10 dezembro 2006

O xeno-bodismo

Qdo nosso equacionante doutor ouviu dizer q tinha um filme euaense de terror rodado no Brasil, foi logo avisando: filme de terror só tem gente burra tomando decisões idiotas; muito filme de terror euaense vira comédia ou soft-porn; e dada a tradição brazuca de Zé do Caixão e pornochanchada, então já viu, né? Nada pra levar a sério.

No entanto, sabe-se q patologias consistentes com neuro-distúrbios hipoplausiviro-sindrômicos regularmente se evidenciam em grupos humanos deficientes em casca grossa. A síndrome causa uma imuno-deficiência contra exo-ataques, reais ou imaginados, de xeno-bodismo (uma outra e ligeiramente diferente síndrome hipoplausivirótica, q consiste em usar um estrangeiro como bode-expiatório de problemas q um nacionalista não quer ver atribuídos a si).

Ano passado, por exemplo, houve um surto hipoplausibilético no Uruguay qdo impulsos aleatórios dum diretor euaense qqer dum filme de quinta categoria resolveu dizer q o vilão-mor do filme era o presidente uruguayo. A reação de alguns uruguayos é um bom benchmark pra interpretar o surto esperado no Brasil. Leia aqui uma amostra do q é capaz o hipoplausivírus. O filme pode ser o mais fétido lixo, mas tem sempre alguém q consegue remexer o lixo pra se consolar.

Na literatura e no cinema, são comuns os refunfos entre o produtor de xeno-bodismo e sua vítima. Exemplos recentes são Gosford Park de Robert Altman e Match Point de Woody Allen – filmes q poderiam muito bem ter sido locados nos Euá mas não foram, pq filme em q a polícia euaense é ridicularizada não dá muita bilheteria lá. De fato, quase todo seriado policial euaense tem um episódio em q o Columbo ou o Kojak da série vai de visita à Inglaterra e lá resolve um crime em q a polícia local iria cometer o erro absurdo de indiciar um inocente, caso não estivesse ali o sagaz e espontâneo detetive euaense. Ou seja, só dá pra confiar na polícia da Inglaterra qdo o Columbo passa férias lá.

Não seja por isso, diria o britânico. No livro When in Rome de Ngaio Marsh, o detetive Alleyn da Scotland Yard está presumivelmente em férias na Itália, mas ali consegue não só descobrir quem é o assassino mas, por considerar moralmente justificável o assassinato em questão, consegue também ocultar sua descoberta, enquanto a polícia italiana idiotamente incrimina a pessoa errada q, felizmente, morre atropelada antes q a interroguem.

Mas não é só de crimes e conspirações q vive a produção xeno-bodista. O sexo é usado subliminarmente a toda hora pra cutucar o estrangeiro. Em filme euaense de guerra em país estrangeiro, se um soldado se deixa envolver por uma mulher nativa, ele está com os minutos contados: morre mesmo, sem perdão. Se ele é o herói, não se deixa envolver: só come. A sempre suposta superioridade do homem em relação à mulher é um clichê subliminar dos mais usados. Um filme britânico recente chamado Love Actually (q passa na tv a cabo regularmente como Simplesmente Amor) mostra oito histórias de amor em q todos os homens são britânicos mas nem todas as mulheres são: ou seja, inglês pode comer estrangeira mas inglesa não pode dar pra estrangeiro. Isso fica ainda mais patente pq, na única história em q o homem não consegue comer a mulher, ela é inglesa e o cara é interpretado por um ator brasileiro – q, aliás, só foi escolhido pro papel pra compensar uma piada feita no começo do filme: numa festa de casamento, conta-se q convidaram umas prostitutas brasileiras pra uma despedida de solteiro, e acabaram descobrindo q eram todas travecos.

Os uruguayos também são dados a alfinetadinhas. No livro Gracias por el fuego do uruguayo Mario Benedetti, o personagem principal é um agente de viagens contratado por um casal euaense. Enquanto o marido empresário faz negócios pra explorar o país, o agente come a mulher dele. Mas era tão baixa a auto-estima dos uruguayos durante a ditadura militar, q o agente de viagens se suicida no final.

Q o brasileiro não tem muito tutano pra essas coisas fica evidente em filmes como Bossa Nova de Bruno Barreto, no qual apesar de o brasileiro comer a euaense, também tem uma história paralela em q um euaense come uma brasileira, e outra em q um romance totalmente nacional não se consuma.

O próprio cinema daqui dá um faux-pas desse tamanho no protocolo xeno-bodista, e ¿depois vem brasileiro reclamar qdo os outros abusam? ¡¿Uééé?!

2 comentários:

Pracimademoá disse...

Por que o hífen?

Permafrost disse...

Bem notado. É porque é um termo novo e os dois componentes estão didaticamente destacados. Note q até 'bodismo' eu tive q explicar de onde veio. Durante as próximas décadas, à medida em q 'xeno-bodismo' virar um termo corriqueiro, o hífen será aos poucos deixado de lado pelo grande público, a imprensa, os dicionários &c, e grafar-se-á 'xenobodismo' - uma contribuição do português pro léxico humano. ;•b

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