28 julho 2006

Na terrinha prometidinha

Pode parecer cruel, mas nosso exultante doutor às vezes não se furta de descolar umas risadas vendo aquela zorra toda no oriente médio. ¡Êta gente difícer, aquele pessoal, não? Em ambos lados. Difffííícer. Deve ser o clima e aquela aridez toda; pq ¡vai ter gente irritadinha e metidinha assim lá em Pelotas, ¿não é, dona de casa? ¿Aquele pessoal não aprende nunca?

E ¿as terpretação das coisa? Se judeu constrói em terra palestina, só pode ser pq quer tomar aquilo pra si e expulsar a palestinada de lá, claro. Mas nananinanã. Hoje em dia, o bejetivo é outro. Se mais gente consultasse o Dr Plausível, aquele problema todo já teria sido resolvido há muito tempo. Antigamente, os judeus com certeza queriam aquela terra toda. Jendia, não. Jendia, querem mais é q os palestinos continuem por ali mesmo onde estão, só q sem jogar bombinha e sem fazer barulho depois das dez. E o motivo é simples: os palestinos são utilíssimos – estão ali como a única barreira protetora contra os impulsos chacinescos daquela outra gente difícer pra lá do rio Jordão. Tira os palestinos dali, e Israel inteiro vira alvo parado de tudo qto é muçulmano (e aposto q de muitos cristãos também: o judeu médio vai até o muro diariamente agradecer a Jeová pelo fato de os palestinos não serem todos muçulmanos...)

Os palestinos – q, sabe-se lá por quê, não se dignam a consultar o Dr Plausível – têm em suas mãos um trunfo poderoso. Bastaria q todos, um a um, fossem fazendo as malas e ameaçando sair daquela baderna. "Bom, a guerrinha tá boa, mas já deu flor e eu já vou picando a mula." Os judeus ficariam apavoradíssimos. Ninguém gosta de ficar rodeado de muças num dia quente no meio do deserto. E à noite, dizem, é pior ainda. Com a glote trêmula e olhos nadando em lágrimas, os judeus israelenses exclamariam todos a uma só voz "¡¡Não, não, gente boa, senta aí, tá cedo ainda, toma um chazinho de carqueja!! Olha aqui o quibe q eu fiz pra vocês..."

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Mas ¡ó xodó do jó! ¡ó monótono forrobodó! É mais fácil mudar o clima.
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Se alguém vier aqui encher o saco me acusando de anti-semita, já vou dizendo q anti-semita é a vó, pq não sou de pisar em meus próprios calos. Tenho três sobrenomes: um judaico, outro europeu e outro árabe. Ou seja, dois deles são de origem semita. ¡Pois então! Além disso, ¿não acabei de aventar q aquela estupidez toda é causada pelo clima?

27 julho 2006

hoi polloi

A obviedade do comercialismo é sempre boçal, não é? Tipo vendedor ambulante de biblioteca pedindo copo d'água pra tentar te entuchar uma barsa. Ontem, nosso emoldurado doutor espargiu as tripas de rir ao ver um programa semi-boçal chamado Oi Mundo Afora, em q uma atriz suavezinha e um script leitoso passeiam por algum lugar turístico onde, entre uma parada e outra, ela usa um celular Oi pra receber uma ligação pastel ou trocar sandices de mentira com alguma "amiga" no Brasil. Até aí, tudo bem: casca grossa serve pra sentir cócegas ao ser bombardeado pelo cinismo dessas coisas. O programa de ontem foi numa ilha do Caribe pra turistas de grana; e em dado momento, falando sobre um hotel dez estrelas, o script me sai com algo assim:

"Aqui se hospeda gente famosa como blablabla e Morgan Freeman. A família Versace veio passar férias aqui depois q o estilista Gianni Versace foi assassinado."

?!?!?

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Parece essas novelas da Globo em q uma socialaite kitchique se lambisgüela numa espreguiçadeira com uma bebida azul de canudinho e diz a uma outra igualmente lambisgüelada:

"Puxa, q mau, teu marido ser assassinado pela amante..."
"É. Tem sido difícil suportar essa dor. Mas a privações da vida sempre nos ensinam alguma coisa, né?"
"É verdade. Mas deixa disso, menina. Vc precisa relaxar. Vai passar uns dias lá em Veneza..."

Ói Cida, ói Véus...

17 julho 2006

O Dr Plausível e seus aforismos (2)

"O problema de escrever é circunscrever." in A Metonímia Elíptica ou O Sonho Quiabou

15 julho 2006

O crime na imprensa

Muito sofre um país como o Brasil por não se utilizar rotineiramente dos serviços do Dr Plausível. É vero q tem criminoso fazendo festa por aí. Pra piorar a coisas, o público jornaleitor, radiouvinte e telespectador é obrigado a diariamente ler e ouvir gente desgorgolando as tripas em indignações, desgostos, acusações e desesperanças, em q os bandidos são 'monstros', 'fascínoras', 'inumanos', e outros elogios involuntários.

Mas há luz no fundo do poço. Sesdias, o doutor descobriu q alguns noticiários não falam mais em PCC e preferem termos gerais como "facções criminosas":

"Ontem à noite, uma facção criminosa incendiou vários ônibus, e homens armados alvejaram três agências bancárias."

É bom e são, o raciocínio por trás dessa decisão. Pois ¿pra quê gratificar esse pessoal com notoriedade fácil na mídia? No entanto, nosso escrupuloso doutor acha q não é suficiente. Não basta negar um estímulo: tem q desestimular, ora pois não? O criminoso, em algum recanto de si, certamente se orgulha de seus crimes: de fato, entre os objetos de orgulho criminal, estão a 'esperteza' e a 'eficiência' do malfeitor.

A sugestão do doutor é simples: substituir as siglas, frases descritivas e epítetos denigritórios por eufemismos, num tom meio comiserativo:

"Esta madrugada alguns ônibus foram incendiados em Jecápolis em ataques atribuídos a gente burra."

"Três policiais foram baleados por coitados armados."

"Ontem á noite, pessoas idiotas incendiaram vários ônibus, e alguns tontos pouco competentes tentaram destruir três agências bancárias."


Em contrapartida, há também q estimular os bandidos a desistirem do crime:

"O imbecil q matou o guarda mostrou considerável QI ao se entregar à polícia."

"A prisão dessa quadrilha de babacas é prova irrefutável de sua evidente inteligência."


Com isso, algumas editoras, estações de rádio e tv serão atacadas, mas só por uma birra passageira. Logo-logo a criminalidade diminuirá substancialmente e enormes quantidades de povo poderão sair às ruas e seguir incomodando o cidadãos pacatos com atividades perfeitamente normais e consentidas nas madrugadas, tais como inaugurar boate sem isolamento acústico à meia noite, alardear um funk carioca na caçamba da camionete à uma, começar uma batucada de bar às duas, desencadear buzinaços às três, deixar o alarme do carro tocando às quatro e só fazer o cachorro no quintal parar de latir às cinco.

En bref, la canaille comme il faut.

09 julho 2006

Mais uma

Segue abaixo a tréplica oficial do Dr Plausível aos comentários dum leitor a um texto abaixo.

L: "A língua portuguesa continua belíssima nas mãos e nas bocas de quem a compreende e aprecia e usa com carinho, e saindo-se muito bem com todos os acontecimentos hodiernos, A NÃO SER QUE você esteja se referindo a vocabulário mais uma vez."
DrP: Sou meio monótono mesmo. Sempre estou falando apenas de vocabulário. Qdo falo em gramática, é apenas como um passo num argumento maior.

L: "A música também é um fenômeno, é forma de comunicação, e tem regras."
DrP: A música não é um fenômeno q sai, digamos assim, das entranhas do ser humano, tal como é a linguagem. A música já é em si uma codificação artificial pois ela tem propriedades físicas q antecedem e determinam suas propriedades semânticas. É vital q se pense nas artes como fundamentadas em regras tuteladas pois todas elas dependem de propriedades físicas dos materiais. Vc disse algures q "Objetivo é a essência pura do discurso e de toda tentativa de comunicação." No entanto, o objetivo primordial de todas as artes não é comunicar: é criar um efeito, o q é muito diferente. O efeito criado pode ter alguma propriedade comunicatória, mas esta é sempre secundária e eisegética. Assim, é uma falsa analogia, essa q vc fez entre o papel da conscientização das regras nas artes e na linguagem. Por um raciocínio análogo, vc pode inferir minha resposta sobre as regras nos esportes.

L: "QUER REGRAS assim mesmo."
DrP: "Querer regras" é como querer a gravidade: não é preciso querer a gravidade pra q ela exista: não é preciso querer regras gramaticais: elas já existem mesmo sem a tutelagem dos gramáticos: são um fenômeno natural decorrente do modus operandi do cérebro. ¿Q mais poderia ser? Já as regras inferidas e propositalmente impostas numa norma, têm dois inconvenientes principais: (1) elas só podem ser criadas a posteriori de fenômenos naturais; (2) basta q fiquem explícitas pra q já sejam burladas; e não são burladas porque o povo é do contra ("¿Hay reglas? Las burlaré."), e sim porque não poderia ser de outra maneira, já q as regras normatizantes pretendem padronizar um fenômeno anárquico. [Acabo de normatizar a seguinte regra inferida: toda palavra estrangeira deve ser grafada em itálico. Oh shit!: alguém já burlou.]

L: "O que você não consegue expressar com a gramática atual ...?"
DrP: Embora não haja a rigor muita coisa no estilo discursivo, paragráfico, redacional, raciocinante q não possa ser dito dentro dos limites da gramática normativa, há no uso normal e corriqueiro da língua infinitas situações em q o estilo normatizado se revela completamente inadequado, blargh e nojentinho. O Dr Plausível já deu alguns exemplos.

L: "O vocabulário caduca com rapidez, mas a gramática continua comportando tudo com perfeição."
DrP: Na verdade, as duas coisas acontecem: ítens de vocabulário surgem e caducam constantemente; mas os necessários, práticos e comuns têm vida longa. Há palavras no português q permanecem inalteradas desde o século 9 (qdo isso q chamamos de 'português' nem existia).

A objeção à gramática normativa (a Norma Culta, a NoCu) não é q ela não comporte tudo. Poderíamos igualmente utilizar o vocábulario do português com a ortografia cirílica e a gramática suahili, e as carências seriam as mesmas. Um dos problemas com a NoCu é q ela "comporta tudo" num estilo imposto, lento, cerebral, mumificante, pedante, pretencioso e muitas vezes arbitrário. O resultado de exigir correção gramatical e ortográfica é envergonhar e tolher qqer dinamismo na abrangência, uso e expansão do repertório de vocábulos e expressões. O português se tornou uma língua tacanha, amedrontada, sem referências, uma língua q meramente administra a comunicação.

Outro problema é aquele q já esbocei acima: q, em se tratando dum fenômeno tão plástico e multifário como é a linguagem, absolutamente qualquer regra inferida, "analisada, entendida, circunscrita e descrita num sistema engenhosamente abrangente" já caducou no momento exato em q é proferida. Toda normatização é aprés coup, e essa constatação não precisa de provas. Se tratássemos aqui das leis da física (q, lembro, subjazem às artes), seria outra história.

Se a norma gramatical "só sobra, na medida em que soçobra o nível intelectual e cultural dos usuários", é culpa apenas da própria norma: da própria idéia de norma. Alguém poderia igualmente, e ¡com absoluta justeza!, reclamar da deprimente queda no nível de envolvimento da população mundial em ritos de adoração aos antigos faraós, nos últimos três milênios. De fato, a 'norma faraônica' está em desuso. Mas, como a idéia de 'norma' é justamente q ela englobe e comporte tudo – ou seja, uma idéia totalitária, irrealista e estapafúrdia –, então, para um faraonista, a situação de hoje é uma tragédia lamentável.

Uma coisa q vc disse ("... a plebe rude e ignara ... só não convive pacificamente com a gramática porque não a entende. Pior, a grande maioria é incapaz de se aprofundar o bastante em qualquer assunto ...") é parcialmente verdade. No entanto, receitar a gramática normatizada pra essa gente é como dar um discman a um beduíno e esquecer de dar as pilhas e os cds pra ele tocar. ¿De q serve uma coisa sem a outra? A complexidade do q é dito por alguém é diretamente proporcional à complexidade de seu pensamento. E nem isso é completamente verdade: veja o caso dos retardados mentais com hidrocefalia e com síndrome de Beuren-Williams; mais preciso seria dizer q a complexidade do q é dito por um povo é diretamente proporcional à complexidade de sua cultura: as duas coisas andam juntas (não é plausível esperar q um garçom em Jequitibonga grite ao chapeiro: "Ó, Moscão, se vos agrada, fazei-me um tostex para este senhor que acaba de assentar-se ao pé do balcão!"). Só q a complexidade cultural não se fomenta através da educação, tal como vc parece preconizar, e sim através do caos livre e criativo, dos milhões e milhões de falantes querendo dizer alguma coisa, com o lebensraum pra inventar, derivar e associar o q bem entendessem. (Eu uso 'complexo' as opposed to complicado. Veja aqui) Mas o ensino de português chegou ao layout sem passar pelo brainstorm.

É perfeitamente correta tua interpretação de q eu aprovaria a abolição de toda imposição gramatical a fim de criar um lebensraum pro português; mas, tal como vc hipotesou, não é prum lebensraum gramático e sim vocabular. Pra mim o maior problema da NoCu é q ela intimida e acanha o falante, até mesmo o mais genial artesão das palavras q "vê-se legitimamente obrigado a subverter as convenções lingüísticas".

O q eu chamo de complexidade gramatical já existe no ãã 'centro gramatical do cérebro'. Ela não precisa ser inculcada de fora. Não importa muito se essa complexidade se manifesta através duma gramática normatizada ou dum caipirês ou de alguma linguagem matemática. O q importa é o vocabulário, ou seja, q o falante saiba distinguir uma coisa de outra coisa e de outra coisa, e dê um nome diferente pra cada uma das três. Pra efeito de comunicação, é irrelevante se a desinência concorda em gênero com o grau do adjetivo pronominal da oração subordinada em catacrese ao plural. (Como bem colocou o Stephen Pinker em "The Language Instinct", é perfeitamente inteligível a seqüência de palavras: Fósforo gasolina riscou bum!) O q quero é q o português se desenvolva a ponto de criar de suas entranhas idéias do nível de lebensraum, brainstorm, aprés coup, as opposed to, &c &c &c; e q complexifique sua cultura a ponto de criar objetos como o mouse, o mousse, o sudoku, &c &c &c. E digo e reafirmo q só se vai conseguir isso depois (muito depois) dessa gente bronzeada largar mão de dar atenção a esses nefastos gramáticos normativos e cagadores de regras ortográficas.

Mas ¡oh parto permanente! ¡oh prosa prepotente! Ilusão treda.