24 agosto 2007

Engulho de ser brasileiro

That which we call a rose
By any other name would smell as sweet.

W Shakespeare


Uma ironia de ser latino-americano é q, por mais desenvolvidas q venham a se tornar estas plagas num futuro hipotético, parece q o amor-próprio, a valorização da cultura e da personalidade latino-americanas jamais se associarão à tecnologia e a uma visão progressista. Que pena. Latino-americano sempre se sentirá consumidor ao invés de produtor de tecnologia.

¿Tá fazendo cara feia, leitor?

Pois então, olha aqui algumas das mais conceituadas marcas do mundo:

Bic, Boeing, Chevrolet, Citroën, Colgate, Ericsson, Ferrari, Firestone, Ford, Gerdau, Hewlett-Packard, Honda, Honeywell, Johnson's, Lamborghini, Lockheed, Mercedes-Benz, Nestlé, Olivetti, Opel, Peugeot, Philips, Pirelli, Porsche, Renault, Rolls-Royce, Siemens, Suzuki, Yamaha*

¿Notou uma coisa? São todos sobrenomes de seus fundadores.

Muito brasileiro, muito latino-americano, se diz orgulhoso de seu país ou amante de sua terra e sua língua. É natural. Mas ¿será plausível? A próxima vez q vc ouvir alguém dizer algo assim, deixa passar uns dois dias, aí leva o indivíduo prum cantinho calmo e pergunta:

¿Vc compraria um carro Gonçalves?

Apresentamos o novo Gonçalves Crioulo 300L, com injeção eletrônica.

¿Viajaria num avião Coutinho?

Conforto e segurança. Tecnologia e beleza. Coutinho 737.

¿Teria um televisor López?

Televisor López tela plana. Sua melhor imagem.

¿Usaria o creme dental Freitas?

Hálito puro, sorriso Freitas.

Ao ouvir essas sugestões na pesquisa feita pelo Instituto de Plausibilática, 97% dos respondentes deram risada, sugeriram outros produtos e eslôgãs ("Almeida, a marca do homem." "Venha para o mundo de Ipatinga." &c), e nem notaram o desserviço q prestaram ao próprio orgulho.

Seria de se perguntar se um Moreira, um Quintana ou um Sampaio alguma vez visualizou, com orgulho e total seriedade, um carro, um avião ou um televisor com seu nome. E caso não (o q é mais provável), ¿por que não? ¿Por que é q tecnologia com nome português ou espanhol parece piada?

Outra ironia é q um sobrenome é o nome duma família, e portanto duma linha genética. Toda vez q um Silva ou um Sánchez compra um creme dental Colgate pra fazer bonito com uma Costa ou uma Ramirez e com ela gerar filhinhos, ele tá automaticamente promovendo ao mesmo tempo o nome duma linha genética totalmente outra. Cada dente branco dele é uma chance a mais prum cromossomo Colgate.

Quando vem aqui um grupo de executivos, digamos, alemães da ThyssenKrupp (dois sobrenomes) pra checar se os nativos tão fazendo tudo direitinho [e vira aquela polvorosa na empresa: secretárias, engenheiros e executivos brasileiros suam frio pra falar alemão e, nas reuniões, fazem papel de colegial recitando tabuada na frente da classe], os visitantes – mesmo q não se chamem Thyssen ou Krupp – tão o tempo todo conscientes de q tão promovendo e defendendo os interesses duma firma alemã, ou seja, dum sobrenome alemão, ou seja, duma linha genética alemã com a qual compartilham ou os olhos azuis ou a pele branca ou o cabelo amarelo ou somente a língua.

E a vc, leitor amigo – q se lembra, por exemplo, dos Souza Cruz e dos Camargo Corrêa, &c e q, apesar de entender lá no íntimo a piada com o Gonçalves quatro-portas e o fio dental Freitas, atribue a graça à sonoridade, à estranheza, &c –, lembro q é bem diferente a reação de, digamos, um euaense à idéia dum DVD de marca Smith e a dum brasileiro à dum de marca Simões. O euaense ri da incompatibilidade mercadológica. O brasileiro ri da improbabilidade tecnológica.

¿Por quê?
______________________

*Como já vieram me dizer via email q nem todos aqueles nomes de empresas são sobrenomes, aqui vai a lista dos fundadores, separados por país e data de fundação das empresas:
Alemanha: 1811 Friedrich Krupp, 1847 Werner von Siemens, 1860 Friedrich Thyssen, 1863 Adam Opel, 1871 Karl Benz, 1931 Ferdinand Porsche; Brasil: 1901 Johann Kasper Gerdau; Euá: 1806 William Colgate, 1886 Robert & James Johnson, 1900 Harvey Firestone, 1903 Henry Ford, 1906 Mark Honeywell, 1911 Louis Chevrolet, 1912 Alan & Malcolm Loughead (Lockheed), 1916 William Boeing, 1939 William Hewlett & David Packard; França: 1882 Armand Peugeot, 1899 Louis & Marcel Renault, 1919 André Citroën, 1945 Marcel Bich (Bic); Holanda: 1891 Gerard Philips; Inglaterra: 1906 Charles Rolls & Frederick Royce; Itália: 1872 Giovanni Pirelli, 1908 Camillo Olivetti, 1929 Enzo Ferrari, 1963 Ferruccio Lamborghini; Japão: 1897 Torakusu Yamaha, 1909 Michio Suzuki, 1948 Sichiro Honda; Suécia: 1875 Lars Ericsson; Suíça: 1866 Henri Nestlé.

15 comentários:

F. Arranhaponte disse...

Tinha a Freios Vargas, mas foi vendida. Na época não imaginei que fosse um golpe tão duro na plausibilidade do desenvolvimento nacional

Pracimademoá disse...

HAHA! Melhor post dos últimos tempos!

Nem o Gurgel levaram muito a sério. Vampiro brasileiro... (cuspe)

Lucas disse...

Ótimo post mesmo :)

E dá pra ver que você tem apreciado muito sua leitura de Dawkins.

Andre disse...

Ora, mas, pelo menos pra mim, isso evidencia que individualmente os latinos têm, sei lá, vergonha de sua linhagem estranha e da impossibilidade de haver uma árvore genealógica precisa da imensa maioria das pessoas. Quantos Silva, Gonçalves, Souza existem... Já Colgate é uma linhagem propriamente dita. Souza Cruz tbm.

Não vejo isso como uma prova de que os latinos não se vêem como produtores de tecnologia. A Petrobras, a Embraer, e várias outras que possuem o nome 'Brasileira' dão show no mundo!

Na verdade, acho que o povo latino não acredita em si mesmo individualmente, mas é vaidoso. Se alguém vai lá e faz o que ele não fez (tipo montar uma empresa gigante), ele tbm vai qrer se orgulhar um pouquinho dela. O povo brasileiro tem orgulho da Petrobras. Como se o zé do bar da esquina tivesse algo a ver com o sucesso da Petrobras...

vejo tudo e não morro disse...

mazá, excelente post... sabes que nunca tinha parado pra pensar nisso?

abs!

Rildo Hora disse...

Latinos, e principalmente brasileiros, oriundos de um país jovem, colonizado e recolonizado, naturalmente, em sua GRANDE MAIORIA, têm sobrenomes estrangeiros. Conhece algum brasileiro puro? Na segunda geração já estrangeirou, filhinho. Então????!!!....

Herpes da Fonseta disse...

Tem a Nadir Figueiredo, também. Não é propriamente uma empresa "de tecnologia", mas é nacional e com nome de sobrenome.

Tá bem, essa foi fraquinha.

Permafrost disse...

¡Brigad, gentx!

Bridgescraper, boa. Freios Vargas me lembra dos fenemês de antigamente. Ê palavra boa, 'fenemê'. Não havia coisa mais fenemê q um fenemê.

www.alfafnm.hpg.com.br

Demoá, cê vê só? [com o parêntese de q Gurgel não é um nome ãã ibérico...]

Lucas, sou darwinista há pelos menos 30 anos. ¿Deu pra notar? Do Dawkins só li "The Blind Watchmaker".

André, mas a questão q o doutor levanta é um pouco diferente. Na América Latina, as empresas de tecnologia preferem nomes impessoais, e fico meio encafifado pra saber por quê. ¿Será q é porque os ibéricos em geral não são, individualmente, empreendedores técnicos e, portanto, tendem a contar com a iniciativa estatal na tecnologia? ¿Será q é porque tanto o português como o espanhol são línguas pouco afeitas à precisão necessária na tecnologia? ¿Será q é porque, culturalmente, os íbero-americanos preferem passar à posteridade como nome de rua?

Rildo, a questão não é se há brasileiro puro ou não, mas o efeito talvez paralizante das culturas e línguas ibéricas sobre a auto-estima e o individualismo dos latino-americanos. Note q uma das firmas com nome de família listadas no final é uma firma brasileira, fundada por um alemão.

Neanderthal disse...

E o José Cuervo?

Com relação à Olivetti, não sei se está uma marca muito forte.

Com relação a Citroën, Colgate, Ferrari, Lamborghini, Peugeot e Renault, são latinos, mas não americanos. Ou o francês e o Italiano não são latinos?

Permafrost disse...

Ah, só tou falando de latino-americano, leia-se "ibérico e seus descendentes".

É, a Olivetti não tá com muita bola não. Eu devia ter colocado a Pirelli, fundada em 1872 pelo Giovanni.

Kris Arruda disse...

Bacana o texto. Mas você não acha que é natural visto que países de lingua portuguesa e espanhola nunca foram ligados a tecnologia? E hoje em dia se o nome não é inglês ou coisa parecida não passa confiabilidade?

Mais no panorama mercadológico como você disse?

Afinal não temos problema em colocar nossos nomes em produtos agrícolas, siderúrgicos etc...

Acredito eu que um Café chamado Gonçalves teria mais credibilidade do que outro chamado MCDowell

Permafrost disse...

Minha pergunta tem justamente a ver com isso de q "países de lingua portuguesa e espanhola nunca foram ligados a tecnologia". Veja aí o comentário "25.08.07 - 12:16". ¿Será q é a própria língua q não conduz à precisão e às abstrações típicas da tecnologia?

Kris Arruda disse...

Não sei se a língua pode ser culpada disso. Acredito mais em fatores culturais de cada região.

Permafrost disse...

É, esse é q nem a questão do ovo ou da galinha: é a cultura q resulta na língua, ou é a língua q resulta numa cultura? É uma questão difícil, e já foi muito discutida neste blogue. Eu tendo à visão de q a cultura é um resultado da língua. Veja no linque abaixo.

http://drplausivel.blogspot.com/2007/09/origens-lingsticas-do-atraso-brasileiro.html

Kris Arruda disse...

Opa, dei uma olhada no link. Realmente "você tem um ponto".

Sem dúvida tem grande influência. Mas isso pode até ter definido onde chegamos, mas não acredito que influencie muito hoje em dia, afinal todos negócios de grandes proporções hoje em dia são majoritariamente tratados em inglês ou recentemente chinês.

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