10 dezembro 2003

Barbárie humanum est

O Dr Plausível às vezes se deleita com esses noticiários do final da tarde em q um apresentador de pé finge indignação com cara de promotor com diarréia. Olho morto fixo na câmara e a matraca no automático, esses ratinhettes ganham a vida duvidando da humanidade alheia: "Esse sujeito não é mais um ser humano. ¡É um MONSTRO!" Alguns estão aí há anos, dia após dia dando 'notícias' como "filhinho de papai taca fogo em mendigo; pai estupra filha de dois anos; mãe mantém filho em gaiola, dando só água com farinha; drogado espanca a avó; ex-namorado degola a empregada da ex-namorada; motorista bêbado atropela dois irmãos de 4 e 6 anos; vizinhança lincha motorista". Monstros todos, é claro.

Mas ¡q idealização mais implausível! Alguém precisa dar uma cutucada no ombro desses matracas e dizer, "Ôô acorda, meu. O ser humano é isso aí mesmo. Monstro é coisa de filme." ¿Será q, após anos a fio regurgitando as atrocidades alheias, ainda não sacaram q o atroz também está no repertório do humano?

Aliás, se o Dr Plausível os tratasse, esses espantalhos estariam é dando risada a cada vez q alguém lhes trouxesse uma atrocidade de bandeja – pois ¿não é disso q vivem?

O Dr Plausível lembra das boas risadas de outrora qdo havia um programa jornalístico implausivelmente chamado Vamos sair da crise. HAHAHA ¿Como acreditar sequer numa palavra dita no programa, se o nome dele já fingia q seu objetivo era a própria extinção? Se tivesse a audiência e os anunciantes dos papa-sangue, ainda hoje estaríamos vendo o Vamos sair da crise – comendo pipoca inflacionada e bebendo guaraná cada vez mais aguado.

Êitcha. Esse pessoal parece q não tem senso de direção...

4 comentários:

Belly disse...

Nunca li nada mais verdadeiro.
Eu sou é muito ruim e tinhosa. Eu aviso, digo para as pessoas, mas elas não entendem. Não entendem.
O grotesco é você. Full time.

Permafrost disse...

Basta dizer q toda vez que alguém me diz "Seja você mesmo", respondo "¿Tá louco? Não quero ir preso."

Pablo Joia disse...

"esses ratinhettes ganham a vida duvidando da humanidade alheia"
Como você citou, "eles duvidam...", não esperam que o telespectador também tenha a mesma dúvida. Parece que em você surgiu alguma, caso contrário não comentaria a respeito, ou então você deve ter o tempo todo livre para ficar reafirmando afirmações passadas... É bom a sociedade ter acesso às várias reações desencadeadas pela natureza humana. As conclusões sobre os fatos se reservam a cada um, formando sua própria opinião e acrecentando mais informações sobre o meio em que vive, para estar sempre avaliando suas metas sobre a vida, etc....

Permafrost disse...

Oh não, não duvido da humanidade alheia: duvido é da inteligência. Concordo q "é bom que a sociedade &c", mas ainda estou para conhecer essa tal de 'sociedade' de q todo mundo fala: esse conceito pode ser só uma invencionice. 'Natureza humana', 'reações' e 'sociedade' parecem três versões da mesma coisa. Além disso, se é bom q ela tenha "acesso às várias reações desencadeadas pela natureza humana", então ¿por que é q toda vez q eu facilito o acesso às minhas reações, vem alguém ironizar sobre o meu tempo livre? A verdade é q não há muita pluralidade: as conclusões e opiniões são injetadas na veia no povaréu com uma britadeira; e são sempre uma ou duas, nunca os milhões de diferentes opiniões possíveis. O problema com esses programas é q não permitem a ponderação: apenas acusam e se refestelam de indignações.

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