26 agosto 2006

Bafômetro de anúncios

Fumar é uma das atividades mais sem sentido em toda a história do universo. É mais mentecapta q usar gravata, mas não é tão descerebrada qto enfiar a cabeça na privada toda vez q morre uma pomba. O Dr Plausível só não ri de fumante por educação. E um pouco de dó, eu diria.

Todo fumante deve ter um pé na adolescência, qdo o vício tomou conta de seu ser. Deve ser por isso q anúncio de cigarro é tão boçal. Produto boçal: anúncio boçal. E não só boçal mas, ultimamente – com a obrigatoriedade de exibir aquelas fotos de advertência com gente morta, morrendo ou nem nascida –, tbm visivelmente troncho: bolar slogans pra cigarro deve ter virado trabalho de estafeta nas agências. Pois vejam estas pérolas:

Slogan: "IMAGINE-SE"
Foto-advertência: bebê prematuro, entubado, às portas da morte
Único Comentário Plausível: "Tá, já me imaginei. Bleargh."

Slogan: "UMA INSPIRAÇÃO."
Foto-advertência: paciente com câncer de pulmão
ÚniComPlau: "Cóf cóf."

Foto: fósforo fumegando
Slogan: "TODO PRAZER TEM UM COMEÇO."
Foto-advertência: sujeito com as pernas amputadas devido a trombose por tabagismo
ÚniComPlau: "Começa num fósforo e acaba numa trombose."

Slogan: "O SABOR ORIGINAL EM NOVA EMBALAGEM."
Foto-advertência: feto mal-formado num jarro de formol
ÚniComPlau: "¿Quitutes canibais?"

É de se perguntar se sequer passaram num vestibular os caras q bolaram essas pérolas de padaria. Pois (raciocinemos juntos), se o publicitário sabe q seu anúncio pode aparecer junto duma foto dessas, ¿por que não toma cuidado? Aliás, não sei por quê fabricante de cigarro não desiste de vez. Esse pessoal já é mal visto por vender veneno embalado como charme; ainda por cima fazem lobby pra liberar geral, e traquimóias do tipo. Alguém tinha q chegar de mansinho por trás e, com o hálito puro como de bebê recém-mamado, falar baixinho, como a voz da consciência: consulta o Dr Plausível, cara.

21 agosto 2006

O caminho de volta

Sesdias, os jornais publicaram em primeira página um comunicado conjunto de várias associações de veículos de imprensa (ANJ, ANER, ABERT, ABRA e ABRATEL). O comunicado trazia o título "BASTA À VIOLÊNCIA" e dizia todas essas coisas q ultimamente (há várias décadas) se ouve em qqer conversa de botequim entre cidadãos pautados por um civilizado respeito à lei e à ordem, ao patrimônio alheio e às instituições democráticas.

(Hm. Aí já apareceu algo incôngruo; mas continuemos.)

O Dr Plausível não é de ficar amarrando cachorro em poste pra ver se ele se enrosca, e acho q o pessoal dessas associações tbm não. Pois, dado q nosso epistolário sábio pratica há muito o saudável hábito de ler nas entrelinhas, não admira q levantasse as sobrancelhas ao ler o interessante texto. Pois... Bom, ué, ¿a violência não é praticamente um belo dum ganha-pão pra essa turma? Além dos médicos e das firmas de segurança, ¿a imprensa não lucra diariamente com a criminalidade? ¿não podemos até mesmo dizer q a promove, transformando suas primeiras páginas em troféus q os bandidos emolduram e penduram nas paredes de suas celas ou de suas mansões? Mesmo descartando essas perguntas exageradamente cínicas, ¿a violência dos últimos meses por si mesma justifica um comunicado conjunto dessas associações na primeira página de todos os maiores jornais? Se não, ¿de onde então surgiu a idéia? Aparentemente, foi aquela história do seqüestro do jornalista; mas não foi TÃO sério assim, vai.

Hmm.

A resposta está, como sóe ocorrer, no último parágrafo (grifos meus):

"Os meios de comunicação, unidos, na sua sagrada missão de informar e garantir a liberdade de expressão, cobrarão veementemente, dos atuais e futuros governantes, soluções eficazes na defesa da sociedade brasileira."

Hmmm... ¿Por que essa repentina bravata implícita em "unidos"? ¿Por que essa repentina preocupação com a liberdade de expressão? ¿Quer dizer q já tem alguém cerceando ou tentanto cercear a liberdade de imprensa? E ¿quem seria? Vejamos, tem os bandidos, a polícia, os... as... ããã Acho q é só.

Hmmmm.

17 agosto 2006

Pluça plange, plucélamémi pose

Muita gente odeia o Dr Plausível. Especialmente qdo há greve de metroviários. Os carros todos quase engavetados, verdes de inveja seguindo com os olhos nosso espevitado doutor q passa de bicicleta pelos vãos da mornança, pelos interstícios da mangação. Digo 'mornança' e 'mangação' pois, pô, vai do norte ao sul do Brasil, do norte ao sul do mundo, a imperdoável omissão das forças trabalhadoras em consultar nosso euforizante humanista.

Grevista é um sujeito q não pensa. Pois veja bem. Ele acha q a maior virtude da greve é a de ser um exercício de direitos: o de não trabalhar caso não esteja satisfeito com as condições e o de reclamar publicamente pra conseguir uma modificação nessas condições. Hmm. So far, so good.

Mas... mas... ¿Vcs já perceberam q, no preço dum saboroso abacaxi num supermercado, estão embutidos o custo dos abacaxis q encalham e apodrecem, o custo dos abacaxis q são roubados, e o de outros abacaxis perdidos de alguma forma? Qdo vc compra um abacaxi, vc está pagando não só pelo abacaxi q consome mas tbm paga um rateio de todos os outros q se perderam. Os abacaxis q serão comprados são um fundo de garantia contra as perdas. E esse fundo existe mesmo q não haja perdas.

Assim como o consumidor sabe q paga um preço compensado pelo abacaxi, tbm o grevista sabe q o empregador está lucrando mais do q o empregado. Um mecânico pode começar a trabalhar por um salário X numa empresa pequena, e 15 anos depois, qdo a empresa já quadriplicou de tamanho, ele continua ganhando X. O q o grevista não sabe, mas desconfia, é q uma parte do lucro 'excedente' do empregador é exatamente um fundo de garantia do empregador caso haja prejuízos causados por greves e caso ele tenha q satisfazer reivindicações de aumento. O dinheiro do aumento já está lá guardadinho, esperando por uma greve. O grevista desconfia, e então chora pra mamar. So far, so good.

Mas... mas... A coisa q o grevista não percebe é q, enquanto ele esperneia e grita com hora marcada "quero mais dinheiro", "quero mais direitos", &c, e acha q está fazendo uma declaração de poder, a mensagem q o empregador recebe é simplesmente "quero continuar trabalhando pra vc, ¿vc deixa?". E essa é uma mensagem q ele adora ouvir: pois, apesar de dispor dum fundo de garantia monetário em caso de greve, ele precisa acima de tudo duma garantia de trabalho após a greve. E o funcionário, ao fazer greve, admite e garante publicamente sua dependência e subserviência ao empregador. Ou seja, a greve não é declaração de poder e sim de fraqueza.

A greve é a domesticação do trabalhador indignado. O grevista é o abacaxi q garante sua compra ao supermercado.

Melhor seria se, em vez de fazer greve, o trabalhador pedisse demissão duma situação na qual certamente não está contente; melhor ainda seria se os trabalhadores TODOS dum ramo tivessem culhões pra se demitirem em uníssono. Aí os empregadores iam se borrar. O Metrô, por exemplo, mesmo q improvavelmente achasse possível conseguir preencher as vagas todas com outros trabalhadores em 1 semana, saberia q levaria meses pra se recompor. Logo, todo empresário teria q deixar de lado essa balela do "crescimento da empresa", pegar o dinheiro q agora guarda pra gastar em reinvestimentos, e com ele aumentar os salários e melhorar o padrão de vida de seus funcionários.

Logo viriam os tom-peterzinhos querendo evangelizar os demissionários, "poxa, ¿vcs querem destruir a empresa q foi seu sustento durante tantos anos? vcs têm q vestir a camisa, poxa."

A resposta a isso, obviamente, só pode ser, "Foda-se tua camisa. Foda-se o crescimento da economia. Quero meu bem-estar agora." Se essa possibilidade não é pelo menos aventada, então ou os grevistas têm meio cérebro, ou a greve em si não passa dum jogo cínico com jogadores cínicos em ambos lados.

14 agosto 2006

Adilson Catarrino

Uma amostra dos efeitos nefários da NoCu sobre a inteligência² é o trabalho de gramáticos como o Prof DilsonCatarino – um trabalho árduo, paciente e não recebedor do correto grau de respeito q lhe caberia, fosse este um mundo justo. (Não é a primeira vez q o DiCa é mencionado aqui. A primeira menção foi num comentário de leitor a este artigo.)

Esse professor escreve pro UOL esclarecendo 'dúvidas' de gramática portuguesa, e tbm tem um site próprio bem estruturado em q dirime direitinho e iluminantemente várias inquietações ortográficas, distúrbios regenciais, aflições concordânticas e moléstias prepositórias.

Às vezes ele até extrapola.

Tal como numa de suas "pegadinhas gramaticais": criticando a frase "antes que tudo exploda", labirintou-se por "verbos defectivos" e "formas rizotônicas" até concluir q o "correto" é dizer... (difícil não rir) ... "antes que tudo estoure" HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA... O DiCa, tal como deixou transparecer na resposta q deu a meu leitor, parece não ter muito apreço por senso de humor.

Outra "pegadinha" critica a frase "É preciso tornar mais rigorosas as normas e os critérios". Após uma explicação desfilando uma série de se-isto-então-aquilos, falando de "elemento acessório" e outros badulaques, ele "corrige" a frase pra "É preciso tornar mais rigorosos as normas e os critérios", q soa exatamente como eu: feio, chato e pobre.

Pra responder muitas 'dúvidas' de leitores, basta fazer o q eles não fazem: olhar num dicionário. Mas algumas são questões gramaticais de leitores desorgulhados e desenganados pela NoCu pedindo a alguém q lhes ensine a falar a própria língua. Por exemplo, respondendo a uma 'dúvida' de leitor, o DiCa diz q o "correto" não é dizer "Este sanduíche está delicioso. Você está servido?", mas "Este sanduíche está delicioso. Quer experimentá-lo?" HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Pro Dr Plausível, é evidente o q acontece na cachola do DiCa: ele deixa as regras pensarem por ele; ou seja, ao meditar sobre a língua, ele não PENSA. Vejam este exemplo:

Uma leitora pergunta qual é a frase correta:
Por favor, ao passar, manter a porta fechada. ou
Por favor, ao passar, mantenha a porta fechada.

Após vários exemplos de imperativo e infinitivo, ele conclue q "as duas frases apresentadas estão adequadas ao padrão culto da língua".

¡Só se for língua de autista, meu caro! Pois tem q usar um olho muito obtuso pra não ver q, se vc mantiver a porta fechada ao passar, não há como passar. Em vez de analisar o q frase DIZ, o NoCulto se perde nas mirabolâncias q toda regra vai acumulando q nem ferrugem. Alguma porta certamente se fechou, pois nem sequer passou pela cabeça do culto gramático corrigir a frase pro claro, simples, direto e inatacável

Depois de passar, por favor feche a porta.

Não. Gente culta tem q parecer culta. E cultura é uma espécie de complexidade, não é? Então pra quê simplificar se vc pode complicar e parecer culto, ¿não é verdade? (Já deve ter alguém reclamando de meu "pra quê"...)

O DiCa não é um caso único q o Dr Plausível resolveu de repente espezinhar maldosamente. Não. Ele é um exemplo. É um cara ajuizado, digno, com preocupações honestas e diligência exemplar. Só q totalmente despistado. A fazeção de cabeça pela NoCu resulta em milhões e milhões de brasileiros como ele desperdiçando tempo com a forma e deixando o conteúdo à mercê de males sinistros e insidiosos tal como a inexplicitez e a falta de distinções do português, o vírus da hipoplausibilose e a metonímia elíptica.
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Resta explicar o título deste artigo, q é o nome "correto" do DiCa, segundo a Norma Culta. Primeiro q 'Dilson' não existe. 'Dilson' é uma metanálise, ou falsa segmentação com aférese, de 'Adilson'. Já 'Catarino', está obviamente errado, pois português não é russo – língua em q o sobrenome varia em gênero de acordo com o sexo de seu dono: ¿vai me dizer agora q o 'Dilson' tem uma irmã chamada 'Délia Catarina'? Não. 'Catarino' é uma corruptela do nome da nobre e já esquecida profissão de caçador de rinocerontes, ou 'caça-rinos'. Por aglutinação e nordestização, o nome virou 'catarrinos', e hoje, após um processo de preguiçação, grafa-se 'catarrino', forma reconhecida como correta pelo padrão culto da língua. É isso.

02 agosto 2006

A aspa do negócio

Talvez vcs não saibam, mas o Dr Plausível é absolutamente contra a permanência e o uso de carros particulares nas cidades. Nesta em q reside, ele se locomove com facilidade (e com freqüência mais rápido) a pé, de bicicleta, de táxi, de ônibus e de metrô. Se dependesse dele, os carros particulares seriam vehiculum non gratus nas cidades, e foda-se a economia.

Só q um inconveniente dessa restrição seria q, aumentando-se o transporte público, ¿o q aumentaria junto? Logicamente, os anúncios. Jendia, até os táxis têm reclames estampados na carroceria. Já-já alguém vai ter a brilhante idéia de tatuar propagandas na testa de criminosos. A propaganda em si não é lá tããão insidiosa. O problema é deixá-la nas mãos de pessoas não certificadas pelo Instituto Dr Plausível; pois se qqer taxizinho pode passear um reclame qqer pela cidade, então qqer publicitário jecamental pode perpetrar qqer tontice neles, ¿ora pois não?

Vejam só esta. Sesdias, nosso ebuliente doutor acenou prum táxi na rua e, qdo este parou, o doutor aos gargalhos recusou-se a entrar, se desculpou e pediu ao taxista encafifado q seguisse seu caminho sozinho. Pois ali na carroceria, algum desavisado achou por bem escancarar pela cidade o seguinte slogan dum produto chamado Fluviral:

"Gripou?" "Desgripa!"

(Q, pela diagramação, tbm pode ser lido como "Gripou?" Fluviral "Desgripa!")

Ora...

¿O q é q dá na cabeça dum publicitário pra q, ao mesmo tempo em q inventa o excelente e útil verbo 'desgripar', tbm insista em mostrar sua carteirinha da Confederação e Lobby Contra Agressões à Norma Culta (CoLoCANoCu)? Pois ¿q raios estão fazendo aquelas aspas no slogan? Se alguém vier insistir q a CoLoCANoCu não existe, q é invencionice minha, então a única explicação restante é q nem o publicitário botou muita fé em sua criação, nem o fabricante bota fé em seu Fluviral: pois se o Fluviral ""desgripa"", quer dizer q não desgripa tanto assim, não é? Óbvio!

Talvez eu esteja sendo injusto com o criador de 'desgripar'. Um anúncio é produto de várias cabeças e, em casos como este, a palavra e as aspas podem ter saído de duas cabeças diferentes. Mas pra alguém sendo humilhado como passageiro dum táxi desses, não faz muita diferença quem exatamente foi o irresponsável responsável pela decisão de aspear uma palavra simplesmente porque algum livreco de regritchas diz q deve-se aspear os neologismos.