24 novembro 2006

Mordem e professam

Sesdias, távamos o Dr Plausível e eu ouvindo rádio num táxi, qdo, numa entrevista entre um entrevistador e um entrevistado, este me sai com esta:

"...e a exploração e a repressão continuam mais ou menos as mesmas. ¿O q esperar dum país cujo lema é 'Ordem e Progresso'?"

O entrevistado, lògicamente, viu 'repressão' em 'ordem' e 'exploração' em 'progresso'. Nosso epistêmico doutor, lògicamente, sorriu seu benévolo sorriso walterbrennan. Muita gente – na verdade, muuuuuuuuita gente – no Brasil, tem uma idéia totalmente errada do q significou, significava e portanto significa esse lema, o chamado 'dístico' da bandeira nacional. Gente esquerdosa o critica por ser positivista, sem realmente saber o q critica; gente direitosa o elogia por ser utilitarista, sem realmente saber o q elogia. [parêntese cultural: Positivismo e utilitarismo são duas formas de utopismo. O positivista chega e diz, "Êi, tive uma idéia. A gente podia pintar um quadro do mundo ideal, e o q não couber no quadro a gente estigmatiza. ¿Que tal?" O utilitarista responde, "Tá, mas bastava estigmatizar tudo aquilo q não serve pra nada." E haja lixão pra caber tanta coisa.]

Mas continuando, pouquizíssimos brasileiros sabem o q se supõe tar em jogo no lema da bandeira. Por todo o país, ouve-se q "sem ordem não há progresso", q "ordem É progresso", q "ordem e progresso são fatores de união", &c &c et cetera.

O próprio site do governo federal chega a dizer q o dístico "representa cada coisa em seu devido lugar para a perfeita orientação ética da vida social." É capaz q o próprio Raimundo Teixeira Mendes, q sugeriu o lema, resumindo a duas palavras uma máxima de Auguste Comte ("O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim."), não sacou muito bem no q tava se metendo. Nem se pode dizer, em vista do q aconteceu desde então, q Comte, escrevendo lá por 1850, sequer suspeitasse da enormidade, da funestice, da nefastância do q tava falando qdo usava a palavra 'progresso'.

O positivista Teixeira Mendes disse q "a revolução q aboliu a monarquia no Brasil" aspirava "a fundar uma pátria de verdadeiros irmãos, dando à Ordem e ao Progresso todas as garantias que a história nos demonstra serem necessárias a sua permanente harmonia." E ¡vai ser sonhador lá em Canopus, meu! Clareza já não era seu forte.

A verdade é bem diferente. No positivismo de Comte e no utilitarismo de Mills, colocar as duas palavras na mesma frase era falar de duas coisas opostas, antagônicas e conflitantes, embora igualmente desejáveis. 'Ordem' é o ideal do q hoje se chamaria de 'conservador', e 'progresso' é o ideal do q hoje se chamaria de 'reformista' ou até 'revolucionário moderado'. Mills escreveu q "é quase lugar comum q um partido defensor da ordem e da estabilidade e um outro q defenda o progresso e a reforma sejam ambos elementos necessários à saúde da vida política, até q um dos dois consiga alargar seu entendimento dos fatos de tal modo a se tornar um partido defensor igualmente da ordem como do progresso." [On Liberty]

"Pode esperar sentado," dir-lhe-ia o Dr Plausível.

Achar q 'ordem' e 'progresso' são conciliáveis é coisa de utopista gordo q não enxerga mais a realidade do próprio umbigo. Mas é pior quem vive na espessa névoa das importações resumidas de idéias prontas diluídas pelo tempo – tipo assim, ãã, o Brasil.

Os euaenses estimulam a própria singularidade em seu lema, "e pluribus unum" ("um em meio a muitos"). Os franceses, com "Liberdade, Igualdade, Fraternidade", são mais realistas – se é q se pode chamar de realista quem tem um lema. Já "Ordem e Progresso", pretendendo ser um amálgama utópico de dois bicudos q não se beijam, acaba sendo, no mundo real e inóspito dos interesses díspares, não mais q um convite ao conflito, um estímulo ao desacordo, um eufemismo de "nhaca xexelenta".

E ainda bem q os próprios brasileiros não entendem.
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Adendo:
[extraído dos comentários, revisado]

Existem duas interpretações pro eslôgã: a positivista & ingênua original ("são duas coisas antagônicas q deveriam trabalhar juntas") e a otimista & despistada resultante, q tenta enxertar um sentido bom num eslôgã ruim ("são duas coisas complementares"). Se eu estivesse lá na hora em q decidiram enfiar esse eslôgã, teria dito "Ô meu, deixa disso. ¿Ordem e progresso? ¿Vai condenar o país a ficar perpètuamente tentando arrumar a casa e aspirando a um ideal q muda a cada passo?" Prà bandeira brasileira, o povo brasileiro nunca vai estar bem, nunca vai ser feliz, nunca vai ter algum valor intrínseco ou um princípio moral permanente.

Mas em vez de jogar esse eslôgã condicional no lixo da história ou substituí-lo por outro mais declarativo e mais afirmativo, tanto o positivista prescritivo qto o otimista reformulativo tão inconscientemente usando-o pra achar uma desculpa pro tadinho do Brasil q ou é uma bagunça pq não vai pra frente ou não vai pra frente pq é uma bagunça. E só podia dar nisso: em qqer lugar, em qqer tempo, um eslôgã q expresse uma expectativa tão implacável e abstrata, tão insatisfazível e mecânica, só pode acabar virando explicação de fracasso.

Sobre a falácia em acreditar na necessidade de ordem pra se chegar ao progresso, recomendo este texto do Stephen Kanitz.

08 novembro 2006

Azarado

Vejam só esta: um senador tirou de algum lugar recôndito de seu ser a idéia de obrigar cada usuário da internet a fornecer nome, endereço, número de telefone, da carteira de identidade e do CPF ao provedor, e se identificar toda vez q enviar um email, entrar num bate-papo, criar um blogue ou baixar uma música. ¡¡Pena de dois anos de reclusão!!
 
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
 
Diz q é pra aumentar a segurança. ¡Vai sê caipira assim lá no mato, sô!
 
QUAQUAQUAQUAQUAQUAQUAQUA
 
O cara não tem idéia da vastidão do q está propondo. ¡É caipira megalômano, inda por cima! Tem uns caras q nem sei, viu?
 
Olha... Se eu não estivesse vivo e consciente e presenciando tudo de q é capaz o hipoplausivírus, eu não acreditaria. Q catso, hem? E os caras ainda querem q o povo pague imposto pra sustentar pessoas visivelmente infectadas e à beira da loucura total e irrestrita...