06 junho 2007

Origens lingüísticas do atraso brasileiro, parte 2

Tava lá nosso emblemático doutor escrevendo um artigo sobre a substantivação de adjetivos pro Cadernos de Plausibilática, e procurava sem sucesso como falar da qualidade de 'errado' (erritude? erridão? erratidão?) – e amaldiçoando o ouvido sensíííível de quem fala português –, qdo finalmente, após quase 50 anos de pesquisas, chegou ao centro da questão: ¿Por que é q os povos latinos produzem comparativamente menos idéias, menos filosofias, menos tecnologia e menos conhecimentos do q os povos germânicos? ¿Por que é q os latinos são povos mais afeitos a remanchar prazerosamente enquanto q os povos germânicos, pra chegar a tal refinamento, precisam beber?

A resposta está no ACENTO das palavras.

Tal como já é costume aqui, vou comparar o português ao inglês. Tome-se isso como uma comparação genérica entre as línguas latinas e as germânicas (exclua o francês, q é uma língua meio híbrida).

Olha só o q acontece com o acento das palavras na derivação, em português e em inglês.

Em inglês:
chAste > chAstity
rIght > rIghtness
fAt > fAtness
wrIte > wrIter
wOrld > wOrldwide
mOtor > mOtorist
Ugly > Ugliness
beaUty > beaUtiful > beaUtifully
sEnse > sensAtion > sensAtional

Em português:
cAsto > castidAde
cErto > certEza
escrIta > escritOr
gOrdo > gordUra
mUndo > mundiAl
motOr > motorIsta
fEio > feiÚra
bElo > belEza > belamEnte
sEnso > sensaçÃo > sensacionAl

¿Notou uma coisa? Ao derivar palavras em inglês, o acento continua caindo no radical da palavra, exceto no caso do sufixo latino -ation. Mas ao derivar palavras em português, o FOCO da palavra se desloca de seu radical pra seu sufixo, ou seja, de sua SEMÂNTICA pra sua GRAMÁTICA, ou seja, de seu SENTIDO profundo pra sua CLASSE gramatical. Uma outra vítima desse processo são os verbos e as conjugações. Enquanto q em inglês, o acento cai sempre no radical (sIng, sIngs, sAng, sInging, sUng), em português isso acontece apenas nos tempos simples (cAnto, cAntas, cAnta, cAntam, cAnte, cAntes, cAntem; mas cantAmos, cantAvam, cantarEi, cantarIas, cantÁramos, cantAsse, cantArmos, cantAndo, cantAdo, &c).

Essa diferença tem amplas conseqüências. Numa frase inglesa, a força das idéias geradoras é mantida a cada palavra derivada:

The tEacher wrOte some extrEmely Interesting descrIptions of his nAtive land.

O professOr escrevEu umas descriçÕes extrEmamEnte interessAntes de sua terra natAl.

Faça o teste vc mesmo. Diga em voz alta as palavras abaixo colocando o acento no radical, em vez de no sufixo. Compare com a sensação q vc tem qdo põe o acento no sufixo:

cAstidade, cErteza, escrItor, gOrdura, mUndial, mOtorista, bEleza, bElamente, sEnsação, sEnsacional, profEssor, escrEveu, descrIções, extrEmamente, intEressante, nAtal

¿Sentiu um deslocamento pro sentido profundo da palavra? ¿Não parece, de algum modo, q a palavra fica mais clara, menos difusa? Hm. Nas línguas latinas, vc tem a sensação de raramente estar falando das coisas, de raramente olhar pra elas de frente, de ficar rodeando os assuntos interminavelmente, de estar prestando atenção na forma muito mais do q o necessário. É por isso q as línguas latinas têm tanta dificuldade em criar palavras novas a partir das antigas, e ficam dando voltas e mais voltas em torno dum vocabulário q ainda não saiu do Iluminismo.

Não admira q o q é dito numa língua latina soe tão mais superficial do q o q é dito numa língua germânica, inclusive pra seus falantes; daí q, depois q a ciência de várias nacionalidades cuidou do básico no século XIX, o bojo de tudo q se pensou, se criou e se descobriu no mundo a partir do século XX tenha partido das línguas germânicas, q expressam idéias complexas com mais facilidade e clareza. O mundo latino é empurrado prà frente pela pujança, flexibilidade, praticidade e criatividade das línguas germânicas e pra isso, claro, paga royalties.

O futuro, ninguém sabe. É inteiramente possível q "remanchar prazerosamente" venha a ser a melhor maneira de viver, depois q os germânicos pensarem, criarem e descobrirem tudo q é possível pensar, criar e descobrir; e talvez aquele seja mesmo o objetivo de pensar, criar e descobrir – objetivo esse q os latinos já alcançaram sem muito falatório. Vá saber. O certo é q, por agora, é muito frustrante querer expressar uma idéia e se incomodar com o som q ela tem.

15 comentários:

Pracimademoá disse...

Você quer que "sonoridade" não seja paroxítona? Não rola.

Mas as observações são interessantes.

Herpes da Fonseta disse...

"Erratidão", claro!!!

Se os ingleses têm "Pride and Prejudice" e "Sense and Sensibility", os brasileiros podem ter "Exatidão e Erratidão". Perfeito.

Severino disse...

Gosto de objetividade e apesar de soh saber um pouco de ingles percebe-se claramente quao pratica a lingua eh (desculpa nao tem acento no meu teclado). Porem, a coisa que eu mais gosto na lingua latina eh exatamente sua sonoridade. Talvez tenha nos colocado no atraso profundo, mas as musicas sao tao mais bonitas...

carioca disse...

o Houaiss registra erronia... resolvida a dúvida plasibilática.

Permafrost disse...

Demoá, Severino, sempre me redargúem (!) com essa da "sonoridade" do português. Lembro q minha irmã não queria aprender inglês pq não gostava "do som". Ué, redargüi eu, "¿vc gosta da sonoridade do português qdo tem alguém berrando com vc? ou qdo vc tá lendo um manual de instruções ou estudando prà prova do Detran?"

Herpes, valeu!

Carioca, 'erronia' é um sinônimo de 'erro', não é a "qualidade do q é errado", tipo como 'flexibilidade' é a "qualidade do q é flexível".

Eu gosto da palavra 'errôneo'. Pro Houaiss 'errôneo' é "q contém erro", mas pra mim é "q conduz a erro". Veja este exemplo do dicionário da UNESP: "Os criminosos forneceram ao delegado uma versão errônea do assassinato." Ou este q achei no Google: "Ministra Nancy Andrighi esclarece entendimento errôneo sobre campeonato brasileiro."

carioca disse...

Será que eu cometi uma "erronia"!?
Não, acho que não.
Veja que a palavra pode ter esse sentido: se é sinônima de erro e, segundo o houaiss, erro é a qualidade do que é inexato, incorreto, erro e erronia são da mesma categoria que inexatidão e incorreção, e portanto erro é a qualidade do que é errado.
Ou seja, erronia é a qualidade do que é errado - ou será que nessa acepção ela deixa de ser sinônima de erro?
Pra mim, erronia soa como qualidade do que é errado, caso vc queira uma palavra diferente de erro para expressar a idéia - acho que ela se presta com perfeição a essa função. Se não gostou, fique com erro mesmo. É essa a palavra - não culpe o português.

Permafrost disse...

Não tou culpando o português, não.

Pra mim, a ironia é q 'erronia' até q soaria bem, como "qualidade de errado". Mas a palavra não comporta esse significado, em minha opinião. Parece mais "coleção, série de erros", como em:

Só o autor não viu a erronia q tava aquele artigo.

'Erro' tbm não é "qualidade de errado", mas "ato ou efeito de errar".

Apenas lamento o fato de q, ao q parece, nenhum portuguesante jamais tenha pensado em (ou conseguido) dizer o q em inglês seria 'wrongness' e em alemão 'unrichtigkeit' *somente* pq a palavra resultante não tem uma "sonoridade" simpática.

carioca disse...

Acho que vc está querendo ganhar a discussão...

Veja no Houaiss a terceira acepção do verbete "erro".

3 qualidade daquilo que é inexato, incorreto

Não era isso que vc dizia não existir? A qualidade do que é errado? é "erro" mesmo...

O blog é seu, e as opiniões são suas. Se eu quiser dizer o que acho eu que faça um pra mim, mas a culpa de grande parte de suas queixas é que vc aprendeu português num lugar onde pouca gente tem intimidade com a língua. Diz-se que até o século XVIII a língua falada em São Paulo era o tupi-guarani. A instalação da faculdade de direito foi seguida de perto da introdução do café e da chegada de levas de imigrantes que aprenderam o português com a população ignorante, que até então estava fora dos eixos civilizadares do país. Será que vc consegue citar algum homem de letras paulista do séuculo XIX de alguma importância? O José Bonifácio era homem de ciências e estudou fora. As cabeças do modernismo fizeram uma tentativa de dar ao papiamento falado na cidade maior expressividade - o que denuncia também a pouca intimidade que tinham com a língua. Desculpe, mas quem chega de outras partes onde se fala português há muitas gerações percebe logo as dificuldades de vcs. Se não parecesse rabiçaca de quem ganhou a discussão eu diria pra vc começar pelo Pe. Antonio Vieira. Afora isso suas idéias são muito interessantes.
O motivo, porém, de povos serem mais ou menos superficiais ou fecundos não tem a ver com a língua que falam, mas com o patrimônio genético de que dispõe. Vc tem percebido que filhos de germânicos que falam uma língua neolatina como língua materna são mais superficiais e menos fecundos que seus pais? Eu não tenho essa impressão.

Permafrost disse...

¿Sabe q eu tbm já tinha percebido uma ligeira deficiência na casticidade do português de paulistas? Mas eu tinha atribuído isso à influência da imigração italiana.

Mesmo no Padre Vieira, dá pra notar q o português "de qualidade" é uma língua mais idiossincrática do q prática. Acho q o q tá acontecendo é q esta língua tá sentindo necessidade de se acelerar pra acompanhar a aceleração do mundo como um todo, e tá começando a deixar de lado várias características q alentecem a fala e a escrita.

carioca disse...

e eu que estava esperando um passa fora...

O Pe.Antonio Vieira estava exprimindo o que era possível exprimir na época e o que dele era esperado como homem de religião, administrador, orador, pregador, etc. E eu acho que para exprimir o que ele queria a língua se prestou com perfeição.

Se fosse para apresentar outras idéias será que ele também não faria bom uso da língua?

Não sei.

Eu estou aqui me metendo num assunto que não domino - nem gosto muito pra dizer a verdade. Mas o Saramago, por exemplo, tem, às vezes, um poder de síntese e uma capacidade de uso incisivo do português próprio de quem tem intimidade com a língua. A verdade é que leio Saramago como se estivesse lendo um texto em língua estrangeira e me surpreendo quando de vez em quando eu entendo o que ele escreve de forma mais profunda do que se tivesse sido escrito em português do Brasil.

Gosto muito de ouvir especulações inteligentes sobre tudo, como por exemplo se a língua condiciona o discurso ou vice-versa ou ambos.

Eu vejo que tudo pode ser traduzido para o português, ou pelo menos costuma ser. Se o original em língua germânica tem nuances intraduzíveis acho que isso é próprio de cada língua.
Se uma idéia pode ser traduzida para português não vejo por que não possa ser expressa originalmente em português.

A culpa não é da língua, mas dos falantes.

Rildo Hora disse...

Ué, achava, até agora, que o blog abordava a implausibilidade. Nada vejo de implausível em idiomas e suas peculiaridades. Aos ingleses, batatas e peixe frito. Aos americanos, qq treco cancerígeno. Aos brasileiros, argentinos, eteceteratinos, uma mulherada de fazer gringo morrer de vontade de se deslocar radicalmente. E não para o sufixo, garanto.

Permafrost disse...

Rildo, a implausibilidade está implícita: achar q os problemas do Brasil vêm de descaso, muita corrupção e pouca educação. Esse artigo faz parte de uma série q já dura um tempo.

F. Arranhaponte disse...

Grande teoria! É dessas que a realidade só não comprova se for muito estraga-prazeres

Patrulheiro da Língua disse...

Que bela contradição, meu caro.

Se não gosta da Língua Portuguesa, se a achar tão inferior às Germânicas, por que expressa sua antipatia no idioma de Eça de Queiroz? Que interessante, você cospe no prato ao mesmo tempo em que o lambe com sofreguidão!

Se nas línguas latinas nada serve, tudo é de segunda categoria, de baixa extração, podemos concluir que até a expressão de sua birra é tosca, mal realizada, já que, para atingir seu objetivo, fez uso de um idioma reles. Então diga-nos cá: o que presta na Língua Portuguesa?

Fica a impressão de que você tem algum trauma antigo de escola e agora tagarela um monte de asneira só para se desforrar do agravo.

Vá escrever em Inglês e nos poupe de seu verborragia.

Permafrost disse...

Patrulheiro,
Esse bonde já está andando há anos neste blogue.

Por pegá-lo assim de sopetão, não admira q vc tenha entendido esse texto, e provavelmente entenderá outros aqui, do jeito exatamente errado. Mencionar o cheiro pútrido de uma ferida em outra pessoa pode ter a intenção de (1) feri-la ou (2) curá-la. Mas fica difícil ajudá-la a se curar se ela dá um pontapé toda vez q alguém lhe roça o joelho.

Vc tbm deve tomar mais cuidado pra não deixar assim tão evidente a baixa auto-estima q o brasileiro médio tem em relação ao português. A discussão q vc pegou andando aí é sobre a plausibilidade em afirmar (1) q toda língua tem aproximadamente a mesma imutável capacidade de expressão, (2) q, entre as européias, o português é uma língua comparativamente rica e (3) q a NoCu tem tudo q o português precisa pra esclarecer qqer pensamento com economia e exatidão. Em nenhum momento se disse, se diz ou se dirá aqui q o português é uma língua "inferior". Essa palavra brotou de tua cabeça e da cabeça de muita gente q levantou igual objeção ao q digo; e tendo vindo de vc e não de mim, talvez concorde em q vc poderia analisar por quê ela surge aparentemente do nada em tua cabeça. ¿Alguém a colocou ali? ¿Qual interesse teria vc em tentar desbancar uma discussão séria sobre as possibilidades de expressão não exploradas pelo português, pela NoCu e por outros "patrulheiros da língua" — q preferem orgulhar-se do pouco q têm em vez de olhar suas deficiências de frente e procurar saná-las? ¿Prefere manter essa "inferioridade" putativa pra q vc se sinta um peixe grande num lago pequeno?

Se vc analisar melhor a si mesmo e o lugar do português no mundo, sua relação com a realidade, talvez entenda melhor minhas posições aqui.

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