19 janeiro 2005

Ingrêis é essenciar (2)

Tem um tal de "editau de selessão" rondando por aí, pretensamente tirando sarrito do Itamaraty ao fazer um linque mental entre a ortografia 'pobre' do brasileiro médio e o monoglotismo do Lula, prestando lip-service pra essa meléia toda sobre a necessidade ou não de diplomata falar inglês.

O Dr Plausível, como sóe ocorrer em situações hilariantes, hilariou-se.

Primeiro, porque a sátira do "editau" erra feio de alvo. O grande problema do ensino e prática de português não tem nada a ver com ortografia, q é uma questão mais dialetal do q de ensino. Faça o teste: ignore o dialeto ortográfico do texto, e vai ver q ele está muitíssimo bem escrito: todos os raciocínios estão bem concatenados, nada falta e nada sobra. A única razão pra o autor achar q estava satirizando alguma coisa é q entre os brasileiros letrados há uma mentalidade de rebanho q utiliza a ortografia como um ícone unificador e exclusor.

O texto seria mais a propósito se satirizasse outras deficiências dos usuários ignotos da língua - por exemplo, (1) qdo não conseguem escrever três idéias seguidas sem incorrer em non-sequiturs, incoerências, hipoplausibiloses e outros problemas de lógica e bom-senso; e (2) qdo as deficiências vocabulares e estruturais do próprio português são obstáculos contra a expressão de idéias novas. Leia o q já foi dito sobre isso neste blogue.

Segundo, porque nosso enlevado doutor acha tudo isso jogo de gandula. Pra quem já não está encaminhado, o curso do Instituto Rio Branco é q nem programa de calouros ou Casa dos Artistas – esses eventos usados pra promover aspirantes de segundo e terceiro escalão. Programas como a CdA ou o BBB foram criados porque as emissoras são rondadas diáriamente por aspirantes pouco talentosos enchendo o saco pra aparecer na tv como artistas. ¿Q fazer com toda essa gente? Cria-se um programa q os coloca em evidência pra ver se "pegam". Por outro lado, os artistas de real talento ou de robusto cartucho já vão dando lucro às emissoras e gravadoras desde a adolescência, e não precisam fazer provinhas.

O IRB, sinto dizê-lo, é quase a mesma coisa. Existe pra tentar pescar um ou outro aspirante entre os já cartuchados e sabidamente talentosos poliglotas. Além disso, assim como a maioria dos formados em CdA ou BBB saem da notoriedade pro anonimato em menos de um mês, também a maioria dos ditos "diplomatas" do IRB saem de lá pra virar auxiliar de sub-cônsul em países como a Ucrânia, onde só precisa do inglês pra entender filme legendado em ucraniano na tv a cabo. É triste mas é verdade. Pois lo que la naturaleza no da, Salamanca no presta.

Então ¿pra quê todo esse fuzuê? ¿Será q já não bolaram essa alteração na prova pra q a imprensa e o povão incauto associasse tudo ao célebre e mal-falado monoglotismo do braz-prez?

8 comentários:

Neanderthal disse...

Esse texto parece mais um ataque à prepotência e depreparo do PT do que qualquer outra coisa.
Sobre a necessidade ou não de se falar inglês, sou a favor. O inglês é inevitavelmente a lingua franca de hoje, o que seria o esperanto. É a lingua pela qual existe maior probabilidade de um Uruguaio se entender com um Ucraniano etc...
Com relação ao IRB, pelo pouco contato que tive com "diplomatas" brasileiros, o sub-cônsul deve ser uma besta que tem amizade com algum coronél de merda.

Marcus Pessoa disse...

Vou repetir aqui, ao Neanderthal, o relato que postei como comment no Smart Shade of Blue: a revista Época dessa semana aparentemente demonstra que nada vai mudar no IRB. É apenas uma pequena mexida, o inglês deixa de ser prova eliminatória para ser classificatória. Num exame com quatro mil candidatos para cada vaga, isso faz pouquíssima diferença.

Ninguém vai ver diplomata na Ucrânica ou na Cochinchina usando intérprete pra explicar o filme na TV a cabo. Aliás, a prova já teve caráter classificatório em outras ocasiões.

O ministro é que uma anta mesmo, ao praticamente confirmar algo que nunca vai acontecer...

Marcus Pessoa disse...

Só pra acrescentar: post maravilhoso, Pablo. Você é o cara.

[modo puxa-saco off]

smart shade of blue disse...

Disconcordo.

Quer dizer, não que o Dr. Plausível não seja "o cara", coisa que ele patentemente é. Mas disconcordo de que o fuzuê seja inútil.
Primeiro: porque mesmo na Ucrânia, o diplomata vai ter que se comunicar com as autoridades ucranianas. Como dificilmente um diplomata brasileiro falará o ucraniano e com ainda menor probabilidade o diplomata ucraniano falará o português, eles vão ter mais é que se entender em uma terceira língua, que vai ser o inglês já que esta é a língua franca dos dias que correm. Ou seja, o inglês é essencial.
Segundo: se a medida não tem efeitos práticos, por que adotá-la ? Por puro populismo ?

Alfred E. Neuman disse...

Tirar a "eliminatoriedade" do inglês não é detalhe: a nota de corte não era arbitrária, mas refletia (ao menos em tese) um patamar mínimo de conhecimento que o diplomata precisa(va) ter. Era determinístico: ou o cara sabia falar inglês ou não sabia - ponto. Não tinha essa de o cidadão entrar falando um inglês "marromenos" - a prova oral, sobretudo, filtrava os fluentes dos demais. Agora vai entrar gente que, bem, "se vira", "arranha", "sabe alguma coisa" ou "consegue se comunicar". A comunicação entre o diplomata brasileiro e seu contraparte estrangeiro será truncada, pois há sempre aqueles aspectos sutis de um diálogo (ou, pior, de uma negociação) que apenas os versados nas sutilezas da língua utilizada conseguem captar. Ligeiras inflexões verbais que alteram o sentido de uma mensagem ou que podem, inclusive, conter uma outra mensagem. Metáforas, figuras de linguagem, jogos de palavras, etc. O diplomata precisa ser capaz de captar isso, sob o risco de nós, "stakeholders" da política externa, pagarmos o pato.

PZumarán disse...

Acho q cada um de vcs pegou um ou mais aspectos da coisa, raciocinou e chegou a uma conclusão coerente e certeira. É difícil saber quem tem mais razão. Qdo tomado de incerteza sobre qual opinião adotar, nosso elaborante doutor sempre conclue q quem tem mais razão é ele mesmo.

A pergunta sobre o fuzuê é pertinente porque há um dado percebido só mesmo por cínicos da laia do doutor: q o corpo diplomático sempre foi e sempre será um enclave em grande parte aristocrático e hereditário. Na fila de entrada pro Corps Diplomatique, os primeiros são sempre filhotes de diplomatas - jovens q passaram a vida viajando daqui pra lá, vivendo do bom e do melhor, falam inglês e outras línguas desde o berço, e às vezes mal sabem o português. Depois vêm os filhotes de oficiais das forças armadas; sempre de viagem marcada pros estêitis, falam inglês de restaurante e de hotel, e conhecem todas as piadas internacionais. Ambos os tipos de filhotes já têm seu lugarzinho garantido pelo sistema de avaliação "Nods & Winks". Depois vêm os gênios talentosos e sequiosos por criar sua própria linhagem diplomática. Estes entram de qqer jeito, pois pra quem tira 10, tanto faz se a prova é classificatória ou eliminatória.

Por último vêm os selecionados pelos sistemas BBB e CdA. Estes são os únicos q podem ser favorecidos pelo classificatoriedade da prova de inglês. E, não contando com familietes ou amiguetes, vão continuar sendo terceiro escalão sempre. Não fazem muita diferença.

Diferentemente do Dr Plausível, q só ri de tudo, acho duas coisas embaraçosas nesse fuzuê.

Primeiro, q isso virou polêmica *única e simplesmente* porque o braz-prez é do PT e não fala inglês. Sorry. É fato. Poder-se-ia dizer q no mandato de outro presidente de outro partido essa decisão não seria tomada. Mas isso é como culpar o Bush pelo desabamento do WTC: ¿teria acontecido se fosse o Al Gore? Vá saber! Decisões como a dos terroristas ou como a do IRB são conclusões de processos mais longos q meio mandato.

Segundo, q apesar da importância inegável do CorDip - tanto qdo acerta quanto qdo caga -, acho embaraçoso pro Brasil q eles sejam caracterizados como "elite", "os melhores entre os melhores". Fica parecendo q um brasileiro de real valor tem mais é q escafeder-se daqui o qto antes. Os gênios, atraídos por essa imagem, vão rodar pelo mundo qdo deveriam estar aqui, aplicando o cucuruto diretamente aos problemas mais prementes. Pra um país subserviente como este, a diplomacia não é nenhum um bicho de sete cabeças, e pode muito bem ser relegada às mentes dos filhotes de filhotes de filhotes, e aos intermediate students.

Aliás, q eu me lembre, o único caso em q um enviado do Brasil fincou o pé contra os grandes e fez alguma diferença em prol do Brasil foi qdo o ministro da saúde Serra foi à ONU insistir pelos genéricos.

Neanderthal disse...

Zumarán the Man,

Na verdade não é coincidência. O PT só fez essa mudança para dizer que fez alguma coisa, além de ficar viajando, fazendo chur5rascos e fumando charutos. Lembra um pouco o Jânio quando proibiu os biquinis em Copacabana...

Com relação ao corpo diplomático, são umas bestas. Principalmente o primeiro escalão.

PZumarán disse...

Ah não. Se o Jânio fosse do pt, ele não proibiria o traje das ilhas Bikini: ele tentaria promover algum traje de banho chamado copacabana.

E aliás, ¿por que não?

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