06 setembro 2005

A esperança como negócio (2): uma réplica

Um caro leitor, sem dúvida vitimado por um ataque passageiro de hipoplausibilose, enviou este comentário sobre o artigo anterior:

O crescimento resolve mais problemas do que cria – principalmente o desemprego e a distribuição de renda – e não depende apenas do crescimento populacional. ... Algumas coisas dependem do "desenvolvimento", que é um passo além do crescimento, representando mais questões qualitativas do que quantitativas. ... o doutor aponta entre fatores externos e a pobreza uma relação de causa e efeito mais destacada do que a dos fatores internos.

A hipoplausibilose pode causar danos irreparáveis. Não consegui contactar nosso epistêmico doutor, q está em férias no Alabama. Mas é num espírito de solidariedade pós-Katrina q me disponho aqui como paramédico a utilizar suas técnicas plausoterápicas pra tentar minimizar o estrago na mente inundada desse leitor.

O vírus atacou em três flancos: o leitor (1) acha q o crescimento econômico não depende apenas do crescimento populacional; (2) acha q o desenvolvimento resulta em melhoras qualitativas mais q quantitativas; e (3) viu no artigo anterior uma certa demonização da Zoropa como promotora de pobreza no terceiro mundo. Vou tratar dos sintomas em ordem inversa.

(3) A Zoropa não pode "causar" a pobreza do terceiro mundo - pelo simples motivo de q a pobreza é, como já foi dito aqui, o estado natural da humanidade, e portanto não pode ser "causado" por coisa alguma.

(2) O famigerado "crescimento econômico", no entanto, por se valer de aprimoramentos cada vez mais minuciosos em ribombocas de parafusetas cada vez mais diminutas e ao mesmo tempo cada vez mais repetitivas, depende da produção incansável de bebês pobres pra q estes, ao crescerem, cuidem de detalhes cada vez mais liliputianos, mais numerosos e comparativamente menor remunerados, e adquiram (coletivamente) cada vez mais produtos cada vez mais padronizados. Ou seja, os detalhes vão ficando cada vez menores e mais numerosos, e seu volume aumenta, e portanto é preciso haver cada vez mais pessoas q se vejam forçadas a cuidar deles: ou seja, os pobres esperançosos.

(1) O "desenvolvimento" é outra falácia q nada mais é q um resultado fortuito do aumento populacional: qto mais gente há no mundo, há mais invenções e descobertas. No entanto, mesmo em número ou relevância, as invenções e descobertas nunca reduzirão a aceleração da criação de problemas, pelo simples motivo de q um problema precisa primeiro aparecer pra depois ser resolvido, e qto maior o número de pessoas, tantos mais problemas novos são criados. Além disso, no q diz respeito à relação entre desenvolvimento e aumento da população pobre, vale o plus ça change, plus c'est la même chose: a Zoropa, as patentes e os royalties de hoje são os nobres, feudos e tributos de ontem, só q com um aumento estapafúrdio nos níveis de encheção de saco e de degeneração do mundo natural.

Tente vc mesmo este reductio ad absurdum: imagine uma tribo de digamos 500 humanos na Idade da Pedra. ¿Vc consegue imaginar essa tribo, mantendo sua população estável ao longo de 100 mil anos, atingir, unicamente por inteligência, sabedoria e empenho, o nível de desenvolvimento, bem-estar e conforto médio dos dias de hoje? Difícer, né?

Em resumo, se em mil-setecentos-e-pedrada a população mundial era x, e hoje um número igual ("x") de pessoas vive bem e confortavelmente, ¿pode-se em sã consciência dizer q houve desenvolvimento, se no interim criou-se um número y=1000.x de pessoas, 100.x das quais têm vida análoga à dos pobres de mil-setecentos-e-pedrada, e sendo q em termos absolutos a distância entre o mais rico e o mais pobre aumentou na mesma proporção?

O Dr Plausível deve estar se divertindo às pampas no Alabama.

4 comentários:

Miroslav disse...

A vaidade é uma merda. Atinge a todos, sem a menor distinção. Percebam, imbecis sobreviventes, que tudo, MAS TUDO MESMO nesta vidinha infecta é pura vaidade. Inclusive este texto que agora escrevo. Fica aí rebuscando a prosa para arrotar cultura. Linguagem coloquial? "Nem pensar, afinal sou tão inteligente". Não. Vc. apenas é culto. O antônimo de culto é ignorante. O de esperto é bobo. E o de inteligente.... você.
A quem possa vestir a carapuça.

Pracimademoá disse...

O que é esse Miroslav? Um niilista? Isso tem cura?

Neanderthal disse...

O que quis dizer é que existem outros fatores, além do crescimento populacional, que promovem o crescimento econômico. Caso contrário, o indice PIB per Cápita seria uma constante.

A existência de pobres em abundância, que se prontifiquem a fazer trabalhos braçais a custo baixo é, sem dúvida, um dos grandes fatores de produção. Empresários voltados à indústria sabem bem explorar esse tipo de oportunidade, como mostra o caso da China. Entretanto, o crescimento da produção chinesa gera uma crescente (apesar de sutil) escaçez de mão de obra, que obriga os patrões a elevarem, mesmo que sutilmente, os salários pagos. Não que a mão de obra chinesa se torne tão cara quanto a suiça em alguns anos, mas um aumento de US$ 5,00/mês para US$ 50,00/mês significa 1000%. Esse valor não resolve todos os seus problemas, mas é melhor do que a situação anterior. Portanto, resolve mais problemas do que cria.

Com relação ao desenvolvimento, é inegável que populações maiores conseguem introduzir mais inovações, mas, novamente, esse não é o único fator.

Com relação à distribuição do desenvolvimento é, sem dúvida, heterogênea. Algumas sociedades são mais desenvolvidas que outras.

Permafrost disse...

Derthal,
Acho q estamos falando de duas coisas diferentes. Vc olha pro desenvolvimento e vê um trator lindo e dinâmico. Eu vejo todo o lastro de sujeira, destruição e degradação q ele vai deixando no caminho.

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