21 março 2004

Democrasso

Um leitor deste blogue enviou a seguinte proposta de pauta:

Antes da eleição do ano passado, surgiu a polêmica sobre o nosso presidente não ter curso superior, mas para candidatos a fiscal da prefeitura de SP isso era uma exigência. Muitos anúncios de vagas para empregos exigem nível superior (...) Há alguma hipoplausibilose ou há fundamento?

Quero crer q o leitor perguntava a nosso esmerado doutor se não é implausível apoiar e eleger um presidente prepedeuta.

Ao ouvir a pergunta, o Dr Plausível sorriu meio de lado e quis esquivar-se. Pra ele, política é como espinha de peixe: ou vc consegue engolir, ou ela fica entalada na garganta, ou então vc nem põe na boca; e esta última é a opção dele. Mas insisti, argumentando q não se tratava duma questão meramente política, mas uma questão de princípios. Sua resposta – como sempre – iluminou as trevas de minha ignorância.

Vc não pode ter democracia e não ter o Lula. Sorry. (Democracia significa q a vontade momentânea da maioria determina temporariamente a sujeição de todos a uma corte provisória. A democracia é a sábia admissão de q vivemos todos na mais completa ignorância, de q ninguém tem a solução final de coisa alguma, de q a prioridade número um de todo cidadão é tirar o cu da reta.) Vc pode até preferir outra forma de governo, mas não pode negar q há inegável justiça no fato de q, se todo e qqer pé-rapado é obrigado a aturar o governo imposto pela maioria, então deve-se dar ao pé-rapado o direito tanto de votar (crer-se na maioria) como de se candidatar (apostar-se como maioria).

Em tese, o próximo presidente do Brasil, contanto q brasileiro alfabetizado maior de 21 anos, pode ser não um torneiro mecânico (uma profissão, aliás, bastante complexa) mas um coveiro de Catingópolis ou uma mendiga de Futum do Sul. A questão aqui é q pro cargo de fiscal, curso superior é exigido; pro cargo de presidente, não é. Se a lei for modificada de modo a q tbm seja exigido pra este último, então não fará o menor sentido dar ao pé-rapado o direito ao voto e será completamente compreensível se os pé-rapados se revoltarem e cortarem a cabeça de todo e qqer sujeito q já pôs os pés numa faculdade.

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Nenhum presidente ou partido manda e desmanda: os resultados de sua presidência são determinados pela dinâmica entre os governantes e os governados. O problema com a do Lula é q o Brasil está esperando muito passivamente q ele "faça alguma coisa". O povo tem q dar um feedback ao governo, nem q seja um tabefe no meio do cachaço.

Mas, ¿q esperança? O Dr Plausível não tem a menor.

16 março 2004

Super desinteressante

¡Êta mormaço cerebral! Tem umas revistas por aí ¡q vou te contar! Uma q só tratamento de choque pode começar a consertar é a Super Interessante. Aposto q quem bolou esse nome quis dar uma de perverso. Só conseguiu ser involuntariamente irônico, pois a revista é pouco mais q uma coletânea de informações em terceira mão.

A capa do número agora nas bancas traz estampada pra todo mundo rir a manchete:

"Michael Jackson acabou. Entender a trajetória dessa queda espetacular é fundamental para compreender o mundo em que vivemos"

BRUHAHAHAHAHAHA ¡Imprêssionante, não é mesmo? ¿Em q mundo vivemos, meu Santo Excrúnfio? ¿Quer dizer q agora só vou compreender de verdade o mundo se eu "entender" a vida de um dançarino egonecrófilo? HAHAHAHA ¡Cada idéia...!

O título é de uma hipoplausibilose q roça, esse sim, o perverso. O Dr Plausível riu às bandeiras despregadas, mas não quis ler o artigo. Testar a tese da capa sobrou pra mim, q após várias páginas com a tal da trajetória do rapaz, ainda não 'entendi' como sem conhecê-la eu não conseguiria 'compreender' melhor a política, a economia e a proliferação de ácaros.

No máximo, o artigo serve pra evidenciar como funciona uma boa parte do 'jornalismo' brasileiro: os dois 'autores' foram colhendo textos estrangeiros de várias fontes e com eles requentaram uma gororoba de miúdos mal traduzidos temperada com citações 'nacionais'. O corpo do artigo em si, à parte as citações, é tbm em sua maior parte (mal-)traduzido. Vejam esta frase: "Custa acreditar que só tenha feito duas cirurgias plásticas, como ele clama." ¡¿CLAMA?! ¿Como no inglês claim? HAHAHAHAHA

Q vergonha.

Sofre de hipoplausibilose até mesmo a seriedade de dar dó em mula com q foi redigido o artigo, com citações de sumidades da antropologia brasileira. ¡Tenha a santa! ¿Esse pessoal não tem senso de humor?

13 março 2004

MadRi o centro

O Dr Plausível é um sujeito desconfiadíssimo.

11 março 2004

Farte

O Dr Plausível tem ido a muitos coquetéis ultimamente. Nessas situações ['nessas ocasiões' é bom demais pra coquetéis], a falta de assunto leva muita gente a falar de alguma arte. Qdo ouve a palavra arte em maiúscula e sem artigo, nosso epigramático humanista sempre leva o maior susto; endireita a espinha, faz cara de atleta feio lançando dardo, olha fixamente pro canto esquerdo da boca de quem disse "Arte", alinha um sorriso iluminado, terno, quase Walter Brennan, e com a voz embargada, quase gagueja "A-Arte?" O interlocutor sempre pensa q ele exclama "A arte!" ou, "Ah, arte!"

Pois é. Muitos anos atrás, em seu livro seminal "Tratamento Sintomático da Hipoplausibilose Artística e outras Afecções do Córtex Frontal", já esgotado, o doutor já preconizava q "toda arte é caricatura; (...) todo indivíduo q reaja negativamente a essa observação factual deve ser encaminhado ao hopital imediatamente, à força se necessário, e mantido em decúbito ventral (...) até q o sintoma desista".

Tenho q concordar. A caricatura é a forma mais pura de arte. A vontade de caricaturar está na origem de toda arte. ¡Q sete artes, o cacete! A poesia é a caricatura da fala. A literatura e o teatro são caricaturas dos fatos. Pintar ou esculpir é caricaturar as aparências. A música é uma expressão caricata dos sentimentos e sensações, e a dança é uma caricatura grotesca dos movimentos. Todo 'artista' fica fazendo pose, fingindo-se de sabichão e prodigete, qdo na verdade o verdadeiro artista - aquele q todos copiam e nunca citam - é o caricaturista, esse esquecido q ilustra artigos de jornal e conta seu pão-de-ló em centímetros.

Qta injustiça, não? A preferência popular pelas imitações ornamentadas - a literatura, a música &c - é indício claro e inequívoco de q a civilização está milhões de passos aquém de sua realização plena. A imaculada pureza estética e crítica duma caricatura ainda está muito longe da compreensão desse semi-símio q emporcalha o mundo com seus dejetos 'artísticos' e escatológicos.

Mas num coquetel, ¿q se há de fazer? O Dr Plausível então finge q engasga de azeitona.

01 março 2004

Dez mil camelos e uma sardinha

Sardinheiro ou sardinha é o punguista q age nos ônibus lotados. O Dr Plausível já presenciou vários deles sendo pegos com a mão numa bolsa, antes de roubar. Qdo um é detectado naquele empurra-empurra, comoção geral; todo mundo fica metaforicamente com um pé atrás: vai q o meliante está armado ou tem um comparsa enfaqueado, então a pessoa q seria a vítima acha melhor só dar uma bronca e virar a cara. O q se segue é tão clichê q é quase um ritual: o sardinha se faz de ofendidíssimo, brada ferozmente q está sendo insultado, alvo estressado duma acusação maldosa; aos poucos vai se acalmando; a vítima então resmunga alguma coisa pralgum vizinho de aparência honesta; o sardinheiro rebota "¿q foi q disse?"; há um bate-boca onde ele parece ainda mais furioso, implicitamente reafirmando sua virtude ferida; se há espaço, é possível até q ponha a mão dentro da blusa fingindo q vai tirar uma arma, mas é puro blefe; no próximo ponto, o sardinha desce, xingando e praguejando.

O consultório de nosso efígico doutor fica na Av Paulista. Hoje foi surpreendido pela gritaria duma passeata em direção à Câmara. Até aí nada de surpreendente. Na Paulista, centenas de pessoas reclamando em uníssono já faz parte da paisagem: ninguém mais presta muita atenção. Geralmente o q se ouve é só a voz de alguém se destrambelhando monotonamente e os ecos roucos pela avenida. O doutor nunca entende nada: o som é sempre tão ruim q o puxador pode até estar recitando Castro Alves. Mas desta vez, o Dr Plausível se surpreendeu com a fúria, a cólera, o ódio mortal na voz do puxador ao microfone. Trabalha há anos na Paulista, e não ouviu ferocidade assim nem nas Diretas Já, nem nos comícios contra o Collor. Como não entendia nada, desceu pra ver de perto. Era uma passeata da Força Sindical contra o fechamento preventivo da bingaiada. Hmm, pensou, quem sabe descolo algum paciente. Foi seguindo a passeata. Centenas de faixas impressas em offset da melhor qualidade. Hmm. Lá na rua, ainda sem entender o q bradava o puxador, ouviu outra coisa em sua voz: não era ódio sincero nem fúria real; era o tom do subalterno querendo mostrar serviço ao chefe. É triste, mas é verdade.

320 mil desempregados, dizia um cartaz lindamente impresso. Hmm. ¿A Força Sindical tem dinheiro imediato pra encomendar faixas e cartazes de qualidade especialmente prà ocasião, mas não tem dinheiro pro investimento mais generalizado q seria adquirir um som de melhor qualidade? Hmm.

Lembrem-se q estou falando de plausibilidade. O fechamento bingal foi talvez um erro tático e com certeza um erro social do governo, mas mesmo assim a passeata dá o q pensar, não dá?