26 janeiro 2004

São Papudo

Ontem fez aniversário um gordaço inchado careca espaçoso cascão sujo grosso feio mal-humorado cínico e peidorrento. Prestaram-lhe homenagem as traças q se fartam bebendo o suor viscoso q lhe escorre dos poros. Dá pra desconfiar, ¿não dá?

Quem se alimenta do suor de São Paulo vive dizendo q ama a cidade. O gozado é q esses são justamente os paulistanos q mais tempo passam fora dela: têm casas na praia, férias na Europa. Citando as virtudes de SPaulo, falam na verdade do primeiro mundo: ¿onde mais no Brasil pode-se passear por Picasso, almoçar uma trufa, ver um Truffaut, admirar um guerreiro de Xi'an, conversar com Ray Charles, ouvir Stravinsky, jantar um sushi, tudo da melhor qualidade, tudo no mesmo dia? Esse pessoal não gosta de SPaulo. Gosta é de achar q está em outro lugar.

No outro lado estão os q odeiam SPaulo porque são eles os q suam seu suor. Soltam o verbo reclamando da "exclusão" social, das desigualdades e o escambau a quatro desta cidade, como se ela tivesse q ser diferente do resto do Brasil. Ou pior, como se SPaulo devesse ser o carro-chefe, o modelo pro resto. ¡Tenha a santa! A turgidez desta cidade é a mais clara evidência de q o Brasil inteiro não tem se mostrado uma proposta viável. SPaulo cresce como um tumor absorvendo o povo q não se deu bem no resto do país, pessoas vindas de regiões de onde nunca teriam saído se de lá não houvessem sido excluídas em primeiro lugar. SPaulo é antes de mais nada o entumescimento dum tipo de inclusão social: aqui é onde vai parar o jovem sem perspectivas de Aracupirangonhó, aquele lugar onde não há exposições, restaurantes, hotéis, teatros, cinemas ou livrarias onde ele pudesse começar a vida como porteiro.

Então deixem de besteira ufanista ou idealista. Deve-se falar de SPaulo como os ingleses falam do tempo: está ruim, vai ficar pior e nada se pode fazer em contra, além de abandoná-la às traças.

23 janeiro 2004

As glórias da sorte

Vendo nosso epifânico doutor verter lágrimas extasiadas ao ouvir a inenarrável perfeição e insopitável precisão de “O Futebol” do Chico Buarque, qqer pessoa acharia q o futebol está em seu sangue, q seus membros ardem pela seiva redentora da vitória.

Ilusão treda. O Dr Plausível não torce pra time de nenhum bairro, cidade, país ou planeta. Jamais se verá nosso equilibrado humanista fazendo auê em arquibancada, babando na frente da tv ou soltando rojão toda vez q um assalariado de uniforme colocar uma bola num lugar improvável.

Dia desses, passando sem querer por um canal de esportes, ouviu o locutor se empanturrar de emoção e falar na glória do time vencedor. Quê? Glória?... ¡¿GLÓRIA?! O Dr Plausível ergueu a testa e sorriu.

Mas ¡que gente exagerada, não? Pois vejam só.

Fazer mais pontos q o time adversário pode ser fácil ou difícil. Ganhar fácil não pode ser chamado de ‘glória’. Vendo um time dar de, sei lá, dez a zero, aquele mundo de gente chorando de alegria ¿está festejando o quê? ¿Que glória pode haver em ganhar de lavada dum time mais fraco? A torcida festeja é a sorte de o adversário, dessa vez, não ter juntado um time de brutamontes q lhes quebre as canelas e os deixe na lama. Admitam.

No outro extremo, tão as ‘vitórias’ difíceis, qdo não se sabe o placar final até o último segundo − tipo numa partida de vôlei: depois de dezenas de match-points pra lá e pra cá, até o torcedor mais roxo fica meio entediado e se perguntando qdo é q vai acabar o chove-não-molha. A verdadeira dimensão da glória fica evidente: num jogo difícil, vence o time q tem a sorte de fazer dois pontos seguidos primeiro; ou, em jogos por tempo, vence aquele q tem a sorte de tar com mais pontos no momento do apito final. ¿Isso lá é glória, catso?

Tem um pessoal aí q não sei, viu. Quer se descabelar, descabele-se. Quer espargir a muxiba, esparja. Mas manera nos termos, aí ô. Como já disse o Tom Stoppard, “Don't clap too loudly. This is a very old world.”

17 janeiro 2004

Foto digital

Começo a pensar q não sou boa companhia pro Dr Plausível. Dia desses, levei-lhe as primeiras páginas de alguns jornais brasileiros pra diagnóstico e tratamento. Foi só apontar a foto do piloto apontando o dedo, e nosso excepcional especialista repimpou-se de gargalhadas, tossiu, engasgou, espirrou, tudo ao mesmo tempo. Só se acalmou lendo gibi.

E não era pra menos. O piloto foi detido por desacatar a PF com um gesto obceno, e no dia seguinte ¡a foto do delito me aparece estampada nos jornais de todo o país! HAHAHAHAHAHAHAHA ¡Q estrambotice! Pois sendo este um episódio momentaneamente importante nas relações entre o Brasil e os EUA, ¿será q ninguém se tocou de q a publicação do gesto obceno implica em q ele não é tão ofensivo assim? Se o piloto tivesse abaixado as calças, revelando uma ereção do dito cujo do qual o dedo é apenas símbolo, ¿a foto do evento teria sido publicada assim mesmo? Então!

A decisão do juiz brasileiro foi galhardamente apoiada pelo Dr Plausível. À parte a inegável justiça, o aspecto da coisa q o convenceu foi a promessa de alegres momentos vendo o noticiário. E não deu outra: permitir q o piloto emoldure a foto e a pendure na sala de visitas foi de longe a idéia mais hilariante q a PF já teve em toda sua história. Sem falar q perdeu uma bela chance. Se tivesse mantido a foto em sigilo, o efeito da acusação teria sido maior: todo o mundo imaginaria algo pior do q o q de fato aconteceu. Ver a 'prova' foi quase um anti-clímax. Fora q alguém já vai ter a idéia de entrar no Brasil vestindo camiseta com a foto do babaca estampada.

Por uma módica fortuna, o Dr Plausível ministrará cursos de Plausibilidade I, II e III também prà PF.

15 janeiro 2004

Pague-se o pagão

Os canais religiosos de tv são muito vulneráveis a epidemias de hipoplausibilose. Têm tantos problemas q nenhum plano de saúde saudável se arriscaria a segurá-los. E muito embora seu emotivo coração se apiade diariamente, o Dr Plausível nem se mete. Os programas passam e o doutor nem ladra.

Mas pelamãedoguarda!, alguém tem q encaminhar o dj da igreja Universal até um cantinho escuro e dar-lhe um belo piripapo no pé do ouvido. Pois nesse canal, nem bem um pastor termina de exorcisar um demônio, dar graças a Deus e conclamar os devotos a louvar Jesus, lá vem o dj e tasca "o fortuna" do Carmina Burana na vitrola. HAHAHAHA que ridículo...

¡Parece até q esse pessoal não lê jornal! Pois ¿como é q um programa q se diz religioso não dá uma pesquisadinha no q diz a letra do fundo musical? Êêê, dj! Acorda! O CB é todinho composto encima de poemas profanos, odes em louvor ao jogo, à gula e à bebida, referências a rituais pagãos, esse tipo de coisa. Na certa, o cara ouviu aquele coral todo e achou divino, qdo na verdade a mensagem da letra é algo como "a sorte e o azar regem esta vida detestável, aguçando a pobreza e dissolvendo o poder". Pois então. ¿De q adianta rezar, se a própria trilha sonora diz q não adianta nada? HAHAHAHAHA cada coisa...

Digam se eu não tenho razão: ¿o Dr Plausível não deveria receber um alto salário?

09 janeiro 2004

The Church Snow Ball Igreja

Apesar de o Dr Plausivel dizer q vive no melhor dos tempos possíveis, temo por sua saúde. Algum dia vai explodir de tanto rir. Pra ele, a raça humana está pouco a pouco mutando de Homo sapiens pra Homo insipiens. É simplesmente estupefaciente o número de humoristas q proliferam como coelhos enviagrados.

Dia desses, subiu ao palco dum programa de auditório uma ex-coelhinha da Playboy vestindo metade dos seios pra fora, anunciando q agora é casta pois se converteu à (pasmem) Igreja Bola de Neve Church.

[silêncio]

hmm

Segundo a nova adepta, é uma igreja q "atrai principalmente surfistas", sediada no Alto da Lapa.

hmm

[pausa]

ãã...

[silêncio]


Deixa eu me recompor.

¿Por onde começo?

Observem os sintomas:

- não é só uma igreja: é uma igreja "church"
- atrai surfistas e se chama "Bola de Neve"
- atrai surfistas e está sediada no Planalto Paulista

É direito de cada um crer no q lhe der na telha e nosso estrondoso doutor está longe de ser idiota a ponto de se meter com a crença alheia. Por ele, vc pode seguir qqer fé: pode até acreditar piamente q o universo foi criado pelo Sílvio Santos e é atualmente governado por um besouro gigante perneta q mora em Moçambique; vc tem toda a liberdade até de criar uma igreja e abrir uma poupança no BankBoston com o lucro, mas ¡¡pelamordizeus, põe um nome plausível nessa igreja!!

(nota: Antigamente os cultos inventados procuravam dar um ar de respeitabilidade assumindo termos científicos. Hoje se consegue isso facilmente enxertando uma palavra inglesa. Mas ¡q coisa, não?)

Se ninguém achar a vacina contra o febehipoapá, alguém algum dia vai ter a brilhante idéia de criar o Templo Cristo na Crista da Onda Temple, atraindo principalmente alpinistas e sediado no Pantanal Matogrossense.

¡Ó nua nomenclatura! ¡Ó praia de palavras!

05 janeiro 2004

O golpe baixo do salto alto
e o truque sujo da cara limpa

¿Já viram coisa mais imbecil do q roupa? Vira e mexe aparece algum 'especialista' em moda com uma teoria xoxa sobre roupas: q é uma identidade grupal, q é uma expressão da personalidade, do momento emocional, do escambau a quatro. Pfffrrr... qta besteira. Eles falam dos vários usos do vestuário; mas 'uso' é um termo muito geral: igualmente pode-se 'usar' uma camisa pra enforcar um jacaré, ou uma meia pra coar café. Essa conversa mole de q roupa protege do frio e do calor tbm não convence: os aborígines da Terra do Fogo, aquele lugar frio como a peste, andavam nus. O Dr Plausível é q sabe das coisas: as roupas não existem pra tapar. Existem pra tapear.

Todo bicho usa alguma tapeação visual pra conseguir uma trepadinha. Os humanos - esses bichos pelados e sem penas, monocromáticos e sem graça -, usam apetrechos pra tapear o sexo oposto: roupas e navalhas.

Vejam o salto alto, por exemplo. ¿Já assistiram a uma mulher 'vestindo' um salto alto? Ela escala os sapatos, primeiro um, depois o outro, e de repente ela toda se eleva cinco ou dez centímetros mais perto do teto. Muita gente acredita q as mulheres usam salto alto pra competir entre si, ou pra igualar-se aos homens, mas essa explicação não esclarece nada. O salto alto é na verdade uma estratégia pra deixar a vagina mais acessível ao pênis por trás, tanto por erguer a vagina alguns centímetros como por arrebitar as nádegas. Note como o salto alto fica melhor qdo a mulher usa saia do q qdo usa calças. Óbvio: a saia é outra estratégia pro mesmo fim. O desejo precisa duma visualização do coito como objetivo. O colorido e as formas da roupa atraem o olhar como penas coloridas, mas escondem o corpo. A visualisação do coito é então facilitada se a mulher usa saia e salto alto e o homem usa calças: a vagina aponta pra baixo e é só levantar a saia; o pênis aponta pra cima e é só abaixar as calças.

Já o homem tapeia a mulher qdo faz a barba. Fica se esforçando pra conseguir, ainda q temporariamente, aquela pele de mancebo transbordando testosterona e vertendo esperma pelos poros. ¡Q espetáculo deprimente! Toda a tecnologia das navalhas, barbeadores e cremes, todo o 'esforço' de marketing, todas as horas e horas perdidas na frente do espelho estão aí apenas pra ajudar o homem a enganar, ludibriar e conseguir umas trepadinhas. Pois mulher q se lembra de seus malhos de adolescente não vai querer pele q pinica nos lábios e nos lábios.

Mas ¿q é q nosso evocativo doutor acha de implausível em tudo isso? Ora, ¿e precisa dizer? Qdo qqer botijão fica sexy encima de dois tocos e qdo qqer vassoura rejuvenece depois duma navalha, ¿q tipo de aberração resultará daqui alguns milhões de anos? ¡Mulheres cada vez mais gordas e baixinhas precisando de saltos cada vez mais altos e homens cada vez mais barbudos precisando de barbeações cada vez mais freqüentes! ¿Será esse o destino da raça humana? ¡Q vergonha!

¡¡E isso q eu nem falei de depilação e maquiagem!!

03 janeiro 2004

O Senhor dos Escarcéis

Muita gente diz q Dr Plausível é bitolado e atrasado, e às vezes até dá pra entender por quê. Vejam só: a trilogia do Senhor dos Anéis já está quase virando uma série, e apenas agora é q ele se dispôs a enfrentar as três longas horas do primeiro filme, não sem reclamar em altos brados na locadora. E não deu outra. Três horas de chatice entrecortada de acochambraduras implausíveis.

Filme de aventura é sempre um saco: vc sabe desde o começo q durante as próximas três horas, o herói pode cair num rio de lava, pode-lhe até cair um piano na cabeça, q absolutamente nada vai lhe causar qqer dano físico, emocional ou intelectual duradouro: ele vai continuar ileso como qdo sua digníssima mãe o pariu, vai continuar senhor de si e vai aprender rigorosamente nada sobre coisa alguma q seja de qqer utilidade seja pra ele ou pra nós.

Pois digam-me uma coisa: se um demônio gigante cuspindo fogo por todos os poros está em teu encalço já há alguns minutos, e vc sabe q algumas palavras enérgicas podem dissuadi-lo de devorar vc e teus amigos, ¿vc esperaria até estar no meio duma ponte de pedra sem corrimão acima dum precipício infinito pra virar-se pra ele e usar todo seu poder de persuasão? E depois q metade da ponte cai, levando o demônio, e vc fica pendurado na borda, ¿vc não esperaria q teus amigos (¡q vc acaba de salvar!) dessem um jeito de puxar vc pra cima com algum truque dentre os milhares ao alcance de quem anda por aí levando pianadas na cabeça? ¡Ora façam-me o favor!

¡E são três horas... não: NOVE horas desse tipo de coisa...!