25 agosto 2003

Ditado sem vírgulas

Quem passar pela Marginal Tietê estes dias pode deparar-se com uma visão incôngrua: à beira do asfalto, ergue-se a 15 metros do chão, como um anúncio de liquidação, um cartaz enorme vermelho onde se lê:

A IRA DE DEUS
O MUNDO SE CALA
AOS DITADORES

desse jeito mesmo, sem pontuação e sem a menor explicação.

Mas ¿q raio de geringonça cerebral bolou essa frase, encomendou o cartaz, pagou e instalou e ainda espera estar transmitindo uma mensagem? ¿Será q eu é q sou um desespiritualizado amístico e aminimalista? Fiquei vários minutos rodando a frase daqui pra lá na cabeça, tentando entendê-la. Ao recomendar a frase pra tratamento com nosso esplêndido Dr Plausível, ele simplesmente a leu e disse, "Esse cartaz não é implausível, assim como não o são as formações aleatórias de nuvens no céu ou os desenhos q fazem no chão do bosque as suaves gotas de orvalho caindo a esmo aqui e acolá numa manhã qualquer de primavera."

¡Qta sabedoria! ¡Qta sapiência!

O rústico pensar da colônia

Todo propagandólogo ou marquetinhólogo vive dizendo q todo mundo só faz o tempo todo anunciar o q vende. Então tá. Também todo músico diz q tudo é música, todo biólogo diz q tudo é biologia e todo lixeiro diz q tudo é lixo. Mas a crença do Zé Reclame até q tem um fundo de verdade. Por exemplo, se eu estou dormindo à sombra duma palmeira à beira da praia, eu logicamente estou anunciando q estou dormindo à sombra duma palmeira à beira da praia. Basta confrontar o Zé Reclame com esse fato e sua inescapável interpretação, q ele automaticamente cita consciente ou inconscientemente o velho Freud, "Às vezes um charuto é apenas um charuto", dito no susto qdo alguém insinuou algo sobre o uso do mesmo.

Mas citando nosso exímio Dr Plausível, "propaganda nunca é charuto": sempre tem algo escondido nas entrelinhas. Vejam por exemplo este texto encontrado no folheto dum bar numa cidade praiana meio histórica:

"Localizado na paradisíaca e histórica cidade de Blablablá, o Bar Blebleblé, com criatividade e sofisticação, resgata e concilia com o presente, todo o clima, a mística e os encantos do passado. Num ambiente despojado, alegre e aconchegante, com a melhor música e uma culinária fundada nos mais saborosos grelhados servidos na tábua, além do melhor chopp de todo o litoral bliblibli, oferece uma diversificada carta de vinhos com mais de 60 variedades especialmente selecionadas e acondicionadas em adega climatizada, serviços de Wine Keeper para a imprescindível degustação e espaços exclusivos para prazeres também exclusivos, como Clube do Whisky, Clube da Vodka e o Clube do Charuto."

¿Será q alguém acredita nisso? O folheto foi levado ao consultório do Dr Plausível pelo CBeetz e pela PDufrayer, q estiveram no local e traduziram o texto acima pra algo mais próximo à realidade:

"Venha ficar surdo e bêbado num ambiente q procura disfarçar o presente e só consegue insultar o passado, ouvindo alguém cantar no último volume, bebendo um chopp industrializado, comendo num pedaço de madeira q custou uma bagatela, e cheirando a pestilência dum charuto logo ao lado. Vc pode pedir qqer um dos vinhos q nosso comprador achou na distribuidora, e ao cambalear prà rua, não deixe de manter a tradição da cidade: tropece no calçamento irregular e caia de boca num pedregulho paradisíaco."

Mas também fazer texto pra folheto de barzinho deve ser uma tarefa inglória, não? ¡Caaacilda! Chega o dono do bar e pede, "escreve umas coisas bonitas aí... cidade paradisíaca... ambiente sofisticado... sei lá, inventa aí". Só podia dar no q deu. ¿Onde é q estão os fantasmas coloniais qdo a gente precisa deles?

24 agosto 2003

Pipocam et cinemenses

Como bem lembra o Zé Geraldo, ¡q vexame, esse tal Spielberg, hem? O cara misturou os genes dum tubarão com os dum leão e ainda enfiou os dum cupim, e criou um peixe q ruge e come madeira. Cada idéia.

Mas a pergunta do ZG ("¿por que ruge o tubarão do Spielberg?") só tem uma resposta: porque o filme é estadunidense e foi lançado no verão de lá. À primeira vista, essa resposta parece q não tem nada a ver. Mas lembro q o Dr Plausível estuda a hipoplausibilose no cinema há várias décadas, e em seu último livro "Tela à Vista" (Ed Sphincter, 540 pgs, R$5.400) demonstra q o grau de hipoplausibilose num filme estadunidense é diretamente proporcional à proximidade do lançamento ao verão boreal. Vcs podem checar. Todo filme q sai entre Junho e Agosto é um compêndio de enredos fáceis e rápidos, temas paranóico-sensacionalistas, atuações padrão e desenlaces idem, em que a plausibilidade tem mais chance de sair intacta q um ator coadjuvante tem de ainda estar vivo na última cena.

Mas aí a pergunta virou outra: ¿why the fuck filme de verão tem q ser implausível? Aha...!, reponde o Dr Plausível, porque os EUA são uma democracia rica, ou seja, são um país onde os anseios legítimos da manada são total e irrestritamente satisfeitos, ou seja, um país onde a Voz do Povo é soberana, e a Voz do Povo diz: "ué, ¿tubarão não devia rugir?".

Mas ¡ó panem et circences! o povo parece q não sei...

21 agosto 2003

Entre atentados e conseguidos, todos escapam

E aí, ¿vcs acreditam em notícia de jornal? Difícil, né? Ainda mais qdo o jornal noticia um comunicado dum governo. O Dr Plausível sempre diz q jornal noticiando comunicado de governo é como maquiagem de velha: uma tentativa de esconder algo q fica ainda mais evidente.

Pois vejam só esta: um comunicado hipoplausibilético do governo estadunidense avisa q gente ligada ao Bin Laden conseguiu entrar no Iraque (ué, ¿eles não estavam lá o tempo todo?). No dia seguinte explode um caminhão bomba embaixo da janela do chefe da missão da ONU em Bagdá, matando um cara q queria ver o Iraque governando a si próprio rapidinho. Ninguém assume o atentado conseguido, mas um outro comunicado hipoplausibilético lança suspeitas sobre aquela gente ligada ao Bin Laden.

¡Q coisa, hem? ¡O mundo todo parece que bebeu!

Muita gente diria q neste caso o tratamento do Dr Plausível seria um despropósito. Mas vejam bem, ¿eu estou dizendo alguma coisa? ¡¿Eu estou insinuando alguma coisa?¡ ¿Hem?

18 agosto 2003

Quem come tudo não come nada

A primeira vez q o Dr Plausível ouviu falar daquela turma q categoricamente afirma viver de luz e não precisar de comida, ele nos surpreendeu já com um comentário na ponta da língua: "¡¡hhhhrrrr-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-tóç-QUA-QUA-QUA-rrrrhhhh-pfrfrfr!!!" Desde então seus comentários têm sido mais moderados, e passaram do "¡¡hhhh-HA-HA-HA-HA-HA-HA-HA-tóç-HA-HA-HA-rrrrhhhh-pfrfrfr!!" ao "hhh-HO-HO-HO-rrrrhhhh-pfrfrfr!!", e agora o assunto não desperta mais q um "¡hrhrhrhr....pfrfrfr!" No entanto, o edificante e extrovertido Dr Plausível não deixa de dar ouvidos aos críticos q ressaltam o fato de q um terapeuta não deve tirar sarro de seus pacientes, especialmente aqueles q mais precisam dele.

Mas ¡q idéia essas mulheres foram ter, hem? Vejam só este sintoma de hipoplausibilose galopante:

"A possibilidade de viver totalmente e exclusivamente de Luz (...) é verdadeiramente um salto quântico na evolução humana."

(¿Já repararam como os hipoplausibiléticos pseudo-científicos têm tesão usando jargão das ciências exatas de última geração?)

E este outro:

"A escritora Evelyn Levy Torrence rebate a afirmação do endocrinologista, dizendo que as pessoas miseráveis morrem porque não têm conhecimento do processo de captação da luz."

¡Haja mau hálito!

Descontando a possibilidade de má fé pura e simples por parte dessas fotossintéticas hipoplausibiléticas, é possível q elas acreditem mesmo q "não comem coisa alguma": pois ¿não é do feitio de muitas mulheres e afins exagerar a interpretação duma observação? ¿Quem já não viu uma magrela reclamar q está gorda como uma baleia, ou uma desnarigada dizer q tem uma napa de tucano? Elas não estão descrevendo a realidade, mas apenas dizendo como se sentem. Então ¿não seria possível q essas pessoas-plâncton estejam apenas exagerando? De algum modo devem recuperar as forças perdidas na televisão vespertina insistindo q vivem de luz, e depois se alguém lhes pergunta se já jantaram, dizem "Não, nada.", frase esta q pràs pessoas racionais equivale a dizer "Nem sinto q acabei de devorar uma lasanha."

¡Ó anorexia cerebral! ¡Ó fome de miolo!

14 agosto 2003

A garoa e a rocha

A política e o Dr Plausível são como a garoa e a rocha: a primeira de vez em qdo molha a segunda por fora e estamos conversados.

É nesse clima de indiferença mútua q o exaltado e enfático doutor analisa a propaganda política. Digam a verdade, mes enfants, ¿tem coisa mais implausível q as esperanças eleitorais da maioria dos candidatos a qqer cargo? Tem gente q não tem simancol nem na terceira vértebra à esquerda, ¿não? Analisemos um caso tomado aleatoriamente: Quércia. Eu poderia falar de qqer outro empostado e falastrão de segunda: o nome não importa muito; aliás, q eu saiba, o Quércia pode até ser o ser humano mais correto, hábil, empreendedor, justo, transparente, capaz, eficiente, iluminado, honesto, competente e esforçado em todo o universo e mais dez metros. Mas até mesmo o mais correto, hábil, &c ser humano do universo pode ser vítima de hipoplausibiloses plantadas em seu cérebro pelas turbas ensandecidas de puxa-sacos. Pois ¿que é q enfiaram na cabeça desse sujeito q lhe dá a impressão de q é só aparecer por aí falando os lugares-comuns de sempre e de repente consegue ser eleito? Alguém tem q chegar ao pé do ouvido dele e dos outros sem-chance e dizer bem baixinho pra não assustar, "Escuta meu, se manca. Vai cuidar de tua vida. Aqui vc está fazendo papel de papel de parede."

09 agosto 2003

Ponto gelado

Mas ¡q coisa, não? Já vai fazer um mês q sugeri a criação de cursos de Plausibilidade I, II e III nas escolas de propaganda & marketing e até agora, nada. Enquanto ninguém se anima, nosso escrupuloso e evoluído Dr Plausível vai vivendo de favor, vendo aberrações plausibilógicas até em anúncio de sofá. ¿Já viram esse último do Ponto Frio? Nas agências de publicidade, esse tipo de anúncio deve ser dado aos estagiários. Pois vejam se não concordam com o Dr Plausível: logo no comecinho do anúncio, o garoto propaganda (q parece felicíssimo por estar anunciando sofás e batedeiras) diz algo como "¡O Ponto Frio quer ter vc aqui e agora baixou os preços de verdade!" Mas ¡¡¡o quêêêê??? ¿Quer dizer q toda vez q o Ponto Frio anunciou "preço baixo" até agora era mentira? Quando comprei aquela máquina de lavar Enxuta e aquele aspirador de pó Electrolux no Ponto Frio do Jabaquara, crente de q estava fazendo um bom negócio, ¿quer dizer q estavam descaradamente me fazendo de trouxa? Se mentiram antes, ¿quem garante q agora estão dizendo a verdade?

E outra coisa. Lá no fim, aparece o slogan padrão "¡Que bom ter você aqui!" Mas peraí. ¿Primeiro diz q me quer lá e logo fala como se eu JÁ estivesse lá? E ¿quem disse q eu vou?

¡O cérebro dessa gente parece q congelou!

06 agosto 2003

Pai dos burros tb pode ser babaca

A exemplo do Dr Plausível, q é um assíduo usuário de dicionários, nunca encontrei um dicionário da língua brasileira cuja reputação escapasse ilesa dum diagnóstico plausibilógico. Há pouco saiu o Dicionário Houaiss de Sinônimos e Antônimos, q é até bom e útil mas tb não é lá essas coisas, e q recomendo para tratamento com nosso energético e esclarecido humanista.

Todo dicionário de sinônimos impressiona pelo vulto, mas este é resultado de puro acaso, pois ¿toda palavra não deve aparecer no mínimo três vezes? Por exemplo: babaca: adj, s coió, papalvo; coió adj, s: babaca, papalvo; papalvo adj, s: babaca, coió. Mas ¿não parece malandragem? Pra mim parece. Todo dicionário de encontrar palavras deveria ser feito nos moldes do Thesaurus do Dr Roget. O único publicado no Brasil, q eu saiba, foi o heróico Dicionário Analógico (Idéias Afins) de Francisco FS Azevedo, dificílimo de achar (uso meu exemplar a toda hora, mas já está antiquado e se desmontando). Esse negócio de ter q ir daqui pra lá e de lá pra cá à procura duma palavra q nos escapa é coisa de coitado.

Nada disso é implausível, claro. Implausível é um editor alardear q fez um dicionário de sinônimos e antônimos do qual propositalmente tirou certas palavras q considerou demasiadamente informais. ¡¡É isso mesmo o q fez o moço q editou o DHSA!! O exemplo q dei (babaca) foi fictício, pois no DHSA aparece babaca: basbaque; e aí vc procura basbaque e aparece basbaque: babaquara, ingênuo, papalvo, pateta, simplório, tolo. ¿Cadê babaca? Sumiu. Mas não é erro, não. O próprio editor diz com todas as letras na introdução de dicionário mais empolada q já li: "Não há vocábulos de gíria inseridos nas sinonímias, mas eles aparecem no dicionário como entradas (veja fofocar, por exemplo). A intenção é sugerir ao leitor palavras não informais, se precisar evitar a gíria em seus textos." ¡¡SE PRECISAR EVITAR?? ¿Q catso de dicionário é esse? Se eu compro um dicionário de sinônimos, ¡é justamente pq não quero evitar certas palavras! (Além disso, notem q ele menciona um "leitor" e não um "escritor" ou "usuário". Sintomático, ¿não?)

E ¿qual é o critério pra "palavras informais"? Pro coió, deve ser "palavras que acho feias" ou "palavras de uso corrente", ¿ora pois não? Pois ¿vcs já ouviram alguém usar basbaque em vez de babaca? Eu, nunca. Quer dizer então q se eu estiver tentando me lembrar duma palavra q o editor do DHSA considerou deficiente em "não-informalidade", ¿vou ter q comprar outro dicionário? ¡Ora, façam-me o favor! ¡Quanta babaquice! Q seja, então.