03 janeiro 2007

O brasileiro nacional hino

Nosso emulsificante doutor, seguindo seu garboso dever de colocar alguns pinguinhos em alguns izinhos nacionais, agora aborda o hino.

Sobre a música, nada a dizer exceto q é bem bacana. Mas a letra... Todo mundo sabe q a letra do hino brasileiro, apesar de soar muito bem e até ter uns trechos ãã... belos, em outros é uma maçaroca difícil de entender. Por exemplo, muita gente de arta curtura ainda não sabe se é "as margens" ou "às margens". Outra coisa q pouquizíssima gente sabe é q a versão da letra q se canta hoje não é a letra original composta pelo Osório Duque Estrada. Ele compôs uma letra em 1909 q só foi adotada oficialmente em 1922, após sofrer várias modificações apócrifas – pra melhor e pra pior. A letra original de 1909 chegou até a ser cantada por aí (os primeiros versos, por exemplo, aparecem num conto de Antônio de Alcântara Machado, publicado – enigmaticamente – em 1927).

Este q ora vos escreve adicionou a letra original no verbete da Wikipedia sobre o hino brasileiro. Veja aqui. Nota-se q algumas modificações melhoraram a prosódia; por exemplo, foi de "Entre as ondas do mar e o céo profundo" pra "Ao som do mar e à luz do céu profundo" – muito melhor.

Mas duas das modificações saltam aos olhos; uma por inserir uma mentira deslavada e implausível, fruto da mente de alguém com pouco apego à realidade; e outra por inserir um non-sequitur deselegante, fruto da mente de alguém com pouco apego à lógica.

(1) O atual, quando destrinchado, diz "As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante dum povo heróico." Então tá. Aposto q não tem um brasileiro (q preste atenção) q não tenha em algum ponto da vida se perguntado o q é q "povo heróico" está fazendo aí, se a história é completamente outra. O filho de Dom João VI, num arroubo edípico e ambicioso, solta um brado retumbante, e anos mais tarde ¿aquilo vira o grito dum "povo heróico"? O Duque Estrada era melhor poeta do q seus editores, pois o original diz, muito mais coerentemente, "As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante da independência." Muito melhor, né? Diga a verdade.

(2) O outro trecho em questão, quando destrinchado, diz "Se, com braço forte, conseguimos conquistar o penhor dessa Igualdade, nosso peito desafia em teu seio, ó Liberdade, a própria morte." Mas...?!? Veja só uma paráfrase mais esclarecente: "Visto q conquistamos a garantia de Igualdade, (então) desafiamos nossa própria morte no seio da Liberdade." ¿¡¿Q catso?!? ¿Como assim? ¿Quer dizer q o brasileiro vai lá e com braço forte conquista a Igualdade, e aí, já q está protegido pela Liberdade, se mete a desafiar a morte assim como quem não quer nada? E ¿a q se deve esse ato falho feio e fosco de colocar "seio" e "peito" na mesma frase? Novamente, o Duque Estrada era melhor poeta q os nobres deputados q o emendaram. O original diz "Se, com braço forte, conseguimos conquistar o penhor dessa Igualdade, nosso peito desafia, pelo amor da Liberdade, a própria morte." q, pra esclarecer, parafraseia-se "Visto q nosso braço forte conseguiu conquistar a garantia da Igualdade, desafiaríamos a morte por amor à Liberdade." Aaaaaahh... ¡Agora faz sentido!

Mas ¿q se há de fazer? Em 1922, o Dr Plausível nem tinha nascido...

16 comentários:

Permafrost disse...

Aliás, no linque da Wikipedia tem uma letra hilariante pràquela introdução instrumental do hino. Clique acima.

Pracimademoá disse...

Ufa! Escapamos do rabo do porco.

Mas não encontrei nada de hilariante na página referida. Cadê?

Pracimademoá disse...

Ah! Achei... Foi maus.

Alessandra disse...

Faz sentido, faz sentido... realmente, rola uma hipoplausibilidade terrível aí.

Se bem que por outro lado, desde quando hino tem que ser plausível, né não? Eu encaro o hino meio, sei lá, como uma declaração de boas intenções. Um jeito assim, super sério e pomposo e poético de dizer "segunda-feira eu começo a academia".

E só observando: o Labirinto do Fauno não está na lista porque eu já vi! :-) Filmaço, hein?

Permafrost disse...

Alessandra, dei boas risadas com a tua paráfrase.

Demoá, ¿q raios quer dizer "escapar do rabo do porco? ¿É tipo "escapar de um perigo inócuo"?

Pracimademoá disse...

O rabo do porco é o "nó suíno", é claro.

Entendeu? Entendeu?

Permafrost disse...

Exitosas gargalhadas.

Camelo disse...

O hino nacional brasileiro é um dos hinos mais insípidos que conheço: música que lembra uma enfadonha opereta italiana e letra excessivamente rebuscada (um rococó pedantesco!). No quesito “rococorismo” ele compete pau a pau com o hino americano. Quem disser que se emociona ao cantar o hino nacional deve ir direto ao médico. E quem consegue cantá-lo todinho (sem errar a letra) deveria se tornar objeto de estudo das ciências sociais.
Todo hino deveria passar pelo “teste do campo de futebol”: se não levantar a torcida, não serve para ser hino de um povo. Preste atenção como os franceses e os alemães se esgoelam nas partidas de futebol quando seus hinos são tocados. Não há quem não se arrepie ao escutar “aux armes, citoyens! Formez vos bataillons! Marchons! Marchons!”. O hino alemão também é empolgante: a música é belíssima (uma composição de Haydn) e a letra é simples e sem rodeios “Deutschland, Deutschland über alles, über alles in der Welt”. Já o hino inglês sofre de anacronismo: hoje em dia, muitos ingleses devem se sentir incomodados ao cantar um hino que mais parece um cântico religioso de devoção à rainha.
Um dos hinos que eu considero um modelo de beleza, simplicidade e elegância (também pudera! A letra é de Olavo Bilac) é o Hino à Bandeira. Também vale lembrar outros dois: Cisne Branco e Canção do Expedicionário.
Uma curiosidade: quando tinha 19 anos, Noel Rosa compôs um samba com uma letra interessante, mas a canção não lhe agradava (era meio chocha). Então, procurou um amigo (um músico que costumava prestar aos compositores populares o serviço de lhes passar as criações para o papel) e lhe pediu que o ajudasse a melhorar a melodia. Foi aí que descobriu a razão da “chochidade” do samba: havia inconscientemente plagiado o hino nacional. Seu amigo modificou a melodia e daí surgiu o famoso “Com que roupa?”.
Fala a verdade! O hino nacional fica muito mais interessante com a letra do Noel:
“Eu hoje estou pulando como sapo
pra ver se escapo desta praga de urubu.
Já estou coberto de farrapo.
Eu vou acabar ficando nu”.

Camelo disse...

Não resisti.
Aqui vai a letra toda do Noel para o hino nacional.
Pode cantar que dá certinho.

Agora vou mudar minha condu...ta,
eu vou pra luta pois eu quero me apruma...ar.
Vou tratar você com a força bru...ta,
pra poder me reabilita...ar.
Pois esta vida ... não está sopa.
E eu pergunto, eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa ... que eu vo...u
pro samba que você me convidou?
Pois com que roupa, com que roupa ... que eu vou?

Agora eu não ando mais faguei...ro,
pois o dinheiro não é fácil de ganha...ar.
Mesmo eu sendo um cabra trapacei...ro,
não consigo ter nem pra gasta...ar.
Eu já corri...i ... de vento em popa.
Mas agora eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa ... que eu vo...u
pro samba que você me convidou?
Pois com que roupa, com que roupa ... que eu vou?

Eu hoje estou pulando como sa...po
pra ver se escapo desta praga de urubu...u.
Já estou coberto de farra...po.
Eu vou acabar ficando nu...u.
Meu paletó...ó ... virou estopa.
E eu pergunto, eu pergunto: com que roupa?
Com que roupa ... que eu vo...u
pro samba que você me convidou?
Pois com que roupa, com que roupa ... que eu vou?

Permafrost disse...

A bem da verdade, eu até q gosto do hino brasileiro. Não fossem essas embaraçosas pataquadas, seria, pra mim, algo de q os brasileiros poderiam se orgulhar por sua singularidade, se não por sua estadialidade ou empolgância. Note como (1) a topologia semântica*¹ da letra nas duas primeiras estrofes se adapta à topologia da melodia (por exemplo, a 2ª estrofe é uma oração condicional, e a melodia parece condicional tbm); (2) a melodia da 2ª estrofe termina de um jeito bem matter-of-fact, como dizendo q qqer brasileiro desafiaria a morte por amor à liberdade; (3) a clarinada em "pátria amada, idolatrada, salve, salve" é uma pausa na dominante q rebenta numa explosão sobre a tônica no começo da estrofe seguinte com "¡Bra*SIL*!"; (4) há muita diversão pràs crianças nos glissandos quase de rigueur em "pela própria natureeeeez*Á*" ... "impávido coloooooss*Ú*"; (5) depois desses glissandos e do estacato em "essa grandê-¡ZÁ!", a entonação de "terra adorÁada" parece dizer "como foi gostoso fazer isso..."; (6) a saltitância de "entre outras mil, és tu, Brasil" parece mesmo expressar olhadelas em várias outras pátrias; (7) o trecho cromático ascendente em "dos filhos deste" caindo em "solo és mãe", aliado ao número irregular de compassos no final, soa moderníssimo, num deslocamento melódico q qqer músico avançado no final do século XX apreciaria.

A bandeira - tirando a outra embaraçosa pataquada do "ordem e progresso" - tbm é algo de q os brasileiros poderiam se orgulhar por sua singularidade, se não por sua beleza questionável. Note a idiossincrática escolha de cores, formas e temas, numa bandeira genuinamente inimitável.

O interessante disso tudo, pra mim, é q, com toda a inegável criatividade nas cores, formas, topologias semânticas e melódicas, na simbologia visual e auditiva da coisa toda, os problemas do hino e da bandeira são... (lá vou eu de novo) ...problemas de *texto* - no caso, o problema de como criar*² e expressar*³ significados complexos através do português.

**Notas*:
1. por falta de outro termo; procuro o termo exato pra isso há décadas.
2. no caso da bandeira
3. no caso do hino

Permafrost disse...

Algum imbecil tirou a letra original do verbete do hino brasileiro na Wikipedia. Então fiz um novo verbete só com a letra original, e no texto aqui modifiquei o linque q agora leva ao novo verbete.

Neanderthal disse...

O hino nacional, com um bom arranjo e uma harmonia mais moderna, sem o rítmo marchante, se torna uma das melhores músicas que já ouvi.

Há cerca de 8 anos, o campeonato brasileiro de basquete, coberto pela Bandeirantes, contava com uma cantora e um tecladista interpretando o hino antes de todas as partidas ao vivo. Fiquei pasmo quando ouvi aquele arranjo pela primeira vez com o hino que eu sempre havia criticado. Não se trata do arranjo feito por algumas cantoras famosas com um piano quadrado, mas um som de piano Fender com uma harmonia digna do Bill Evans, um rítmo solto e uma voz viajante.

Se vocês tivessem ouvido aquilo, também diriam "Dane-se a letra".

Permafrost disse...

Faz anos q penso em sentar e fazer um arranjo rápido e swingado do hino, pra orquestra de jazz com naipes de metais e ataques no contratempo. Só preciso sentar e fazer.

Camelo disse...

A primeira vez que escutei a “Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro” (do pianista americano Louis Moreau Gottschalk) fiquei pasmado! Nunca havia atinado que o “rabo da porca” pudesse ser tão belo. Mas isso só reforça a minha tese de que um hino (mesmo tendo cacife harmônico para ser transformado numa belíssima peça musical) não serve para ser hino se não emocionar o público que o canta.
Existem milhares de peças musicais belíssimas, mas se cantadas pelo público viram coisas pastosas e incompreensíveis. Se Edu Lobo quiser, um dia, trucidar a canção “Beatriz” (que compôs com Chico Buarque) basta pedir ao público que cante com ele.

Rildo Hora disse...

Crase. E ponto final. Margens não ouvem picas. E o disseste bem, doc... a música é bacana, foda-se a letra. Que o diga Paul Mc cartney!! E uma obrigação de letra de hino é ser um saco, senão corre o risco de virar música popular ouvida por surdos, que adoram uma porcaria porque "a letra é boa".KKKK!!!

Permafrost disse...

Rildo, sorry, mas é "a", não "à". Veja no linque acima o manuscrito original do Duque Estrada, onde não há crase. O sentido correto da frase é exatamente o exposto no artigo: "As margens ouviram o brado."

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