08 novembro 2004

A palestra do doutor

Alguns dias atrás, no auditório do Instituto Internacional para a Erradicação da Hipoplausibilose, o Dr Plausível proferiu uma palestra intitulada "O Fundamentalismo Islâmico e os Portadores de Pênis Alheios", transcrita abaixo:

"Toda religião pretende de algum modo padronizar o viver de seus seguidores, e para isso as religiões em grande parte se pleiteiam como conjuntos de regras. As regras religiosas são, por assim dizer, uma resposta pseudo-mística à imbecilidade humana. Não poderia ser diferente, pois para q qqer grupo heterogêneo de pessoas seja economicamente viável, é preciso haver regras q controlem as atividades de gente burra, desonesta ou mesquinha - ou seja, a maior parte da população, senão toda ela em algum momento. Qqer gerente ou supervisor num acesso de raiva (e muitos a qqer hora) concordaria com essa definição de 'regra'.

"Mas não é qqer tipo de regra q serve às religiões. C Nordberg-Schulz, em seu livro Genius Loci, citando fenomenólogos cujos nomes não recordo, demonstra q as características básicas das diversas religiões são influenciadas por aspectos geográficos dos locais onde se originaram. Por exemplo, as religiões monoteístas se originaram em locais amplos e pouco variados, onde se vê o céu de horizonte a horizonte - locais tais como o Oriente Médio, as geleiras Árticas e as tundras Asiáticas. Em contrapartida, as crenças politeístas se originaram em regiões acidentadas como a península Helênica, ou de muita vegetação como a Índia e os bosques europeus. Se as religiões são maneiras q os grupos encontraram de adaptar suas vidas às condições dos locais onde viviam, então pode-se dizer q uma religião q perdura num local está muito bem adaptada a ele e aos problemas sociais advindos das condições ali reinantes. Os problemas sociais são atenuados com regras, e embora as fábulas religiosas entretenham o povaréu, o q ele gosta mesmo é das regras derivadas dessas fábulas, se essas regras prometem ou ajudam a estabilizar a vida do grupo. Depois q as regras "pegam", elas acabam se tornando ainda mais potentes q as condições geográficas locais ao determinar a identidade e o comportamento do grupo ali instalado. O q acontece depois, qdo as regras se disseminam extra-localmente, é outra história, geralmente absurda ou ridícula: vê-se desde ingleses convertidos ao islamismo até cariocas celebrando um rito mitraico em pleno verão com a imagem dum velhinho vestindo peles e viajando de trenó.

"É irônico ver tantos conservadores reclamando de religiões q "pararam no tempo", mormente fazendo pouco do islamismo, como se conservar fosse uma qualidade e permanecer imutável fosse um defeito. (Vale dizer q não tenho a menor simpatia por ou empatia com essa religião, o qqer outra em particular.) O fundamentalismo islâmico está tão perfeitamente adaptado ao local onde foi criado, q sofreu poucas modificações desde então: não se pode dizer q 'parou no tempo' porque após sua época áurea não precisou mais modificar-se, e só precisará fazê-lo ou se o ocidente invadir de vez aquela cultura, ou se as condições climáticas e geográficas do Oriente Médio se modificarem - algo q ocorrerá se a poluição industrial (que começou no ocidente, diga-se de passagem) confirmar as previsões de aquecimento global. Se, como se sabe, a barata é o animal melhor adaptado às condições deste planeta (até atravessar o caminho dum sapato) e se o Islã é a religião melhor adaptada à imbecilidade humana tal como se manifesta numa região quente e semi-inóspita (até deparar-se com ideais ocidentais) então o fundamentalismo islâmico é a barata das religiões desertícolas - com todo respeito tanto pelos islamitas como pelas baratas. Aliás, se os países islâmicos "pararam" no século XV, qual é o problema? Não faz o menor sentido achar q estamos melhor agora do q antes.

"É até compreensível q o atentado ao WTC tenha sido perpetrado por fundamentalistas islâmicos - se é q o foi - qdo se considera as mudanças quase impostas ao mundo islâmico por um credo estrangeiro e estranho ao Islã: o credo da democracia capitalista industrial. Esta já se transformou em religião no ocidente - e uma religião tão sem nexo, provas ou honestidade como qqer outra. Com a mesma veemência com q religiosos invocam a Deus ou Alá, hoje invoca-se a democracia como um conceito abstrato q vai resolver todos os problemas, qdo ao mesmo tempo todos sabemos q democracia real não existe em lugar algum. Muitos islamitas se sentem traídos.

"O q não se diz sobre o abominável atentado é q cada uma das 50 mil pessoas q trabalhavam no WTC tinham orgulho em participar de alguma forma nas decisões q influenciavam cegamente as vidas, costumes e culturas no mundo inteiro. Pode-se no mínimo dizer q, nascida nos EUA ou não, nenhuma das vítimas se ofendia ao ver um adolescente muçulmano trajando t-shirt e blue-jeans, ouvindo ou fazendo uma adaptação grotesca de rap, comendo cheeseburgers, ou utilizando qqer outro objeto cobrável de aculturação. Cada uma daquelas pessoas se orgulhava em trabalhar num dos maiores edifícios já construídos na história, na q talvez seja a cidade mais influente do planeta. Viam-se talvez a si mesmos como os "Masters of the Universe", na expressão cunhada por Tom Wolfe. O q essas cegas decisões globalizantes ignoram contumazmente é q cada lugar tem sua coisa própria, e q é natural q em toda parte se criem radicais imbecis contrariados, pessoas q se outorgam as rédeas dos acontecimentos. Não admira q um "outside-insider" como bin Laden tenha se revoltado (se foi isso mesmo o q houve); como também não admira o bombardeio da mídia ocidental q há décadas "denuncia" e ridiculariza a cultura muçulmana (¿lembra do Indiana Jones fuzilando o árabe q o ameaçava com a cimitarra?). O ser humano é naturalmente imbecil: torna-se radical qdo seu modo de vida lhe parece superior: torna-se contrariado qdo o impedem de gozá-lo a seu bel-prazer. (Os próprios EUA são um caldeirão de radicais imbecis q só não jogam aviões em outros países porque ainda não estão suficientemente contrariados.) O q temos então é a receita da catástrofe: dum lado o orgulho ignorante, do outro a imbecilidade esclarecida. Só pode dar nhaca.

"Ao tentar modificar forçosamente os costumes de qqer região, o rebote é certo e certeiro. Imagine, por exemplo, q algum estrangeiro venha querer forçar você a concordar q comer com talheres é moralmente (ou politicamente, ou economicamente) impróprio e q o certo é comer com um aparelhinho moderno, prático e higiênico que, veja só, ele mesmo vende por uma bagatela. Se você tem a mídia do mundo contando tua história, você joga propaganda no sujeito. Se você não tem, você joga um avião na fábrica de aparelhinhos. É o q os indígenas tupis e tamoios teriam feito a Portugal se houvessem tido a tecnologia; é o q as baratas fariam às fábricas de sapato se soubessem pilotar aviões; é o q algum estadunidense faria à Bahia se o ACM tivesse meios de forçar o tio Sam a comer vatapá.

"Não querendo de forma alguma ser chulo ou ofensivo, mas apenas valendo-me duma idéia bastante expressiva, classifico eufemisticamente a defesa do ideário dos poderosos estadunidenses por estrangeiros idólatras como 'gozar com o pau dos outros', servir de 'porta-pau'. Os jornais brasileiros são porta-pau qdo publicam anonimamente artigos visivelmente (e often mal) traduzidos de jornais "americanos" ou ingleses; a Veja é porta-pau toda vez q traz na capa o mesmíssimo assunto q a Time da semana; o brasileiro médio é um porta-pau qdo prefere ouvir músicas com letra numa língua q não entende; já o brasileiro ãã culto é um porta-pau qdo assina ou compra a versão "latinizada" da Time; e assim por diante passando por todos os porta-pau em todo o mundo q se sentem maiores, mais potentes, mais penetrantes e mais sedutores toda vez q envergam a verga da envergadura estadunidense."

......

Ao terminar a palestra, o Dr Plausível foi entusiasticamente aplaudido de pé por todos os três ouvintes presentes. (Ãã... bom, o porteiro do auditório já estava de pé.)

9 comentários:

Clarice disse...

Eram quatro. Eu estava rolando de rir.
Deveria chorar?
Mataste a pau!!!!!
:}

Josie disse...

Puxa, um texto longo, quase cansativo. Mas com toda certeza, aprovado (ou seria aplaudido?).
A comparação com a barata foi o máximo.

Talvez o máximo da norte-americanização será um mc donald's nas arábias (se é que já não tem, nem sei!)

Volto outras vezes.

Até!

Artur disse...

Há falha grave no arrazoado do Dr. É racional. É plausível. Lançado contra o couro dos porta-paus, dá rebote. Ali só penetram dardos de dogma.

Marcus Pessoa disse...

Sr. Permafrost, me permita dizer que fiquei de queixo caído com a palestra do Dr. Plausível.

Estou pensando em me tornar "porta-pau" do ínclito doutor, o sr. permite?

Permafrost disse...

Acho q vc não iria gostar muito, Marcus. A menos q vc queira ser impotente...

O doutor agradece a vcs Clarice, Josie, Artur e Marcus pelos comentários etimulantes, neste momento tão delicado de seu tratamento pós-coma.

alexandre cruz almeida disse...

tb adorei

smart shade of blue disse...

e eu não vi isso enquanto estava fresco...

Neanderthal disse...

Acho que Josie descobriu o problema: O mcDonald's está com medo do crescimento do Habbib's

PZumarán disse...

HAHAHA!! Mas tanto sangue rolando tá mais pra kibe cru, ora pois não?

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