27 maio 2006

O Dr Plausível e seus aforismos

"O esnobismo é o último refúgio dos amadores." in A Norma Estulta e Seus Defensores

19 comentários:

Carlos Beltrão disse...

Não entendi :)

Alessandra disse...

Mas ainda é o mais divertido! Pricipalmente por causa da irritação desproporcional dos bobos com ele.

O meu não-blog não é um blog porque eu não quis que fosse! Mas a explicação completa está no primeiro post. Apareça, sempre adoro receber gente interessante por lá.

Permafrost disse...

Beltrão, essa tem a ver com um tema recorrente em outro blog: como é importante ser esnobe. Só q o ranço defensivo do esnobismo é tão evidente, q a graça fica meio pseudo-blasé (apesar de q o blog é engraçado -como diz a Alessandra- e inteligente). Parece aquelas boates q mantém a luz meio apagada pra q ninguém veja o pó no chão, as rachaduras sujas nos cantos, &c.

Carlos Beltrão disse...

Mas sem link não entendo a piada... Mas tudo bem... :)

Permafrost disse...

Obrigado, Alessandra. Saiba q achei perspicazes, teus textos.

Eu é que sei disse...

Estou com o douto senhor.

Nunca ninguém em lugar nenhum fala errado, a menos que seja de propósito. Cada pessoa fala sua própria língua. "Português" é um blanket term, e a linguagem é um contínuo de variações mínimas entre uma pessoa e outra. É ridículo acreditar que a chamada "norma culta" (que é apenas UMA das milhões de codificações possíveis) seja THE "português correto" apenas porque is backed by an army and a navy. Qualquer pessoa que ridiculariza, critica ou tenta corrigir o falar de outra acredita subliminarmente que está amparado, como último recurso, por agentes armados do governo para impor seu próprio dialeto. Assim, aquilo que o ASS chama lá de "esnobismo" revela-se como apenas uma variedade de truculência.

Pracimademoá disse...

O Pablo deve concordar com você apesar de você estar 100% errado.

Quem critica ou tenta corrigir o falar dos apedeutas ("ridicularizar" é SUA interpretação rancorosa) acredita na língua como um código centralizado, ordenado e padronizado que todos conheçam e entendam, acredita em evitar a preguiça e a ignorância, acredita no refinamento do entendimento e das manifestações humanas, acredita na formulação de uma norma amparada por CRITÉRIOS em oposição aos ímpetos desnorteados da plebe rude e ignara, acredita na harmonia e na estética que todo conjunto de regras proporciona.

Pode parecer muito libertário e genial mandar as regras para o inferno, principalmente se você tiver freqüentado a USP nos anos 70, mas eu quero ver vocês apreciarem uma boa partida esportiva sem regras, uma boa canção sem afinação e harmonia, um bom poema sem métrica (e sintaxe e gramática) ou um bom prato sem as regras do paladar e das reações químicas.

Toda tentativa de harmonia depende de regras. Até o universo sujeita-se às regras da física. A ausência de regras não produz liberdade. A ausência de regras só produz uma maçaroca disforme em que tudo é automaticamente privado de qualquer possibilidade de cumprir algum objetivo. Objetivo é a essência pura do discurso e de toda tentativa de comunicação. Sem meios de criação, condução e manutenção dos objetivos, a comunicação (e tudo mais) desaparece instantaneamente. Se você quiser jogar fora as regras, terá que jogar fora também toda a produção científica, artística e cultural de toda a nossa civilização porque nenhuma forma de pensamento e expressão existe sem as regras.

Se você for mesmo assim tão anarquista, niilista e dadaísta, pelo menos pode se entreter no fim de tarde ouvindo Kurt Schwitters:

http://tinyurl.com/oykub
( http://ubu.wfmu.org/sound/schwitters_kurt/ursonate/Schwitters-Kurt_Ursonate_03_Dritter_Teil.mp3 )

Mas se tudo que você quer de verdade é apenas trocar uma norma por outra enquanto finge que descarta todas, então vá à merda.

Permafrost disse...

Demoá,
Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

O q vc chama de "centralizado, ordenado e padronizado" resume-se na palavra "tutelado".

As regras gramaticais existem independentemente de qqer normatização; elas surgem naturalmente do cérebro humano, como um instinto. Normatizar é como industrializar o frango: o frango existe independentemente da indústria, mas em vez da infinita variedade de frangos possíveis, escolhe-se o tipo cuja carne aceita melhor as injeções de água pra aumentar seu peso, e coloca-se milhares deles num lugar fechado onde serão entuchados de comida até o abate. Nem precisaria dizer q os interesses do frango, sua dinâmica evolutiva interna, &c foram pro saco há muito tempo. Hoje, só é possível existir o frango tutelado. Isso parece bom, já q todos podem se alimentar de frango. Mas no fundo é uma merda, e vc sabe disso.

Ninguém, sublinhadamente *ninguém* precisou normatizar a língua pra q todos se entendessem durante pelo menos dez milênios, e negritamente ninguém precisou normatizar a gramática escrita pra q nos três últimos se criasse toda a literatura. Normatizar o alfabeto foi o suficiente. Já a normatização da gramática, é um dos rebentos totalitários mais infames da revolução francesa: os parisienses, reconhecidamente falando um dialeto incoerente, anti-econômico, complicado (as opposed to 'complexo') e atrapalhado, acharam por bem normatizar o q hoje se chama de 'francês' pra fazer aquele território todo subserviente ao exército central. Note q o inglês - a língua q, por seu próprio valor intrínseco, hoje domina o mundo com suas palavras, suas idéias e suas criações - jamais aceitou um código tutelado: no inglês, as regras se impõem pelo uso cotidiano afiançado por escritores e oradores reconhecidamente grandes e capazes. A menos q vc seja do ramo, aposto q não sabe de cabeça o nome nem conhece as obras de um único dos responsáveis pelos decretos q normatizaram o português, pessoas q de certo modo controlam tua vida.

A normatização tutelada é um sinal de fraqueza, uma cadeira de rodas q nunca vai deixar o português e outras línguas aprenderem a ambular sem ajuda. São só as línguas com sangue de barata q aceitam a tutela do chinelo gramatical.

Ah, e obrigado pelo linque do Kurt Schwitters. Não sei de vc, mas eu faço esse tipo de barulho todo dia. Vejo q não sou tão doido como pensava.

Eu é que sei disse...

Olha, Pracinha, o doutor não deve haver postado por delicadeza o link que inspirou seu aforisma. Ali, você há de ver pessoas ridicularizando os "apedeutas". Devem ser pessoas mais a ver com você do que o doutor, pois bastou eu falar de truculência e você terminou o seu comentário me mandando à merda. É bem o estilo de quem se pauta por regras. Se você tivesse mais poder sobre mim agora, tipo se você fosse um magistrado e eu um prisioneiro, não duvido que você chamasse os seus agentes armados para "evitar" minha "preguiça e ignorância".
http://www.wunderblogs.com/soaressilva/archives/021705.html

Pracimademoá disse...

Li o tal do blog.

Hum.

E daí?

Eu é que sei disse...

E daí? O motivo para eu fornecer o link foi só mostrar que não era a minha "interpretação rancorosa", mas uma maldade "pseudo-blasé", no dizer do Perma, bem real daquele povo.

Pracimademoá disse...

O mau uso isolado de uma coisa não basta para invalidar a coisa.

Você e o Pablo acham muito bonito cavalos selvagens correndo livres ao vento, mas não foi com cavalos selvagens que se conquistou o Oeste. Sela e arreio neles!

Permafrost disse...

Uma metáfora intessante, essa do arreio. Totalmente errada, mas interessante.

Errada porque língua e gramática não são duas coisas diferentes, tipo cavalo e arreio. São a mesma coisa. A questão não é q a língua precisa ser domada, montada e esporada pela gramática; mas q a gramática precisa se tornar suficientemente ampla pra aceitar toda e qqer manifestação dos falantes. O português pode ainda se tornar uma língua pujante, criativa e esclarecedora; mas pra isso seria preciso eliminar a presunçosa teimosia da gramática normativa, q acredita q já entendeu tudo, q não há mais nada a criar, q todos os significados possíveis do universo já estão previstos em suas regras necessariamente escravas de uma moda (moda dos últimos cem anos, mas moda mesmo assim).

A metáfora é interessante porque seria uma arma bem eficiente nas mãos dos normáticos, uma metáfora q confundiria momentaneamente os lingüistas distraídos e ao mesmo tempo daria aos normáticos uma sensação passageira do poder impossível q anseiam ter (impossível porque, sorry, a gramática normativa não vai prevalecer - te vejo daqui a cem anos).

Pracimademoá disse...

Você está certo, língua e gramática não são duas coisas diferentes, mas o arreio da minha metáfora não é a gramática. Eu me referia à prática milenar de submeter a regras todas as manifestações humanas. Como já expliquei antes, as regras são imprescindíveis.

A menos que você queira retirar suas palavras e reformular sua idéia, vou achar que você está simplesmente insatisfeito com o conjunto de regras atual - como tem gente insatisfeita com o Hino Nacional Brasileiro porque tem muito cacófato - mas QUER REGRAS assim mesmo. Quer outro conjunto de regras, mas quer regras.

Ora, o que as suas regras têm de melhor? Eu acho que o vocabulário precisa ser ampliado todos os dias, mas a gramática atual satisfaz completamente todas as minhas necessidades. Você não? O que você não consegue expressar com a gramática atual, por exemplo?

Estou começando a achar que vocês são é um bando de comunistas. O comunismo gera tantas injustiças quanto o capitalismo, mas ninguém vai desistir de defender seu sistema de injustiças predileto, né? O que é a vida sem uma boa peleja?

Eu é que sei disse...

Iiiiii.... Chamou o Perma de comuna.... *rs*

Rubião disse...

Cavalheiros, parece-me que estão a perder tempo com essa discussão. O mundo é o que é porque há pessoas que assim o aceitam e há as que não o aceitam e, assim, procuram mudá-lo. É como um jogo de futebol, uma equipe tentando derrotar a outra. Entendo que ambos não aceitam o mundo como ele é e por isso tentam mudá-lo. Ponhamos os pés no chão e deixemos de elocubrações.De fato, o que se chama "norma culta" nada mais é do que uma - dentre muitas - possibilidade da língua falada (ou escrita) por uma minoria (dentro da qual há controvérsias sobre pontos isolados; por exemplo: na norma culta a forma "correta" é protocolar ou protocolizar?; a pronúncia correta é 'subzidiar' ou 'subcidiar'?). Tentar impor a 180 milhões de pessoas determinado registro só porque é encontradiço na classe social mais abastada, portanto minoritária, me parece pretensioso. 180 milhões de pessoas no Brasil (o povão) pronunciam 'subzídio'; no máximo mil (os ditos cultos) pronunciam 'subcídio'. Não me parece razoável que 180 milhões estejam todos errados ao mesmo tempo, só porque mil assim entendem. Antes, ambos estão corretos nas respectivas circunstâncias, apenas os mil continuam rindo de 180 milhões porque se preocupam com isso. Os 180 milhões, sem o saber, riem dos mil ao manter seu jeito natural de falar. Ouso dizer que não há um único ser capaz de falar/escrever tudo, absolutamente tudo, conforme uma determinada gramática. Se os próprios normativistas não concordam entre si em muitos pontos da gramática, por que exigir que 180 milhões se submetam à vontade de mil?

Permafrost disse...

Muito bem dito, Rubião. Mas a questão é mais embaixo, tal como coloca o Dr Plausível no texto "A norma estulta, essa incompreensiva" a seguir. Além disso, identificar a norma culta com as classes "mais abastadas" é puro conto de fadas, em q a heroína é sempre uma princesa, e é sempre linda, culta e ótima pessoa. A verdade é q a norma culta não é falada por ninguém, e se for, é por algum literato afetado em Jacarepaguá. Tenta-se *escrever* dentro dos limites da norma culta. E isso já é um problema em si, como vai tentar mostrar o doutor num texto próximo futuro.

Pracimademoá disse...

Rubião,

180 bilhões de moscas não podem estar erradas! Coma merda!

Rubião disse...

Pracimademoá. Como vai? Tudo bem? Como vão todos em casa? E o cachorro do vizinho, latindo muito? Antes de mais nada, acho que poderíamos manter o bom nível por aqui, não? Do contrário, I'm cascking out, que pros que não sabem equivale a Tô cascando fora. Especificamente quanto a seu convite, comer merda é exatamente o que eu faria, se fosse mosca. Por sua expressão, acho que você cometeu um ato falho e jogou por terra sua teoria, não? Veja que você concorda que é correto que 180 milhões de moscas comam merda. Portanto, concorda, ainda que inconscientemente, que 180 milhões de brasileiros estejam corretos da forma como falam, seja ela qual for. Brilhante.

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