27 dezembro 2006

¡Êta náusea!

No quesito eutanásia, esses dois últimos anos foram duma hilariância fora do comum, q promete aumentar nos próximos tantos. Primeiro foi aquele imbróglio todo com la Schiavo na Flórida, e agora esse com il Welby na Itália. Apesar do pesar e profunda condolência de nosso excomungável doutor, ele esparrinha os brônquios de gargalhar daquela gente toda q se opôs à morte dos dois. O hipoplausivírus faz a mesmíssima pessoa insistir q la Schiavo tinha o direito de viver, e q il Welby tinha a obrigação. HAHAHAHAHAHA

Tem q estar com o cocuruto muito esculhambado pela hipoplausibilose pra achar q deve-se preservar uma vida humana em qqer situação. Mas milhares de hipoplausibiléticos terminais acreditam e militam em favor de manter uma pessoa viva indefinidamente plugada numa engenhoca.

Muito pró-vida é gente q não pensa. Cinqüenta anos atrás, qqer organismo q não se mantinha vivo autonomamente batia as botas e fim de papo. Hoje é possível deixar um coitado pendurado entre a vida e a morte durante décadas. Mas ¿essa moda vai parar quando? Daqui a cinqüenta anos, talvez seja possível manter um trouxa vegetando durante outros cinqüenta, cem, duzentos anos, esperando q caia do céu a cura prà doença q o deixou ali com cara de marmelo. E aí? ¿Tira da tomada quando? ¿Os pró-vidáquios vão dizer q nunca? ¿Q o coitado tem direito, q o trouxa tem obrigação de viver cinqüenta anos naquela monotonia?

E outra: tal como em outras questões onde se disseminam opiniões tronchas, o problema é a percepção errada da ESCALA das coisas. O número de coitados plugados vai crescer: a população vai aumentar e vão aparecer novas técnicas de descolar uns trocados com a sobrevida de pacientes terminais. E aí? ¿Q tal, em vez de um caso por ano, uns cinco casos? ¿Q tal uns dez casos por ano? Hm? ¿Q tal mil? ¿Q tal proporcionar atendimento médico integral a 100% da população mundial, de modo q 6 BILHÕES de pessoas tenham acesso irrestrito à sobrevida mecanizada, indefinidamente? ¿Como ficam os "princípios morais universais"?

Nessa questão, é tão grande a burrice na posição dos pró-vidáquios, das religiões envolvidas e da legislação, q o Dr Plausível às vezes desconfia haver outras coisas em jogo. Todos eles sabem q o pulmão artificial e outras engenhocas interferem no q eles chamariam de "vontade divina". A burrice aparente pode na verdade ser apenas uma desonestidade intelectual pra manter a fachada duma primazia moral. Aí o Dr Plausível suspende o tratamento. Qdo o afã da primazia moral causa um coma intelectual, só dá pra acordar levando umas palmadas.

10 dezembro 2006

O xeno-bodismo

Qdo nosso equacionante doutor ouviu dizer q tinha um filme euaense de terror rodado no Brasil, foi logo avisando: filme de terror só tem gente burra tomando decisões idiotas; muito filme de terror euaense vira comédia ou soft-porn; e dada a tradição brazuca de Zé do Caixão e pornochanchada, então já viu, né? Nada pra levar a sério.

No entanto, sabe-se q patologias consistentes com neuro-distúrbios hipoplausiviro-sindrômicos regularmente se evidenciam em grupos humanos deficientes em casca grossa. A síndrome causa uma imuno-deficiência contra exo-ataques, reais ou imaginados, de xeno-bodismo (uma outra e ligeiramente diferente síndrome hipoplausivirótica, q consiste em usar um estrangeiro como bode-expiatório de problemas q um nacionalista não quer ver atribuídos a si).

Ano passado, por exemplo, houve um surto hipoplausibilético no Uruguay qdo impulsos aleatórios dum diretor euaense qqer dum filme de quinta categoria resolveu dizer q o vilão-mor do filme era o presidente uruguayo. A reação de alguns uruguayos é um bom benchmark pra interpretar o surto esperado no Brasil. Leia aqui uma amostra do q é capaz o hipoplausivírus. O filme pode ser o mais fétido lixo, mas tem sempre alguém q consegue remexer o lixo pra se consolar.

Na literatura e no cinema, são comuns os refunfos entre o produtor de xeno-bodismo e sua vítima. Exemplos recentes são Gosford Park de Robert Altman e Match Point de Woody Allen – filmes q poderiam muito bem ter sido locados nos Euá mas não foram, pq filme em q a polícia euaense é ridicularizada não dá muita bilheteria lá. De fato, quase todo seriado policial euaense tem um episódio em q o Columbo ou o Kojak da série vai de visita à Inglaterra e lá resolve um crime em q a polícia local iria cometer o erro absurdo de indiciar um inocente, caso não estivesse ali o sagaz e espontâneo detetive euaense. Ou seja, só dá pra confiar na polícia da Inglaterra qdo o Columbo passa férias lá.

Não seja por isso, diria o britânico. No livro When in Rome de Ngaio Marsh, o detetive Alleyn da Scotland Yard está presumivelmente em férias na Itália, mas ali consegue não só descobrir quem é o assassino mas, por considerar moralmente justificável o assassinato em questão, consegue também ocultar sua descoberta, enquanto a polícia italiana idiotamente incrimina a pessoa errada q, felizmente, morre atropelada antes q a interroguem.

Mas não é só de crimes e conspirações q vive a produção xeno-bodista. O sexo é usado subliminarmente a toda hora pra cutucar o estrangeiro. Em filme euaense de guerra em país estrangeiro, se um soldado se deixa envolver por uma mulher nativa, ele está com os minutos contados: morre mesmo, sem perdão. Se ele é o herói, não se deixa envolver: só come. A sempre suposta superioridade do homem em relação à mulher é um clichê subliminar dos mais usados. Um filme britânico recente chamado Love Actually (q passa na tv a cabo regularmente como Simplesmente Amor) mostra oito histórias de amor em q todos os homens são britânicos mas nem todas as mulheres são: ou seja, inglês pode comer estrangeira mas inglesa não pode dar pra estrangeiro. Isso fica ainda mais patente pq, na única história em q o homem não consegue comer a mulher, ela é inglesa e o cara é interpretado por um ator brasileiro – q, aliás, só foi escolhido pro papel pra compensar uma piada feita no começo do filme: numa festa de casamento, conta-se q convidaram umas prostitutas brasileiras pra uma despedida de solteiro, e acabaram descobrindo q eram todas travecos.

Os uruguayos também são dados a alfinetadinhas. No livro Gracias por el fuego do uruguayo Mario Benedetti, o personagem principal é um agente de viagens contratado por um casal euaense. Enquanto o marido empresário faz negócios pra explorar o país, o agente come a mulher dele. Mas era tão baixa a auto-estima dos uruguayos durante a ditadura militar, q o agente de viagens se suicida no final.

Q o brasileiro não tem muito tutano pra essas coisas fica evidente em filmes como Bossa Nova de Bruno Barreto, no qual apesar de o brasileiro comer a euaense, também tem uma história paralela em q um euaense come uma brasileira, e outra em q um romance totalmente nacional não se consuma.

O próprio cinema daqui dá um faux-pas desse tamanho no protocolo xeno-bodista, e ¿depois vem brasileiro reclamar qdo os outros abusam? ¡¿Uééé?!

08 dezembro 2006

Bolas

¿Já viram aquele anúncio da bola? Teressantíssimo, não? Nosso expansivo doutor ficou grudado na telinha feito criança vendo RaTimBum. É simplesmente uma bola de futebol q cai duma prateleira num depósito e vai rolando sozinha por calçadas, escadas, vai rolando rolando pelas ruas da metrópole; parece ter vontade própria , enquanto abre caminho entre pombas e desce comportadinha uma escada rolante, &c. "¿Onde será q vai parar?" é a pergunta q não quer calar durante um minuto inteiro. "¡Oh, qto suspense!"

O anúncio é magistral, diga-se de passagem; muito bem realizado. Está de parabéns, a produção.

Só q... ãã... A bola termina dentro duma casa, embaixo duma cama. Vem um menino, pega e sai brincando com ela. O eslôgã é: "Submarino: 700 mil produtos q vão até vc."

Tá certo q eles vêm. Mas... Mas... Devem chegar num estado la-men-tá-vel, não?

HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Pois raciocine comigo, dona-de-casa: ¿não parece q no depósito da Submarino ninguém cuida pra q as coisas não caiam das prateleiras?; ¿não parece q o consumidor é visto como um portador de sangue-de-barata ao aceitar uma bola q passou por escadas visivelmente sujas, áreas salpicadas de cocô de pomba, ruas de SPaulo obviamente cobertas de fuligem, &c?; e ¿não parece q, mesmo q o consumidor receba um produto em bom estado, ele tem q pagar mais pra compensar o prejuízo por produtos q caíram de prateleiras e desapareceram por conta própria do depósito? Pois é. Mas essas são coisas q só o Dr Plausível percebe conscientemente, porque ele é chato.

Nhé nhéé nhééé.

03 dezembro 2006

Riso Kolinos

Se vc já:
(1) achou (com razão) q não deveria haver anúncios na tv paga
ou (2) reclamou de anúncios obviamente criados em outros países
ou (3) achou os anúncios da Colgate meio boçais,
aqui vai um método pra fazer a Colgate pagar um mico, e de lambuja fazer rir teu filho, teu cônjuge, teu amante ou qqer pessoa presente.
 
Material necessário:
(1) tv paga
(2) controle remoto
 
Método:
(1) Qdo estiver vendo tv acompanhado de alguém, vc espera passar um anúncio do creme dental Colgate em q uns modelos obviamente insinceros falam de problemas bucais antigos sanados pelo dentifrício q lhes pagou o cachê.
(2) Qdo aparecer um reloginho, vc põe o aparelho no 'mute'.
(3) Espera. Vai aparecer de novo o/a modelo/a falando.
(4) Logo aparece a caixinha do creme dental, e os dizeres "A escolha dos dentistas." (eslôgã obviamente traduzido do anúncio original euaense). Qdo aparecer, vc conta 2 segundos bem contados e diz, do nada:
(5) "Minha bunda tá ardendo."
(6) Imediatamente, vc desmuta o aparelho pra q todos ouçam a última fala do/a modelo/a.
 
Sucesso na certa. É assim q o Dr Plausível se diverte vendo tv.
Triste, não?

24 novembro 2006

Mordem e professam

Sesdias, távamos o Dr Plausível e eu ouvindo rádio num táxi, qdo, numa entrevista entre um entrevistador e um entrevistado, este me sai com esta:

"...e a exploração e a repressão continuam mais ou menos as mesmas. ¿O q esperar dum país cujo lema é 'Ordem e Progresso'?"

O entrevistado, lògicamente, viu 'repressão' em 'ordem' e 'exploração' em 'progresso'. Nosso epistêmico doutor, lògicamente, sorriu seu benévolo sorriso walterbrennan. Muita gente – na verdade, muuuuuuuuita gente – no Brasil, tem uma idéia totalmente errada do q significou, significava e portanto significa esse lema, o chamado 'dístico' da bandeira nacional. Gente esquerdosa o critica por ser positivista, sem realmente saber o q critica; gente direitosa o elogia por ser utilitarista, sem realmente saber o q elogia. [parêntese cultural: Positivismo e utilitarismo são duas formas de utopismo. O positivista chega e diz, "Êi, tive uma idéia. A gente podia pintar um quadro do mundo ideal, e o q não couber no quadro a gente estigmatiza. ¿Que tal?" O utilitarista responde, "Tá, mas bastava estigmatizar tudo aquilo q não serve pra nada." E haja lixão pra caber tanta coisa.]

Mas continuando, pouquizíssimos brasileiros sabem o q se supõe tar em jogo no lema da bandeira. Por todo o país, ouve-se q "sem ordem não há progresso", q "ordem É progresso", q "ordem e progresso são fatores de união", &c &c et cetera.

O próprio site do governo federal chega a dizer q o dístico "representa cada coisa em seu devido lugar para a perfeita orientação ética da vida social." É capaz q o próprio Raimundo Teixeira Mendes, q sugeriu o lema, resumindo a duas palavras uma máxima de Auguste Comte ("O amor por princípio, a ordem por base, o progresso por fim."), não sacou muito bem no q tava se metendo. Nem se pode dizer, em vista do q aconteceu desde então, q Comte, escrevendo lá por 1850, sequer suspeitasse da enormidade, da funestice, da nefastância do q tava falando qdo usava a palavra 'progresso'.

O positivista Teixeira Mendes disse q "a revolução q aboliu a monarquia no Brasil" aspirava "a fundar uma pátria de verdadeiros irmãos, dando à Ordem e ao Progresso todas as garantias que a história nos demonstra serem necessárias a sua permanente harmonia." E ¡vai ser sonhador lá em Canopus, meu! Clareza já não era seu forte.

A verdade é bem diferente. No positivismo de Comte e no utilitarismo de Mills, colocar as duas palavras na mesma frase era falar de duas coisas opostas, antagônicas e conflitantes, embora igualmente desejáveis. 'Ordem' é o ideal do q hoje se chamaria de 'conservador', e 'progresso' é o ideal do q hoje se chamaria de 'reformista' ou até 'revolucionário moderado'. Mills escreveu q "é quase lugar comum q um partido defensor da ordem e da estabilidade e um outro q defenda o progresso e a reforma sejam ambos elementos necessários à saúde da vida política, até q um dos dois consiga alargar seu entendimento dos fatos de tal modo a se tornar um partido defensor igualmente da ordem como do progresso." [On Liberty]

"Pode esperar sentado," dir-lhe-ia o Dr Plausível.

Achar q 'ordem' e 'progresso' são conciliáveis é coisa de utopista gordo q não enxerga mais a realidade do próprio umbigo. Mas é pior quem vive na espessa névoa das importações resumidas de idéias prontas diluídas pelo tempo – tipo assim, ãã, o Brasil.

Os euaenses estimulam a própria singularidade em seu lema, "e pluribus unum" ("um em meio a muitos"). Os franceses, com "Liberdade, Igualdade, Fraternidade", são mais realistas – se é q se pode chamar de realista quem tem um lema. Já "Ordem e Progresso", pretendendo ser um amálgama utópico de dois bicudos q não se beijam, acaba sendo, no mundo real e inóspito dos interesses díspares, não mais q um convite ao conflito, um estímulo ao desacordo, um eufemismo de "nhaca xexelenta".

E ainda bem q os próprios brasileiros não entendem.
________________

Adendo:
[extraído dos comentários, revisado]

Existem duas interpretações pro eslôgã: a positivista & ingênua original ("são duas coisas antagônicas q deveriam trabalhar juntas") e a otimista & despistada resultante, q tenta enxertar um sentido bom num eslôgã ruim ("são duas coisas complementares"). Se eu estivesse lá na hora em q decidiram enfiar esse eslôgã, teria dito "Ô meu, deixa disso. ¿Ordem e progresso? ¿Vai condenar o país a ficar perpètuamente tentando arrumar a casa e aspirando a um ideal q muda a cada passo?" Prà bandeira brasileira, o povo brasileiro nunca vai estar bem, nunca vai ser feliz, nunca vai ter algum valor intrínseco ou um princípio moral permanente.

Mas em vez de jogar esse eslôgã condicional no lixo da história ou substituí-lo por outro mais declarativo e mais afirmativo, tanto o positivista prescritivo qto o otimista reformulativo tão inconscientemente usando-o pra achar uma desculpa pro tadinho do Brasil q ou é uma bagunça pq não vai pra frente ou não vai pra frente pq é uma bagunça. E só podia dar nisso: em qqer lugar, em qqer tempo, um eslôgã q expresse uma expectativa tão implacável e abstrata, tão insatisfazível e mecânica, só pode acabar virando explicação de fracasso.

Sobre a falácia em acreditar na necessidade de ordem pra se chegar ao progresso, recomendo este texto do Stephen Kanitz.

08 novembro 2006

Azarado

Vejam só esta: um senador tirou de algum lugar recôndito de seu ser a idéia de obrigar cada usuário da internet a fornecer nome, endereço, número de telefone, da carteira de identidade e do CPF ao provedor, e se identificar toda vez q enviar um email, entrar num bate-papo, criar um blogue ou baixar uma música. ¡¡Pena de dois anos de reclusão!!
 
HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA
 
Diz q é pra aumentar a segurança. ¡Vai sê caipira assim lá no mato, sô!
 
QUAQUAQUAQUAQUAQUAQUAQUA
 
O cara não tem idéia da vastidão do q está propondo. ¡É caipira megalômano, inda por cima! Tem uns caras q nem sei, viu?
 
Olha... Se eu não estivesse vivo e consciente e presenciando tudo de q é capaz o hipoplausivírus, eu não acreditaria. Q catso, hem? E os caras ainda querem q o povo pague imposto pra sustentar pessoas visivelmente infectadas e à beira da loucura total e irrestrita...

30 outubro 2006

McLula

Nosso efígico doutor nem ergueu o sobrolho qdo anunciou-se a eleição de Lula. Nem ergueu nem abaixou. Política é um assunto extremamente monótono.

Mas como muito antipatizante do Lula ainda se pergunta como é possível q um notório corrupto &c &c blablabla, o doutor se vê imbuído duma responsabilidade esclarecente.

Muitos anos atrás, qdo o Lula ainda ia prà cama com cheiro de graxa, um artista pobre amigo do Dr Plausível fez amizade com uma outra artista cujo pai era dono dum prédio onde havia duas salas à disposição dela. Sem o conhecimento do pai (acho), a artista ofereceu uma das salas ao amigo pra q ele abrisse um amplo atelier e economizasse o aluguel q já não podia pagar a algum outro explorador. O amigo aceitou e lá se deslanchou. Mas ele não era cego: logo notou a incongruência entre ter sido pobre e explorado e agora estar se beneficiando da exploração de outras pessoas.

E saiu-se então com esta frase lapidar: "Até q enfim o mundo é injusto a meu favor."

Pois é. Mesmo q a corrupção no governo Lula pareça incongruente com sua imagem prévia, mesmo q o Lula seja mesmo um filho da puta de marca maior, mesmo q esteja acompanhado do mesmo tipo de chiqueiro q certamente acompanharia o Alckmin, mesmo q o povão nunca se beneficie em nem um centavo de sua presidência, mesmo assim ele ainda é do povão, é um brasileiro de aparência desleixada, de fala "errada" e voz de bebum. O povão olha pra ele e diz, "Até q enfim o mundo é corrupto a meu favor."

Não é de estranhar: toda vez q o Maluf é eleito, o não-povão olha pra ele e diz, "Kibon, o mundo continua corrupto a meu favor."

Algum tonho logo vai aparecer alardeando a descoberta do "poder do povão" e tentará produzir outros Lulas em larga escala, exatamente como se tentou produzir outros Beatles em larga escala depois da descoberta do adolescente nos anos 60.

E vem aí o McLula.

29 outubro 2006

Incentivo ao crime

Saber ler pode às vezes ser uma grande desvantagem e aposto q os iletrados são menos propensos a certos acidentes do q os alfabetizados. Hoje, nosso esmeráldico doutor quase q cai da bicicleta no meio do trânsito ao ler a frase estampada na traseira, vejam vcs, ¡dum carro da polícia militar!
 
É difícil acreditar q alguém dessa nobre e poderosa corporação tenha tido uma idéia tão... tão... ãã... tão pouco encomiástica à PM. Afinal, são bem conhecidas suas antigas ligações com o SNI... Deve ter sido algum publicitário de baixo orçamento.
 
Bem, deixa pra lá. Vamos à frase q destumbelhou nosso doutor em parlapatalhas pela avenida. Imagine esses carros da PM, com todas aquelas luzes em cima, dois ou três policiais armados dentro, uma ou outra metralhadora no porta-malas e, no vidro de trás, as palavras:
 
"INCENTIVE A DOAÇÃO DE ÓRGÃOS"
 
¿Preciso dizer mais?

19 outubro 2006

E o sol nascerá quadrado...

Ontem, nosso empedernido doutor se espatelou de gargalhar qdo ouviu o anúncio da nova política espacial dos Euá. O documento diz coisas como: "Os Euá preservarão seus direitos, suas potencialidades e sua liberdade de ação no espaço (...) e, se necessário, negarão a seus adversários a aplicação de potencialidades espaciais hostis aos interesses nacionais euaenses."
 
Só isso já é hilário. Mas se vc também lembra q os Euá (1) se recusam a entrar em negociações sobre armas espaciais e (2) já espionam outros países do espaço, então a coisa toda vira uma comédia de doer a barriga.
 
Além do óbvio (q vc, leitor brasileiro, já entendeu), também tem esta: no século 19, o bedelho inglês dava a volta no mundo, e dizia-se q no império britânico o sol nunca se punha. Pois é. Os euaenses (q têm uma invejinha congênita dos britânicos) agora querem estender seu império ao sistema solar, e dizer – com muito mais propriedade, porém mais cinicamente – q em seu império o sol realmente NUNCA se põe.
 
¿Não é de empafuçar as têmporas?

18 outubro 2006

Enquanto isso, na Casa Branca

What we need now is another terrorist attack.
O que precisamos agora é de outro ataque terrorista.
Ou (em português claro) ¿Cadê o bin qdo a gente precisa dele?

05 outubro 2006

eleiloto (2)

Democracia é um feriadão catástrofe. A pessoa vê a sexta-feira chegar esperando descansar, passear, brincar e inteligir; mas aí chove torrencialmente e ela passa o feriadão em casa tirando a lama, o lixo e a merda q a inundação trouxe. Com democracia, não adianta ter esperança. Sempre vai ser um cocô. Com outras formas de governo também; só q o cocô democrata dá pra ir limpando enquanto vai sujando.

Na estação eleitoral, nosso epistolário doutor costuma até passar mal de tanto rir. Mas depois q, como sempre, os maiores imbecis são eleitos, ele fica com dòzinha de quem esperava outro resultado. Por isso, ele às vezes faz seu quinhão de utilidade pública e consola as vítimas da esperancite.

O consolo é ser realista: a hipoplausibilose é inerradicável: somente a gargalhada oferece alívio. É uma ilusão achar q gente de mais tarimba faria diferença no governo. No fundo, é tudo gente e todos falam a mesma língua: os tarimbosos estariam sujeitos a iguaizíssimas condições e às mesmíssimas pressões; portanto tomariam, no fim das contas, exatamente as mesmas decisões.

The world is on auto-pilot and there's a legacy to account for. Sorry. Enjoy.

30 setembro 2006

Eleiloto

Em seu cerne, a democracia tem uma inconsistência insolúvel: espera-se q todo votante decida seu voto a partir da opinião q tem sobre seus próprios interesses; mas o q acontece na verdade é q a maioria (ou seja, a unidade básica irredutível da democracia) deseja ou espera ou supõe q sua opinião seja ao mesmo tempo (1) honrada e (2) consciente.

Só q, em política, honra e consciência (no sentido de awareness) são como água e óleo: não se misturam.

Primeiro, q "voto consciente" é uma maneira de ser trouxa: vc deseja algo q não conhece, pois (a) ninguém sabe o q rola atrás de portas fechadas nas negociações entre candidatos e entre partidos (e, em se tratando de seres humanos, só pode ser coisa ruim); e (b) ninguém tem consciência do futuro, ou seja, ninguém sabe o q vai acontecer; e, pior, ninguém tem consciência do futuro do pretérito, ou seja, ninguém sabe o q teria acontecido se o passado tivesse sido diferente. Voto consciente não existe: é um conto de fadas q os políticos contam pra q o populacho durma e não os fuzile a todos um a um.

Já o "voto honrado", é uma aberração lógica: é desejar q haja honra numa opinião interesseira ou q, no mínimo, não compactue com pessoas reconhecidamente desonradas e q portanto compactua com pessoas ainda não reconhecidamente desonradas. O "voto honrado" é também mais uma manifestação do objetivo primordial de todo ser humano (portanto incluindo igualmente eleitores e candidatos), q é tirar o cu da reta.

Em qqer eleição democrática em qqer situação em qqer época e em qqer país, vc tem três alternativas:

(1) vote nulo sempre
(2) caso vc ache o (1) moralmente errado, vote aleatório
(3) seja trouxa e tente o voto honrado e consciente

(Instruções pro voto aleatório:
-em casa sorteie uma série de números, anotando-os num papelzinho
-na urna, digite ou escreva a série de números sorteados exatamente na mesma ordem)

Os resultados finais de (2) e (3) são exatamente os mesmos. O resultado final de (1) é q vc tem mais tempo pra cuidar da própria vida.

17 setembro 2006

O português é tão bom qto suas palavras

A gargalhada homérica de nosso empanturrante doutor às vezes fica meio cansada. É chato ouvir a mesma piada dez vezes por dia. Por isso, sempre q começa aquele reclame do TSE falando da importância estratosférica do voto, o doutor muda de canal. Se aparece num outdoor, ele olha pro outro lado da rua. Se toca no rádio, começa a cantar "xô xuá".

Pois, catso, se o Tribunal Superior Eleitoral do Brasil resolve informar o povo brasileiro sobre as eleições dum presidente brasuca pra governar o Brasilzão, ¿por que caralhos utiliza um eslôgã patentemente, obviamente e descaradamente surrupiado, imitado e bestamente traduzido duma expressão corriqueira do inglês q nem sequer é totalmente compreensível em português?

"O Brasil é tão bom quanto seu voto" é a língua oficial do Brasil pegando no tranco; é a cultura brasileira pastando grama q não digere.

E se até o eslôgã da eleição é entreguista, ¿sobra o quê?

06 setembro 2006

Escroto nulo

Nosso enternecido sábio sempre dá risada na cara de quem tem "altos ideais". O termo "alto ideal" já tem um quê de derrotista e ofensivo. Mas também pode ser usado tanto pra manipular o populacho – tipo como se faz com 'esperança' –, como pra falar bestices pelos cotovelos e parecer profundo.

Em época de eleições, sempre brota incontrolada uma campanha contra o voto nulo. O argumento principal é q o voto nulo favorece quem já tá no poder.

Pode até acontecer, tal como no caso de gente atacada de hipoplausibilose q vota nulo em protesto contra o governo em exercício. Tem q ser muito tapado pra achar q o voto nulo vai prejudicar quem tá no poder ("¡Ai q infortúnio atroz! ¡Tem gente não gosta de mim! snif snif").

Mas há inúmeros outros motivos pra se votar nulo. Aliás, se essa gente q desdenha do voto nulo realmente acreditasse em democracia, deixava os nulovotantes em paz. "Quero votar nulo. ¿Dá licença!"

Mas a verdade verdadeira é q os campanhantes contra o voto nulo nunca se dignaram à consultar o Dr Plausível.

Eleição democrática nunca foi nem nunca será um "sufrágio universal": é uma espécie de estatística. Evidência disso é q nem toda a população pode votar. Portanto, é uma amostragem: uma amostragem dum corte temporal; sempre foi, desde muito antes do "um voto por cabeça". Então, ¿que diferença faz o voto nulo, se na população como um todo os nulovotantes tão distribuídos uniformemente, tal como certamente tão? Suponhamos: numa população de 1000, o candidato X é eleito por 500 votos contra 400 pro candidato Y; 100 votos foram anulados. Agora raciocine: estes 100 nulos não fazem a menor diferença, visto q a preferência do eleitorado tá claramente demarcada em 5:4 pro candidato X. Caso não houvesse nulovotantes, o X teria ganho da mesma forma, só q por 555 à 444.

Sobra 1 voto, certamente do Dr Plausível, q vota nulo em qqer circunstância.

02 setembro 2006

A inteligência emocional do peixe

Sesdias, um desses telejornais locais (nem me lembro qual) pichou nas telinhas uma reportagem sobre a profissão de peixeiro. Té aí, tudo bem. Cada um na sua.

Té aí. Só q o repórter perguntou a uma senhôra qual característica deveria ser valorizada num peixeiro. A dona-de-casa não vacilou:

"Ah, peixeiro tem q ser comunicativo, né?"

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Mas ¿q é q deu nessa gente? Vcs podem achar q a declaração estapafúrdia não é muito relevante, já q pode simplesmente ter partido duma pessoa estapafúrdia. Mas o Dr Plausível viu lá de longe q se tratava duma pessoal normal – e isso mostra q o vírus da hipoplausibilose pode já ter empastelado os miolos de toda a população feito papa de bebê.

Pois vejam bem: jendia, apenas com o besteirol pichado diariamente na imprensa, uma dona-de-casa pode filtrar e destilar milhares de minhoquices sobre "liderança", "gerenciamento pró-ativo", "inteligência emocional" e o baralho a buatro, e sair-se com uma pérola q faria um teórico das relações humanas beijar seus pés e pedir colinho.

Jendia, qqer empresa faz testes de sociabilidade pra ver se um candidato é "comunicativo" e "pró-ativo" e o cacete. Logo-logo, um peixeiro de primeira linha talvez não consiga emprego por não olhar nos olhos do entrevistador e não desenhar uma pizza redondinha "q represente sua personalidade". Bleargh.

Essas receitas prontas de sucesso vêm transformando o mundo num cocozão, ¿não é verdade? Admite.

26 agosto 2006

Bafômetro de anúncios

Fumar é uma das atividades mais sem sentido em toda a história do universo. É mais mentecapta q usar gravata, mas não é tão descerebrada qto enfiar a cabeça na privada toda vez q morre uma pomba. O Dr Plausível só não ri de fumante por educação. E um pouco de dó, eu diria.

Todo fumante deve ter um pé na adolescência, qdo o vício tomou conta de seu ser. Deve ser por isso q anúncio de cigarro é tão boçal. Produto boçal: anúncio boçal. E não só boçal mas, ultimamente – com a obrigatoriedade de exibir aquelas fotos de advertência com gente morta, morrendo ou nem nascida –, tbm visivelmente troncho: bolar slogans pra cigarro deve ter virado trabalho de estafeta nas agências. Pois vejam estas pérolas:

Slogan: "IMAGINE-SE"
Foto-advertência: bebê prematuro, entubado, às portas da morte
Único Comentário Plausível: "Tá, já me imaginei. Bleargh."

Slogan: "UMA INSPIRAÇÃO."
Foto-advertência: paciente com câncer de pulmão
ÚniComPlau: "Cóf cóf."

Foto: fósforo fumegando
Slogan: "TODO PRAZER TEM UM COMEÇO."
Foto-advertência: sujeito com as pernas amputadas devido a trombose por tabagismo
ÚniComPlau: "Começa num fósforo e acaba numa trombose."

Slogan: "O SABOR ORIGINAL EM NOVA EMBALAGEM."
Foto-advertência: feto mal-formado num jarro de formol
ÚniComPlau: "¿Quitutes canibais?"

É de se perguntar se sequer passaram num vestibular os caras q bolaram essas pérolas de padaria. Pois (raciocinemos juntos), se o publicitário sabe q seu anúncio pode aparecer junto duma foto dessas, ¿por que não toma cuidado? Aliás, não sei por quê fabricante de cigarro não desiste de vez. Esse pessoal já é mal visto por vender veneno embalado como charme; ainda por cima fazem lobby pra liberar geral, e traquimóias do tipo. Alguém tinha q chegar de mansinho por trás e, com o hálito puro como de bebê recém-mamado, falar baixinho, como a voz da consciência: consulta o Dr Plausível, cara.

21 agosto 2006

O caminho de volta

Sesdias, os jornais publicaram em primeira página um comunicado conjunto de várias associações de veículos de imprensa (ANJ, ANER, ABERT, ABRA e ABRATEL). O comunicado trazia o título "BASTA À VIOLÊNCIA" e dizia todas essas coisas q ultimamente (há várias décadas) se ouve em qqer conversa de botequim entre cidadãos pautados por um civilizado respeito à lei e à ordem, ao patrimônio alheio e às instituições democráticas.

(Hm. Aí já apareceu algo incôngruo; mas continuemos.)

O Dr Plausível não é de ficar amarrando cachorro em poste pra ver se ele se enrosca, e acho q o pessoal dessas associações tbm não. Pois, dado q nosso epistolário sábio pratica há muito o saudável hábito de ler nas entrelinhas, não admira q levantasse as sobrancelhas ao ler o interessante texto. Pois... Bom, ué, ¿a violência não é praticamente um belo dum ganha-pão pra essa turma? Além dos médicos e das firmas de segurança, ¿a imprensa não lucra diariamente com a criminalidade? ¿não podemos até mesmo dizer q a promove, transformando suas primeiras páginas em troféus q os bandidos emolduram e penduram nas paredes de suas celas ou de suas mansões? Mesmo descartando essas perguntas exageradamente cínicas, ¿a violência dos últimos meses por si mesma justifica um comunicado conjunto dessas associações na primeira página de todos os maiores jornais? Se não, ¿de onde então surgiu a idéia? Aparentemente, foi aquela história do seqüestro do jornalista; mas não foi TÃO sério assim, vai.

Hmm.

A resposta está, como sóe ocorrer, no último parágrafo (grifos meus):

"Os meios de comunicação, unidos, na sua sagrada missão de informar e garantir a liberdade de expressão, cobrarão veementemente, dos atuais e futuros governantes, soluções eficazes na defesa da sociedade brasileira."

Hmmm... ¿Por que essa repentina bravata implícita em "unidos"? ¿Por que essa repentina preocupação com a liberdade de expressão? ¿Quer dizer q já tem alguém cerceando ou tentanto cercear a liberdade de imprensa? E ¿quem seria? Vejamos, tem os bandidos, a polícia, os... as... ããã Acho q é só.

Hmmmm.

17 agosto 2006

Pluça plange, plucélamémi pose

Muita gente odeia o Dr Plausível. Especialmente qdo há greve de metroviários. Os carros todos quase engavetados, verdes de inveja seguindo com os olhos nosso espevitado doutor q passa de bicicleta pelos vãos da mornança, pelos interstícios da mangação. Digo 'mornança' e 'mangação' pois, pô, vai do norte ao sul do Brasil, do norte ao sul do mundo, a imperdoável omissão das forças trabalhadoras em consultar nosso euforizante humanista.

Grevista é um sujeito q não pensa. Pois veja bem. Ele acha q a maior virtude da greve é a de ser um exercício de direitos: o de não trabalhar caso não esteja satisfeito com as condições e o de reclamar publicamente pra conseguir uma modificação nessas condições. Hmm. So far, so good.

Mas... mas... ¿Vcs já perceberam q, no preço dum saboroso abacaxi num supermercado, estão embutidos o custo dos abacaxis q encalham e apodrecem, o custo dos abacaxis q são roubados, e o de outros abacaxis perdidos de alguma forma? Qdo vc compra um abacaxi, vc está pagando não só pelo abacaxi q consome mas tbm paga um rateio de todos os outros q se perderam. Os abacaxis q serão comprados são um fundo de garantia contra as perdas. E esse fundo existe mesmo q não haja perdas.

Assim como o consumidor sabe q paga um preço compensado pelo abacaxi, tbm o grevista sabe q o empregador está lucrando mais do q o empregado. Um mecânico pode começar a trabalhar por um salário X numa empresa pequena, e 15 anos depois, qdo a empresa já quadriplicou de tamanho, ele continua ganhando X. O q o grevista não sabe, mas desconfia, é q uma parte do lucro 'excedente' do empregador é exatamente um fundo de garantia do empregador caso haja prejuízos causados por greves e caso ele tenha q satisfazer reivindicações de aumento. O dinheiro do aumento já está lá guardadinho, esperando por uma greve. O grevista desconfia, e então chora pra mamar. So far, so good.

Mas... mas... A coisa q o grevista não percebe é q, enquanto ele esperneia e grita com hora marcada "quero mais dinheiro", "quero mais direitos", &c, e acha q está fazendo uma declaração de poder, a mensagem q o empregador recebe é simplesmente "quero continuar trabalhando pra vc, ¿vc deixa?". E essa é uma mensagem q ele adora ouvir: pois, apesar de dispor dum fundo de garantia monetário em caso de greve, ele precisa acima de tudo duma garantia de trabalho após a greve. E o funcionário, ao fazer greve, admite e garante publicamente sua dependência e subserviência ao empregador. Ou seja, a greve não é declaração de poder e sim de fraqueza.

A greve é a domesticação do trabalhador indignado. O grevista é o abacaxi q garante sua compra ao supermercado.

Melhor seria se, em vez de fazer greve, o trabalhador pedisse demissão duma situação na qual certamente não está contente; melhor ainda seria se os trabalhadores TODOS dum ramo tivessem culhões pra se demitirem em uníssono. Aí os empregadores iam se borrar. O Metrô, por exemplo, mesmo q improvavelmente achasse possível conseguir preencher as vagas todas com outros trabalhadores em 1 semana, saberia q levaria meses pra se recompor. Logo, todo empresário teria q deixar de lado essa balela do "crescimento da empresa", pegar o dinheiro q agora guarda pra gastar em reinvestimentos, e com ele aumentar os salários e melhorar o padrão de vida de seus funcionários.

Logo viriam os tom-peterzinhos querendo evangelizar os demissionários, "poxa, ¿vcs querem destruir a empresa q foi seu sustento durante tantos anos? vcs têm q vestir a camisa, poxa."

A resposta a isso, obviamente, só pode ser, "Foda-se tua camisa. Foda-se o crescimento da economia. Quero meu bem-estar agora." Se essa possibilidade não é pelo menos aventada, então ou os grevistas têm meio cérebro, ou a greve em si não passa dum jogo cínico com jogadores cínicos em ambos lados.

14 agosto 2006

Adilson Catarrino

Uma amostra dos efeitos nefários da NoCu sobre a inteligência² é o trabalho de gramáticos como o Prof DilsonCatarino – um trabalho árduo, paciente e não recebedor do correto grau de respeito q lhe caberia, fosse este um mundo justo. (Não é a primeira vez q o DiCa é mencionado aqui. A primeira menção foi num comentário de leitor a este artigo.)

Esse professor escreve pro UOL esclarecendo 'dúvidas' de gramática portuguesa, e tbm tem um site próprio bem estruturado em q dirime direitinho e iluminantemente várias inquietações ortográficas, distúrbios regenciais, aflições concordânticas e moléstias prepositórias.

Às vezes ele até extrapola.

Tal como numa de suas "pegadinhas gramaticais": criticando a frase "antes que tudo exploda", labirintou-se por "verbos defectivos" e "formas rizotônicas" até concluir q o "correto" é dizer... (difícil não rir) ... "antes que tudo estoure" HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA... O DiCa, tal como deixou transparecer na resposta q deu a meu leitor, parece não ter muito apreço por senso de humor.

Outra "pegadinha" critica a frase "É preciso tornar mais rigorosas as normas e os critérios". Após uma explicação desfilando uma série de se-isto-então-aquilos, falando de "elemento acessório" e outros badulaques, ele "corrige" a frase pra "É preciso tornar mais rigorosos as normas e os critérios", q soa exatamente como eu: feio, chato e pobre.

Pra responder muitas 'dúvidas' de leitores, basta fazer o q eles não fazem: olhar num dicionário. Mas algumas são questões gramaticais de leitores desorgulhados e desenganados pela NoCu pedindo a alguém q lhes ensine a falar a própria língua. Por exemplo, respondendo a uma 'dúvida' de leitor, o DiCa diz q o "correto" não é dizer "Este sanduíche está delicioso. Você está servido?", mas "Este sanduíche está delicioso. Quer experimentá-lo?" HAHAHAHAHAHAHAHAHA

Pro Dr Plausível, é evidente o q acontece na cachola do DiCa: ele deixa as regras pensarem por ele; ou seja, ao meditar sobre a língua, ele não PENSA. Vejam este exemplo:

Uma leitora pergunta qual é a frase correta:
Por favor, ao passar, manter a porta fechada. ou
Por favor, ao passar, mantenha a porta fechada.

Após vários exemplos de imperativo e infinitivo, ele conclue q "as duas frases apresentadas estão adequadas ao padrão culto da língua".

¡Só se for língua de autista, meu caro! Pois tem q usar um olho muito obtuso pra não ver q, se vc mantiver a porta fechada ao passar, não há como passar. Em vez de analisar o q frase DIZ, o NoCulto se perde nas mirabolâncias q toda regra vai acumulando q nem ferrugem. Alguma porta certamente se fechou, pois nem sequer passou pela cabeça do culto gramático corrigir a frase pro claro, simples, direto e inatacável

Depois de passar, por favor feche a porta.

Não. Gente culta tem q parecer culta. E cultura é uma espécie de complexidade, não é? Então pra quê simplificar se vc pode complicar e parecer culto, ¿não é verdade? (Já deve ter alguém reclamando de meu "pra quê"...)

O DiCa não é um caso único q o Dr Plausível resolveu de repente espezinhar maldosamente. Não. Ele é um exemplo. É um cara ajuizado, digno, com preocupações honestas e diligência exemplar. Só q totalmente despistado. A fazeção de cabeça pela NoCu resulta em milhões e milhões de brasileiros como ele desperdiçando tempo com a forma e deixando o conteúdo à mercê de males sinistros e insidiosos tal como a inexplicitez e a falta de distinções do português, o vírus da hipoplausibilose e a metonímia elíptica.
________________

Resta explicar o título deste artigo, q é o nome "correto" do DiCa, segundo a Norma Culta. Primeiro q 'Dilson' não existe. 'Dilson' é uma metanálise, ou falsa segmentação com aférese, de 'Adilson'. Já 'Catarino', está obviamente errado, pois português não é russo – língua em q o sobrenome varia em gênero de acordo com o sexo de seu dono: ¿vai me dizer agora q o 'Dilson' tem uma irmã chamada 'Délia Catarina'? Não. 'Catarino' é uma corruptela do nome da nobre e já esquecida profissão de caçador de rinocerontes, ou 'caça-rinos'. Por aglutinação e nordestização, o nome virou 'catarrinos', e hoje, após um processo de preguiçação, grafa-se 'catarrino', forma reconhecida como correta pelo padrão culto da língua. É isso.

02 agosto 2006

A aspa do negócio

Talvez vcs não saibam, mas o Dr Plausível é absolutamente contra a permanência e o uso de carros particulares nas cidades. Nesta em q reside, ele se locomove com facilidade (e com freqüência mais rápido) a pé, de bicicleta, de táxi, de ônibus e de metrô. Se dependesse dele, os carros particulares seriam vehiculum non gratus nas cidades, e foda-se a economia.

Só q um inconveniente dessa restrição seria q, aumentando-se o transporte público, ¿o q aumentaria junto? Logicamente, os anúncios. Jendia, até os táxis têm reclames estampados na carroceria. Já-já alguém vai ter a brilhante idéia de tatuar propagandas na testa de criminosos. A propaganda em si não é lá tããão insidiosa. O problema é deixá-la nas mãos de pessoas não certificadas pelo Instituto Dr Plausível; pois se qqer taxizinho pode passear um reclame qqer pela cidade, então qqer publicitário jecamental pode perpetrar qqer tontice neles, ¿ora pois não?

Vejam só esta. Sesdias, nosso ebuliente doutor acenou prum táxi na rua e, qdo este parou, o doutor aos gargalhos recusou-se a entrar, se desculpou e pediu ao taxista encafifado q seguisse seu caminho sozinho. Pois ali na carroceria, algum desavisado achou por bem escancarar pela cidade o seguinte slogan dum produto chamado Fluviral:

"Gripou?" "Desgripa!"

(Q, pela diagramação, tbm pode ser lido como "Gripou?" Fluviral "Desgripa!")

Ora...

¿O q é q dá na cabeça dum publicitário pra q, ao mesmo tempo em q inventa o excelente e útil verbo 'desgripar', tbm insista em mostrar sua carteirinha da Confederação e Lobby Contra Agressões à Norma Culta (CoLoCANoCu)? Pois ¿q raios estão fazendo aquelas aspas no slogan? Se alguém vier insistir q a CoLoCANoCu não existe, q é invencionice minha, então a única explicação restante é q nem o publicitário botou muita fé em sua criação, nem o fabricante bota fé em seu Fluviral: pois se o Fluviral ""desgripa"", quer dizer q não desgripa tanto assim, não é? Óbvio!

Talvez eu esteja sendo injusto com o criador de 'desgripar'. Um anúncio é produto de várias cabeças e, em casos como este, a palavra e as aspas podem ter saído de duas cabeças diferentes. Mas pra alguém sendo humilhado como passageiro dum táxi desses, não faz muita diferença quem exatamente foi o irresponsável responsável pela decisão de aspear uma palavra simplesmente porque algum livreco de regritchas diz q deve-se aspear os neologismos.

28 julho 2006

Na terrinha prometidinha

Pode parecer cruel, mas nosso exultante doutor às vezes não se furta de descolar umas risadas vendo aquela zorra toda no oriente médio. ¡Êta gente difícer, aquele pessoal, não? Em ambos lados. Difffííícer. Deve ser o clima e aquela aridez toda; pq ¡vai ter gente irritadinha e metidinha assim lá em Pelotas, ¿não é, dona de casa? ¿Aquele pessoal não aprende nunca?

E ¿as terpretação das coisa? Se judeu constrói em terra palestina, só pode ser pq quer tomar aquilo pra si e expulsar a palestinada de lá, claro. Mas nananinanã. Hoje em dia, o bejetivo é outro. Se mais gente consultasse o Dr Plausível, aquele problema todo já teria sido resolvido há muito tempo. Antigamente, os judeus com certeza queriam aquela terra toda. Jendia, não. Jendia, querem mais é q os palestinos continuem por ali mesmo onde estão, só q sem jogar bombinha e sem fazer barulho depois das dez. E o motivo é simples: os palestinos são utilíssimos – estão ali como a única barreira protetora contra os impulsos chacinescos daquela outra gente difícer pra lá do rio Jordão. Tira os palestinos dali, e Israel inteiro vira alvo parado de tudo qto é muçulmano (e aposto q de muitos cristãos também: o judeu médio vai até o muro diariamente agradecer a Jeová pelo fato de os palestinos não serem todos muçulmanos...)

Os palestinos – q, sabe-se lá por quê, não se dignam a consultar o Dr Plausível – têm em suas mãos um trunfo poderoso. Bastaria q todos, um a um, fossem fazendo as malas e ameaçando sair daquela baderna. "Bom, a guerrinha tá boa, mas já deu flor e eu já vou picando a mula." Os judeus ficariam apavoradíssimos. Ninguém gosta de ficar rodeado de muças num dia quente no meio do deserto. E à noite, dizem, é pior ainda. Com a glote trêmula e olhos nadando em lágrimas, os judeus israelenses exclamariam todos a uma só voz "¡¡Não, não, gente boa, senta aí, tá cedo ainda, toma um chazinho de carqueja!! Olha aqui o quibe q eu fiz pra vocês..."

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Mas ¡ó xodó do jó! ¡ó monótono forrobodó! É mais fácil mudar o clima.
–––––––––––
Se alguém vier aqui encher o saco me acusando de anti-semita, já vou dizendo q anti-semita é a vó, pq não sou de pisar em meus próprios calos. Tenho três sobrenomes: um judaico, outro europeu e outro árabe. Ou seja, dois deles são de origem semita. ¡Pois então! Além disso, ¿não acabei de aventar q aquela estupidez toda é causada pelo clima?

27 julho 2006

hoi polloi

A obviedade do comercialismo é sempre boçal, não é? Tipo vendedor ambulante de biblioteca pedindo copo d'água pra tentar te entuchar uma barsa. Ontem, nosso emoldurado doutor espargiu as tripas de rir ao ver um programa semi-boçal chamado Oi Mundo Afora, em q uma atriz suavezinha e um script leitoso passeiam por algum lugar turístico onde, entre uma parada e outra, ela usa um celular Oi pra receber uma ligação pastel ou trocar sandices de mentira com alguma "amiga" no Brasil. Até aí, tudo bem: casca grossa serve pra sentir cócegas ao ser bombardeado pelo cinismo dessas coisas. O programa de ontem foi numa ilha do Caribe pra turistas de grana; e em dado momento, falando sobre um hotel dez estrelas, o script me sai com algo assim:

"Aqui se hospeda gente famosa como blablabla e Morgan Freeman. A família Versace veio passar férias aqui depois q o estilista Gianni Versace foi assassinado."

?!?!?

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Parece essas novelas da Globo em q uma socialaite kitchique se lambisgüela numa espreguiçadeira com uma bebida azul de canudinho e diz a uma outra igualmente lambisgüelada:

"Puxa, q mau, teu marido ser assassinado pela amante..."
"É. Tem sido difícil suportar essa dor. Mas a privações da vida sempre nos ensinam alguma coisa, né?"
"É verdade. Mas deixa disso, menina. Vc precisa relaxar. Vai passar uns dias lá em Veneza..."

Ói Cida, ói Véus...

17 julho 2006

O Dr Plausível e seus aforismos (2)

"O problema de escrever é circunscrever." in A Metonímia Elíptica ou O Sonho Quiabou

15 julho 2006

O crime na imprensa

Muito sofre um país como o Brasil por não se utilizar rotineiramente dos serviços do Dr Plausível. É vero q tem criminoso fazendo festa por aí. Pra piorar a coisas, o público jornaleitor, radiouvinte e telespectador é obrigado a diariamente ler e ouvir gente desgorgolando as tripas em indignações, desgostos, acusações e desesperanças, em q os bandidos são 'monstros', 'fascínoras', 'inumanos', e outros elogios involuntários.

Mas há luz no fundo do poço. Sesdias, o doutor descobriu q alguns noticiários não falam mais em PCC e preferem termos gerais como "facções criminosas":

"Ontem à noite, uma facção criminosa incendiou vários ônibus, e homens armados alvejaram três agências bancárias."

É bom e são, o raciocínio por trás dessa decisão. Pois ¿pra quê gratificar esse pessoal com notoriedade fácil na mídia? No entanto, nosso escrupuloso doutor acha q não é suficiente. Não basta negar um estímulo: tem q desestimular, ora pois não? O criminoso, em algum recanto de si, certamente se orgulha de seus crimes: de fato, entre os objetos de orgulho criminal, estão a 'esperteza' e a 'eficiência' do malfeitor.

A sugestão do doutor é simples: substituir as siglas, frases descritivas e epítetos denigritórios por eufemismos, num tom meio comiserativo:

"Esta madrugada alguns ônibus foram incendiados em Jecápolis em ataques atribuídos a gente burra."

"Três policiais foram baleados por coitados armados."

"Ontem á noite, pessoas idiotas incendiaram vários ônibus, e alguns tontos pouco competentes tentaram destruir três agências bancárias."


Em contrapartida, há também q estimular os bandidos a desistirem do crime:

"O imbecil q matou o guarda mostrou considerável QI ao se entregar à polícia."

"A prisão dessa quadrilha de babacas é prova irrefutável de sua evidente inteligência."


Com isso, algumas editoras, estações de rádio e tv serão atacadas, mas só por uma birra passageira. Logo-logo a criminalidade diminuirá substancialmente e enormes quantidades de povo poderão sair às ruas e seguir incomodando o cidadãos pacatos com atividades perfeitamente normais e consentidas nas madrugadas, tais como inaugurar boate sem isolamento acústico à meia noite, alardear um funk carioca na caçamba da camionete à uma, começar uma batucada de bar às duas, desencadear buzinaços às três, deixar o alarme do carro tocando às quatro e só fazer o cachorro no quintal parar de latir às cinco.

En bref, la canaille comme il faut.

09 julho 2006

Mais uma

Segue abaixo a tréplica oficial do Dr Plausível aos comentários dum leitor a um texto abaixo.

L: "A língua portuguesa continua belíssima nas mãos e nas bocas de quem a compreende e aprecia e usa com carinho, e saindo-se muito bem com todos os acontecimentos hodiernos, A NÃO SER QUE você esteja se referindo a vocabulário mais uma vez."
DrP: Sou meio monótono mesmo. Sempre estou falando apenas de vocabulário. Qdo falo em gramática, é apenas como um passo num argumento maior.

L: "A música também é um fenômeno, é forma de comunicação, e tem regras."
DrP: A música não é um fenômeno q sai, digamos assim, das entranhas do ser humano, tal como é a linguagem. A música já é em si uma codificação artificial pois ela tem propriedades físicas q antecedem e determinam suas propriedades semânticas. É vital q se pense nas artes como fundamentadas em regras tuteladas pois todas elas dependem de propriedades físicas dos materiais. Vc disse algures q "Objetivo é a essência pura do discurso e de toda tentativa de comunicação." No entanto, o objetivo primordial de todas as artes não é comunicar: é criar um efeito, o q é muito diferente. O efeito criado pode ter alguma propriedade comunicatória, mas esta é sempre secundária e eisegética. Assim, é uma falsa analogia, essa q vc fez entre o papel da conscientização das regras nas artes e na linguagem. Por um raciocínio análogo, vc pode inferir minha resposta sobre as regras nos esportes.

L: "QUER REGRAS assim mesmo."
DrP: "Querer regras" é como querer a gravidade: não é preciso querer a gravidade pra q ela exista: não é preciso querer regras gramaticais: elas já existem mesmo sem a tutelagem dos gramáticos: são um fenômeno natural decorrente do modus operandi do cérebro. ¿Q mais poderia ser? Já as regras inferidas e propositalmente impostas numa norma, têm dois inconvenientes principais: (1) elas só podem ser criadas a posteriori de fenômenos naturais; (2) basta q fiquem explícitas pra q já sejam burladas; e não são burladas porque o povo é do contra ("¿Hay reglas? Las burlaré."), e sim porque não poderia ser de outra maneira, já q as regras normatizantes pretendem padronizar um fenômeno anárquico. [Acabo de normatizar a seguinte regra inferida: toda palavra estrangeira deve ser grafada em itálico. Oh shit!: alguém já burlou.]

L: "O que você não consegue expressar com a gramática atual ...?"
DrP: Embora não haja a rigor muita coisa no estilo discursivo, paragráfico, redacional, raciocinante q não possa ser dito dentro dos limites da gramática normativa, há no uso normal e corriqueiro da língua infinitas situações em q o estilo normatizado se revela completamente inadequado, blargh e nojentinho. O Dr Plausível já deu alguns exemplos.

L: "O vocabulário caduca com rapidez, mas a gramática continua comportando tudo com perfeição."
DrP: Na verdade, as duas coisas acontecem: ítens de vocabulário surgem e caducam constantemente; mas os necessários, práticos e comuns têm vida longa. Há palavras no português q permanecem inalteradas desde o século 9 (qdo isso q chamamos de 'português' nem existia).

A objeção à gramática normativa (a Norma Culta, a NoCu) não é q ela não comporte tudo. Poderíamos igualmente utilizar o vocábulario do português com a ortografia cirílica e a gramática suahili, e as carências seriam as mesmas. Um dos problemas com a NoCu é q ela "comporta tudo" num estilo imposto, lento, cerebral, mumificante, pedante, pretencioso e muitas vezes arbitrário. O resultado de exigir correção gramatical e ortográfica é envergonhar e tolher qqer dinamismo na abrangência, uso e expansão do repertório de vocábulos e expressões. O português se tornou uma língua tacanha, amedrontada, sem referências, uma língua q meramente administra a comunicação.

Outro problema é aquele q já esbocei acima: q, em se tratando dum fenômeno tão plástico e multifário como é a linguagem, absolutamente qualquer regra inferida, "analisada, entendida, circunscrita e descrita num sistema engenhosamente abrangente" já caducou no momento exato em q é proferida. Toda normatização é aprés coup, e essa constatação não precisa de provas. Se tratássemos aqui das leis da física (q, lembro, subjazem às artes), seria outra história.

Se a norma gramatical "só sobra, na medida em que soçobra o nível intelectual e cultural dos usuários", é culpa apenas da própria norma: da própria idéia de norma. Alguém poderia igualmente, e ¡com absoluta justeza!, reclamar da deprimente queda no nível de envolvimento da população mundial em ritos de adoração aos antigos faraós, nos últimos três milênios. De fato, a 'norma faraônica' está em desuso. Mas, como a idéia de 'norma' é justamente q ela englobe e comporte tudo – ou seja, uma idéia totalitária, irrealista e estapafúrdia –, então, para um faraonista, a situação de hoje é uma tragédia lamentável.

Uma coisa q vc disse ("... a plebe rude e ignara ... só não convive pacificamente com a gramática porque não a entende. Pior, a grande maioria é incapaz de se aprofundar o bastante em qualquer assunto ...") é parcialmente verdade. No entanto, receitar a gramática normatizada pra essa gente é como dar um discman a um beduíno e esquecer de dar as pilhas e os cds pra ele tocar. ¿De q serve uma coisa sem a outra? A complexidade do q é dito por alguém é diretamente proporcional à complexidade de seu pensamento. E nem isso é completamente verdade: veja o caso dos retardados mentais com hidrocefalia e com síndrome de Beuren-Williams; mais preciso seria dizer q a complexidade do q é dito por um povo é diretamente proporcional à complexidade de sua cultura: as duas coisas andam juntas (não é plausível esperar q um garçom em Jequitibonga grite ao chapeiro: "Ó, Moscão, se vos agrada, fazei-me um tostex para este senhor que acaba de assentar-se ao pé do balcão!"). Só q a complexidade cultural não se fomenta através da educação, tal como vc parece preconizar, e sim através do caos livre e criativo, dos milhões e milhões de falantes querendo dizer alguma coisa, com o lebensraum pra inventar, derivar e associar o q bem entendessem. (Eu uso 'complexo' as opposed to complicado. Veja aqui) Mas o ensino de português chegou ao layout sem passar pelo brainstorm.

É perfeitamente correta tua interpretação de q eu aprovaria a abolição de toda imposição gramatical a fim de criar um lebensraum pro português; mas, tal como vc hipotesou, não é prum lebensraum gramático e sim vocabular. Pra mim o maior problema da NoCu é q ela intimida e acanha o falante, até mesmo o mais genial artesão das palavras q "vê-se legitimamente obrigado a subverter as convenções lingüísticas".

O q eu chamo de complexidade gramatical já existe no ãã 'centro gramatical do cérebro'. Ela não precisa ser inculcada de fora. Não importa muito se essa complexidade se manifesta através duma gramática normatizada ou dum caipirês ou de alguma linguagem matemática. O q importa é o vocabulário, ou seja, q o falante saiba distinguir uma coisa de outra coisa e de outra coisa, e dê um nome diferente pra cada uma das três. Pra efeito de comunicação, é irrelevante se a desinência concorda em gênero com o grau do adjetivo pronominal da oração subordinada em catacrese ao plural. (Como bem colocou o Stephen Pinker em "The Language Instinct", é perfeitamente inteligível a seqüência de palavras: Fósforo gasolina riscou bum!) O q quero é q o português se desenvolva a ponto de criar de suas entranhas idéias do nível de lebensraum, brainstorm, aprés coup, as opposed to, &c &c &c; e q complexifique sua cultura a ponto de criar objetos como o mouse, o mousse, o sudoku, &c &c &c. E digo e reafirmo q só se vai conseguir isso depois (muito depois) dessa gente bronzeada largar mão de dar atenção a esses nefastos gramáticos normativos e cagadores de regras ortográficas.

Mas ¡oh parto permanente! ¡oh prosa prepotente! Ilusão treda.

22 junho 2006

Bola ao pé

Nosso envergadoiro doutor não costuma assistir a jogos de qqer espécie e até quase já registrou em cartório q não torce pra nenhum time, muito pelo contrário. Mas, ligado q está nos eventos do mundo, soube recentemente q o Brasil é um dos candidatos num torneio internacional, algo q aparentemente traz ao populacho grandes emoções com hora marcada.

O Adam Gopnik, num artigo da New Yorker qdo do torneio na França, mostrou q o futebol só pode ser esse sucesso todo entre a plebe ignara pq é uma metáfora inconsciente da vida: uma baderna de gente tropeçando e trombando, parcamente controlada por regras simples amiúde violadas, e cujo placar final é zero a zero.

Mas, além do q já disse sobre o papel preponderante da sorte no esporte, o Dr Plausível vai deixar pra depois a demonstração de como o futebol na verdade humilha o Brasil. Então vc já pode parar de ler isto aqui e ir lá ver seu jogo, vai.

13 junho 2006

Folga

O paulista é um povo trabalhador. Só três coisas detêm um paulista em sua marcha incansável rumo ao progresso: feriadão, futebol e PCC.

01 junho 2006

A norma estulta, essa incompreensiva

Pra entender grande parte do q segue, é preciso ler os comentários ao post anterior, onde gerou-se uma polêmica. Um leitor respeitado por aqui, o Pracimademoá, tem uma opinião contrária à deste blogue no q diz respeito à gramática e à norma estulta. É em respeito às objeções dele q dou aqui a resposta final, redigida em tandem com o Dr Plausível. O Pracimademoá certamente foi atacado pelo vírus da hipoplausibilose gramática. Não é caso de rir, e o Dr Plausível leva essa coisa de gramática a sério, principalmente qdo se trata de alguém inteligente e sóbrio como esse leitor.

Pracimademoá,
Pela última coisa q vc disse, me dá a impressão de q não consegui explicar nada. Vou tentar resumir tudo aqui, só pra q vc não fique pensando coisa feia de mim ou do doutor.

Toda "regra" gramatical é uma codificação inferida a partir dum fenômeno natural. A gramática normativa é um disparate porque a língua não é uma invenção humana, mas um fenômeno humano, ou seja, algo q já tem "regras" naturais. Ninguém precisa ficar fuxicando.

O português é uma das línguas q foram surpreendidas no século 19 pela repentina evolução em todos os ramos do conhecimento justamente numa época em q se tentava, através das academias, consolidar e codificar certas línguas baseando-se nisso q vc chamou de "refinamento do entendimento e das manifestações humanas". Vc poderia argumentar q as próprias academias foram parte dessa evolução, mas o buraco da língua é sempre mais embaixo. A língua é sempre vários graus mais complexa do q qqer refinamento do entendimento possível numa normatização.
Sorry. Quem normatiza uma língua tem o plano "vamos codificar a língua da maneira mais racional e refinada possível pra termos um instrumento sólido e coerente com o qual poderemos realizar a contento todas nossas interações." Mas ninguém tem bola-de-cristal, e muito menos uns lexicógrafos e gramáticos inferindo regras numa sala fechada, abafada e empoeirada. Não dá pra prever quais conceitos, quais tecnologias, quais modos de interação vão ser criados, o q é q a mente humana vai produzir – seja através dos gênios, seja através do povão. Assim, não dá pra prever quais novos fenômenos surgirão e portanto quais "regras" naturais a própria língua vai criar pra se adaptar a eles. Por exemplo, ¿quem iria prever a internet, onde a língua escrita vem tentando se acelerar, disseminando abreviações perfeitamente coerentes, claras e cabíveis como 'vc', 'pq', &c? Eu só não grafo 'qual', 'quais', 'quem' e 'quaisquer' com 'ql', 'qs', 'qm' e 'qsqr' pq sei q muita gente retrógrada iria bobamente fazer questão de não me ler.

É gritante a inépcia do português no mundo de hoje. A revolução industrial, por exemplo, jamais poderia ter acontecido num país de língua portuguesa.
Sorry. Impensável. O português de ontem e hoje simplesmente não tem a ginga, a abertura, a sutileza, a precisão e a nitidez de línguas como o inglês, o alemão e o japonês, q lhes permite sustentar e agilizar o intercâmbio de idéias, a ampliação diária de novos horizontes. Mas o povo (todos nós) sente o empurrão do tempo, e constantemente, dia após dia, frase atrás de frase, tenta puxar o português pra uma maior ginga, uma maior abertura, uma maior elasticidade e criatividade; e o tempo todo, quaisquer novidades lingüísticas (q são concepções, conceitos novos) são inapelavelmente censuradas pela tutelaria de plantão, esfregando a gramática normativa no nariz das criações necessárias. Fala-se muita merda, claro. Mas um dos resultados mais nefandos da norma estulta é q pouca gente realmente gosta do português, do jeito, por exemplo, q os ingleses gostam do inglês, se divertindo, se emocionando e se esclarecendo: ninguém se diverte com o português depois de passar pelo corredor polonês q é a escola. Papo de brasileiro é, via de regra, ou chato ou chulo ou chucro (e eu aprendi a fazer isso com o inglês). Por causa da normatização, o uso do português, q deveria fluir naturalmente, é atormentado por inseguranças, vergonhas, arrogâncias e desperdício.

É claro q nada do q está dito acima deve ter a mínima importância pra alguém q acha necessário colocar sela e arreios na língua pra conquistar o Oeste. Mas é bom q se lembre q na mente e no coração das pessoas existem mais coisas do q prevê a vã gramática.

27 maio 2006

O Dr Plausível e seus aforismos

"O esnobismo é o último refúgio dos amadores." in A Norma Estulta e Seus Defensores

24 maio 2006

O clichê é o clichê mais clichê do clichê

Os clichês sempre despertam um grande sono no Dr Plausível. Mas emprego é emprego, né? Tão vamulá.

O clichê de dizer q a prostituição é a profissão mais antiga do mundo é como todo clichê: uma tontice q alguém algum dia desembuchou e, como soou perfeitamente apta, espirituosa e bem-acabada em uma situação, e provocou risadas &c, foi então repetida por quem a ouviu, esperando sugar um pouco do mérito original, e repetida pelo segundo ouvinte, e assim ad nauseam até virar uma tontice q quase todo o mundo diz sem prestar atenção no q exatamente significa. Com razão, Proust detestava os clichês. Eles cabem perfeitamente no q descreve a palavra inglesa 'mindless'. Mas não são de todo ruins: como 97% de tudo q se faz socialmente é também mindless, os clichês são um temperinho q diverte o populacho em sua penosa tarefa de cambalear entre o nascimento e a morte.

Por tantas implausibilidades repetidas em clichês, também são implausíveis as explicações deles. Recentemente, um desavisado aventou q aquele clichê sobre a prostituição originou-se ãã... ¡no inglês! Ele disse algo como "essa expressão faz sentido no contexto anglo-saxão de 'profession' (e acho que a origem do clichê é o inglês)".

Hmm.

Tanta coisa é traduzida do inglês hoje em dia, q daqui a pouco vão achar q até a Bíblia foi escrita originalmente em inglês. ... Ah, não, peraí. Já tem gente q pensa isso. (Mas são euaenses; então se perdoa.)

Um sintoma de anglo-centrado é sempre procurar e "achar" a origem das coisas no inglês. Pra começo de conversa, a própria palavra 'profession' vem do latim. Por outro lado, se a proto-prostituição era uma profissão, deveria haver pagamento; pagamento implica em dinheiro, dinheiro supõe casa da moeda, &c. Várias outras profissões embutidas aí, não?

Outra coisa, se vc substituir 'profession' pelo conceito inglês de 'calling', já faria mais sentido. Só q "the world's oldest calling" não seria a prostituição, mas a nobre atividade de mijar, de onde vem a expressão 'a call of nature'. Sexo também é 'a call of nature', claro; mas mulher prefere mijar antes do sexo – de onde se depreende q mijar é mais antigo q prostituir-se.

É certo q uma ou outra mulher prefere não mijar, pra aumentar a pressãozinha lá dentro durante o coito. Mas... mas... mesmo assim...

ãã– Voltemos à cretinice do clichê em si.

Puta não pode engravidar. A prostituição só pode ter aparecido depois da compreensão e desenvolvimento de métodos anti-concepcionais e de abortagem. E só isso aí já pressupõe outras tantas profissões. Então ¿por q catso alguém achou algum dia q a prostituição é a profissão mais antiga do mundo?

Sei lá. Mas aqui vai a receita de tratamento contra a hipoplausibilose embutida nesse clichê:
1. Escreva a frase numa pequena folha de papel azul.
2. Engula.
3. Veja se vira bosta. Se o papel for defecado num estado ainda reconhecível (¿entendeu agora o porquê do azul?), lave e engula de novo.
4. Repita os passos 2 e 3 até o papel passar totalmente ao estado de bosta.

[O Dr Plausível agradeceria aos leitores pela lembrança de outros clichês hipoplausibiléticos para diagnóstico e tratamento.]

16 maio 2006

Panacas em pânico

Se chovesse vacina anti-hipoplausibilânica, não daria pra imunizar tanta gente.

12 maio 2006

Quem sabe sabe

Nosso embrenhado doutor dá muita risada qdo vê esses péssimos atores das CPIs. Só q eles devem atuar mal não só por falta de talento mas por nervosismo também, às vezes até justificado. Em dado momento, o culatrista Sílvio Pereira aventou pedir proteção policial e o Dr Plausível logo se lembrou dum cliente seu, alto funcionário da Anatel, q, durante uma consulta plausibilógica sobre as tarifas telefônicas, afirmou q, se apenas ameaçasse dizer tudo o q sabia sobre o processo de privatização da Embratel, seu corpo com certeza seria encontrado numa vala na manhã seguinte.

A consulta, é claro, não deu em nada.

02 maio 2006

El imperio cuentra-alpaca

Estava lá o Dr Plausível dando consultoria plausibilógica na sucursal brasileira duma firma euaense, a central regional dessa firma na América Latina, qdo de repente o telefone tocou. Seu cliente atendeu e descambou num portunhol apenas passável, falou disso e daquilo, negociou um detalhe e desligou. Ligação do Equador. Nosso embasbacante doutor ergueu o sobrolho.
"¿O equatorenho estava falando portunhol também?" perguntou educadamente.
"Ah, não. É difícil pra eles," disse o cliente. "É mais fácil quem fala português entender quem fala espanhol do q quem fala esp..."
O doutor já estava gargalhando.

----------------

Hmm.

Peraí. Deixa eu ver como é q vou dizer isto.

Hmm.

¿Q porra? ¿Por que caralho o equatorenho não fala português? ¿Pq é q o brasileiro tem q aprender inglês pra falar com euaense e tem q aprender espanhol pra falar com equatorenho? O Brasil virou 'el imperialista de Latinoamérica', mas ¿é só pelo tamanho? ¿A língua portuguesa não tem intrínsecamente a mais mínima força pra se impor sobre o espanhol?

É uma história irônica, a do português. Por natureza uma língua periférica, uma simplificação imediatista dum dialeto marginal do espanhol, na extremidade da Europa um pouco aquém do fim do mundo, o português, por várias incongruências entre a geografia política européia e a novomundana, em quinhentos anos se tornou a língua do país mais rico, populoso e produtivo da América Latina. Mas parece q nada, nem mesmo o poder econômico brasileiro, nem mesmo o carisma do povo brasileiro, nem mesmo a disseminação da música brasileira, nem mesmo a beleza da mulher brasileira, nem mesmo o poderio bélico do exército brasileiro, nada consegue fazer o desgraçado do equatorenho fazer um esforcinho pra aprender a língua de seus superiores.

O doutor se pergunta: ¿será isso conseqüência duma fraqueza na essência da língua, ou será resultado da simpatia natural do povo brasileiro, esse povo bonzinho? ¿será uma vantagem pro brasileiro, q diversifica e flexibiliza seu cérebro poliglota, ou será apenas mais uma cagada na longa série de desvalorizações da identidade e cultura brasileiras?

O doutor sinceramente não sabe. De maneira alguma isso lhe impede de gargalhar, pela ironia, mas admite q não sabe.

24 abril 2006

O astropauta

Muita gente no espaço crítico brasileiro (também conhecido como Sala Portnoy) vem reclamando dessa melenga toda sobre o cosmonauta nascido no Brasil. Reclamam dos (dependendo da versão) 10 ou 12 milhões de doletas do contribuinte brasileiro gastos pra pagar o projeto pessoal dum funcionário, do Lula q medalhou o cara, dos jornalistas q não põem o cara na parede, etcétera. O Dr Plausível fez umas considerações, gargalhou à larga, e foi ler o dicionário romeno-francês no banheiro. Eis um resumo do q disse:

Jornalista é alguém pago pra dizer o q não sabe sobre um assunto q não conhece. Mas nenhum jornalista vai pôr em risco o leite das crianças fazendo essas perguntas ao astropauta, pois, num aspecto, o jornalista é igualzinho a um profissional de qqer outro ramo: sua prioridade número um é tirar o cu da reta.

Também é essa a prioridade do presidente, seja ele quem for. O Lula chegou aonde está porque tira o cu da reta melhor do q ninguém. Ele é o Grão-Mestre Nacional de Esquivamento Anal; e ele é q deveria ser motivo de orgulho aos brasileiros, não esse pelego Mark Bridges.

Em assuntos como esse do programa espacial, o Lula é como qqer outro presidente: pegou o bonde andando e nem viu q linha era. Ele fez, em seu estilo necessariamente peculiar, exatamente o q qqer outro gato-pingado faria em seu lugar; e também pensou o mesmo: "Taquipariu, vou ligar o piloto automático nesta solenidade, e depois eu volto ao q interessa."

10 abril 2006

O prefato

Nosso emulável Dr Plausível sempre se diverte andando de táxi por SPaulo. É só aparecer um semáforo com a luz verde queimada, uma placa num lugar errado, uma cratera na rua, e o taxista logo diz algo como "E esse prefeito q taí, hem? Vergonha!"

Entendo bem a diversão do doutor. Só pode ser coisa de mitômano achar q as vidas de 17 milhões de habitantes sofram alguma influência dum gato pingado qqer q desembocou na prefeitura a caminho do ostracismo ou duma eleição pra governador ou presidente. A prefeitura de SPaulo não é um cargo; é um degrau – pra cima ou pra baixo, geralmente pra baixo. Agora um tal de José Serra q, eleito pra 4 anos como todo mundo, se sentiu especificamente especial o bastante pra renunciar após 15 meses pra tentar manter o partido no governo do estado.

A lógica é mais ou menos assim:
(a) se o prefeito faz uma boa administração, é pouco criticado; ele então se considera popular e renuncia pra se candidatar ao governo do estado;
(b) se faz uma administração, é muito criticado; ele então se considera impopular e portanto sem chances, e aí cumpre seu mandato.

?!?!?

'Prefeito' deve originar de algo como 'pré-feito' ou 'pré-fato'; porque não é possível, ¿né, dona-de-casa?

07 abril 2006

L'esprit d'escalier

-Alô?
-¡Bom dia!
-Bom dia...
-Por gentileza, ¿o responsável da linha?
-Sou eu.
-E ¿seu nome, por favor?
-Ãã... F... Joaquim. ¿De onde é?
-Bom dia, senhor Joaquim. Eu sou do Banco de Dados.
-¿Banco de Dados daonde?
-Da Folha de São Paulo.
-Ah não, brigado. Eu não leio jornal.
-¿O senhor não lê jornal?
-Não.
-E ¿qual o motivo?
-Ãã... É q, sabe, qdo eu era criança, a gente tinha um cachorro (ele chamava Pufe), e qdo ele fazia cocô na sala, meu pai enrolava um jornal e dava na cabeça dele umas dez vezes, aí ele foi ficando deprimido, deprimido (porque ele não entendia, né?, o motivo de meu pai cair de porrada nele), até q ele morreu; aí eu botei a culpa em meu pai, lógico, e teve uma briga homérica lá em casa, e meu pai então quis provar q a pancada de jornal enrolado não doía, e avançou pra mim pra me bater na cabeça, aí eu recuei um pouquinho e tropecei num pufe q minha irmã tinha usado pra... pras brincadeiras dela, né, aí eu caí e bati a cabeça na quina da mesa, fui pro hospital, o maior escândalo, mas tirei raio xis e não deu nada, mas foi um trauma, viu?
-O senh...
-Aí depois, qdo eu tinha uns doze anos, eu tava descendo uma rua ali perto da Quintino Bocaiúva e passei ao lado duma banca de jornal e o jornaleiro saiu de repente e começou a gritar comigo dizendo q era eu q todo dia passava lá e esfregava meleca de nariz na Gazeta Esportiva q ficava ali pendurada de mostruário e ele queria me espancar ali mesmo, e umas senhoras q tavam ali perto não deixaram, e eu dizia q não, q eu nunca passava por ali, q eu morava em Cruzindanga, mas o jornaleiro não queria acreditar e dizia q sim, q era eu mesmo, q eu tinha cara de melequento, malandro e...
-pu pu pu pu pu pu
-Ninguém nunca me dá atenção...

02 abril 2006

Uma sugestã

Sesdias, com a cara-de-pau q lhe é peculiar, a secretária de estado Condoleezza Rice, em visita à Inglaterra, abriu um sorriso deste tamanho pra uns manifestantes e até deu tchauzinho. Um repórter da BBC lhe perguntou o q achava da questão q os manifestantes reclamavam e ela, com a petulância sorridente peculiar aos políticos acuados na estranja, disse algo como "Não é a primeira manifestação q vejo, nem será a última."

Nunca participei de manifestação, e muito menos o Dr Plausível. De políticos, soldados, filósofos e outra pessoas armadas: distância. Mas volta e meia me pergunto por que os manifestantes mantêm aquele respeito todo perante gente não q lhes dá a menor bola. Fazem cara de criança mimada e ficam gritando frases feitas, tipo:

"¡Aumento!"
"¡Fora, fulano!"
"¡Queremos justiça!"
"¡O povo unido jamais será vencido!"

Essas coisas já viraram pano de chão velho: não lava nem o rodo. Pena q nenhum manifestante jamais consultou o Dr Plausível. Seu conselho seria simples, eficaz e muito mais a propósito: os manifestantes se juntam em silêncio de mão no bolso perto de onde o político atacável vai passar; assim q ele aparecer, eles fincam os olhos nele, fazem cara de ódio e berram em uníssono, uma só vez:

"¡Idiota!"

¿Não seria mais legal? E surtiria mais efeito.

(Tanto político merecedor e ¿vc foi logo pensando no Lula?)

28 março 2006

Origens Lingüísticas do Atraso Brasileiro

Em 1984-85, o Dr Plausível publicou uma série de artigos nos Cadernos de Plausibilática, com o título geral de "Origens Lingüísticas do Atraso Brasileiro". Nosso espantoso humanista provou por A + B a implausibilidade em botar a culpa em mazelas tais como a impunidade, a malemolência, a corrupção, a festancidade e a educação brasileiras, e mostrou, demonstrou e arrematou q a coisa toda não passa dum problema meramente lingüístico, um pobrema insolúvel: se as mesmíssimas pessoas q ora populam estas terras falassem japonês ou alemão ou inglês ou grego em vez de português, o Brasil seria talvez um pouco menos pululante mas com certeza bem mais desenvolvido, teria um povo mais respeitoso, multifacetado e consciente, e uma economia mais respeitável, respeitosa e eficiente.

Foi num desses artigos q o doutor originalmente publicou a tese amplamente comprovada de q uma das maiores mazelas do Brasil, senão a maior, é a metonímia elíptica*, q diariamente causa incalculáveis prejuízos econômicos, culturais e sociais neste país. Em outro, refutou inapelavelmente a tese de q o ensino da norma culta pode ajudar a desenvolver o raciocínio e portanto o país. Mas não vou chatear os leitores deste blogue com citações: além de serem todos extremamente técnicos, os artigos trazem transcrições fonéticas da fala brasileira de diversas regiões e, pra quem não é do ramo, fica chato pacas. Por exemplo, duas das mais fáceis de entender são:

"Çta psan djaugúa coiz?" (Você está precisando de alguma coisa?)
"É pski téça baguncéê." (É por isso q está essa bagunça aí.)

Vou só resumir aqui o q o doutor disse de duas expressões q usou pra demonstrar sua tese central sobre o atraso brasileiro:

(a) "[Jogar] conversa fora."
(b) "Falou, tá falado."

(a) O doutor fala trocentas línguas, então não vou discutir: ele afirma q não há em nenhuma das línguas mais desenvolvidas uma expressão q diga e fale "jogar conversa fora". E se vcs atentarem pro q essa expressão brasileira significa, verão q é na verdade um belo insight. Três línguas européias competem entre si pelo prêmio de Maior Desperdiçador de Neurônios: o francês, o espanhol e o português. Realmente, colocar todos os pluraizinhos, os acentinhos, as concordanciazinhas e os diminutivinhos nos lugarzinhos corretinhos é coisa de quem não tem mais do q fazer e, de fato, joga conversa fora toda vez q abre a boca. Essas três línguas têm muita argamassa pra pouco tijolo. É de se elogiar q só o português tenha produzido esse insight. Nem tudo está perdido.

Mas mesmo qdo não se usa as regritas, joga-se conversa fora. Numa frase comum como "Eu tou indo na feira.", apesar de apocopar 'estou', o falante usou 'eu' desnecessariamente. E ¿q catso significa "ir na feira"? Não pode ter muito a dizer uma língua em q algo de significado contraditório pareça fazer sentido porque, no contexto, só pode ter outro significado. É como se ali bastasse um espirro: "tou indo atchim feira."

Mas a expressão "jogar conversa fora" indica algo mais profundo: com tanto neurônio sendo usado pra falar bonitinho, o português faz com q a interação tenha precedência sobre a comunicação: é mais importante interagir do q de fato dizer algo. Daí q se usa "jogar conversa fora" com o sentido de "interargir amigavelmente pela fala". O Dr Plausível não está dizendo q não se joga conversa fora em outras línguas: apenas q no Brasil as características do português transformaram a jogação de conversa fora numa regra e não numa exceção, sendo especificamente por esse motivo q essa expressão colou no Brasil. Nenhuma língua fala do q nela mesma não há.

(b) Uma das maneiras de jogar conversa fora é um tipo de interação bastante comum entre brasileiros, na qual o ouvinte repete o q ouviu quase verbatim. Por exemplo:

A. Eu tou indo na feira.
B. Ah, ce tá indo na feira?
A. É.
B. Ntão me compra ...&c

Se o A for, digamos, um alemão, é bem capaz de o diálogo ficar assim:

A. Eu tou indo na feira.
B. Ah, ce tá indo na feira?
A. (leve irritação) ¿Não foi isso, o q acabei de dizer?

Isso pq o alemão, o inglês e outras línguas têm pouca tolerância pra repetições bobas: são línguas em q, de fato, "falou, tá falado." E no entanto, nenhuma dessas línguas tem essa expressão. É sintomático q a aparente imbecilidade no hábito comum de repetir inutilmente o q já se disse seja compensada pela mera existência da expressão "Falou, tá falado." Tipo, "Ah, a gente repete as coisa, mas pelo menos qdo falou, tá falado." – ?!?!?

Note-se tbm q a expressão fala em 'falar' e não em 'dizer'. 'Falar' é apenas o ato de soar palavras pela boca, não necessáriamente dizendo algo. Ou seja, q a expressão q aparentemente diz "Se vc disse, está dito." na verdade não diz mais q "Se palavras soaram, palavras foram soadas." Agora, se algo q preste foi de fato dito, já são outros quinhentos.

Por exemplo, essa tese toda q vc acaba de beliscar, ¿é algo q preste? ¿O Dr Plausível derridanamente jogou conversa fora, ou falou derridanamente com total seriedade? ¿Foi sarcástico, ou foi preciso?

E essa tua dúvida ¿é sobre as palavras do enobrecido doutor, ou sobre a viabilidade mesma do português? Hmmm.

*Também chamada de 'substantivação elíptica' e 'nominalização elipto-retórica', mais conhecida como 'braquilogia' ou 'braquiologia'.

26 março 2006

A verdade não me deixa mentir

Não se diga q o Dr Plausível está aqui só pra criticar e achar defeito. Pelo contrário. Pouca coisa lhe dá mais prazer q uma obra bem feita. Sesdias, nosso empenhado doutor colocou mais um filme na lista dos indicados pro Plausuto de roteiro cinematográfico deste ano: Separate Lies (ou, estranhamente, Mentiras Sinceras no Brasil). A tradução nas legendas tem um erro a cada três minutos, mas é um grande filme pra se ver se vc tem idade mental de adulto e entende inglês perfeitamente: os diálogos são magistrais e o filme poderia figurar no currículo do Curso de Roteiragem da Escola Superior de Plausibilática.

Só erraram no título. Deveria ser Uma Mão Lava a Outra.

22 março 2006

O radóstico agnical

Não é segredo q tanto nosso engalanado Dr Plausível qto eu somos agnósticos radicais.

Mas vira e mexe me aparece nos comentários alguém q, achando entender o termo 'agnóstico radical', impunemente improvisa impropérios impugnantes imputando imperfeições imperdoáveis. A crítica comum aos agnósticos é a de q são ateus covardes, egoístas preguiçosos e pensadores vacilantes.

HAHAHAHAHAHAHAHAHA

É bem possível q haja agnósticos q combinem com essa descrição. Não, contudo, os radicais. Os radicais são aqueles pra quem a questão da providência, criação e existência dum deus não fede nem cheira: ninguém sabe nada de nada. Porém, a um nível mais profundo, a expressão "crer em Deus" nem sequer faz sentido prum agnóstico radical. Vejam a mesma pergunta posta a um crente, a um ateu, a um agnóstico e a um agnóstico radical:

¿Deus existe?
crente: Sim.
ateu: Não.
agnóstico: Não sei.
agnóstico radical: ...?!?!?

Eis aqui um diálogo típico entre um fuçador e um agnóstico radical:

F: ¿Deus existe?
AR: ...?!?
F: Então vc não crê em Deus.
AR: ...?!?!?
F: Ué, ¿vc crê ou não crê?
AR: ...?!?!?!?

Aos ouvidos do AR, o 'diálogo' soa assim:

F: ¿Vbznñglfng mnhfns?
AR: ¿O quê? ¿Como?
F: Então vc não blmpqrkgñ em vnzlms.
AR: ¿Como? ¿Quê? ¿Hein?
F: Ué, ¿vc fngzbljnmñpxs ou não xzbvfnglrtspfñgl?
AR: ¿Ué o quê? ¿Como? ¿Que disse? Ãã?

Pro AR, a existência ou inexistência de Deus, a transcendência ou destranscendência dos dogmas, a necessidade ou desnecessidade das tradições são questões q não fazem a menor diferença, cosmicamente falando: a ignorância da gente é tão vasta, q tanto crer como descrer são apenas atos de soberba e presunção.

De fato, as crenças recebem um ajuda especial da soberba e da presunção. O agnóstico radical às vezes desconfia q a expressão "eu creio" significa na verdade "eu quero":

Eu quero em Deus (viver bem, não sofrer, ir pro céu, ter vida eterna, q meus inimigos se ferrem, &c).

... e não admira q as religiões todas procurem negar precisamente aquilo q mais as promovem: ao mesmo tempo em q se valem de laços familiares e étnicos mais q de atributos dogmáticos pra se manter e crescer (Eu quero em Deus q tudo dê certo pra mim, meus familiares e meus semelhantes.), buscam cinicamente sustentar q 'crer' é uma expressão de altruísmo capaz de congregar todas as raças e classes. Hmm. E é melhor vc começar a crer , senão vc não consegue nada do q quer – muito pelo contrário, vai levar na cabeça muita coisa q não quer. Ou seja, ao crer, tua alma vai realizar todos os desejos e anseios de tua animalidade. – ...?!?!?

Mas tem um detalhe q pouca gente pesca no termo 'agnóstico radical': pro AR, a questão da (in)existência de deuses é uma questão secundária dum sub-assunto piquititico do conhecimento. Bilhões de pessoas neste mundinho se definem idiotamente a partir de suas crenças, qdo o q na verdade define o indivíduo e o distingue dos outros são seus conhecimentos – e o q vc sabe é TUDO q vc sabe: vc sabe falar português, vc sabe o q teu pé esquerdo tá sentindo agora, vc sabe o q fez ontem, vc sabe o q dizem os textos religiosos, vc sabe q a água congela no frio e evapora no calor &c &c &c &c &c. Os próprios crentes sabem intuitivamente q o conhecimento é mais definidor pois, afinal, crer é uma expectativa de saber: a fé é uma confiança num saber futuro: o crer almeja o saber: questões de crença são avassaladoramente menos relevantes do q questões de conhecimento. Mas nem os q se auto-definem 'ateus' percebem isso: a cada vez q pensam em crença como defininte, tão jogando o jogo insípido e bocó dos teístas; a cada vez q se definem como ateus, tão entregando a bola de bandeja pro time adversário. Se o saber é multivezes mais relevante do q o crer, então não faz sentido se definir a partir do crer. Pois pensa bem, leitor, se vc não tem uma coisa quase imperceptível, tal como a unha dum dos dedos médios do pé, vc não se define como 'não-unhático'; porém, se é IMPOSSÍVEL vc ter uma coisa super defininte da aparência, tal como cabelo, faz sentido vc se dizer 'careca'.

Então. ¿Sabe QDO ateus e teístas vão enxergar q a crença é um definidor quase irrelevante do indivíduo? Nunca. O hipoplausivírus os viciou nos argumentos circulares da crença.

E ¡ó dogmas defensivos! ¡ó tótens truculentos! não me venham dizer q estou aqui promovendo uma visão de mundo melhor q as outras. Só estou explicando o q quer dizer 'agnóstico radical'. Quem tendeu, tendeu. Quem num tendeu, num tende mais.

17 março 2006

poca onda

Ultimamente, assistir trailers ao lado do Dr Plausível vem ficando cada vez mais divertido. Sesdias, vendo o trailer dum filme chamado acho q "O Novo Mundo", nosso esteiado doutor esputou uma gargalhada q contaminou o cinema inteiro. A história do filme se passa lá pelo final do século 16. Perto do fim do trailer, aparece o Cristopher Plummer com cara de desamparado dizendo:

"I beg you. Let not America go wrong in her first hour."

¡¡¡HARHARHARHARHARHARHARFÓÓÓóóó...!!!

¡¡¡QUARKQUARKQUARKQUARKQUARKQUARK!!!

Tem gente q não aprende, né? O Dr Plausível aqui disponível pra evitar q tantos roteiristas passem ridículo, e assim mesmo eles vão lá e insiiiistem.

15 março 2006

mas... mas...

Às vezes não é legal ouvir a risada de nosso educante doutor.

A tv paga já veicula alguns comerciais, e agora um deles está anunciando a própria como veículo de ainda mais comerciais. Ou seja, estão planejando aumentar a porcentagem de tempo tomado por anúncios.

Mas... mas... a idéia da tv paga ¿não era justamente não ter comerciais?

¿Eu pago R$1400 por ano pra essa coisa me entuchar de anúncios e às vezes de repente cortar o programa q estou assistindo pra passar 20 minutos de pig prother prasil pra ver se eu gasto mais uns trocados ligando pra votar?

¡¿Q porra?!

O Dr Plausível ri, e a luz de sua fulgurante risada joga um cruel holofote em cima da multidão de trouxas como eu, q confirmam as previsões de Huxley, bebericam soma e reclamam às paredes.

03 março 2006

O grupo do Sérgio

Entre as coisas mais hilárias no jornalismo brasileiro estão os albardeiros de traduções fajutas – os maus alfaiates de texto q rondam as oficinas estrangeiras catando retalhos de escritores melhores, traduzindo-os pifiamente e costurando tudo de qqer jeito num só artigo (q o albardeiro pode atribuir a si mesmo e assim descolar uns trocados). O texto original tem q ser estrangeiro, lógico, de preferência em inglês – língua em q se escreve mais e melhor q em português – porque assim fica mais difícil apontar quem são os alfaiates verdadeiros.

Num país carente de leitura como é o Brasil, é muito disseminada a prática de engrupir o editor e por tabela o leitor pagante. Um contumaz adepto era o PFrancis, de quem já falei aqui, onde tbm falei de outro caso. Essa prática não seria tão ruim se os albardeiros fossem bons tradutores. Afinal, de qqer modo, toda informação deriva de outra, e essa de outra e assim ad infinitum. Mas informação é uma coisa e autoria é outra. ¿Q tal citar as fontes? Êi, e ¿q tal não assinar? Se ao menos disfarçassem demonstrando um decente e criativo conhecimento das duas línguas, ou mesmo bom-senso, o plágio não ficaria tão óbvio. A ocasião faz o ladrão e a inaptidão faz a prisão.

Talvez um termo melhor q 'albardeiro' fosse 'salsicheiro' pois, como se diz, ninguém comeria salsicha se todos soubessem como é feita.

O Sérgio de meu título é, suponho, ãã... um dos críticos de cinema na Folha. O artigo q inspirou estes comentários foi publicado no Guia da Folha no último 3 de março e é quase um manual do albardeiro-salsicheiro. Quem tiver acesso via internet, pode lê-los nestes locais:

http://www1.folha.uol.com.br/guia/ci0303200601.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/guia/ci0303200603.shtml

Abaixo uma listinha dos indícios comuns:

1. Frases com raciocínios evidentemente criados em inglês:
Se adultos podem discutir quais são os seus filmes prediletos entre os indicados e para quem gostariam que os prêmios fossem entregues, este só pode ser um ano atípico na história recente do Oscar

2. Expressões q até fazem sentido em português, mas q, no contexto, só podem ter aparecido na mente dum inglesante:
filme eminentemente popular

3. Expressões contendo preposições q indicam movimento duma maneira inusitada em português:
transpor a fronteira para o território do "cinema de prestígio"

4. Frases em q há uma distância enorme entre palavras q apareceriam próximas em português (note a palavra 'fizeram', inglês 'did'):
Nenhuma superprodução ou filme eminentemente popular se mostrou capaz de transpor a fronteira para o território do "cinema de prestígio" ou "de qualidade", como "Gladiador", "Uma Mente Brilhante" e "O Senhor dos Anéis" fizeram.

5. Frases com estrutura modular embutida, típica do inglês, q teriam estrutura mais arredondada se escritas originalmente em português:
A lista dos dez indicados nas duas categorias de roteiro, seleção ampliada do que os eleitores da Academia consideram que houve de melhor na temporada...

6. Expressões sintéticas cheias de significado em inglês, mas q soam vagas se simplesmente traduzidas:
No que realmente conta, nem sinal de "As Crônicas de Nárnia", "King Kong", "Harry Potter", "Batman Begins" e "Star Wars".

7. Frases cuja estrutura inglesa levam desde o início a uma certa entonação, mas q em português confundem o leitor:
De volta aos anos 70, quando o Oscar de melhor filme era disputado por "Laranja Mecânica", "A Última Sessão de Cinema", "Amargo Pesadelo", "Gritos e Sussurros", "Chinatown", "A Conversação", "Um Estranho no Ninho", "Nashville" e "Taxi Driver", entre outros? Nem tanto, mas até lembra um pouco aquele tempo.

8. Frases de efeito q tipicamente aparecem em inglês, incomuns em português:
Diga o que quiser dessa história, exceto que só pode ser coisa de filme.

9. Inícios de frase q remetem a estruturas comuns em inglês, inauditas em português:
Houve mesmo Laura Henderson, a personagem que valeu à inglesa Judi Dench, 71, sua quinta indicação para o Oscar.

10. Estruturas modulares analíticas q em português mais comumente seriam sintéticas:
indicação para o Oscar em vez de indicação ao Oscar.

11. Expressões simplesmente mal traduzidas:
ajudou a revigorar a cena teatral inglesa

12. Aparente ignorância sobre a origem de expressões inglesas:
Aqui, esse pedaço da trama reaparece, (...) mas em chave triste. 'On a sad key' é um termo originado da música (onde key=tom); diz-se q os tons menores são 'tristes'.

13. Expressões aliterativas em inglês q são de uso comum por causa de sua aliteratividade. Em português, a tradução às vezes soa como o primo pobre de alguma outra expressão portuguesa de mesmo significado:
embora os bombardeios aterrorizem Londres, é sempre possível encontrar alegria, companhia e seios nus no Windmill. (inglês=bare breasts)

Nosso estelar doutor pode estar totalmente errado. O jornalista q ganhou uns trocados pela publicação desse texto no Guia da Folha pode simplesmente ter lido todo o material promocional (em inglês) e algumas críticas (em inglês) e, consultando seu invejável conhecimento de cinema, ter escrito essas linhas todas de próprio punho. Ele pode simplesmente ser um mau escritor. Mas... mas... ¿isso não seria até mais hilariante? ¿...q um veículo de circulação nacional se veja reduzido a publicar um artigo assinado dum suposto crítico de cinema q lê tanto em inglês q mal consegue diferenciar o inglês do português em seus próprios escritos?

Na verdade há pouquizíssimos críticos de cinema no Brasil. Há, sim, uma quantidade enorme de divulgadores de cinema, o pessoal q une seu conhecimento de inglês, seu gosto por cinema e seus contatos com veículos de imprensa pra ganhar a vida modestamente. Nada contra alguém ganhar a vida modestamente. O jornalista q assinou as matérias acima tem minha total compreensão. Mas seu cachê vem dos milhões de pessoas (entre elas, parentes e amigos meus) q gastam dinheiro de seu próprio bolso ao comprar jornais em q esperam obter, no mínimo, uma compreensão imediata do q lêem; e no entanto são rotineiramente expostos à cara-de-pau de albardeiros q nem sequer utilizam muitos neurônios pra costurar os retalhos q roubam. O problema, o hilariante, é o q isso demonstra sobre a maneira como se fazem tantas coisas influentes no Brasil.

A gargalhável seriedade da fachada.

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

21 fevereiro 2006

O sonho pônei

O Dr Plausível não ri só qdo trata hipoplausibiléticos; também ri do q é perfeitamente encaixadinho. Mas aí é um riso estético-extático, reservado a alguns budistas e um q outro agnóstico. Uns meses atrás, despucelando-se de rir, nosso empedernido doutor me mostrou uma tirinha de jornal. Eu olhei e logo vi q se tratava duma das mais geniais tirinhas de toda a história dos quadrinhos, e na data de hoje escolhi render homenagem à dita cuja. Eu sempre sigo o conselho do Tom Stoppard, "don't clap too loudly," &c. Mas o autor da tirinha, Caco Galhardo, acertou tão na mosca, q merece uns tapinhas nas costas e uma noitada num puteiro.

O Pequeno Pônei é um cavalinho mal-humorado q quer, por assim dizer, extrapolar sua poneidade. Sempre q declara um desejo de ser outra coisa, vem alguém e diz, "¡Mas você é um pônei!" Por exemplo, na tira anterior o Pequeno Pônei encontra o Chet Baker:

PeqPon: Chet, estou farto dessa vida fútil. Quero ser profundo como você.
CheBak: Forget it, pal. You're a pônei.

E aí vem esta obra-prima:



E na tirinha seguinte:

PP: Chet, estamos neste deserto há horas e até agora nem sombra de inspiração.
CB: Eu estou curtindo.
PP: Curtindo o quê, o sol escaldante, a areia penetrante, a solidão implacável?
CB: Não, curtindo andar de pônei.
PP: Não zoa, Chet.

O Dr Plausível pondera q boa parte do mundo se divide entre chets-bakers e pequenos-pôneis: dum lado aqueles poucos q, com talento e trabalho, se encontraram nalguma arte ou ofício, e do outro aqueles muitos q, procurando uma revelação ou uma mudança de vida, sustentam e enriquecem os primeiros ao tentar percorrer o mesmo caminho q eles, mas na verdade os carregam. Nosso esbaldado humanista com certeza teria coisas mais profundas a dizer sobre a tirinha. Já eu, ¿que posso dizer senão isto?:

Talvez por tê-los visto algumas horas antes, instantaneamente me vieram à mente o Ozzy Osbourne, Paulo Coelho e os críticos do Lula.

Explico. ¿Já viram aquele seriado com a família Osbourne? Pois então. Vendo aquela riqueza estapafúrdia em q o Ozzy vive, e por associação (em > ou < grau) todo artista famoso, é impossível descartar a constatação de q aquilo tudo saiu dos bolsos das dezenas de milhões de fãs idólatras impressionáveis q compraram discos a preços 'de mercado' (haha) e pagaram pra ver shows exorbitantes economizando as merrequinhas do dia-a-dia. E também é quase impossível não pensar (e este é meu ponto principal) numa parte desses fãs: os milhões de jovens sem talento, tempo ou tino q se 'inspiram' nos 'grandes' artistas e compram guitarras, teclados, baterias, métodos, CDs &c e desperdiçam horas, meses e anos de suas vidas no sonho pônei de também se tornarem 'grandes' artistas (nada contra tocar um instrumento pra se divertir ou pra ganhar uns trocados). A grande maioria desses jovens jamais vai chegar a lugar algum dessa maneira; mas durante esse processo perdem tempo e gastam um baita dinheirão comprando os produtos q ajudam a patrocinar a imensa riqueza dos artistas e fabricantes, distribuidores, lojistas, &c. Tudo se move a partir da aura do artista, a aura de quem tem o pé firmemente plantado em si mesmo, q conhece seus limites, sabe do q é capaz e o faz, e enormes fortunas são carregadas literalmente nas costas de quem procura trilhar o mesmo 'longo caminho'. De vez em qdo alguém se dá bem, mas aí o caminho é o caminho dele e não o do artista (q a partir daí é demovido ao status de 'influência').

O q me leva ao PCoelho, o "alquimista" q transforma lugares-comuns em ouro de tolo. É o cara q supostamente diz q cada um deve seguir seu próprio sonho e, paradoxalmente, enriqueceu vendendo os mesmíssimos livros a dezenas de milhões de leitores. É gargalhavelmente triste. Pensei nele ao ver a tirinha, mas poderia ter pensado em qqer um das miríades de outros autores, compositores e filósofos q, ao expressarem sua própria verdade em seu próprio estilo forjado por seu próprio talento e seu próprio trabalho, dão ao pônei a sensação de q ele pode chegar ao mesmo lugar imitando o resultado do trabalho e talento dos gênios – ¡parece tão fácil! –, no q está não só enganando a si mesmo como sustentando e enriquecendo, distanciando e inchando a máquina mesma q os engana.

Em essência, gozando com o pau dos outros.

E pensei também na pressão implacável pra q gastem fortunas aprendendo inglês pessoas q mal articulam um raciocínio claro em sua própria língua ou como se não houvesse mais a dizer e criar em sua própria língua; pensei no batalhão de mãezolas q pagam pra ver e suspiram vendo MBarishnikov ou NComaneci e enfiam as filhas no balé ou na ginástica (esse é o típico sonho pônei: ao aprender o básico de inglês ou de piano, pelo menos vc se diverte); pensei em toda a babação em cima de filósofos e todas as páginas publicadas e compradas q nunca foram nem serão lidas, e nos bilhões de livros comprados q mofam em prateleiras, sebos e cérebros; pensei nos escritores, atores e artistas – de preferência euaenses ou zoropeus – e suas hordas de fãs imitando trejeitos, dicções, frases, opiniões, penteados, modas e gostos, fãs q a cada imitação derramam alguns centavos, alguns milhares de neurônios, e assim pagam o aluguel devido como inquilinos de mentes alheias.

Dependendo do gosto, pra cada OOsbourne e PCoelho há uma ERegina e um MProust ou outros milhares de artistas e escritores e dezenas de milhares de seus associados cavalgando centenas de milhões de pôneis q acreditam poder transcender sua poneidade pelo simples fato de percorrer um caminho já trilhado. Mais realista seria alguém chegar a cada um desses milhões e milhões de imitadores, fãs e deslumbrados e dizer:

"¡Mas você é um pônei!"

Mas já q isso seria dum mau-gosto abismal, ninguém se arrisca. Assim, é preciso q um Caco Galhardo coloque a coisa numa perspectiva, digamos, mais metafórica. E por isso, repito, merece bem merecido, e não mais q, uns tapinhas nas costas e uma noitada num puteiro.

Ainda há a questão do pônei em si. Pois ¿há algo de errado ou ruim ou vergonhoso em ser pônei? Pelo contrário, por dois motivos. (1) O pequeno-pônei é o default do ser humano. Todo mundo é pônei em quase tudo. Já vi o PCoelho tentando filosofar e posso dizer q não é a praia dele. E ¡me poupem de ver o cara dançando balé! Quem já viu o Ozzy no seriado, sabe q ele é pônei em tudo menos em beber da própria fama. ¿Que dizer de Nietzsche, q se sentiu o próprio pônei depois q caiu dum cavalo e não pôde virar soldado? ¿Que dizer de Tchaikovski, q ao q consta era tão bem dotado qto um pônei comparado a um garanhão? (2) O mais importante é q todo chet-baker começou como pequeno-pônei, mas teve a sorte de desejar aquilo em q seu talento natural e suas circunstâncias desembocavam. Assim, não há nada de errado ou intrinsecamente ridículo em alguém almejar, sonhar, sofrer influências e trabalhar feito um cavalo pra encontrar o próprio caminho. O ridículo, o ataque hipoplausibilético, é guiar-se pelos outros, deixando as rédeas do focinho nas mãos do chet-baker de ocasião.

E ¿que dizer de Lula, q é acusado diariamente de ser um pônei da gramática e está pouco se lixando porque se recusa a carregar a cheta-baker q é a norma culta (NoCu, segundo eu) até um deserto q ele jamais poderia chamar de Lar? Certo está ele, pois apesar do q dizem os pôneis da NoCu, ninguém fala errado a própria língua. Os críticos desse aspecto do Lula são os q promovem a idéia do Brasil como um país-pônei, uma nação de expatriados, uma imitação de pátria. São os q querem o Brasil todo pedindo a um chet-baker "me ensina a ser desenvolvido como vc" e o chet-baker dizendo "tá bom, tá bom, mas é um loooongo caminho."

Merecem gargalhadas (nem estéticas nem extáticas).

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA