30 dezembro 2003

Tristeza de aleijadING

¡Cada idéia de jirico!

Existe um acordo tácito entre os anunciantes e o público pedestre: anúncio fica ao nível dos olhos ou acima da cabeça; assim, quem não quer poluir a vista só precisa olhar o chão q pisa. ¿E não é q agora algum paralítico mental resolveu pintar anúncios direto nas calçadas? Nas esquinas mais civilizadas, o meio-fio tem aqueles rebaixos pra cadeiras de rodas. Agora a prefeitura loteou esse espaço no chão pra anúncios, o q é um despautério mesmo q seja só nos arredores da Paulista e só prà São Silvestre. O Dr Plausível viu alguns da Sul América ING: ou seja, algum paraplógico numa companhia de seguros achou q pintar um anúncio ali, como dizendo 'nós mantemos esta área', seria bom prà imagem da firma. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA E logo uma firma de seguros... ¡Q mau gosto!

O desespero mercadológico torna o organismo muito vulnerável a infecções oportunistas de hipoplausibilose. E convenhamos, tem q estar muito desesperado pra se rebaixar a pintar anúncios no chão. A mensagem q passa é q a Sul América ING, assim como os demais anunciantes rasteiros (se os houver), está tão necessitada de novos clientes q não se importa de encher o saco dos pedestres a cada esquina com a idéia prepóstera de q todo ãã... usuário de rodo-assento deveria estar agradecido a ela por sinalizar os acessos q todo o mundo já sabe onde estão. Sem falar no insulto implícito em supostamente pedir reconhecimento por implementar um direito. HAHAHAHA

¡Tem gente q não pensa, sô! Pois ¿vc faria seguro numa firma q apregoa um raciocínio tosco? Bastou esse anúncio pra conseguir minha antipatia eterna contra toda e qqer empresa q emporcalhe o chão com sua marca, e aposto q estou longe de ser o único a detestar esse truque chão. Já nosso equânime doutor, de tanto rir teve q ser levado às pressas em rodo-assento até sua biblioteca, onde foi se acalmando lendo Darwin.

Mas, ¡ô sarjeta safada!, parece q o Dr Plausível não gargalha tão alto assim.

23 dezembro 2003

Um Natal Trágico

Nosso emocionável Dr Plausível verte copiosas lágrimas qdo lê, ouve ou vê um conto de Natal redondinho, fofinho e totalmente inútil. É um espetáculo edificante examinar esse eminente exegeta enxugando da epiderme os eflúvios embevecidos. ¡Qta grandeza! ¡Qto sentimento!

Mas Natal tbm é qdo muito roteirista de filme se dá mal, e aí o estudado doutor chora mesmo mas é de rir. O cara quer bolar um enredo novo pruma estória velha e acaba se enredando todo.

Tem um filme por aí chamado Um Natal Mágico (One Magic Christmas), q precisa o qto antes ser levado pra tratamento, mesmo q esperneie e ameace se matar. A trama enrascada e resumida é assim: mulher casada, mãe de casalzinho, não gosta do Natal, não diz 'feliz Natal', acha tudo uma babaquice; um anjo é enviado pra fazer a mulher gostar; o método q escolhe é causar a morte do marido e dos filhos; o anjo (q aliás tem todo o jeito de pedófilo...) ressuscita os filhos e só traz de volta o marido depois q a mãe admite ter gostado do Natal qdo criança e então entra na festa.

A hilariante lógica é inescapável: ou vc gosta do Natal ou vem um anjo levar embora seus entes queridos. Mas ¡que maquiavelismo vergonhoso, hem? ¿Isso lá é espírito natalino q se preze? O ridículo é q, com toda a roupagem algodão-doce do filme, muita gente nem deve perceber q o anjo age descaradamente de má-fé.

É a versão pérfida daquela piada do bode:

Roceiro reclama ao vigário q o ambiente familiar vai muito mal.
Vigário: Faça isto: deixe seu bode viver na sala.

Dias depois, se encontram.
Vigário: ¿Pôs o bode na sala?
Roceiro: Pus.
Vigário: ¿Como vai a família agora?
Roceiro: ¡Muito pior! Todo mundo brigando. Ninguém agüenta mais.
Vigário: Tira o bode da sala.

Dias depois, se encontram novamente.
Vigário: ¿Tirou o bode da sala?
Roceiro: Tirei.
Vigário: ¿E como vai a família?
Roceiro: ¡Agora tá uma maravilha!

Roteirista muito carola sempre acha q não precisa ser plausível, pois ¿Deus não escreve certo por linhas tortas? Mas peraí! Deus não seria tão safado.

Êitcha.

21 dezembro 2003

Vc vai estar lendo isto:

Uma das crenças mais implausíveis é a de q alguém fala ou escreve errado neste vasto mundo. Ninguém fala errado. Mesmo "falar errado" já foi considerado 'errado', pois o 'correto' seria "falar erradamente". Ridículo.

Uma das críticas comuns de uns anos pra cá tem sido contra o chamado 'gerundismo'. Qdo ouve uma atendente dizer "Vou estar pedindo pro senhor estar ligando pra otro número", muita gente indignada jura de pé junto q a frase só pode estar saindo da boca de pessoa pouco "estudada", vítima de processos mentais confusos e estropiados, querendo empolar as palavras e se dando mal. ¡Qta empáfia! É uma crença tão errada qto a de q a língua deve-se aprender na escola.

O Dr Plausível também é dos q xingam esse uso do gerúndio, q virou gramática-jargão de telemarketing. Porém o estentóreo doutor não xinga porque considere que "vou estar pedindo pro senhor estar ligando" esteja 'errado': xinga porque isso é exatamente o que a atendente quer dizer, e ¡o diz muito bem!

Ela diz "vou estar pedindo" porque, nestes dias de terceirização e massificação, o q ela sente é q 'atender' não é o q ela 'faz', mas o q ela 'está fazendo'; ou seja, não está engajada numa profissão, está é marcando presença num emprego até q surja outro mais compensador. Além disso, a qqer momento ela pode ser inexplicavelmente despedida. Tudo é passageiro e instável. Ela então utiliza o gerúndio pra desvincular seu amor-próprio de seus atos profissionais. Se existe algo errado nisso, é q o foco da atenção dela está longe de ser o coitado do Dr Plausível, q só ligou porque precisava. A mensagem q passa é "olha, vou ignorar minhas próprias preocupações por uns segundos pra fingir interesse por teu caso". A atendente é duma sinceridade desconcertante, utilizando a gramática com uma eficiência espantosa pra 'dizer sem estar dizendo', num artifício subconsciente pra insultar quem liga e ao mesmo tempo ludibriar os controles da chefia.

Por outro lado, ela diz "o senhor estar ligando" porque espera q nosso evoluído humanista realize algo (neste caso "ligar") q pra ela nada mais é q uma rotina previamente estabelecida num fluxograma q lhe foi enfiado goela abaixo por seu empregador. O fato é q o Dr Plausível está longe de encarar sua ligação como rotina, pois só ligou porque está engajado na tentativa de resolver um problema. A atendente sabe conjugar mas não sabe atender. Não se trata de má gramática, mas dum serviço ruim, o serviço prestado por alguém q não vê a hora de ir embora.

Pois é. Quem faz pouco da capacidade gramática de qqer ser humano devia pensar melhor no q diz.

(Como introdução ao tamanho da coisa, o Dr Plausível recomenda aos indignados o livro Preconceito Lingüístico, de Marcos Bagno.)

17 dezembro 2003

Ai q dólar na cachólar

¡Ô santa pataca!

Na tv qqer idéia de jumento sem tutano pode dar tutu. Há alguns meses, além dos erros de tradução, de compreensão e de bom-senso, as legendas vem trazendo uma novidade q poderia dar algum tutu pro Dr Plausível se alguém se dignasse a levar o paciente a sua clínica. Algum funcionário bem-intencionado porém insufferably patronising de alguma firma de tradução achou esta pérola: ¿Por que não converter toda moeda pro dólar, já q todo mundo sabe qto ele vale? Genial! O cara fala "15 libras" e a legenda diz US$26, e assim por diante. ¡Q ótimo, tudo mastigadinho! É só converter pra reais e pronto. Assim nenhum brasileiro vai ficar sem saber qto custa um isqueiro na Inglaterra, um jantar no Japão, ou um terreno na Turquia. Mas ¿por que dólar? Ué, ¿quem é q precisa saber q sequer existe uma moeda chamada "leu"? ¡Põe tudo em dólar! ¿Não é a moeda de gente sofisticada?

Só q aparece então um novo problema. ¿Como é q o leitor da legenda vai saber qual era a taxa de câmbio na data em q a tradução foi feita? Qdo ouviu a descrição do caso, nosso esclarecido doutor tardou a controlar as gargalhadas mas achou a resposta óbvia: fazer referência ao câmbio vigente na data da tradução. Uma legenda corriqueira seria:

original: That's fifteen pounds, guv'nor.
legenda: São US$26 (JAN 2003, venda), governador.

Aí quem se interessasse só precisaria consultar os jornais pra ver qual foi a taxa de câmbio média pra venda do dólar em janeiro de 2003, e pronto. Uma outra solução seria conectar as legendas a uma base de dados dinâmica de modo q o número q aparece na tela variasse automaticamente de acordo com o câmbio na data de exibição do programa, e aí já legendar em reais mesmo. Genial! Sofisticadíssimo!

Que nada. Coisa de quem se acha.

13 dezembro 2003

De MOrth

Ai meus calos.

Quem já viu o programa Saia Justa sabe q de todas as sandices, as maiores são ditas por aquela q fica mais à esquerda na tela. A vizinhança toda começa a rir qdo ouve nosso egrégio Dr Plausível se escarcalhando no chão de ouvir as lorpas incoerências dessa moça. Mas embora a terceira da esquerda prà direita geralmente diga, ainda q empoladamente, umas coisas até q interessantes, às vezes também se deixa levar pela necessidade de não ficar quieta. Foi assim qdo as quatro discutiam o caso do semi-troglodita q, seguindo apenas seus instintos, matou o casalzinho naquele matagal. (Aliás, o Dr Plausível se abstém de comentar toda a celeuma q se seguiu já q, convenhamos, não é muito plausível a possibilidade de evitar tragédias resultantes de ignorar recomendações cujo intuito era justamente evitá-las. Pois então.)

E ¿não é q essa outra também conseguiu fazer toda a vizinhança rir por tabela? Deu pra se enfezar com a coitada da mãe do menor assassino, argumentando q se notou desde cedo q o pirralho não era muito normal, ¿por q foi q não o levou a um psicólogo, meudeusdocéu? ¡Podia até ter sido um psicólogo da prefeitura!

Mas ¡êêê, acorda, Orth! ¿Nunca viu pobreza e ignorância? ¿Não viu a choça em q eles moravam no meio do nada? ¿Não viu q a mãe mal sabe articular uma frase inteligível com mais de dez palavras? ¡Té parece q aquela semi-troglodita q nunca teve chance de nada teria tido a chance de pausar seus afazeres pra meditar! "Oh, vejo evidências de q meu rebento é portador de algum distúrbio emocional... Certamente poderei contar com auxílio profissional gratuito neste mesmo município. Um diagnóstico correto seguido de tratamento adequado deverá evitar q ele venha a perpetuar alguma cagada." (Bom, pelo menos UMA dessas palavras ela deve conhecer...)

O maior abismo entre a artista burguesa e a mãe desse menino é aquele entre o q uma é capaz de dizer e o q a outra é capaz de entender, e vice-versa.

(Só um parêntese impertinente: ¿vcs já perceberam q nesse programa todos os sobrenomes se originam de países do norte da Europa: Young, Lee, Orth, Waldvogel? Hmm...)

Os meia-roda

Muita gente acha o Dr Plausível retardado, mas pra mim é um privilegiado: é uma das poucas pessoas neste vasto mundo q caem na gargalhada lendo dicionário. Dia desses quase vomitou as tripas de tanto rir ao deparar-se com a indesculpável omissão da palavra 'bicicletaria' em quatro dos dicionários mais vendidos – o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa Michaelis, o Novo Aurélio Século XXI, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. ¡Êitcha inguinorança cabo da pexte! Tem gente q não se emenda, né?

Além de 'bicicleta', entre o Michaelis e o Aurélio encontramos, no máximo:

bicicletário s: lugar onde se guardam bicicletas
bicicleteiro s: [GO] bicicletista
bicicletista s: pessoa que anda de bicicleta; ciclista

¿Não é de matar de rir? Uma palavra q qqer brasileiro entenderia e produziria sem o menor problema simplesmente não é reconhecida por pessoas q faturam uma nota preta arvorando-se de árbitros da língua. Sem falar da gargalhável afetação em glosar 'bicicleteiro' apenas como um regionalismo de Goiás pra 'ciclista'.

¡Ó grandíloquo guidão da língua! ¡Ó senil selim semi-analfa!

Agora, a coisa q fez nosso efusivo doutor rir até lhe rebentarem as ilhargas foi lembrar o motivo q o levou a procurar uma palavra tão prosaica no asinino pai dos burros. É q uma certa firma de legendagem de filmes, sediada nos EUA, só aceita traduções com palavras incluídas no Aurélio, sem choro nem vela. Se a palavra não consta (tal como, digamos, 'sentimentalóide'), a tradução é devolvida com a palavra criminosa marcada 'this word does not exist'. Agora digam-me, se 'bike shop' não é 'bicicletaria', ¿então o q é? ¿chope de bico?

Não deve ser à toa q proliferam as bike shops no Brasil, pois muito brasileiro ao confirmar q 'bicicletaria' não consta nos léxicos vai dizer, "¡Olha só, 'bicicletaria' não existe!" HAHAHAHA Cartazes às dezenas de milhares estão na verdade em branco.

Mas o mais esputantemente engraçado é perceber q essa omissão em tantos dicionários não pode ser coincidência, e q portanto os dicionaristas copiam irrefletidamente os verbetes de outros dicionários. Como evidência, veja o caso do verbete "Dord" , q se originou dum erro de compilação e foi depois reproduzido por vários outros dicionários.

10 dezembro 2003

Barbárie humanum est

O Dr Plausível às vezes se deleita com esses noticiários do final da tarde em q um apresentador de pé finge indignação com cara de promotor com diarréia. Olho morto fixo na câmara e a matraca no automático, esses ratinhettes ganham a vida duvidando da humanidade alheia: "Esse sujeito não é mais um ser humano. ¡É um MONSTRO!" Alguns estão aí há anos, dia após dia dando 'notícias' como "filhinho de papai taca fogo em mendigo; pai estupra filha de dois anos; mãe mantém filho em gaiola, dando só água com farinha; drogado espanca a avó; ex-namorado degola a empregada da ex-namorada; motorista bêbado atropela dois irmãos de 4 e 6 anos; vizinhança lincha motorista". Monstros todos, é claro.

Mas ¡q idealização mais implausível! Alguém precisa dar uma cutucada no ombro desses matracas e dizer, "Ôô acorda, meu. O ser humano é isso aí mesmo. Monstro é coisa de filme." ¿Será q, após anos a fio regurgitando as atrocidades alheias, ainda não sacaram q o atroz também está no repertório do humano?

Aliás, se o Dr Plausível os tratasse, esses espantalhos estariam é dando risada a cada vez q alguém lhes trouxesse uma atrocidade de bandeja – pois ¿não é disso q vivem?

O Dr Plausível lembra das boas risadas de outrora qdo havia um programa jornalístico implausivelmente chamado Vamos sair da crise. HAHAHA ¿Como acreditar sequer numa palavra dita no programa, se o nome dele já fingia q seu objetivo era a própria extinção? Se tivesse a audiência e os anunciantes dos papa-sangue, ainda hoje estaríamos vendo o Vamos sair da crise – comendo pipoca inflacionada e bebendo guaraná cada vez mais aguado.

Êitcha. Esse pessoal parece q não tem senso de direção...