01 março 2004

Dez mil camelos e uma sardinha

Sardinheiro ou sardinha é o punguista q age nos ônibus lotados. O Dr Plausível já presenciou vários deles sendo pegos com a mão numa bolsa, antes de roubar. Qdo um é detectado naquele empurra-empurra, comoção geral; todo mundo fica metaforicamente com um pé atrás: vai q o meliante está armado ou tem um comparsa enfaqueado, então a pessoa q seria a vítima acha melhor só dar uma bronca e virar a cara. O q se segue é tão clichê q é quase um ritual: o sardinha se faz de ofendidíssimo, brada ferozmente q está sendo insultado, alvo estressado duma acusação maldosa; aos poucos vai se acalmando; a vítima então resmunga alguma coisa pralgum vizinho de aparência honesta; o sardinheiro rebota "¿q foi q disse?"; há um bate-boca onde ele parece ainda mais furioso, implicitamente reafirmando sua virtude ferida; se há espaço, é possível até q ponha a mão dentro da blusa fingindo q vai tirar uma arma, mas é puro blefe; no próximo ponto, o sardinha desce, xingando e praguejando.

O consultório de nosso efígico doutor fica na Av Paulista. Hoje foi surpreendido pela gritaria duma passeata em direção à Câmara. Até aí nada de surpreendente. Na Paulista, centenas de pessoas reclamando em uníssono já faz parte da paisagem: ninguém mais presta muita atenção. Geralmente o q se ouve é só a voz de alguém se destrambelhando monotonamente e os ecos roucos pela avenida. O doutor nunca entende nada: o som é sempre tão ruim q o puxador pode até estar recitando Castro Alves. Mas desta vez, o Dr Plausível se surpreendeu com a fúria, a cólera, o ódio mortal na voz do puxador ao microfone. Trabalha há anos na Paulista, e não ouviu ferocidade assim nem nas Diretas Já, nem nos comícios contra o Collor. Como não entendia nada, desceu pra ver de perto. Era uma passeata da Força Sindical contra o fechamento preventivo da bingaiada. Hmm, pensou, quem sabe descolo algum paciente. Foi seguindo a passeata. Centenas de faixas impressas em offset da melhor qualidade. Hmm. Lá na rua, ainda sem entender o q bradava o puxador, ouviu outra coisa em sua voz: não era ódio sincero nem fúria real; era o tom do subalterno querendo mostrar serviço ao chefe. É triste, mas é verdade.

320 mil desempregados, dizia um cartaz lindamente impresso. Hmm. ¿A Força Sindical tem dinheiro imediato pra encomendar faixas e cartazes de qualidade especialmente prà ocasião, mas não tem dinheiro pro investimento mais generalizado q seria adquirir um som de melhor qualidade? Hmm.

Lembrem-se q estou falando de plausibilidade. O fechamento bingal foi talvez um erro tático e com certeza um erro social do governo, mas mesmo assim a passeata dá o q pensar, não dá?

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