17 agosto 2006

Pluça plange, plucélamémi pose

Muita gente odeia o Dr Plausível. Especialmente qdo há greve de metroviários. Os carros todos quase engavetados, verdes de inveja seguindo com os olhos nosso espevitado doutor q passa de bicicleta pelos vãos da mornança, pelos interstícios da mangação. Digo 'mornança' e 'mangação' pois, pô, vai do norte ao sul do Brasil, do norte ao sul do mundo, a imperdoável omissão das forças trabalhadoras em consultar nosso euforizante humanista.

Grevista é um sujeito q não pensa. Pois veja bem. Ele acha q a maior virtude da greve é a de ser um exercício de direitos: o de não trabalhar caso não esteja satisfeito com as condições e o de reclamar publicamente pra conseguir uma modificação nessas condições. Hmm. So far, so good.

Mas... mas... ¿Vcs já perceberam q, no preço dum saboroso abacaxi num supermercado, estão embutidos o custo dos abacaxis q encalham e apodrecem, o custo dos abacaxis q são roubados, e o de outros abacaxis perdidos de alguma forma? Qdo vc compra um abacaxi, vc está pagando não só pelo abacaxi q consome mas tbm paga um rateio de todos os outros q se perderam. Os abacaxis q serão comprados são um fundo de garantia contra as perdas. E esse fundo existe mesmo q não haja perdas.

Assim como o consumidor sabe q paga um preço compensado pelo abacaxi, tbm o grevista sabe q o empregador está lucrando mais do q o empregado. Um mecânico pode começar a trabalhar por um salário X numa empresa pequena, e 15 anos depois, qdo a empresa já quadriplicou de tamanho, ele continua ganhando X. O q o grevista não sabe, mas desconfia, é q uma parte do lucro 'excedente' do empregador é exatamente um fundo de garantia do empregador caso haja prejuízos causados por greves e caso ele tenha q satisfazer reivindicações de aumento. O dinheiro do aumento já está lá guardadinho, esperando por uma greve. O grevista desconfia, e então chora pra mamar. So far, so good.

Mas... mas... A coisa q o grevista não percebe é q, enquanto ele esperneia e grita com hora marcada "quero mais dinheiro", "quero mais direitos", &c, e acha q está fazendo uma declaração de poder, a mensagem q o empregador recebe é simplesmente "quero continuar trabalhando pra vc, ¿vc deixa?". E essa é uma mensagem q ele adora ouvir: pois, apesar de dispor dum fundo de garantia monetário em caso de greve, ele precisa acima de tudo duma garantia de trabalho após a greve. E o funcionário, ao fazer greve, admite e garante publicamente sua dependência e subserviência ao empregador. Ou seja, a greve não é declaração de poder e sim de fraqueza.

A greve é a domesticação do trabalhador indignado. O grevista é o abacaxi q garante sua compra ao supermercado.

Melhor seria se, em vez de fazer greve, o trabalhador pedisse demissão duma situação na qual certamente não está contente; melhor ainda seria se os trabalhadores TODOS dum ramo tivessem culhões pra se demitirem em uníssono. Aí os empregadores iam se borrar. O Metrô, por exemplo, mesmo q improvavelmente achasse possível conseguir preencher as vagas todas com outros trabalhadores em 1 semana, saberia q levaria meses pra se recompor. Logo, todo empresário teria q deixar de lado essa balela do "crescimento da empresa", pegar o dinheiro q agora guarda pra gastar em reinvestimentos, e com ele aumentar os salários e melhorar o padrão de vida de seus funcionários.

Logo viriam os tom-peterzinhos querendo evangelizar os demissionários, "poxa, ¿vcs querem destruir a empresa q foi seu sustento durante tantos anos? vcs têm q vestir a camisa, poxa."

A resposta a isso, obviamente, só pode ser, "Foda-se tua camisa. Foda-se o crescimento da economia. Quero meu bem-estar agora." Se essa possibilidade não é pelo menos aventada, então ou os grevistas têm meio cérebro, ou a greve em si não passa dum jogo cínico com jogadores cínicos em ambos lados.

4 comentários:

Marcos Ribeiro disse...

Eu tenho um problema com isso. Se o metrô fosse privado, talvez não houvesse condutores, pois toda a operação dos trens pode ser feita a partir da central de controle. O cara está lá, à frente dos vagões, para fazer uma "presa" (é).

Logo, a greve não é sinal de fraqueza. É sinal de folga mesmo. "-Somos inúteis, mas fazemos barulho". "-Por quê?" "-Porque tô podendo, mano."

Permafrost disse...

Na verdade, não é assim. Primeiro q a greve dos metroviários não é só uma greve de condutores. E apesar de os trens poderem funcionar sem condutores, e de até ser possível automatizar a venda de passagens, (1) há uma centena de outros empregos inautomatizáveis no metrô: mecânicos, eletricistas, seguranças, secretárias, &c; (2) não dá pra automatizar a automatização: tudo parte de seres humanos assalariados: é só os caras q ligam o piloto automático pedirem demissão, e pronto: o metrô pára.

PS: ¿O q é "fazer pr[é]sa"?

Domingos Junior disse...

Também quero virar discípulo do doutor Plausível! Ele é um poço de plausibilidade, não é mesmo? Temos posicionamentos semelhantes, veja só: Não tomar o táxi com aquela propaganda é coisa que eu já fiz duas vezes. E é mais constrangedor ainda saber que o dono do carro ganha R$ 50,00 por semana com aqueles adesivos, digamos, desagradáveis, sob vários aspectos...

A demissão em massa no caso do Metrô seria uma atitude eficiente e radical (atacaria a essência da questão) segundo o ponto de vista dos empregados. Mas isso só aconteceria porque se trata de um trabalho qualificado, que requer certa especialização, como o mecânico dos trens, cuja mão-de-obra não tem a mesma disponibilidade da dos caixas de supermercado, por exemplo, tarefa que demanda treinamento de menor complexidade.
Saudações ao doutor.
Obs.: "Fazer uma presa" é algo como marcar presença, estar em algum lugar só pra constar a participação. (São só uns rudimentos sobre a expressão. Não tenho pretensões filológicas...)

Permafrost disse...

Até uns meses atrás, havia duas vagas no Instituto de Plausibilática de Otavalo (Equador), q tbm faliu. A comida não era muito boa, mas vc podia levar marmitas pros 8 meses do curso e guardar no excelente freezer.

Postar um comentário

consulte o doutor