20 outubro 2004

Cefaléias

Entre as sessões de fisioterapia, nosso ebúrneo Dr Plausível, ainda convalescendo do coma, encadeia as horas relaxando com leituras revigorantes de Darwin, Dawkins e Rorty. Mas de vez em quando, liga a tv pra ver algum movimento - tomando o cuidado de não colocar num canal muito popular, pra evitar as gargalhadas. Seu médico o proibiu de rir durante uma ou duas semanas. Gargalhar, nem pensar. Por enquanto só pode sorrir. Êta sofrimento.

Hoje, passando os canais, parou na tv Senado. Era a sessão do Supremo brasileiro em q os juízes votavam por manter ou não a liminar q permite o aborto de feto anencefálico. Vou dizer uma coisa pra vc: nosso escolado luminar penou, viu. ¡Qta estupidez! A maioria decidiu contra a liminar. Ou seja, segundo aqueles gaguejantes, tortuosos, monocórdios e empolados coiós, uma mulher grávida q carrega um feto sem cérebro pode fazer uma de duas coisas: (1) ficar nove meses com aquele vegetal na barriga crescendo, estropiando seu corpo, sua rotina, sua vida, dando lucro pra médicos, gastando dinheiro público ou privado inutilmente, engolindo o orgulho ao explicar a todo mundo q não é menina nem menino, aguardando ansiosa o momento em q seu "bebê" vai inevitavelmente morrer, passar as dolorosas horas de trabalho de parto, dar à luz um monte inerte de carne e ossos, registrá-lo, dar um jeito de se livrar dele gastando mais dinheiro com um enterro e túmulo ou cremação, e depois passar o resto da vida com o trauma e as seqüelas físicas da gravidez; ou (2) durante a gravidez, gastar tempo e desmiolar os nervos pedindo a um juiz q aprove um aborto, arriscando-se obviamente a confrontar um juiz q não o aprove e a obrigue a seguir o ítem (1) à risca, sob pena de até 3 anos de prisão.

Pra conter o riso, o Dr Plausível ficou pensando na penúria dessas mulheres. Mas q teve vontade de soltar uma gargalhada, isso teve. Principalmente porque, contrastando os juízes q eram contra a liminar e a minoria q era a favor, estava tão na cara quem estava enrolando e quem estava dizendo algo inteligível. Os contra, todos eles, tentavam enrolar com um palavrório vago, vacilante, viciado, velhaco e vaidoso. Os afavor, todos eles, foram claros, diretos, fluentes, pertinentes. Mas malgrado a clareza e o bom senso destes, a liminar acabou revogada pela tacanhez das múmias-que-andam.

Nosso encefálico analista estava a ponto de esbugalhar a testa às gargalhadas. Felizmente, uma enfermeira entrou e desligou a tv, e o Dr Plausível sobreviveu pra ver o amanhã.

¡Ó cefalópodes sem senso! ¡Ó suprema cefaléia!

5 comentários:

Advogada descompensada disse...

Estimado doutor, sem querer interromper vossa convalescência, mas já interrompendo:
- Para o ministro, a criminalização do aborto existe para preservar a vida intra-uterina, "independentemente das deformidades que sempre se apresentaram na história, que não são novidades";
- "Mas o sofrimento não degrada a dignidade humana", é, ao contrário, "essencial na vida humana. O remorso também é sofrimento. O sistema judiciário só repudia o sofrimento por atos injustos, o que não é o caso";
- "A vida intra-uterina existe sim. O feto anencéfalo se forma com boca, unhas, coração. O sangue corre na veia". Ele argumentou, ainda, que o direito à vida é atemporal e não depender se a criança vai sobreviver por dias ou semanas. Além disso, disse Fonteles, "o coração [do anencéfalico] pode ir para outro bebê" por meio de transplante.
Sem mais, despeço-me,
Valda Valium

PZumarán disse...

Ok, então vamos criminalizar as muletas.

A criminalização das muletas existe para preservar os pés, "independentemente das deformidades que sempre se apresentaram na história, que não são novidades."

"Mas mancar não degrada a dignidade humana", é, ao contrário, "essencial na vida humana. Arrastar-se também é mancar. O sistema judiciário só repudia o mancar causado por atos injustos, o que não é o caso."

"Os pés do aleijado existem sim. Os pés se formam com pele, unhas, ossos. O sangue corre nas veias." O direito de caminhar é atemporal e não depende se o aleijado vai mancar por metros ou quilômetros. Além disso, "os sapatos [q o aleijado usaria se não o fosse] podem ir para pessoas normais" por meio de venda.

PACS disse...

Curiosamente, também escrevi sobre o caso do feto anencéfalo com uma piada jurídica. Explico: o Código Civil Brasileiro diz que a pessoa adquire a 'capacidade de ter direitos' ao nascer (fala-se isto diferente mas tudo bem), por outro lado, um feto é um 'herdeiro' antes mesmo de nascer (tem interesses sucessórios como se diz). Isto leva a um monte de paradoxos que enchem o saco dos advogados e jurisconsultos e tal. Ninguém sabe qual é a do feto no Direito, graças ao Código Civil da Turma do Trema e seus decretos.

PACS disse...

Da anástrofe e do hipérbato às verdades na sínquise combinatória
JUSTIÇA PROÍBE ABORTO EM CASO DE FETO SEM CÉREBRO
(manchete no UOL, 21/10/2004)

Acho que a manchete deveria ser sob a luz das contradições no novo Código Civil:

"Feto proíbe aborto em caso de Justiça sem cérebro".

Obrigar-se uma mãe a levar a termo a gestação de um feto anencefálico é *condenar* uma família a gestar uma morte anunciada.

Isso é a dicotomia Público-Privado levada ao limite da crueldade.

Aqui o Direito renega as outras ciências e 'soberano' se revela uma construção política:

"Aborto proíbe cérebro em caso de Justiça sem afeto".

É dura a profissão, crianças.

Neanderthal disse...

É uma questão de auto-defesa.

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