11 novembro 2004

É pó, é powder, é o Vim no ralinho

Ei, ¿já notou q muitas canções não são mais q listas?

Alguns anos atrás um jornal paulistano com falta de assunto fez uma enquete com várias personalidades da música e outras artes, q responderam à pergunta "¿Qual a melhor canção brasileira?" ou algo assim. Qual não foi a surpresa do Dr Plausível qdo ganhou de lavada aquele monótono paradigma das letras-lista, "Águas de Março" (Tom Jobim) -setenta e oito ítens, um atrás do outro. O doutor achou engraçadíssimo q uma letra q não diz nada, num ritmo semi-hipnótico, sobreposto a uma harmonia q fica girando em círculos, tenha sido a mais citada entre os enquetados. Cada coisa, não? Como música, "Águas de março" é boa, mas pra ser a melhor canção brasileira teria q empilhar muita pedra.

Uma lista de ítens só é plausível se há algum propósito conteudista. Veja "Every breath you take" (Sting): é uma lista plausível exatamente por falar duma obsessão. É só usar o cucuruto –coisa q antigamente se fazia mais amiúde na mpb. Em "Conversa de botequim", por exemplo, Noel Rosa pedia ao garçom pra:

1 trazer
   1a uma boa média
   1b um pão com manteiga
   1c um gardanapo
   1d um copo d'água
2 fechar a porta
3 perguntar o resultado do futebol
4 parar de ficar limpando a mesa
5 pedir ao patrão
   5a uma caneta
   5b um tinteiro
   5c um envelope
   5d um cartão
6 trazer
   6a um palito
   6b um cigarro
7 pedir ao charuteiro
   7a uma revista
   7b um cinzeiro
   7c um isqueiro
8 telefonar pra 344 333
   8a pedir um guarda chuva
9 emprestar algum dinheiro
10 pendurar a despesa

O Rosa teve o bom senso de usar um contexto humourístikü: o fato de a letra ser na verdade uma lista de pedidos é exatamente pra mostrar q o freguês é um abusado. ¿Ou tou errado? Hoje parece q pra produzir um grande sucesso é só começar cada verso com a mesma palavra e terminar com alguma rima. HAHAHAHAHA ¡Bico! O único trabalho necessário é pesquisar num dicionário de rimas. ¡Ê preguiça mental, hem! Olha só "Águas de março":

é pau / é pedra / é o fim do caminho / é um resto de toco / é um pouco sozinho
e assim por diante

[total: 78 ítens]

q tem o mesmíssimo enredo q se fosse:

é um / é dois / é trezentos e nove / é duzentos e quatro / quatrocentos e seis

Isso é uma lista porque a ordem dos fatores não obedece a nenhum propósito semântico ou tramático: misture a ordem dos versos e o conteúdo continuará o mesmo. A ordem dos versos é imposta pelas rimas. ¡Q coisa mais sem nada, sô! Olha outra:

COMEÇAR DE NOVO (Ivan Lins, Vitor Martins)
começar de novo e contar comigo
vai valer a pena ter amanhecido
sem o ítem u-um
sem o ítem do-ois
sem o ítem trê-ês
sem o ítem quatroooo
sem o ítem cinco
sem o ítem se-eis
sem o ítem sete
sem o ítem oitoooo


Olha esta de nosso ministro da curtura:

SE EU QUISER FALAR COM DEUS (Gilberto Gil)
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que fazer assim
Tenho que fazer assado
Tenho que fazer aquilo
e assim por diante

[total: 25 ítens]

Essas duas ainda tinham um certo tino legal, tal como a sacadinha metafísica do Gil terminar dizendo "tenho q caminhar decidido pela estrada que ao findar vai dar em nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada nada do que eu pensava encontrar". Mas as letras mais recentes q são chamadinhas de geniais, ¡vou te contar! Que vergonha. Veja só:

À PRIMEIRA VISTA (Chico César)
quando o ítem um, blablabla
quando o ítem dois, blablabla
quando o ítem três, blablabla
quando o ítem quatro, blablaaaaaa
e assim por diante

[total: 12 ítens]
Amara, dzaiá, soi, ei, dzaiá, zaia, aiii ingado, rã ã
Oh! Amara, dzaiá, soi, ei, dzaiá, zaia, aiii ingado, rã ã


E esta outra, uma seqüência incoesa de imperativos agrupados pelas rimas:

DO IT (Lenine)
aconteceu o ítem um? faça isto
aconteceu o ítem dois? faça aquilo
aconteceu o ítem três? faça tal coisa
aconteceu o ítem quatro? faça tal outra coisa
e assim por diante

[total: 40 ítens]

¿Quié quié isso, minha gente? fábrica de salsicha? ¡¡HAHAHAHAHA!!

Mas não se engane o leitor: nosso esfíngico doutor tem um respeito quase serviçal por esses compositores. Só q eles fazem composições e composições; e o q o intriga é o gosto por esse tipo de maçaroca em série, essa repetitividade sintática, uma frase após a outra dizendo praticamente a mesma coisa. ¿Será dificuldade de concentração? ¿Déficit de atenção? ¿Será... alguma coisa na língua portuguesa?

Acho q é conseqüência do sucesso fácil. Outros compositores não se rendem assim tão fácil ao público. O Chico Buarque, por exemplo, tbm é um grande listador. Só q ele tem suficiente bom senso pra estruturar muitas de suas listas num todo entrelaçado q parece uma coisa só e muitas vezes não poderia aparecer em outra ordem. Quisera seguissem seu exemplo.

Mas, ¡ó prosaico paralelismo! ¡ó anáforas anencéfalas! ¿Q esperança?

11 comentários:

Marcus Pessoa disse...

Fantástico cara... pera lá, em quantas especialidades o Doutor Plausível é PhD? Ele parece entender de tudo!

Só senti falta do compositor-corolário de toda a demonstração: Arnaldo Antunes. Tipo aquela:

Para o melhor cheiro: Chanel
Para ganhar dinheiro: Marisa
Para dizer alguma coisa: Nada

... ao todo 55 itens (Diariamente)... ah, mas é do Nando Reis? Bem, a escola só faz crescer...

Permafrost disse...

Pois é, o Dr Plausível conta com colaboradores de várias áreas. Eu, por exemplo, sou músico.

Mas ¡grande adendo, o seu! Inclusive o adendo dos versos q vc criou... Agora compare tandos 'para' com o q o Chico Buarque conseguiu com a mesma palavra em "O Futebol". ¡Outro nível! E no entanto essa do Chico não fez o menor sucesso... ¿Por que será?, pergunta-se o doutor toda noite antes de dormir.

Pracimademoá disse...

Muita gente tem peito para não gostar de Tom Jobim (ou do sagrado João Gilberto), e até para declarar isso publicamente. E tirando Noel Rosa e o atual ministro, que tem meia carreira brilhante e meia carreira meia-boca, o Dr. só citou artista fajuto. E, de fato, esqueceu o mais fajutão de todos (amigo daquele outro fajutão e da fajutona).

Eles é que estão certos. Estão ganhando o dinheiro deles. Se alguém tem culpa de alguma coisa, só pode ser quem compra.

PZumarán disse...

Durante um tempo, o Dr Plausível namorou a idéia de publicar um extenso artigo pros Anais do Instituto Plausibilógico de Genebra enumerando e analisando as trocentas principais canções-listas do cancioneiro mpb. Mas desistiu ao ver q seria apenas mais uma lista, já q pouco se tira das letras. Dentre as descartadas no artigo publicado aqui, há

Gonzaguinha: É (a gente quer fazer o ítem um / a gente quer fazer o ítem dois &c)

João Bosco: JADE (aqui, meu irmão / ela é o ítem um / ela é o ítem dois &c)

Djavan: FALTANDO UM PEDAÇO (o amor é o ítem um / um passo pro ítem dois &c)

Vinícius/Powell: CANTO DE OSSANHA (o homem q faz ítem um / o homem q faz ítem dois &c)

Vinícius/Powell: SAMBA EM PRELÚDIO (eu sem você / sou só o ítem um / sou só o ítem dois &c)

Caetano: O QUERERES (onde queres o ítem um sou ítem dois / onde queres o ítem três sou ítem quatro &c)

Leandro Rossi disse...

kakakaka doutor plausíveilississimoooooooo, você é demais, eu não vou me cansar nunca de ler o seu blog que é o melhorrrrr de todos!!! você é muito inteligente, congratulations :)

ratapulgo disse...

Muito bom, seu PZ! Na mosca!

Porém há uma música-lista que eu gosto muito, pois é desbragada e escancaradamente uma lista mesmo. É o Nome aos Bois dos Titãs.

Mas tem uma do Chico que é uma lista triste: Passaredo.

Quem fará uma música com a lista de supermercado.

PZumarán disse...

Obrigado aos dois aí acima.

Realmente o Chico tem dezenas de listas, e algumas bem parrudinhas. Não coloco aqui se as músicas-lista são boas ou ruins; só as acho fáceis e vazias, como se fossem poesia de elevador.

Cam Seslaf disse...

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!!

smart shade of blue disse...

Mas é isso mesmo, é linha de montagem, a indústria fonográfica precisa de especialização.

A gente não sabe, mas é possível que já existam softwares manufatores de listas musicais. Não seria difícil.

A verdade é que letra de música já deixou de ser poesia há muito tempo.

Jorge heller disse...

Queria saber oque é Oh! Amara, dzaiá,aiii ingado,ra a

Permafrost disse...

Sei lá.

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