03 março 2006

O grupo do Sérgio

Entre as coisas mais hilárias no jornalismo brasileiro estão os albardeiros de traduções fajutas – os maus alfaiates de texto q rondam as oficinas estrangeiras catando retalhos de escritores melhores, traduzindo-os pifiamente e costurando tudo de qqer jeito num só artigo (q o albardeiro pode atribuir a si mesmo e assim descolar uns trocados). O texto original tem q ser estrangeiro, lógico, de preferência em inglês – língua em q se escreve mais e melhor q em português – porque assim fica mais difícil apontar quem são os alfaiates verdadeiros.

Num país carente de leitura como é o Brasil, é muito disseminada a prática de engrupir o editor e por tabela o leitor pagante. Um contumaz adepto era o PFrancis, de quem já falei aqui, onde tbm falei de outro caso. Essa prática não seria tão ruim se os albardeiros fossem bons tradutores. Afinal, de qqer modo, toda informação deriva de outra, e essa de outra e assim ad infinitum. Mas informação é uma coisa e autoria é outra. ¿Q tal citar as fontes? Êi, e ¿q tal não assinar? Se ao menos disfarçassem demonstrando um decente e criativo conhecimento das duas línguas, ou mesmo bom-senso, o plágio não ficaria tão óbvio. A ocasião faz o ladrão e a inaptidão faz a prisão.

Talvez um termo melhor q 'albardeiro' fosse 'salsicheiro' pois, como se diz, ninguém comeria salsicha se todos soubessem como é feita.

O Sérgio de meu título é, suponho, ãã... um dos críticos de cinema na Folha. O artigo q inspirou estes comentários foi publicado no Guia da Folha no último 3 de março e é quase um manual do albardeiro-salsicheiro. Quem tiver acesso via internet, pode lê-los nestes locais:

http://www1.folha.uol.com.br/guia/ci0303200601.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/guia/ci0303200603.shtml

Abaixo uma listinha dos indícios comuns:

1. Frases com raciocínios evidentemente criados em inglês:
Se adultos podem discutir quais são os seus filmes prediletos entre os indicados e para quem gostariam que os prêmios fossem entregues, este só pode ser um ano atípico na história recente do Oscar

2. Expressões q até fazem sentido em português, mas q, no contexto, só podem ter aparecido na mente dum inglesante:
filme eminentemente popular

3. Expressões contendo preposições q indicam movimento duma maneira inusitada em português:
transpor a fronteira para o território do "cinema de prestígio"

4. Frases em q há uma distância enorme entre palavras q apareceriam próximas em português (note a palavra 'fizeram', inglês 'did'):
Nenhuma superprodução ou filme eminentemente popular se mostrou capaz de transpor a fronteira para o território do "cinema de prestígio" ou "de qualidade", como "Gladiador", "Uma Mente Brilhante" e "O Senhor dos Anéis" fizeram.

5. Frases com estrutura modular embutida, típica do inglês, q teriam estrutura mais arredondada se escritas originalmente em português:
A lista dos dez indicados nas duas categorias de roteiro, seleção ampliada do que os eleitores da Academia consideram que houve de melhor na temporada...

6. Expressões sintéticas cheias de significado em inglês, mas q soam vagas se simplesmente traduzidas:
No que realmente conta, nem sinal de "As Crônicas de Nárnia", "King Kong", "Harry Potter", "Batman Begins" e "Star Wars".

7. Frases cuja estrutura inglesa levam desde o início a uma certa entonação, mas q em português confundem o leitor:
De volta aos anos 70, quando o Oscar de melhor filme era disputado por "Laranja Mecânica", "A Última Sessão de Cinema", "Amargo Pesadelo", "Gritos e Sussurros", "Chinatown", "A Conversação", "Um Estranho no Ninho", "Nashville" e "Taxi Driver", entre outros? Nem tanto, mas até lembra um pouco aquele tempo.

8. Frases de efeito q tipicamente aparecem em inglês, incomuns em português:
Diga o que quiser dessa história, exceto que só pode ser coisa de filme.

9. Inícios de frase q remetem a estruturas comuns em inglês, inauditas em português:
Houve mesmo Laura Henderson, a personagem que valeu à inglesa Judi Dench, 71, sua quinta indicação para o Oscar.

10. Estruturas modulares analíticas q em português mais comumente seriam sintéticas:
indicação para o Oscar em vez de indicação ao Oscar.

11. Expressões simplesmente mal traduzidas:
ajudou a revigorar a cena teatral inglesa

12. Aparente ignorância sobre a origem de expressões inglesas:
Aqui, esse pedaço da trama reaparece, (...) mas em chave triste. 'On a sad key' é um termo originado da música (onde key=tom); diz-se q os tons menores são 'tristes'.

13. Expressões aliterativas em inglês q são de uso comum por causa de sua aliteratividade. Em português, a tradução às vezes soa como o primo pobre de alguma outra expressão portuguesa de mesmo significado:
embora os bombardeios aterrorizem Londres, é sempre possível encontrar alegria, companhia e seios nus no Windmill. (inglês=bare breasts)

Nosso estelar doutor pode estar totalmente errado. O jornalista q ganhou uns trocados pela publicação desse texto no Guia da Folha pode simplesmente ter lido todo o material promocional (em inglês) e algumas críticas (em inglês) e, consultando seu invejável conhecimento de cinema, ter escrito essas linhas todas de próprio punho. Ele pode simplesmente ser um mau escritor. Mas... mas... ¿isso não seria até mais hilariante? ¿...q um veículo de circulação nacional se veja reduzido a publicar um artigo assinado dum suposto crítico de cinema q lê tanto em inglês q mal consegue diferenciar o inglês do português em seus próprios escritos?

Na verdade há pouquizíssimos críticos de cinema no Brasil. Há, sim, uma quantidade enorme de divulgadores de cinema, o pessoal q une seu conhecimento de inglês, seu gosto por cinema e seus contatos com veículos de imprensa pra ganhar a vida modestamente. Nada contra alguém ganhar a vida modestamente. O jornalista q assinou as matérias acima tem minha total compreensão. Mas seu cachê vem dos milhões de pessoas (entre elas, parentes e amigos meus) q gastam dinheiro de seu próprio bolso ao comprar jornais em q esperam obter, no mínimo, uma compreensão imediata do q lêem; e no entanto são rotineiramente expostos à cara-de-pau de albardeiros q nem sequer utilizam muitos neurônios pra costurar os retalhos q roubam. O problema, o hilariante, é o q isso demonstra sobre a maneira como se fazem tantas coisas influentes no Brasil.

A gargalhável seriedade da fachada.

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

12 comentários:

alex castro disse...

perfeito. eu tenho essa mesma impressao em muitos textos.

tenta dar uma retraduzida em alguns trechos e busca no google pra ver se a gente acha o original

eu tentei bare breasts e windmill e nao encontrei

Permafrost disse...

Já fiz essa busca e não encontrei nada. Atualmente, as redações de jornais recebem trocentas informações por email de firmas especializadas em news feeds. No caso do segundo artigo (q é como se fosse uma matéria paga de divulgação do filme Mrs Henderson Presents) , eu acho q são textos de release q o jornal recebeu, traduziu e adaptou. Essa adaptação significa ou retirar aspectos mais detalhados ou colocar informações mastigadas. Por exemplo, qdo o original diz simplesmente "Judi Dench", a Folha se vê obrigada a adicionar a info de q ela é inglesa.

El Kabong disse...

É triste ver que aquele adolescente lá do colégio técnico de Taubaté continuou sendo um adolescente até os 50 anos de idade e que continuou escrevendo as mesmas coisas ....

Segundo a lenda, Nelson Rodrigues tinha sérias restrições á leitores que enviavam cartas para as redações dos jornais.
Pode-se falar muita coisa sobre o Nelson Rodrigues mas, inegavelmente, de degenerados ele entendia.
Um blog hoje em dia é o equivalente da carta para a redação, em uma outra mídia mas para um público que de modo igual ao escrevinhador está carecendo de uma vida mais interessante.

Papo furado de bar na Internet e mesa redonda na TV nos Domingos á noite seriam também equivalentes á altura do "felomeno" blog.

Recomendo ao Dr. Pablosível que vá reler The Simpleton of the Unexpected Isles e que, logo após, ponha mãos a obra para fazer algo de útil antes de começar a desaparecer...

Permafrost disse...

Kabong, acho tão sweet qdo meus amigos entram aqui anonimamente pra tentar me levar ao bom caminho na base da porrada...

Mas, Ôô, ¿já ouviu falar em *lazer*? Algumas pessoas ficam vendo futebol, outras procuram sexo, outras escrevem em blogues. It takes all sorts to make a world.

Mas vc me fez ver a luz, Kabong. É bem verdade q eu estaria melhor se tivesse guiado minha existência por uma peça teatral menor do GBShaw, na qual ele prevê e endossa o estilo Stalin de eliminar da sociedade as pessoas q não puderem justificar sua parte nela. Vc me fez ver q eu realmente tenho q ser eliminado da sociedade já q, se não contribui em nada pro progresso dela em quase 50 anos, certamente não vai ser agora, né? De fato, ¿como posso justificar o q escrevo aqui sob o falso epíteto de 'lazer' se esta é minha única atividade neste mundo? ¿...se minha vida gira em torno do q escrevo neste blogue? ¿...se nunca faço nada além daquilo q escrevo aqui? Eu devia estar ocupando meu tempo buscando fama, fortuna e fodas, não acha? HAHAHAHA

Acho q vou mesmo seguir o conselho do GBShaw e eliminar todos meus parentes, visto q se não me encostam na parede como fazem meus amigos, não há como justificar sua existência. HOHOHOHO

Relaxa, Ôô. Vc deve ter lido The Simpleton... ainda adolescente, pois é impossível, depois de tanta coisa q aconteceu no século XX, q um adulto hoje leve a sério essa peça na primeira. Foi escrita numa época de glória da Grã-Bretanha, qdo eles se achavam a nata da civilização, antes das contribuições científicas dos judeus, antes de descobrirem q havia seres humanos na África e na Índia, antes de a própria Europa se confrontar com sua natureza violenta e bestial, antes de a indústria japonesa humilhar a Européia, antes de constatarem q o clima daqui é mil vezes preferível ao de lá, antes de os descendentes do Shaw se ajoelharem aos pés dos árabes implorando por gotas de petróleo, antes (e esta vai direto pra você) de q sequer se falasse em 'pluralidade': it takes all sorts to make a world.

Outrossim, se escrever pros jornais é coisa de degenerado entediado, ¿¡¿q se pode dizer de comentar em blogues?!?

Relaxa. :•)

El kabong disse...

Uma reação interessante ...

Filipe Dicara disse...

Vc tem quase 50 anos???? Caralho......

Permafrost disse...

Ué, ¿tavas pensando o quê? A sabedoria só vem com a idade. :•p

Cássia disse...

Tem gente que escreve assim mesmo... Na Folha, então...

Mel disse...

Virei sua fã, por causa do artigo e da resposta! Sou tradutora e respiro cinema nas minhas pesquisas, portanto, ler o seu texto é um bom 'reminder' que não se deve deixar cair a peteca misturando inglês com português, sem mencionar o seu senso de humor! Superb!

Mel

Permafrost disse...

Cássia,
Acho q tem gente q escreve assim mesmo uma ou duas expressões no meio de um texto. Nesse aí, eu não duvido de q o albardeiro traduziu tudo mesmo. Os exemplos mais denunciantes são os de número 4, 9 e 12. Este último ('chave triste') jamais apareceria na cabeça de um portuguesante (=falante de português).

Mel,
Grato pela preferência. Tem vários textos aqui sobre tradução, uso da língua e coisas do tipo. Procure no índice e divirta-se!

LucianaBB disse...

Concordo em gênero, número e grau :)
Abraços!
LucianaBB

Ícono disse...

El Kabong: are you such a kind of Maxwell's silver hammer? You are a Taubaté's cytizen too, you love Taubaté. Cry: I LOVE TAUBATÉÉÉÉÉÉÉÉ.

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