21 fevereiro 2006

O sonho pônei

O Dr Plausível não ri só qdo trata hipoplausibiléticos; também ri do q é perfeitamente encaixadinho. Mas aí é um riso estético-extático, reservado a alguns budistas e um q outro agnóstico. Uns meses atrás, despucelando-se de rir, nosso empedernido doutor me mostrou uma tirinha de jornal. Eu olhei e logo vi q se tratava duma das mais geniais tirinhas de toda a história dos quadrinhos, e na data de hoje escolhi render homenagem à dita cuja. Eu sempre sigo o conselho do Tom Stoppard, "don't clap too loudly," &c. Mas o autor da tirinha, Caco Galhardo, acertou tão na mosca, q merece uns tapinhas nas costas e uma noitada num puteiro.

O Pequeno Pônei é um cavalinho mal-humorado q quer, por assim dizer, extrapolar sua poneidade. Sempre q declara um desejo de ser outra coisa, vem alguém e diz, "¡Mas você é um pônei!" Por exemplo, na tira anterior o Pequeno Pônei encontra o Chet Baker:

PeqPon: Chet, estou farto dessa vida fútil. Quero ser profundo como você.
CheBak: Forget it, pal. You're a pônei.

E aí vem esta obra-prima:



E na tirinha seguinte:

PP: Chet, estamos neste deserto há horas e até agora nem sombra de inspiração.
CB: Eu estou curtindo.
PP: Curtindo o quê, o sol escaldante, a areia penetrante, a solidão implacável?
CB: Não, curtindo andar de pônei.
PP: Não zoa, Chet.

O Dr Plausível pondera q boa parte do mundo se divide entre chets-bakers e pequenos-pôneis: dum lado aqueles poucos q, com talento e trabalho, se encontraram nalguma arte ou ofício, e do outro aqueles muitos q, procurando uma revelação ou uma mudança de vida, sustentam e enriquecem os primeiros ao tentar percorrer o mesmo caminho q eles, mas na verdade os carregam. Nosso esbaldado humanista com certeza teria coisas mais profundas a dizer sobre a tirinha. Já eu, ¿que posso dizer senão isto?:

Talvez por tê-los visto algumas horas antes, instantaneamente me vieram à mente o Ozzy Osbourne, Paulo Coelho e os críticos do Lula.

Explico. ¿Já viram aquele seriado com a família Osbourne? Pois então. Vendo aquela riqueza estapafúrdia em q o Ozzy vive, e por associação (em > ou < grau) todo artista famoso, é impossível descartar a constatação de q aquilo tudo saiu dos bolsos das dezenas de milhões de fãs idólatras impressionáveis q compraram discos a preços 'de mercado' (haha) e pagaram pra ver shows exorbitantes economizando as merrequinhas do dia-a-dia. E também é quase impossível não pensar (e este é meu ponto principal) numa parte desses fãs: os milhões de jovens sem talento, tempo ou tino q se 'inspiram' nos 'grandes' artistas e compram guitarras, teclados, baterias, métodos, CDs &c e desperdiçam horas, meses e anos de suas vidas no sonho pônei de também se tornarem 'grandes' artistas (nada contra tocar um instrumento pra se divertir ou pra ganhar uns trocados). A grande maioria desses jovens jamais vai chegar a lugar algum dessa maneira; mas durante esse processo perdem tempo e gastam um baita dinheirão comprando os produtos q ajudam a patrocinar a imensa riqueza dos artistas e fabricantes, distribuidores, lojistas, &c. Tudo se move a partir da aura do artista, a aura de quem tem o pé firmemente plantado em si mesmo, q conhece seus limites, sabe do q é capaz e o faz, e enormes fortunas são carregadas literalmente nas costas de quem procura trilhar o mesmo 'longo caminho'. De vez em qdo alguém se dá bem, mas aí o caminho é o caminho dele e não o do artista (q a partir daí é demovido ao status de 'influência').

O q me leva ao PCoelho, o "alquimista" q transforma lugares-comuns em ouro de tolo. É o cara q supostamente diz q cada um deve seguir seu próprio sonho e, paradoxalmente, enriqueceu vendendo os mesmíssimos livros a dezenas de milhões de leitores. É gargalhavelmente triste. Pensei nele ao ver a tirinha, mas poderia ter pensado em qqer um das miríades de outros autores, compositores e filósofos q, ao expressarem sua própria verdade em seu próprio estilo forjado por seu próprio talento e seu próprio trabalho, dão ao pônei a sensação de q ele pode chegar ao mesmo lugar imitando o resultado do trabalho e talento dos gênios – ¡parece tão fácil! –, no q está não só enganando a si mesmo como sustentando e enriquecendo, distanciando e inchando a máquina mesma q os engana.

Em essência, gozando com o pau dos outros.

E pensei também na pressão implacável pra q gastem fortunas aprendendo inglês pessoas q mal articulam um raciocínio claro em sua própria língua ou como se não houvesse mais a dizer e criar em sua própria língua; pensei no batalhão de mãezolas q pagam pra ver e suspiram vendo MBarishnikov ou NComaneci e enfiam as filhas no balé ou na ginástica (esse é o típico sonho pônei: ao aprender o básico de inglês ou de piano, pelo menos vc se diverte); pensei em toda a babação em cima de filósofos e todas as páginas publicadas e compradas q nunca foram nem serão lidas, e nos bilhões de livros comprados q mofam em prateleiras, sebos e cérebros; pensei nos escritores, atores e artistas – de preferência euaenses ou zoropeus – e suas hordas de fãs imitando trejeitos, dicções, frases, opiniões, penteados, modas e gostos, fãs q a cada imitação derramam alguns centavos, alguns milhares de neurônios, e assim pagam o aluguel devido como inquilinos de mentes alheias.

Dependendo do gosto, pra cada OOsbourne e PCoelho há uma ERegina e um MProust ou outros milhares de artistas e escritores e dezenas de milhares de seus associados cavalgando centenas de milhões de pôneis q acreditam poder transcender sua poneidade pelo simples fato de percorrer um caminho já trilhado. Mais realista seria alguém chegar a cada um desses milhões e milhões de imitadores, fãs e deslumbrados e dizer:

"¡Mas você é um pônei!"

Mas já q isso seria dum mau-gosto abismal, ninguém se arrisca. Assim, é preciso q um Caco Galhardo coloque a coisa numa perspectiva, digamos, mais metafórica. E por isso, repito, merece bem merecido, e não mais q, uns tapinhas nas costas e uma noitada num puteiro.

Ainda há a questão do pônei em si. Pois ¿há algo de errado ou ruim ou vergonhoso em ser pônei? Pelo contrário, por dois motivos. (1) O pequeno-pônei é o default do ser humano. Todo mundo é pônei em quase tudo. Já vi o PCoelho tentando filosofar e posso dizer q não é a praia dele. E ¡me poupem de ver o cara dançando balé! Quem já viu o Ozzy no seriado, sabe q ele é pônei em tudo menos em beber da própria fama. ¿Que dizer de Nietzsche, q se sentiu o próprio pônei depois q caiu dum cavalo e não pôde virar soldado? ¿Que dizer de Tchaikovski, q ao q consta era tão bem dotado qto um pônei comparado a um garanhão? (2) O mais importante é q todo chet-baker começou como pequeno-pônei, mas teve a sorte de desejar aquilo em q seu talento natural e suas circunstâncias desembocavam. Assim, não há nada de errado ou intrinsecamente ridículo em alguém almejar, sonhar, sofrer influências e trabalhar feito um cavalo pra encontrar o próprio caminho. O ridículo, o ataque hipoplausibilético, é guiar-se pelos outros, deixando as rédeas do focinho nas mãos do chet-baker de ocasião.

E ¿que dizer de Lula, q é acusado diariamente de ser um pônei da gramática e está pouco se lixando porque se recusa a carregar a cheta-baker q é a norma culta (NoCu, segundo eu) até um deserto q ele jamais poderia chamar de Lar? Certo está ele, pois apesar do q dizem os pôneis da NoCu, ninguém fala errado a própria língua. Os críticos desse aspecto do Lula são os q promovem a idéia do Brasil como um país-pônei, uma nação de expatriados, uma imitação de pátria. São os q querem o Brasil todo pedindo a um chet-baker "me ensina a ser desenvolvido como vc" e o chet-baker dizendo "tá bom, tá bom, mas é um loooongo caminho."

Merecem gargalhadas (nem estéticas nem extáticas).

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

15 fevereiro 2006

A pergunta calada

A mulher de Martin Luther King, Coretta Scott, faleceu semana passada. Na ocasião da morte por assassínio de seu marido, ela fez uma pergunta q, por ironia do destino, só chegou aos ouvidos de nosso escorado doutor após a morte dela. Q descanse em paz, pois sua pergunta, feita num momento tão dramático, pode finalmente ser respondida.

Q: How many men must die before we can really have a free and true and peaceful society?
A: Will 6.5 billion do?

(Tradução:
P: Qtas pessoas precisam morrer pra q a gente possa realmente ter uma sociedade livre, correta e pacífica?
R: 6,5 bilhões já dá?)

12 fevereiro 2006

Pentacampeãs

Pra quem não o conhece, às vezes é difícer se concentrar num filme com o Dr Plausível ao lado. Parece q ele ri nas horas erradas e não está entendendo nada. Mas nisso ele é q nem os loucos: não é q eles não estão entendendo; é q estão com a atenção em outra coisa.

Sesdias, nosso emoldurado cientista estava num cinema vendo os trailers, e eis senão q lhe aparece um dum filme chamado, acho, Mulheres do Brasil, q entrelaça as histórias de "... cinco mulheres de todos os cantos do Brasil...". Aí não deu...

HAHAHAHAHAHARHARHARHAR

¿¡¿Cinco mulheres de todos os cantos do Brasil?!?

¿De onde esse pessoal tira essas coisas, Casimiro?

09 fevereiro 2006

O cartum humano (2)

Os dogmas das três religiões do deserto são das manifestações mais engraçadas do ser humano. Tipo "não comerás carne na Semana Santa", "rasparás a cabeça de tua mulher", "não representarás graficamente a figura de teu profeta", essas coisas. São engraçadas porque, fazendo um raciocínio reverso, é fácil descobrir como, a partir dum estorvo ou duma situação excepcionais, os originantes desses dogmas criaram uma regrinha patente e obviamente ad hoc q, por ter resolvido um problema fortuito, foi investido de autoridade e tradição pra todo o sempre e mais três dias.

E foi num desses raciocínios reversos q o Dr Plausível de repente caiu numa gargalhada q foi ouvida a dois quarteirões (eu sei disso pq eu estava a dois quarteirões qdo ele riu). A pergunta q se fez foi a seguinte:

P: ¿Por que será q os muçulmanos proíbem a representação gráfica de seu profeta?"

R: Ele devia ser feio pacas.

(Aliás, aos apressadinhos é oportuno avisar q nem eu nem o Dr Plausível temos qqer preconceito contra gente feia, tal como fica claro na palestra cujas duas primeiras partes eu transcrevi aqui e aqui. Se algum muçulmano, ao ler o exposto acima, se ofender, pode com razoável certeza culpar a si mesmo por ter um abominável preconceito contra gente feia a ponto de achar q a suposta feiúra de seu profeta pudesse ser motivo de vergonha, censura ou indivinidade. ¡Vê se te manca, mano!)

(Outraliás, os apressadinhos q considerarem o texto acima insultante por outros motivos, devem ser informados de q as três religiões do deserto, cada uma a sua maneira, ganham de lavada e empatados o "concurso de organizações mais insultantes do planeta", tal como analisado pelo Dr Plausível aqui. Então, olhem-se no espelho e atire a primeira pedra quem nunca tiver insultado os agnósticos e os ateus.)

04 fevereiro 2006

O cartum humano

Não é à toa q nosso escolado doutor é agnóstico radical. Primeiro, porque os agnósticos radicais gargalham muito mais q os ateus. Segundo, porque seguir uma religião qqer seria quase equivalente a ter um atestado de esquizóia, um baita dum calo em cada pé e uma carteirinha de pugilista aleatório – ou seja, coisas de pessoa q, pra se defender contra ferimentos imaginários, sai repartindo porrada: nas clínicas Dr Plausível, esse tipo é alojado na ala dos "Contumazes".

Cada época tem sua religião pentelha. Já tivemos os faraócios, os cri-cris, estamos quase saindo dos jujubas, e agora, no começo deste século, sobrou pros muças. Esses implicam até com senso de humor. Alguém tem q pedir a eles q por favor façam uma listinha de tudo q não se pode fazer no resto do mundo, do mesmo jeito q em outras épocas teriam sido bem-vindas outras listinhas – dos cristãos e, até recentemente, dos judeus (¡ó não! ¿ainda não pode isso?).

Talvez ajudasse se alguém levasse os muças a um cantinho e lhes fizesse umas perguntinhas, só pra evitar mal-entendidos. Tipo:

¿Posso entrar de calção em bar de esfiha?
¿Posso usar algarismos arábicos pros versículos do Torá?
¿Posso perguntar se Maomé tinha meleca?
¿Posso cantarolar "Alá, meu bom Alá" em ônibus vazio indo prà Bahia?
¿Posso fazer trocadilho com Mao-Mé-Tung em jornal de Cuiabá?
¿Posso trocar uma letra em meu bidê Deca?

Por favor, diz aí, quebra esse galho.

Pois o amusement do doutor é bem compreensível. Tudo bem q uma religião condene aos infernos um seguidor q pisa na bola. Mas ¡¿condenar um não muçulmano por fazer algo q um muçulmano não pode?!

¡¡¿¿UÉÉÉÉÉÉÉ??!!

02 fevereiro 2006

"Pouco" é pouco

Qdo fica entediado esperando pacientes, nosso encomioso Dr Plausível às vezes dá um rolê pela internet pra ver como estão as coisas. É bom q não esteja comendo ou bebendo nada, porque é bem possível q a tela do puter leve um esguicho de suco de toronja ou uma saraivada de farofa.

Sesdias, foi a vez do iogurte desglotir-se sobre o teclado. O doutor estava dando uma bizoiada no site de ensino de inglês da Voice of America. Tem uns artigos em texto facilitado e áudio marcha-lenta pra estrangeiros entenderem e estudarem. É óbvio q, sendo o site estadunidense, os textos vão teimar em fazer pouco da inteligência do estudante estrangeiro de inglês (qdo na verdade... ãã, deixa pra lá). O culpado pela perda total do teclado foi o seguinte título de artigo:

Geena Davis Is Not Really a President, but She Plays One on TV

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA...

¡¡¡Vai fazer pouco assim dos outros lá na Implausolândia!!!