde (via ANVISA):
AO PERSISTIREM OS SINTOMAS, O MÉDICO DEVERÁ SER CONSULTADO.
uma frase q igualmente poderia ser interpretada como “quando os sintomas persistirem, pois certamente persistirão, é provável q o único médico do mundo seja consultado por alguém.”

QUA QUA QUA QUA QUA QUA

¿Por que não faz assim, ó:
“SE OS SINTOMAS PERSISTIREM, CONSULTE UM MÉDICO.” ?
É tão fácil.

prestenção agora
Mas a questão q o Dr Plausível enfatiza é COMPLETAMENTE OUTRA. O problema do português não é q ele tem maus redatores q escrevem coisas ilógicas e pedantes. O problema [¡prestenção!] é q o leitor ENTENDE o q o redator quis dizer. As rocoquices confundem tanto a cabeça do redator qto a do leitor.

Vc pode ter achado q nosso exosférico doutor entrou em contradição, pois ¿como é q diz q o leitor “entende”, se as rocoquices o “confundem”? Veja bem: o leitor entende o q o redator quis dizer, e não outra coisa, apesar de q é a outra coisa q está efetivamente sendo dita.

Pois é. Citando o artigo q começou esta série: “Não pode ter muito a dizer uma língua em q algo de significado contraditório pareça fazer sentido porque, no contexto, só pode ter outro significado.” O significado entendido é sempre aquele q mais costumeiramente se adapta ao contexto. Esse é um problema gravíssimo pra uma cultura numa era tecnológica: ele condena o brasilês a ficar preso a lugares comuns, a repetir idéias comuns, a sempre voltar ao eixo caseiro e banal das percepções, a jamais prover a base pra pensamentos revolucionários, a sempre consumir idéias importadas de línguas q facilitam a criação de idéias q estarão cada vez mais fora do meramente intuitivo.

E então, de todas as coisas hilariantes q poderiam acontecer a esta língua provinda dos confins da Europa – ali, antes de acabar o mundo conhecido – aparecem, como lagostas entediadas emergindo do mar de sargaço a q estão relegados, os reformadores da ortografia.

Exatamente o q o português precisava. 250 milhões de analfabetos instantâneos.

09 setembro 2007

Sobre ler e crer

O Dr Plausível já disse q "manter-se bem-informado é o jeito trabalhoso de ser neurótico". Mas o mais engraçado é jornal alardear a própria credibilidade. ¿É pra acreditar? 'Credibilidade' parece palavra inventada pra não dizer nada.

E fala a verdade, caro leitor. Qdo abre um jornal, ¿vc espera "acreditar" no q lê? tipo qdo vai ver uma comédia esperando gargalhar? ¿Acaso alguém alardeia a 'gargalhabilidade' duma comédia?

Nosso emoldurado doutor não acredita numa palavra do q lê nos jornais. Não é pra "acreditar" q ele abre um jornal; nem é pra se informar. E ele tem sérias dúvidas de q, mesmo q afirmem o contrário, os jornaleitores sujem os dedos em busca de informações críveis. O q eles querem é debater opiniões interminavelmente.

O jornal é um Big Brother da época em q não havia televisão, e os jornaleitores são viciados em xeretar a vida alheia, convencendo-se de q vai fazer alguma diferença pessoal saber ou não saber o q acontece no congresso, no estádio ou na delegacia. Na verdade, os xeretas e sua xeretagem é q fazem diferença na vida dos xeretados, e não o contrário. Se existe algum valor na veracidade dum jornal, é um valor totalmente interesseiro: qto mais verdadeira a informação, tanto menos provável q alguém seja processado por publicá-la. Campanha com o tema "credibilidade" soa como gambito preventivo contra possíveis disputas judiciárias.

Agora, o grau de veracidade das informações não faz a menor diferença pro jornaleitor, q só lê jornal pra achar uma confirmação a favor ou um debate contra suas opinões. A vida dum leitor médio é tão ínfima, q pelo menos ISSO, né?

Já o Dr Plausível só abre jornal por três coisas: quadrinhos brasileiros, cruzadas e sudoku. Tem tempo pra ser "bem-informado" não.

03 setembro 2007

Copa e cozinha

O Dr Plausível é um dos jurados da I Copa de Literatura Brasileira, o tipo de coisa prà qual a internet existe.

Nosso emulsificante doutor não costuma se misturar com literatos – por falta de tempo, diga-se. Mas foi impossível resistir ao cachê astronômico e à possibilidade de exercer o direito à crítica num país assolado pelo dever divulgatório.