08 abril 2007

Desligare

Uma coisa q o Dr Plausível elogia nas pessoas é q, qdo devidamente encostadas na parede, todas elas meio q admitem q seguir uma religião é delegar a uma tradição as decisões sobre questões polêmicas, e q a tradição é apenas mais uma aplicação prática da antiga e nobre vocação humana de tirar o fiofó da reta. ¿Pra quê ser totalmente responsável por suas opiniões, decisões e ações se é possível jogar esse fardo em cima do imponderável, não é verdade?

Mas as tradições têm um grave defeito. A ignorância das gentes antigas (ou – caso vc seja crente de alguma religião – a ignorância humana q Deus presumia nas gentes, ao sonegar informações preciosas naquelas revelações todas) foi inegavelmente uma forte influência na construção das tradições religiosas. [Já vai ter gente caindo de pau, dizendo q nas questões fundamentais da existência estamos tão porcamente na lama da ignorância hoje como antes. Mas qdo fala de ignorância, nosso enlevante doutor quer dizer ignorância sobre coisas práticas – tipo "ferver água mata germes," "a terra é uma bola de 40mil km em volta, q gira em torno do sol," "qqer estrutura presente é historicamente determinada," "todo ser humano tem direitos inalienáveis," coisas desse tipo.]

A ignorância na origem das religiões resulta em limitações de vocabulário q, hoje, deveriam restringir a abrangência das aplicações da religião. É uma questão meramente combinatória.

Explico. Por conta dessa ignorância sobre o diminuto (micro-organismos, genes, elétrons) e o vasto (planeta, galáxias, universo) as tradições religiosas lidam forçosamente apenas com combinações triviais de problemas entre as gentes normais e numerosas – tipo nascimentos, casamentos, mortes, negócios, traições, doenças, &c. Além disso, nos tempos bíblicos (ou védicos ou búdicos ou confúcicos ou muçúlmicos), havia muito menos gente do q hoje. A população MUNDIAL em, digamos, 15 de maio de 5 a.C. era de apenas uns 200 milhões, um trigésimo do q é hoje. Assim, havia logicamente menos variedade de experiências, e a pouca variedade q havia estava circunscrita entre extremos menos díspares. Um sujeito ia à guerra e via gente sendo degolada, queimada e pisoteada... mas nunca via ninguém explodir em mil pedaços ou virar pó em segundos; todos sabiam q havia um homossexual aqui e outro ali... mas nem se imaginava q milhares deles poderiam fazer uma festa numa avenida do tamanho duma cidade bíblica (a população de Jerusalém naquele mesmo 15 de maio era de 80mil; a parada gay de SPaulo na virada deste século teve cerca de 100mil). O mundo de hoje é pelo menos (!) trinta vezes mais complexo do q era qdo aqueles profetas profundamente provincianos enumeravam suas regras universais de convivência.

Com o vertiginoso acúmulo de conhecimento humano de uns quinhentos anos pra cá, a religião parece um andarilho numa selva à noite: ¡leva cada susto! Ela não sabe nem sequer como reagir: dá um fora atrás do outro, e só às vezes se desculpa. O conhecimento nunca pede desculpas: ninguém se sente culpado por saber alguma coisa.

Sesdias, houve um exemplo de como, deparando-se com possibilidades humanas dantes impensáveis, a religião reage às cegas. Ao mesmo tempo em q, em Brasília, a influência da igreja mexe os pauzinhos pra proibir o aborto de anencéfalos e as pesquisas com células tronco, um casal de namorados em Niterói queria se casar mas o padre invocou preceitos da mesma igreja pra dizer não: o rapaz tem paralisia cerebral e a moça tem déficit de aprendizado; ou seja, um aleijado e uma retardada queriam casar, mas a moral religiosa – q move mundos e fundos pra garantir o nascimento dum anencéfalo, q promove a caridade aos desafortunados, q quer ver toda e qqer trepadinha produzindo um novo ser humano, nem q seja um mal-amado e mal-alimentado vegetal semi-funcional – a moral religiosa, digo, defende com unhas e dentes as vidas dos coitados mas se recusa a permitir q essas mesmas vidas sejam normais. Nascer, deve; viver na miséria, pode; casar, não deve; gerar, não pode. ¿¡¿Uééé?!?

Jesus manda o paralítico andar, mas é só até ali na esquina e volta. Nada de ficar paquerando as leprosas.

11 comentários:

paulo disse...

Gostaria de ver vc mexendo no seguinte tema: por que a igreja permite (obriga) o aborto das freiras em caso de estupro e a nossa lei permite o aborto no mesmo caso? Se é pra proteger a vida, que culpa tem o feto de ter sido gerado num estupro? Porque a mulher não pode abortar o fruto de uma camisinha furada e pode abortar o feto resultante de um estupro. O segundo tem pecado original e por isso merece morrer?

Permafrost disse...

Eu nem acho a proibição incabível. Faz sentido. A questão nesse caso, novamente e sempre, é a implausibilidade - ou mais a incoerência com outras posições da igreja.

Dismnésico disse...

E podemos ficar tranqulilos que o padre certamente está colocando a cabeça no travesseiro à noite e dormindo o sonos dos justos. Não é o fiofó dele que está na reta. O chefe dele que se entenda lá com a lógica e repasse as instruções para os subordinados.

nervocalm gotas disse...

O padre seguiu as normas da igreja e se recusou a celebrar a união porque o casal não poderia cumprir a sublime missão do casamento, que é gerar filhos e cuidar de uma família. Mas... se esse mesmo casal engravidar - fora do casamento e ainda incompetente aos olhos da igreja - a igreja tem a obrigação de defender que essa gravidez seja levada a termo.

Não é fácil ser religioso.

Permafrost disse...

Paulo, isso é ninho de marimbondo. O Dr Plausível só emite sua opinião sobre o assunto a portas fechadas e a pessoas de confiança.

Dismnésico, cê vê? E acho q a grande perda de contingente fiel q igreja católica vem sofrendo tem muito menos a ver com o carisma dos concorrentes do q com as inconsistências internas dela.

Nervocalm, falou e disse. Impressionante, a clareza de tua percepção.

Pracimademoá disse...

O senhor seu padre está cobertíssimo de razão. Aplicou as sagradas leis da Igreja Católica, e quem não estiver contente que vá se casar em outra religião, culto, seita ou encruzilhada. Ninguém é obrigado a ser católico, e se o for, tem que seguir as regras. Tá pensando o quê, que é casa da sogra e cada um faz suas próprias regras?

Ruim mesmo é quando os senhores padres resolvem que TODO MUNDO tem que viver de acordo com a vontade deles e metem o bedelho nas leis que regem um país inteiro. Aí sim, vão tudo tomar no cu, bando de velhos pederastas desocupados filhos da puta.

Mas, desta vez, não é o caso.

lulu disse...

título perfeito. amei . vou adotar. desligando, câmbio.

Pracimademoá disse...

É, entendi. Mas acusar religiosos de implausibilidade, ou mesmo de incoerência, é tipo assim como acusar uma puta de promiscuidade, cenuacha? Tipo "tá, e daí?"

Permafrost disse...

Só q puta não faz pose de casta, né?

Rildo Hora disse...

Bando de bobos! O que se pratica hoje por uma porcentagem incalculável de "devotos" não é Religião. Religião é Vida, é o Alfa e o Omega, o Princípio e o Fim em Si mesma, O que permeia e é permeado, o Criador-Criatura. Não essa papagaiada inventada pelo homem. Então nada a discutir, pois se o homem, com suas elucubrações mentais, conseguisse resolver apenas uma questão primordial, o mundo não estaria essa graça. Em minúsculas, bem dito.

Hermes disse...

Rapaz, esse eh do bom.
Aguardo o artigo com entusiasmo.
Abraco.

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