26 fevereiro 2005

Shakespeare acochambrado

Nosso expressivo Dr Plausível é um dos mais entusiásticos defensores, promotores ou enfatizadores da necessidade imperiosa de se cultivar, diversificar e sofisticar a cultura brasileira.

Porque, putzcarraldo, imitar é uma coisa q o brasileiro não faz bem.

Um dos filmes favoritos do Dr Plausível é Shakespeare apaixonado, q ganhou o Plausuto de Ouro no Festival Internacional de Cinema Plausível de 1999. Ele sempre o vê como Shakespeare in love, mas dois dias atrás estava a fim dumas risadas e viu uma versão dublada no canal TNT.

Pausa pra rir.

RARARARARAQUAHAHAHAQUA
HAKAKAKAKAKAcofQUAQUAQUA
QUAHAHAHAHARARARAKAKAKAK...&c

Mprêssionante.

Deu a exata impressão de q alguns adolescentes cariocas com vozes parecidas, malemolência, dicção ruim, zero em modulação vocal, nenhum senso dramático, compreensão nula e dialética inexistente juntaram-se pra se divertir fazendo teatrinho numa tarde nublada, e a idéia de dublar um filme surgiu, mais ou menos assim:

Tátchie: Êi, ¿puorhquiê quiea giêntchie num faij umae dublagein djium fíelmie?
Cadúâ: ¡Goashtêie! Marh ¿quie fielmie, puô?
Tátchie: Ah, sei lá, véi, shcólhi qualqué um aêa.
Berhnarhdjinhuô: ¿Qui tal o Tchietaníquie?
Alíecie: Ah nãoâ, si a gientchie fizé o Tchietaníquie, com cierhtêzae eu vo chorarhh.
Fielíepie: Tão vamo fazê o Cheiquishpíerapaixonáduâ.
Tátchie: ¡Maniêruô! Iêsse aiêa tchinha tuoduo pra dá cérhtuâ.

O resultado ficou uma gororoba de dar dó. Usaram uma tradução até q razoável pra uma encenação colegial. Mas qdo vc põe uma turma dessas pra falar contra o relógio, só pode virar uma maçaroca esvaziada, bisonha e platafórmica. Eles pegaram uma história cheia de subtextos, um texto repleto de minúcias e atuações carregadas de meandros, e simplesmente não viram nada além duma seqüência de palavras. Às vezes alguém dubla mais alto, às vezes mais triste ou mais alegre, e aí está. Foi como ler uma receita dum prato sofisticado, complexo e delicioso, e então jogar tudo num liqüidificador: ¿ué, não é a mesma coisa? - ¿não vai virar tudo bolo digestivo na barriga? Pobre povão brasileiro, q se vê bombardeado por produções estrangeiras esvaídas de sentido e significância por filtros desse quilate. Por isso é q o Dr Plausível ri mas também procura estimular o brasileiro a complexificar a própria cultura, refinando-a e aumentando seus riscos.

Mas ¡ó hirtos histriões! ¡ó chucro cheikspir!, ninguém é de ferro: nosso econômico doutor foi dormir rindo, acordou rindo e passou um dia agradabilíssimo recordando a inocente ignorância de sua vida pregressa.

15 fevereiro 2005

E o doutor ficou sério de repente...

Recentemente, um dos inúmeros leitores assíduos deste blogue perguntou a nosso estratosférico doutor qual é a diferença entre 'inteligente' e 'plausível'. Por alguma razão q me escapa, 'plausível' é comumente confundida com 'coerente', 'verossímil', 'consistente', 'honesto', 'justo'. Há até os leitores q —vítimas da escassez de unidades semânticas abstratas no português corrente e da confusão generalizada sobre o significado útil das existentes— mal-interpretam o atendimento humanitário prestado pelo bom doutor e conseqüentemente ¡nela não vêem benefício algum! Mas esta é a primeira vez q um leitor vai direto à fonte e se pergunta o q haverá de inteligente no plausível e o q de plausível no inteligente. Como se trata dum leitor daqueles q realmente prestam atenção e geralmente não dão bola fora ao comentar, fui perguntar ao próprio Dr Plausível q catso de distinção se pode fazer entre duas coisas tão díspares. Embasbacaram meu entediante cérebro as sábias palavras explicatórias do enlevante pensador —motivo pelo qual as resumo aqui:

Em português, 'inteligência' tem dois sentidos principais, digamos inteligência.1 e inteligência.2. A .1 expressa um fato, a .2 um juízo. Até mesmo um mongolóide pode ser chamado de 'inteligente.1' qdo essa palavra expressa o fato de q ele utiliza computações neuronais pra lidar com o mundo físico, por mais toscamente. Fala-se da inteligência.1 de macacos, golfinhos e cães, e pode-se até calcular o grau de inteligência.1 de formigas e lesmas. 'Inteligência' aqui é uma medida como 'distância' ou 'peso', e se aplica aos seres vivos. É a capacidade de inteligir, verbo este muito utilizado pelo doutor qdo volta de suas caminhadas filosóficas.

O outro sentido de 'inteligência' pretensamente expressa um valor absoluto. Qdo se diz q fulano é 'inteligente.2' ou 'muito inteligente.2', o sentido está mais pra 'arguto' ou 'perspicaz'. Digo 'pretensamente' no mesmo sentido em q palavras como 'distante' e 'pesado' pretensamente expressam valores absolutos. Por exemplo, o Manuel não consegue carregar uma mala e diz: "Tá muito pesado." O Joaquim fica intrigado: "¿Pesado como um trem, como uma montanha, ou como a Lua sobre a superfície de Urano?" E o Manuel esclarece: "Pesado como acima do peso q me permitiria carregá-lo." Do mesmo modo, diz-se q uma pessoa é 'inteligente.2' se seu grau de inteligência.1 lhe permite resolver um problema, e 'muito inteligente.2' se lhe permite resolvê-lo com uma facilidade acima do esperado.

Ora, assim como só pode haver distância onde há espaço, também só pode haver plausibilidade onde há inteligência.1 e comunicação de idéias. Por si só, um fato não tem como ser plausível ou implausível: só se pode diagnosticar a plausibilidade de relatos, crenças e teorias. Estes podem ser explícitos (como num filme) ou implícitos (como num slogan). Relatos, crenças e teorias são plausíveis se são contíguos à realidade, ou seja, se sua continuidade interna é semelhante à continuidade da realidade. Por exemplo, uma história em quadrinhos de ficção científica pode ser inverossímil, incoerente e desonesta. Mas ao mesmo tempo pode ser perfeitamente plausível, contanto q logo de início explicite a moldura mental em q vai se desenrolar e não saia dela: o q acontece num momento tem q levar ao q acontece depois (para a diferença entre 'coerente' e 'plausível', leia aqui). Igualmente com as crenças e teorias. A implausibilidade destas é tanto mais visível qto mais sua estrutura se aproxima da continuidade oleosa da ficção mal feita, daquela lubrificância em q toda questão incômoda escorrega e some.

Plausibilidade nada tem a ver com inteligência.2. Até mesmo um retardado pode produzir relatos ou ter crenças absolutamente plausíveis. No entanto, a detecção de implausibilidades (explícitas ou implícitas, próprias ou alheias), essa sim requer uma certa inteligência.2. No caso das implausibilidades próprias, sua eliminação requer não apenas inteligência.2 mas honestidade, humanismo, e em certos casos conhecimento cru e desentupido. Digo isso porque o q se vê em todas as frentes de comunicação são produtores de grande inteligência vomitando, regurgitando e cagando hipoplausibiloses aos borbotões —às vezes por desleixo, às vezes por desinteresse, mas também às vezes por pura má-fé. A reação de nosso essencial luminar aos efeitos da hipoplausibilose é, dado o poder dos midieiros, a única plausível: gargalhar, destrambelhar-se de rir da empáfia emocional, da petulância cultural e do bolor intelectual q toda essa gente sem escrúpulos, sem cuidado ou sem inteligência.2 pensa q está conseguindo esconder.

06 fevereiro 2005

A passeio com o doutor

Nosso educativo Dr Plausível sempre gostou de caminhar pelas ruas da cidade. É o q fazia regularmente antes de ficar aqueles meses em coma; e agora, caminhar é o q seu médico aconselha. Só q não dá. O coma foi causado pelas gargalhadas irreprimíveis, e pra andar pelas ruas sem gargalhar a cada quarteirão ele teria q morar no Japão, pra não entender os cartazes, anúncios, placas e vitrines.

Domingo passado, saí com ele a passeio e vi q realmente é difícil não rir. Vejam só:

Na vitrine dum restaurante chinês:

HOMENS - 6,00
MULHERES - 5,00
MARMITEX - 5,00

Ã?? ¿Será 'marmitex' alguma gíria chinesa pra homossexual? ¿Vamos regulamentar o casamento marmitex, o casamento vale-tudo enlatado em banho-maria? E se nosso econômico filantropo e eu entrássemos no chinês de mãos dadas e declarássemos nosso desejo por um almoço marmitex, ¿pagaríamos apenas R$10 em vez de R$12? ¡¡QUANG-QUANG-QUANG-QUANG-QUANG!!

No quarteirão seguinte, um bulbo luminoso à entrada dum bar anuncia

Aqui tem
BOHEMIA
Desde 1853

Ãã???? ¿Como é q é? ¿Aquele barzinho fuleiro existe há 150 anos? Cacilda!! E se fosse só esse, seria plausível. Mas acontece q trocentos outros barzinhos de SPaulo "existem" desde 1853. Alguém devia pesquisar pra saber o q fez o governo daquela época pra conseguir incentivar tanta gente a abrir botequins tão longevos.

Mais um quarteirão, e um autidór - q eu nem entendi o q anuncia - diz em letras garrafais

MULHERES, IGNOREM ESTE ANÚNCIO.

Ããã?????? E aí aparece a mensagem do autidór em letrinhas menorzinhas num canto. ¡¿Q é q é isso?! Parece coisa de amador esquizofrênico. Primeiro, q o cartaz pede às mulheres q ignorem algo q já leram até o fim, pois o resto do anúncio parece expediente. Segundo, q é impossível prestar atenção no resto da mensagem, com aquele trambolho lógico estatelado no meio do campo de visão. E por último, ¿quem é q vai ficar lendo letrinhas em autidór, minha gente? ¡Esse pessoal de propaganda parece q bebeu, sô!

O Dr Plausível já estava quase se arrastando pela calçada, qdo veio o golpe de misericórdia q me fez colocá-lo de olhos vendados num táxi e levá-lo de volta pra casa: numa banca um cartaz anuncia q, se vc fizer não sei o quê com o jornal Agora São Paulo, vc ganha um dicionário Michaelis Espanhol-Português. Na borda do cartaz, algum gênio de marketing colocou

PROMOÇÃO VÁLIDA A PARTIR DE 31/1 OU ENQUANTO DURAREM OS ESTOQUES

Ãããã???????? Esse pessoal deve viver num loop do espaço-tempo. Pois ¡¿como é q pode a promoção ser válida a partir daquela data ou até acabar o estoque?! KAKAKAKAKAKA!!

Meu, esses três últimos não são anúncios em cidadezinhas do interior, como aqueles no Anguished English do Lederer: são coisas de Sumpaulo, onde supostamente se encontra o melhor repositório de lógica, perspicácia e sagacidade deste país. Esse pessoal precisa urgententemente começar uma prolongada e exaustiva plausoterapia, pois se esse grau de hipoplausibilose nem é notado, deve ser porque o país está afundando na própria incontinência. Ainda por cima, simplesmente não podem continuar ameaçando assim o bem-estar de nosso efúlgeo doutor. É cruel demais. Aproveitam-se de sua mente epifânica pra minar seu frágil físico. Maldade.