28 fevereiro 2004

Insuspeito

Muitos pacientes inseguros têm medo de se consultar com o Dr Plausível. Sempre q possível, consolo essas pobres almas assegurando-as de q não há o q temer além do irremediável; ou, no caso da mídia, além do irrecolhível. Parece q nosso espartano letrado vive de passar atestados de hipoplausibilose, mas na verdade ele é como um cardiologista da lógica interna: tbm se maravilha e deslumbra ao testemunhar o funcionamento dum coração impecável. De vez em qdo aparece em seu consultório um artigo, um livro, até mesmo um filme de tv completamente irretocável: nada sobra, nada falta. Desta vez foi o episódio em duas partes The Last Witness da séria britânica Prime Suspect.

Se algum dia passar no canal q só seu vizinho encardido assina, não hesite: faça amizade com ele nem q seja pra humilhar-se oferecendo-se a lavar a louça encardida em troca duma gravação numa fita igualmente encardida. ¡Caspálfio, vá ser bem feito lá na espúntula! São mais de três horas de total autenticidade, milimétrico equilíbrio e brilhante segurança. Além do Selo de Garantia Dr Plausível pela trama e pelas centenas de detalhes invulgares, esse episódio ainda conta com um elenco formado nada menos q na Escola Superior de Dramaturgia Dr Plausível. Nenhum dos atores ganharia um concurso de beleza, mas ¿vc se importa? Todos - até o terceiro coadjuvante no fundo à esquerda - vão direto ao alvo, sabem exatamente a q vieram, o significado e a proporção de cada gesto, fala ou pausa; não há sequer um grunhido sobrando, sequer uma ironia despercebida.

É só uma história de detetives, mas o padrão geral do cinema e da tv (sem falar do néscio padrão global...) aparentemene teria q comer muita lama na Bósnia pra chegar ao profissionalismo desse episódio. Mas na verdade, não: é super fácil ser plausível; é só fazer o q fizeram o escritor, o diretor, os atores e outros profissionais trabalhando em Prime Suspect: nada mais do q sua obrigação, ou seja, usar a cachola pra equilibrar-se entre a arte e a realidade.

Se vc chegar a presenciar a exibição dessa obra-prima e não gostar, só pode ser pq não enxergou direito e precisa achar um vizinho menos encardido.

23 fevereiro 2004

De rachar

Tem publicitário q não aprende nunca. ¿Já viram aquele anúncio da geladeira com desaguador na porta? ¿Qual é mesmo a marca? Prosdócimo? Eletrolux? Bem, não importa. A historinha dá a entender q tem um casal se refrescando dentro da geladeira, e daí a mulher pede ao homem q pegue um copo d'água – tarefa q exige a desconfortabilíssima operação de abrir a geladeira, colocar o braço pra fora com um copo e apertar uma alavanca. O microcéfalo q bolou esse anúncio já começou errando, pois tem q ser muito burro pra se comprar uma geladeira q não precisa ser aberta qdo se quer água e depois ter q abrir a porta pra pegar água, não? Além do quê, se o casal entrou na geladeira pra se refrescar, ¿por que cargas d'água a mulher fica com sede? E ¡antes mesmo de ficar sem ar! ¡Tenha dó, meu!

Se fosse só isso, já estaria ruim, mas a trouxeza não pára por aí, não: o anúncio termina dum jeito triunfalmente troglodita. Depois q o homem põe o copo pra dentro e a mulher supostamente bebe a água, ela exclama algo como "¡Ai q delícia de água geladinha!" HAHAHAHAHAHAHA Mas ¡qui porcaria de geladeira, hem? Se a mulher acha a água geladinha, deve estar um calorão lá dentro, não?

Aliás, o cliente deveria ficar satisfeitíssimo por eu nem ter lembrado qual é afinal a marca anunciada... HAHAHAHAHAHA

21 fevereiro 2004

Aliás,

¿q história é essa de esperança? O Dr Plausível já tratou diversos casos seríssimos de esperancite – uma doença recorrente como a herpes, variante da hipoplausibilose. Perniciosíssima, ataca populações inteiras do Terceiro Mundo. Nesses lugares, 'esperança' é a palavra q mais ressoa qdo falta empenho, método e lucidez. Enaltecer a esperança só pode ser coisa de gente mal-intencionada q, à custa de martelar a palavrinha, pretende manter o status quo: "Educação ¿pra quê? Conforto ¿pra quá? Produção ¿pra qüé? ... ¡Onde há esperança, há voto!"

Dizem q 'a esperança é a última q morre', mas afirmo com toda a certeza: o último q morre é o doente. Se eu tiver um ente querido na UTI e alguém vier me falar de 'esperança', eu grito "¡Ôô, vira essa boca pra lá, seu agourento!" Esperança é quase um atestado de óbito. E tbm é assim qdo se trata dum povo: o Brasil sofre uma epidemia de esperancite q já dura mais de um século; tanto q a expressão "a esperança do povo brasileiro" já virou piada internacional.

Durante a última campanha do Lula, qdo surgiu a boçalidade do medo duartino, logo alguém do PT saiu-se com a bazófia da esperança. O Dr Plausível se ofereceu à cúpula petista pra gratuitamente desativar a catástrofe socio-semântica q se seguiria, mas foi tarde demais. Cresceram pústulas de esperancite nos cérebros de dezenas de milhões de brasileiros, q já carregavam o vírus desde nascença, com o resultado de q o candidato certo foi eleito pelos motivos errados.

Nosso exuberante pensador tem uma receita contra a esperança: vontade e empenho. Toda vez q um político (ou algum de seus apadrinhados entre os religiosos, poetas mal-informados e aspirantes a elite) vier linguarungungular sobre esperança, você olha firme nos olhos dele e diz: "Não, não tenho esperança porra nenhuma. Tenho vontade e empenho." A seguir, vc sai correndo de perto dele o mais rápido possível, antes q, à la Göring, ele saque o revólver.

16 fevereiro 2004

O esperranço é o último q corre

¿Alguém aí acredita q as eleições existem pra promover a democracia? HAHAHAHAHAHA Quêisso, gente. Eleição é só um caça-níqueis pra publicitário, dono de gráfica, fabricante de brinde, montador de palco e entregador de papel. Tem nada a ver com democracia, não. É só mais um negócio cuja razão de ser é financiar férias na Europa, casas na praia e arroz, feijão & mistura. Eu nunca vi; mas aposto q, qdo vem chegando uma eleição, as agências enviam aos candidatos prospectos alardeando seus serviços. Eleições deviam ser a cada 10 anos. Melhor: 20. Assim encheria menos o saco e não viraria essa indústria sazonal q não produz nada.

Em 1989, durante a primeira candidatura do Lula à presidência, o Dr Plausível encontrou uma amiga petista no metrô. A petista estava cheia daquela esperança ranheta característica de toda pessoa politizada q não compactua com o status quo. Dizia ela q já era hora de mudar. Nosso equidistante luminar concordou - quem já leu o I Ching sabe q é sempre hora de mudar; até mesmo parar de mudar é uma mudança. Mas pro douto senhor, partido no poder é q nem carcaça de cachorro podre na estrada: em vida, corria em suas veias o sangue das idéias, ideologias e ideais - ou seja, todas essas pataquadas hipoplausibiléticas; depois de eleito, vira uma gosma fedenta no asfalto q é bom nem chegar perto, mas q com o tempo vai se achatando. No fim, a chuva leva.

Em política, o Dr Plausível discorda e duvida de tudo, e portanto sempre está com a razão. Percebendo o esperranço da amiga, ele contou uma anedota q resume sua posição: Num vagão de trem, uma senhora diz a um senhor, “Cavalheiro, poderia abrir a janela? Se ficar fechada, vou morrer sufocada.” O cavalheiro abre a janela. Logo em seguida, outra senhora diz ao mesmo senhor, “Cavalheiro, poderia fechar a janela? Se ficar aberta, vou morrer de frio.” O cavalheiro fecha a janela. Após alguns minutos, a primeira senhora volta a pedir ao senhor que abra a janela, e ele abre; a segunda pede que feche, e ele fecha, &c. A situação vai ficando enfadonha, até que uma criança que está ali tentando ler sua revista se levanta e sugere, “Faz assim: abre a janela até esta dama morrer de frio, depois fecha até esta outra morrer sufocada, e aí a gente pode viajar em paz.” Política é assim. A cada dois anos é aquela encheção de saco, nhénhénhé pra cá, nhénhénhé pra lá, e o resto do país, q só quer fazer uma viagem tranqüila, tem q ficar aturando. Melhor dar uma chance pra todo partido. Os outros partidos já morreram no frio da incompetência, e agora é a vez do PT morrer sufocado. A criança foi até educada: eu teria jogado as damas pela janela. Nem precisa dizer q nosso estável doutor perdeu a amiga.

O PT, eleito, se transformou em tudo q sempre quis ser: um partido político brasileiro no poder, ou seja, um partido político, um partido brasileiro, um partido no poder (se é q isso existe) e tem agora sua chancezinha de aplicar sua própria versão de incompetência. Lenta e gradualmente, quem estava esperrançoso já vai vendo q cachorro atropelado fede, não importa a raça. Agora agüenta a inhaca.

Ao fim do mandato do Lula – um rapaz até q bem intencionado – não vai faltar quem cite as últimas palavras de um livro do George Orwell: "e olhavam de homem pra porco e de porco pra homem, e novamente de homem pra porco, e já não sabiam qual era o homem, qual era o porco". É triste mas é verdade.

10 fevereiro 2004

¿Ai né quem?

O Dr Plausível não bebe cerveja. Acha os hábitos alcoólatras de seus contemporâneos uma perda de tempo. Mas como ninguém é totalmente coerente neste mundo, ele tbm perde tempo vendo tv, e ainda por cima perde mais tempo ainda vendo reclames de cerveja. Tem alguns q só bebum pode gostar de. ¿Já viram aquele da Heineken em q uma atriz famosa tenta pegar o último engradado da prateleira superior num supermercado, aí vem um cara ajudar e leva o engradado pra si? HAHAHAHAHAHA A Heineken devia processar o miobócio q inventou essa necedade. Vejam só a lista de mensagens implícitas:

A Heineken não é uma boa cerveja: Nas estantes dos supermercados, as cervejas mais procuradas ficam em prateleiras acessíveis. A Heineken está na mais alta.

A Heineken pode até ter clientela, mas seu serviço de distribuição é péssimo: ¿Como é q esses bagres da ditribuidora foram deixar a prateleira esvaziar? Até a Skol tem gente mais competente.

Só antas preferem a Heineken: A base da prateleira é uma grade. Qqer guanaco subnutrido teria puxado o engradado por baixo em vez de ficar pulando q nem mico tentando alcançá-lo por cima. HOHOHOHOHO E a cara de dãã q a moça faz no fim não deixa dúvidas: ela é mesmo uma anta.

Quem bebe Heineken é cretino: Revoltante a desonestidade do cara q vem ajudar e acaba roubando o engradado. ¿Q espécie de cretino bebe essa cerveja? Além de desonesto, é um babacão: a chance de paquerar uma gostosa cai do céu ¿e ele prefere levar a cerveja pra casa? com certeza vai bebê-la se masturbando vendo filme pornô de terceira. ¡Trompa! Aliás, a cara de dãã q a atriz faz no fim tbm evidencia a cretinice dela: ela faz cara de quem não entende como é q alguém pode preferir beber toda a cerveja em vez de dividi-la com uma gostosa. pfff-ff-ff-ff-ff A resposta é simples: o cara é babaca q nem você, sua tomba.

Essa gente parece q bebeu, não?

05 fevereiro 2004

Pra lá de Basra

¿Viram só essa 'revelação' de q o Nixon mandou a CIA dar um jeitinho no Allende? HAHAHAHAHA O resto do mundo sempre soube q os EUA estavam por trás de tudo, mas pros gringo a verdade só aparece décadas mais tarde, qdo vira best-seller ou blockbuster. Estadunidense é assim mesmo. Se o Dr Plausível abrisse uma clínica lá, com certeza ela seria bombardeada, como as de aborto.

Sobre as armas do Iraque vai ser a mesma coisa. Aguardem o livro e o filme daqui a duas décadas. O mundo todo sempre soube q a justificativa prà invasão do Iraque foi mais cara-de-pau q outra coisa, e lá vem o porta-voz da CIA dizer q o Saddam podia não ter as armas, mas q ¡tava com uma vontaaaade! Qta cretinice...

O Dr Plausível não vai parar de rir tão cedo. Já antes da invasão, nosso elevado estudioso rachava o bico qdo a BBC mostrava claramente q o Iraque não tinha nada. Depois q o Colin Powell envergou a cara de funcionário público caturra na ONU mostrando as fotos com supostas fábricas de armamentos, a BBC visitou um dos lugarejos suspeitos e perguntou aos poucos gatos-pingados q restavam por que foi q o local se esvaziou. A resposta foi de matar de rir: "¿E vc acha q essa gente é louca de ficar aqui servindo de alvo?" HAHAHAHAHA A Globo mostrou a reportagem mais hilariante de todas: uma matéria sobre a Bolsa de Valores de Bagdá. É um salão dividido ao meio por uma grade até o teto; dum lado, os compradores e vendedores quase maltrapilhos se amontoam atrás da grade, e de outro lado alguns 'operadores' registram os negócios com giz na parede oposta pintada de preto. BRUHAHAHAHAHA ¡Vê se um país com uma bolsa de valores desse estilo tem cacife pra fazer mísseis nucleares! Impagável!

E agora a BBC é desmoralizada por um pau-mandado. ¡Imprêssionante! É por essas e outras q o Dr Plausível não perde o noticiário político. Ê tchurminha hilariante...

¡Caaacilda!

02 fevereiro 2004

A norma estulta

Pra deleite da platéia, aqui vai um exemplo da estulta 'norma culta' em ação.

O contexto é o seguinte: Minha esposa faz traduções pra legendagem. Um de seus empregadores menores é um intermediário q fornece traduções para, entre outras, uma empresa sediada em Miami q se gaba de produzir traduções num português "da melhor qualidade", isto é, seguindo os padrões canhestros, retrógrados, ineficientes e contraditórios da infame 'norma culta'.

O intermediário no Brasil encomendou a minha patroa uma tradução q seguisse o padrão de outro cliente, um padrão mais natural e abrangente. Terminada a tradução, esta foi revisada por outra pessoa, seguindo o padrão daquele cliente retrógrado de Miami. Ato seguido, esta revisora enviou um email a minha digníssima cônjuge, apontando alguns "erros". Veja algumas legendas, os "erros" apontados pela revisora (q tbm vê o filme) e os comentários dela. Não estou criticando a revisora: ela está apenas seguindo normas do cliente:

[1]
Fulana, preciso tomar uma decisão importante hoje. Me responda.

"Não se pode iniciar uma frase com os pronomes átonos, pronomes pessoais do caso oblíquo: me, te, se, lhe, nos, vos, lhes. (...) Não adianta argumentar que é assim que se fala. Isso é mais do que sabido, porém não é gramaticalmente correto. Não passa."

Notem o "não se pode"; notem tbm q "é mais do q sabido q é assim q se fala, porém não é gramaticalmente correto". BRUHAHAHAHAHAHA There is no cabbiment!!

[2]
- Seu irmão está feliz?
- Acho que sim. Mas anda meio obcecado com as coisas de Fulano.


"Quem anda?"

Isto é, se a legenda não diz explicitamente 'ele anda', vai "confundir" o espectador. HAHAHAHAHA Como se este fosse tão estulto qto os defensores da norma culta, ou como se toda frase em português devesse ter sujeito, como no inglês. Ainda mais q, se o sujeito oculto em 'anda' pode ser qqer pessoa, então o sujeito explícito em 'ele anda' tbm pode, ¿ora pois não?

[3]
O casal principal, à porta de sua casa afastada da cidade, se despede dum empregado q vai embora a pé, passando entre os dois carros do casal. A mulher diz ao marido:

Devíamos oferecer uma carona.

"A quem?"

¿Como assim, a quem? ¿O espectador por acaso é cego? Se fosse, não estaria lendo legenda.

[4]
Duas crianças de mais ou menos 10 anos estão brincando de pega-pega. Uma pega a outra e grita:

Peguei. (¡Ponto de exclamação é proibido!)

Correção: "Eu o peguei, ou Eu a peguei."

HAHAHAHAHAHAHA Imaginem uma criança pegando a outra e gritando "Eu a peguei, eu a peguei!" ¡Qta cretinice! Esse pessoal da norma estulta deve ser de outro planeta. Outra coisa ridícula é a tradução 'oficial' de 'I love you', q é 'Eu o amo' ou 'Eu a amo'. Só q, na burrice estratosférica desse pessoal, esquecem q, como não se usa mais o tu em português, as traduções 'corretas' seriam tbm equivalentes a 'I love him/her'. Se a patroa me disser 'Eu o amo', já vou logo perguntando '¿Quem é esse filho-da-puta?'.

[5]
- Não sabe perder, é?
- Cale a boca.


Correção: "Você não sabe perder, sabe?"

Ai, ai. Explicar esta me faz sentir como o Louis Armstrong respondendo àquela mulher q lhe perguntou o q era jazz. Qqer diretor de tradução q não percebe a diferença entre "Não sabe perder, é?" e "Você não sabe perder, sabe?" deveria procurar outra profissão: caixa de banco, magnata do petróleo, jardineiro.

[6]
Um homem demonstra o uso dum martelo munido dum ferrão pra abater ovelhas.

Meu avô e um ferreiro inventaram estes martelos. Veja só este ferrão. Entrava direto no cérebro. Abria um buraco no crânio.

"Quando o verbo está na 3a pessoa do singular, é importante colocar o sujeito, para facilitar para o espectador. Quando está no passado, ainda mais, porque a forma é igual para a 1a pessoa também."

¡Té parece q tem tanto espectador com o nível de tacanhez dessa gente! É simplesmente ridículo acreditar q qqer um dos 170 milhões de brasileiros entenderia "Veja só este ferrão. Eu entrava direto no cérebro. O Zé abria um buraco no crânio." Pois então ¡tenha a santa! Aliás, se é pra ser tão específico, a tradução mais explícita seguindo o padrão dessa empresa seria "Veja este ferrão. Ele abria buracos nos crânios delas. Ele entrava diretamente até os cérebros delas." ¡Ah vá catá coquinho, sô!

Um dos padrões dessa firma é nunca citar o nome do tradutor. Minha mulher (q aliás nem faz idéia de q estou escrevendo isto) acha ótimo, pois teria vergonha de ter seu nome associado publicamente a essa firma.

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O típico defensor da norma culta é como um burrico q não consegue viver sem arreio e cabresto. Além de exigi-los pra si, exige-os pros outros. Tem ouvido de lata pràs infinitas nuances da língua, seus infinitos níveis de expressão, sua flexibilidade e seus climas. Não sabe q as palavras servem tanto pra expressar o pensamento como pra escondê-lo; não enxerga q o objetivo duma única frase pode ser insultar, esclarecer, confundir, desprezar e seduzir um interlocutor, tudo ao mesmo tempo. E o pior de tudo, acha q está seguindo preceitos lógicos e inescapáveis. ¡Essa é de matar!

O diretor de traduções dessa empresa (q, pasmem, é brasileiro) precisa não de um, mas de dois arreios pra viver e ser feliz: o arreio da norma estulta e o dos usos da língua inglesa (todo verbo exige sujeito, todo verbo transitivo exige objeto). Transforma suas traduções numa gororoba culta e feia, composta de atropelos ao bom-senso, insultos à sensibilidade e ataques agudos de hipoplausibilose.

O Dr Plausível só se recosta na poltrona e ri. Simplesmente ri. Pois ¡como é engraçado assistir os últimos estertores dum bicho ridículo em extinção!

01 fevereiro 2004

Lobby de bode

Digo e repito: o bom de ser agnóstico são as gargalhadas. Pro Dr Plausível, a expressão 'comédia humana' é mais concreta do q metafórica: se o mundo todo é um palco, então nosso efervescente humanista e alguns outros privilegiados são a platéia repoltroneada. É triste mas é verdade. HAHAHAHAHA

Um dos comediantes mais engraçados é o lobbyista, o sujeito q se sente o próprio monitor de acampamento infantil. Ele quer ir dormir às 11h; mas como as crianças querem ir à meia-noite, ele finge q impõe cama às 10h. As crianças chiam, negociam, e no fim todo mundo 'concorda' em ir às 11h.

Pois ¿vcs acreditam q tem gente fazendo lobby em Brasília pra implantar uma lei que obrigue os canais de TV a "veicular no mínimo três horas diárias de programação religiosa", inclusive no horário nobre?

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

Eles ficariam contentes com apenas uma hora, mas mesmo assim, ¡q idéia mais estapafúrdia! ¿Quer dizer q se o projeto virar lei, os lobbyistas vão ficar contentíssimos se um canal passar três horas por dia de programação budista? HAHAHAHAHAHA ¡Ah, não, aí não, né? ¿Por que não dizem logo 'programação católica ou evangélica'? ¡Té parece q há algum muçulmano, judeu, sikhista, ou besourista nesse lobby! E até parece q algum canal, ãã, secular vai aceitar uma imposição desse tipo: o autor dessa idéia deve ser parente espiritual daquele q ergue cartazes com coisas como "A IRA DE DEUS O MUNDO SE CURVA AOS DITADORES".

¡Ô bode de domingo! ¡ô bode no meio da sala!