21 dezembro 2003

Vc vai estar lendo isto:

Uma das crenças mais implausíveis é a de q alguém fala ou escreve errado neste vasto mundo. Ninguém fala errado. Mesmo "falar errado" já foi considerado 'errado', pois o 'correto' seria "falar erradamente". Ridículo.

Uma das críticas comuns de uns anos pra cá tem sido contra o chamado 'gerundismo'. Qdo ouve uma atendente dizer "Vou estar pedindo pro senhor estar ligando pra otro número", muita gente indignada jura de pé junto q a frase só pode estar saindo da boca de pessoa pouco "estudada", vítima de processos mentais confusos e estropiados, querendo empolar as palavras e se dando mal. ¡Qta empáfia! É uma crença tão errada qto a de q a língua deve-se aprender na escola.

O Dr Plausível também é dos q xingam esse uso do gerúndio, q virou gramática-jargão de telemarketing. Porém o estentóreo doutor não xinga porque considere que "vou estar pedindo pro senhor estar ligando" esteja 'errado': xinga porque isso é exatamente o que a atendente quer dizer, e ¡o diz muito bem!

Ela diz "vou estar pedindo" porque, nestes dias de terceirização e massificação, o q ela sente é q 'atender' não é o q ela 'faz', mas o q ela 'está fazendo'; ou seja, não está engajada numa profissão, está é marcando presença num emprego até q surja outro mais compensador. Além disso, a qqer momento ela pode ser inexplicavelmente despedida. Tudo é passageiro e instável. Ela então utiliza o gerúndio pra desvincular seu amor-próprio de seus atos profissionais. Se existe algo errado nisso, é q o foco da atenção dela está longe de ser o coitado do Dr Plausível, q só ligou porque precisava. A mensagem q passa é "olha, vou ignorar minhas próprias preocupações por uns segundos pra fingir interesse por teu caso". A atendente é duma sinceridade desconcertante, utilizando a gramática com uma eficiência espantosa pra 'dizer sem estar dizendo', num artifício subconsciente pra insultar quem liga e ao mesmo tempo ludibriar os controles da chefia.

Por outro lado, ela diz "o senhor estar ligando" porque espera q nosso evoluído humanista realize algo (neste caso "ligar") q pra ela nada mais é q uma rotina previamente estabelecida num fluxograma q lhe foi enfiado goela abaixo por seu empregador. O fato é q o Dr Plausível está longe de encarar sua ligação como rotina, pois só ligou porque está engajado na tentativa de resolver um problema. A atendente sabe conjugar mas não sabe atender. Não se trata de má gramática, mas dum serviço ruim, o serviço prestado por alguém q não vê a hora de ir embora.

Pois é. Quem faz pouco da capacidade gramática de qqer ser humano devia pensar melhor no q diz.

(Como introdução ao tamanho da coisa, o Dr Plausível recomenda aos indignados o livro Preconceito Lingüístico, de Marcos Bagno.)

2 comentários:

Macaco Véio (Cris) disse...

A linguagem falada tem vida própria e atravessa os limites do escorreito combinar de palavras sintaticamente harmonioso. A fala reflete o modo de vida dos emissores e a forma como raciocinam diante dos fatos, é verdade... Mas que puta ironia ácida tem esse Inobumbrável Doutor!

Miroslav disse...

Até concordo. Mas é irritante. Feio. E agora ficou fácil saber que vc. mora em São Paulo, aquela cidade escrota, porque esse gerúndio estúpido veio de lá. Ou devo dizer daí? Não tem nada a ver com indignação pela língua portuguesa, que por si só já é anti-prática, mas pelo tapa nos ouvidos que é. SOA mal. Você, como amante das artes (suponho), aprecia letras de música funk? Ou a própria música, mesmo sem a letra? Claro que não, porque é uma coisa feia. Só espero que como todo modismo, isso um dia tabém acabe. Mas seu blog é muito bom, tio.

Postar um comentário

consulte o doutor