24 maio 2006

O clichê é o clichê mais clichê do clichê

Os clichês sempre despertam um grande sono no Dr Plausível. Mas emprego é emprego, né? Tão vamulá.

O clichê de dizer q a prostituição é a profissão mais antiga do mundo é como todo clichê: uma tontice q alguém algum dia desembuchou e, como soou perfeitamente apta, espirituosa e bem-acabada em uma situação, e provocou risadas &c, foi então repetida por quem a ouviu, esperando sugar um pouco do mérito original, e repetida pelo segundo ouvinte, e assim ad nauseam até virar uma tontice q quase todo o mundo diz sem prestar atenção no q exatamente significa. Com razão, Proust detestava os clichês. Eles cabem perfeitamente no q descreve a palavra inglesa 'mindless'. Mas não são de todo ruins: como 97% de tudo q se faz socialmente é também mindless, os clichês são um temperinho q diverte o populacho em sua penosa tarefa de cambalear entre o nascimento e a morte.

Por tantas implausibilidades repetidas em clichês, também são implausíveis as explicações deles. Recentemente, um desavisado aventou q aquele clichê sobre a prostituição originou-se ãã... ¡no inglês! Ele disse algo como "essa expressão faz sentido no contexto anglo-saxão de 'profession' (e acho que a origem do clichê é o inglês)".

Hmm.

Tanta coisa é traduzida do inglês hoje em dia, q daqui a pouco vão achar q até a Bíblia foi escrita originalmente em inglês. ... Ah, não, peraí. Já tem gente q pensa isso. (Mas são euaenses; então se perdoa.)

Um sintoma de anglo-centrado é sempre procurar e "achar" a origem das coisas no inglês. Pra começo de conversa, a própria palavra 'profession' vem do latim. Por outro lado, se a proto-prostituição era uma profissão, deveria haver pagamento; pagamento implica em dinheiro, dinheiro supõe casa da moeda, &c. Várias outras profissões embutidas aí, não?

Outra coisa, se vc substituir 'profession' pelo conceito inglês de 'calling', já faria mais sentido. Só q "the world's oldest calling" não seria a prostituição, mas a nobre atividade de mijar, de onde vem a expressão 'a call of nature'. Sexo também é 'a call of nature', claro; mas mulher prefere mijar antes do sexo – de onde se depreende q mijar é mais antigo q prostituir-se.

É certo q uma ou outra mulher prefere não mijar, pra aumentar a pressãozinha lá dentro durante o coito. Mas... mas... mesmo assim...

ãã– Voltemos à cretinice do clichê em si.

Puta não pode engravidar. A prostituição só pode ter aparecido depois da compreensão e desenvolvimento de métodos anti-concepcionais e de abortagem. E só isso aí já pressupõe outras tantas profissões. Então ¿por q catso alguém achou algum dia q a prostituição é a profissão mais antiga do mundo?

Sei lá. Mas aqui vai a receita de tratamento contra a hipoplausibilose embutida nesse clichê:
1. Escreva a frase numa pequena folha de papel azul.
2. Engula.
3. Veja se vira bosta. Se o papel for defecado num estado ainda reconhecível (¿entendeu agora o porquê do azul?), lave e engula de novo.
4. Repita os passos 2 e 3 até o papel passar totalmente ao estado de bosta.

[O Dr Plausível agradeceria aos leitores pela lembrança de outros clichês hipoplausibiléticos para diagnóstico e tratamento.]

7 comentários:

Pracimademoá disse...

Ué. Mas que reflexão esquisita. A idéia desse clichê sempre me pareceu óbvia.

Supõe-se que a mulher, fraca numa época em que nada desafiava a força bruta, submetia-se aos seus machos dando-lhe sexo em troca de comida (caça) e proteção. O prazer mórbido do clichê vem do fato de que MUITA mulher ainda vive assim. O simples sexo e a simples força bruta se sofisticaram e se desdobraram em muitos outros interesses e manifestações e hoje compõem uma sociedade que aparenta ser mais refinada, mas que ainda se apóia toda nesse conceito: machos fortes e soberanos proprietários de fêmeas sedutoras e submissas OU fêmeas sedutoras e espertas donas de machos burros e úteis, tanto faz.

Não há como negar: casar e ter filhos é uma carreira para a grande maioria das mulheres. Essa carreira pode ser vista com "bons" olhos, como a da esposa que se dedica à casa e aos filhos com sinceridade, ou com "maus" olhos, como a da mulher que simplesmente não quer fazer porra nenhuma da vida e se agarra a algum macho que a sustente por tempo suficiente para transformar o casamento em aposentadoria privada, paga com os direitos exclusivos de uso da sua vagina. Os dois tipos de mulher são muito comuns e o segundo tipo tem tudo que é preciso para que seja de fato uma prostituta, só que supostamente exclusiva e muito mais cara que as primas que rodam bolsinha na calçada.

Em menos palavras, nossa fina sociedade está repleta de putas sentadas em tronos de matriarcas e, evidentemente, está também repleta de filhos da puta. Não é nenhuma novidade.

Poder-se-ia argumentar que a profissão de caçador veio antes, mas no início o homem não caçava para "comprar" nada. No início, ele só caçava para não morrer de fome mesmo. Talvez por isso algumas pessoas não vejam isso como profissão.

Carlos Beltrão disse...

A questão é que a mulher que se agarra ao marido sem fazer nada pode ser vista como uma puta, segundo o raciocínio acima, mas o marido que em troca de fazer sexo com a mulher dá bens materiais e estabilidade está por cima da carne seca. Já há um juizo de valor no sexo - se ela faz e quer ser dondoca, é puta; se ele faz mas trabalha e sustenta, opa, tá bem na vida.

Se é uma troca, pq achar negativamente que ela é puta ou prostituta? Não é benéfico para ambos, essa relação hipotética da dondoca e do provedor?

Baita babaquice. E machismo.

Permafrost disse...

Demoá,
Acho q sim, q a idéia desse clichê sempre foi óbvia. Só q errada. A frase chama um instinto, e suas limitações materiais e físicas, de 'prostituição', e logo em seguida conclui q, já q essa troca (como disse o Beltrão) precede todas as profissões, então ela deve ter sido a primeira.

E sim, a amasiada ou esposa q não quer ter filhos e é sustentada por um painho ou marido está mesmo tendo um papel parecido com o da garota de programa - nem q seja pelo fato de q, se o painho ou marido não a tivesse, poderia obter o mesmo benefício como um serviço, só q distribuído numa seqüência de fornecedoras pontuais.

Mas a frase revela um certo rancor no homem, ¿não acha?, originário de em média ter q gastar mais energia durante a sedução e durante o sexo do q a mulher; talvez até um rancor por valorizar seu próprio trabalho mais do q os trabalhos domésticos.

Pracimademoá disse...

Nunca me pareceu rancor. Parece mais desprezo. E essa forma de insulto sutil e sarcástico, pra mim, é coisa de mulher. Eu acho que foi alguma mulher que inventou essa alfinetada clássica.

Também me parece mais provável que a mulher tenha algum rancor, não o homem. O homem pode se sentir explorado, mas continua se sentindo o dono do pedaço. Paga, mas tem. A mulher explora, mas é uma propriedade do homem.

Pense nas condições: um mundo irracional, em que a força física e a testosterona são quase incontestáveis. Neste cenário, a natureza faz as mulheres bem mais fracas fisicamente do que os homens. Tremenda sacanagem da natureza. Essa fraqueza física fez de todas elas putas naturais nos primórdios da raça humana e criou uma tradição de papéis que até hoje o tempo não apagou completamente. A natureza fudeu com elas, literalmente.

Carlos Beltrão disse...

Senhores, eu entendi direito ou vocês realmente acham que uma mulher, nos dias de hoje, se opta por ser sustentada pelo marido, é puta, ou um tipo de puta? Se acontecer o contrário, digamos, se uma mulher bem sucedida e cheia de dinheiro casar-se e o marido não precisar trabalhar, e ambos acharem que está bem assim, o que é ele? Um michê?

O que define a mulher na relação homem-mulher com sexo é se ela trabalha ou não? É isso mesmo?

Permafrost disse...

Calma lá, Beltrão. Não existe só o branco e o preto. Há infinitas gradações entre uma prostituta e uma garota de programa, entre esta e uma amante sustentada, e &c &c &c &c. As palavras são como as notas musicais. Há infinitas notas entre um si e um dó, mas pra q haja música tonal inteligível convencional, só se afina o si e o dó. Tbm pra conversas e argumentos e discussões, há os poucos termos puta, prostituta, garota de programa, amante sustentada, &c. Um cantor q canta só as notas super-afinadas soa duro e sem expressão. Precisa dar uns glissandos, aproximações, &c. Similarmente, pra se entender o mundo e conversar sobre ele, é preciso não se prender aos significados delimitados de cada termo.

O Pracimademoá está aqui falando friamente de um assunto q péla.

Assim, ele precisou circunscrever-se a um campo frio - no caso, o q é q uma relação econômica entre um macho provedor e uma fêmea receptora *teria* a ver com a prostituição, à luz de uma frase de alcance limitado certamente cunhada numa época muito menos anti-misógina q a nossa.

Agora, à sua pergunta:

P: O que define a mulher na relação homem-mulher com sexo é se ela trabalha ou não?
R: Não.

Carlos Beltrão disse...

Ah tá. :)

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