28 outubro 2004

Jornalista caturra morre de velhaco

Ué? ¿Agora ninguém mais pode morrer? Um futebolista cai morto no gramado e ¿tem q haver um culpado?

O eclipsante Dr Plausível já está podendo dar umas risadas, e esta tarde deu uns fufunhos bem saudáveis com os noticiários - aqueles em q um engravatado empostado se pavoneia pra lá e pra cá moralizando sobre as várias desgraças do povaréu incônscio.

Todo mundo sabe q a morte, qdo vem, vem. Não há escapatória. Mas ¡qta besteira, qta imbecilidade, qto despautério tem q rolar pra q uma morte renda alguma audiência! Ficam procurando alguém pra culpar, fazendo perguntas 'informativas' aos médicos ("¿O senhor sabia q a cada minuto sem o defibrilador, as chances de vida ficam menores?"), tudo com aquela cara de justiceiro buscando "a verdade". hu-hu-hu-hu-hu

Esse é o jornalismo napalm: botam fogo em tudo, esperando queimar algum culpado. Cogitaram culpar os dirigentes, os médicos, o ambulatório, a ambulância...

Mas acontece q o futebolista q morreu, mesmo sabedor de q tinha um problema cardíaco, estava em campo por sua livre vontade pois queria continuar jogando até o fim do campeonato deste ano - uma informação q levou um desses empolados, o Datena, à ESPANTOSA conclusão de q o jogador não tinha o direito de "dispor da própria vida". ¡Isso é q é jornalismo, hein!

Mas o pior não é a estultícia fabricada. O pior, o mais hilário é a mensagem q fica, a mensagem apreendida e aprendida pelo populacho febril: ¡ABAIXO O ACASO! ¡Todo fato deve ter alguém responsável! ¡Ninguém pode morrer! HAHAHAHAHA!!

¡Ô joça de jornal! ¡Ô néscio da notícia!

22 outubro 2004

Mas ¿escrever o quê?

¿Já viram a última boçalidade dos lingüistas & gramáticos brasileiros? Querendo mostrar serviço, e em sintonia com toda a boçalidade com q o Brasil 'culto' em geral lida com a língua, vão tentar decretar mais uma mudança ortográfica no português, desta vez unindo-se aos portugueses boçais pra "padronizar" a escrita nos dois lados do Athlãtxiku. Cada um q me aparece…

Nosso encomioso Dr Plausível ainda não pode gargalhar mas já recebeu autorização médica pra arfar uns pigarros e gorgolejar o bafo, se for estritamente necessário. E foi o q fez ao ler a notícia acima. Pobre Dr Plausível. Ele foi ruborizando, roxeando, tampando a boca com a mão e segurando o ar nos pulmões. ¡Q cena ferinte!

Não era pra menos. Pra êsse erudito militante, o maior empecilho disparado, o mais perverso e insidioso obstáculo ao progresso brasileiro são os gramáticos e os dicionaristas desta terra. Êta gentalha. O Brasil só não é "um país q vai prà frente" porque sua evolução é perenemente tolhida, abortada e acuada por um bando de caga-regras da língua. Em vez de se ocuparem de coisas realmente importantes, ficam aí tirando tremas e circunflexos por decreto. Nada contra tirar tremas e circunflexos por decreto; mas ¿por que não fazem algo realmente útil pra variar?

Mas ¿o q seria realmente útil? Às vezes é difícil seguir o raciocínio de nosso esterlino doutor. Vamos ver se consigo explicar.

Pense bem antes de responder: ¿Quem tem uma vida mais difícil, um mendigo ou um médico? Já fiz essa pergunta a dezenas de pessoas e todas elas responderam q obviamente o mendigo tem uma vida mais difícil. Mas a resposta está ¡eeeeeeeeeeeerraadaa! Obviamente o médico tem uma vida muito mais difícil. A vida do mendigo pode ser desconfortável, desagradável, humilhante &c, mas com certeza é uma vida facílima. Não é preciso nenhum talento especial pra pedir esmolas e dormir na rua. É trocentas vezes mais difícil ser médico, e é por isso q o médico ganha mais do q o mendigo.

Mas ¿qual é a principal diferença entre os dois? Antes q vcs fiquem aí dando cabeçadas, já vou responder: a diferença entre os dois é o vocabulário. Decheu enfatizar: a principal diferença entre os dois é o vocabulário. Aquilo q o médico adquiriu em anos e anos de formação escolar e profissional se resume a pouco mais q a lista de palavras q ele é capaz de reconhecer, utilizar e associar a outras palavras ou a objetos concretos ou abstratos no mundo, formando uma estrutura mental q espelha a realidade. Ou seja, a principal diferença está no grau de complexidade de suas mentes, uma complexidade fomentada e mantida por seu vocabulário. A educação não existe pra simplificar a vida: existe pra torná-la mais complexa.

Do mesmo modo, o Brasil e Portugal só não criam, produzem e disseminam um padrão de vida mais confortável, mais revigorante, mais multifário, mais complexo —ou seja, só não são países do Primeiro Mundo— porque o português é uma língua q ficou pra trás, uma língua q, por obra de seus capangas tira-tremas, não se desenvolve, não descobre e não cria novos conceitos: em resumo, não aumenta seu vocabulário, e se vê obrigado a repisar um léxico ultrapassado, canhestro e imaleável —qdo não copia as idéias alheias apenas.

Os exemplos do exemplar Dr Plausível são em alemão, sueco, japonês, inglês, e todas essas línguas de países mais complexos. Eu não saberia repeti-los. Vou citar um exemplo duma língua q conheço bem, o inglês. Como se já não bastasse q grande parte do jargão de inúmeras tecnologias vem do inglês (já q essas tecnologias são criadas, produzidas ou disseminadas em inglês), o português tbm carece de inúmeros conceitos q são moeda corrente em inglês. Tomem a palavra accountability. Essa palavra não tem equivalente português. O tradutor é obrigado a acochambrar traduzindo-a por 'responsabilidade'; mas não é a mesma coisa. Seria um conceito muito útil no Brasil. Minha esposa, a Bebel, teve a sacada de q accountability é quase o exato oposto de impunidade. "No Brasil, todos falam do 'problema' da impunidade," diz ela, "e ninguém consegue falar da solução (accountability) porque o português não tem a palavra." Ou seja, o português tem o conceito de 'impunidade', mas não tem o de seu oposto. Nem imputabilidade, nem imputação, nem punibilidade dão conta de accountability. ¿Talvez punidade? Mmm… não. Mesmo assim, procure punidade no dicionário. Não tem. Portaaaaaaaanto, a palavra "não existe". No entanto, accountability e accountable são conceitos comuníssimos em inglês. Qqer adolescente conhece e usa.

Como essa, existe uma miríade de palavras e conceitos em inglês q dão complexidade, vigor e progresso aos países de língua inglesa. E pra cada palavra q tem no português e não no inglês, tem três palavras no inglês q nem sequer são possíveis de se imaginar em português. ¡E isso q nem falei das locuções inglesas, os grupos de duas ou mais palavras, a tortura do tradutor!

A questão levantada pelo Dr Plausível é q o Brasil e Portugal se encontram à margem da evolução social, cultural e industrial do planeta porque são países q têm uma lingua complicada mas não complexa. Em particular, o Brasil, além disso, é um país complicado mas não é um país complexo. Pra erguê-lo da lama, bastaria permitir-lhe ou dar-lhe mais palavras.

Mas, ¡ó grasnante disparate!, ¡ó descredinte gravame!, os gramáticos e dicionaristas brasileiros e portugueses, em vez de tentar ajudar a tirar o português (e o Brasil) do vexame em q se encontra, ficam aí perdendo tempo cagando decretos sobre picuinhas, enquanto restringem, censuram e castram a pouca semântica q o português tem.

20 outubro 2004

Cefaléias

Entre as sessões de fisioterapia, nosso ebúrneo Dr Plausível, ainda convalescendo do coma, encadeia as horas relaxando com leituras revigorantes de Darwin, Dawkins e Rorty. Mas de vez em quando, liga a tv pra ver algum movimento - tomando o cuidado de não colocar num canal muito popular, pra evitar as gargalhadas. Seu médico o proibiu de rir durante uma ou duas semanas. Gargalhar, nem pensar. Por enquanto só pode sorrir. Êta sofrimento.

Hoje, passando os canais, parou na tv Senado. Era a sessão do Supremo brasileiro em q os juízes votavam por manter ou não a liminar q permite o aborto de feto anencefálico. Vou dizer uma coisa pra vc: nosso escolado luminar penou, viu. ¡Qta estupidez! A maioria decidiu contra a liminar. Ou seja, segundo aqueles gaguejantes, tortuosos, monocórdios e empolados coiós, uma mulher grávida q carrega um feto sem cérebro pode fazer uma de duas coisas: (1) ficar nove meses com aquele vegetal na barriga crescendo, estropiando seu corpo, sua rotina, sua vida, dando lucro pra médicos, gastando dinheiro público ou privado inutilmente, engolindo o orgulho ao explicar a todo mundo q não é menina nem menino, aguardando ansiosa o momento em q seu "bebê" vai inevitavelmente morrer, passar as dolorosas horas de trabalho de parto, dar à luz um monte inerte de carne e ossos, registrá-lo, dar um jeito de se livrar dele gastando mais dinheiro com um enterro e túmulo ou cremação, e depois passar o resto da vida com o trauma e as seqüelas físicas da gravidez; ou (2) durante a gravidez, gastar tempo e desmiolar os nervos pedindo a um juiz q aprove um aborto, arriscando-se obviamente a confrontar um juiz q não o aprove e a obrigue a seguir o ítem (1) à risca, sob pena de até 3 anos de prisão.

Pra conter o riso, o Dr Plausível ficou pensando na penúria dessas mulheres. Mas q teve vontade de soltar uma gargalhada, isso teve. Principalmente porque, contrastando os juízes q eram contra a liminar e a minoria q era a favor, estava tão na cara quem estava enrolando e quem estava dizendo algo inteligível. Os contra, todos eles, tentavam enrolar com um palavrório vago, vacilante, viciado, velhaco e vaidoso. Os afavor, todos eles, foram claros, diretos, fluentes, pertinentes. Mas malgrado a clareza e o bom senso destes, a liminar acabou revogada pela tacanhez das múmias-que-andam.

Nosso encefálico analista estava a ponto de esbugalhar a testa às gargalhadas. Felizmente, uma enfermeira entrou e desligou a tv, e o Dr Plausível sobreviveu pra ver o amanhã.

¡Ó cefalópodes sem senso! ¡Ó suprema cefaléia!