23 dezembro 2003

Um Natal Trágico

Nosso emocionável Dr Plausível verte copiosas lágrimas qdo lê, ouve ou vê um conto de Natal redondinho, fofinho e totalmente inútil. É um espetáculo edificante examinar esse eminente exegeta enxugando da epiderme os eflúvios embevecidos. ¡Qta grandeza! ¡Qto sentimento!

Mas Natal tbm é qdo muito roteirista de filme se dá mal, e aí o estudado doutor chora mesmo mas é de rir. O cara quer bolar um enredo novo pruma estória velha e acaba se enredando todo.

Tem um filme por aí chamado Um Natal Mágico (One Magic Christmas), q precisa o qto antes ser levado pra tratamento, mesmo q esperneie e ameace se matar. A trama enrascada e resumida é assim: mulher casada, mãe de casalzinho, não gosta do Natal, não diz 'feliz Natal', acha tudo uma babaquice; um anjo é enviado pra fazer a mulher gostar; o método q escolhe é causar a morte do marido e dos filhos; o anjo (q aliás tem todo o jeito de pedófilo...) ressuscita os filhos e só traz de volta o marido depois q a mãe admite ter gostado do Natal qdo criança e então entra na festa.

A hilariante lógica é inescapável: ou vc gosta do Natal ou vem um anjo levar embora seus entes queridos. Mas ¡que maquiavelismo vergonhoso, hem? ¿Isso lá é espírito natalino q se preze? O ridículo é q, com toda a roupagem algodão-doce do filme, muita gente nem deve perceber q o anjo age descaradamente de má-fé.

É a versão pérfida daquela piada do bode:

Roceiro reclama ao vigário q o ambiente familiar vai muito mal.
Vigário: Faça isto: deixe seu bode viver na sala.

Dias depois, se encontram.
Vigário: ¿Pôs o bode na sala?
Roceiro: Pus.
Vigário: ¿Como vai a família agora?
Roceiro: ¡Muito pior! Todo mundo brigando. Ninguém agüenta mais.
Vigário: Tira o bode da sala.

Dias depois, se encontram novamente.
Vigário: ¿Tirou o bode da sala?
Roceiro: Tirei.
Vigário: ¿E como vai a família?
Roceiro: ¡Agora tá uma maravilha!

Roteirista muito carola sempre acha q não precisa ser plausível, pois ¿Deus não escreve certo por linhas tortas? Mas peraí! Deus não seria tão safado.

Êitcha.

2 comentários:

Pracimademoá disse...

Ué. Mas não é esse o argumento de todas as religiões? Converta-se já ou cortamos seu pescoço.
Com a mudança de certos hábitos e o advento de tantas leis inconvenientes que proíbem a degola de quem não aceita se converter, só resta ameaçar com palavras. Esse roteirista certamente leu muito a Bíblia, que também é obra de ficção e faz acontecer em suas histórias tudo o que seus autores queriam para realizar sua propaganda nazista.
Desde a pré-história, o medo e a intimidação são matéria-prima de toda religião.

Pabel (a dupla) disse...

Bem notado, Demoá.
Mas o filme não quer converter, quer é obrigar a protagonista a gostar do Natal. O Dr Plausível considera esse objetivo mais pérfido e menos plausível q o objetivo de converter, pois a conversão implica numa decisão e numa escolha (você pode muito bem preferir a degola); ao passo q forçar um gosto está mais para lavagem cerebral, o q atenta contra todo bom-senso. A mãe não tem escolha: a decisão foi tomada pelo anjo, e a mãe é forçada a sofrer as conseqüências antes mesmo de finalmente capitular.
Alguém tinha q dar um sopapo no pé da orelha desse roteirista.

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