31 julho 2003

A intenção apressada de fazer o errado

Um comentário sobre o texto anterior afirma q a "desinformação" na televisão brasileira é "propositalmente idealizada", ou seja, q existe uma curriola por trás das incontáveis implausibilidades q assolam as produções nacionais. Hmm. O Dr Plausível – q estuda o problema há décadas e não somente em relação à televisão – vê sim uma implausibilidade nesse argumento da intencionalidade. É como ver conspirações onde só existem agrupamentos. Uma emissora de televisão é uma organização por demais complexa pra q qqer intenção se transforme em erros de lógica hora após hora, dia após dia, por anos a fio. As implausibilidades televisivas demonstram antes de tudo inépcia ao lidar com dados e idéias, suas seqüências e suas interações – burrice mesmo. E tb não se sustenta o argumento de q muita besteira passa pq tudo é feito com pressa e pra ontem: a pressa prejudica o acabamento das obras mas não sua concepção. O relato sobre a filha raptada por exemplo, não saiu daquele jeito pq algum fodão na emissora quis desinformar, ou pq foi feito às pressas, ou pq em algum momento o produtor disse "ah, vai assim mesmo". A questão é mais embaixo: a pessoa q idealizou a trama e/ou escreveu o roteiro simplesmente não tem tutano pra perceber como as várias partes duma história têm q se encaixar.

Muita gente vê intenção nos erros alheios, como se vê um rosto nas nuvens, ou como qdo vc xinga a pedra em q tropeçou. Difícil é compreender o fato de q o mundo está abarrotado de gente burra e/ou preguiçosa; difícil é entender a burrice alheia.

30 julho 2003

Epístolas novelescas

O Dr Plausível às vezes não tem nada pra fazer à tarde, a parte do dia em q as improbabilidades matinais gradualmente dão lugar às impossibilidades noturnas. É a hora em q todo mundo relaxa um pouco e a televisão meio q abre espaço pra os menos favorecidos de simancol plausibilético.

Esses dias, nosso exímio e estudado analista refestelou-se de engulhos e embrulhou-se de gargalhadas durante o programa de Márcia Goldschmidt vendo a dramatização duma suposta carta q relatava acontecimentos supostamente verídicos:
Fulana vai dar à luz uma menina e decide chamá-la Júlia; Sicrana, irmã de Fulana, mora longe e vem ajudar durante os dias por volta do parto; ao nascer, a menina é raptada (Fulana grita "¿Onde está meu bebê? (?) ¡Quero meu filho!(??) "); "anos mais tarde", Sicrana (irmã de Fulana) telefona de longe dizendo q acaba de adotar um bebê (???), uma menina a quem chamou Júlia; Fulana e Sicrana, q são "muito próximas", ficam 15 anos sem se ver; ao cabo dos quais, "minha filha já devia falar, andar"; o marido de Sicrana é assassinado; Sicrana vem morar com Fulana e traz Júlia; Sicrana morre duma doença fulminante; entre seus pertences, Fulana encontra uma carta não enviada em q Sicrana confessa ser a autora do rapto.

¡Ó tripúdio dos tímpanos! ¡Ó castigo das córneas! ¡Quanta acochambração, hem? Reciclagem de fotonovela dá nisso.

(Vale dizer q, após rir às bandeiras despregadas, nosso estóico e egrégio militante sofreu a ressaca de passar várias horas desagradáveis lastimando as sinapses perdidas e condoendo-se pelos telespectadores coitados q as perdem diariamente vendo esses programas.)

25 julho 2003

Vacuidades

Inumeráveis críticos do Dr Plausível teimam em apregoar q teríamos q descartar quase toda obra de ficção, pois a apreciação de qqer livro, qqer filme, qqer peça teatral exige uma suspensão da realidade. Essa gentalha toda q critica nosso excelso e excêntrico humanista deveria lavar bem as cuecas e calcinhas antes de forçar o cérebro a pensar racionalmente.

A ficcionalidade dum relato não o exime do escrutínio plausibilógico. Qdo o autor se esquiva da plausibilidade pra facilitar alguma resolução, o leitor/espectador se sente traído: "Porra, paguei ingresso e fiquei aqui sentando todo esse tempo dando atenção a essa produção ¿e agora esse sem-vergonha me sai com essa?"

Como bem lembrou o mentor intelectual do Dr Plausível, explosões no vácuo em filme espacial são um caso típico e bem conhecido: só mesmo quem desconhece as leis da física sai do cinema deslumbrado com os efeitos especiais, pois ¿como é q pode algo explodir no vácuo pegando fogo e ainda por cima fazer barulho? ¿Faria alguma diferença na história se as 'explosões' fossem silenciosas? E não contentes em produzir estrondos no vácuo, o som ainda por cima chega instantaneamente até nós, q teoricamente estamos a milhares de quilômetros dali. Vácuo é o q os produtores têm na cabeça. Aliás qqer filme de guerra tem esse problema. Uma explosão acontece a cinco quilômetros e ¡personagens de costas pra ela a ouvem instantaneamente!

Aposto q todo técnico em efeitos especiais teve um choque de realidade ao ver os atentados do WTC: avião q bate em prédio não explode pra trás. Agora q todo mundo já sabe, vai ficar mais difícil enganar até os deslumbrados.

19 julho 2003

Ser pra ver

¡Aha!

Uma leitora mencionou a mulher invisível...

De todos os super-heróis impossíveis, tais como o homem-borracha, o aqua-man, a mulher-maravilha, etc, a figura q leva o Oscar de Implausibilidade é sem dúvida a mulher ou homem invisível, ou a politicamente-correta "Pessoa Invisível", criação original de HG Wells. Observem o raciocínio do Dr Plausível:

Todos os heróis têm algum poder humanamente impossível mas aceitável pela imaginação. A Pessoa Invisível, no entanto, além de já ser impossível no mundo natural, traz uma implausibilidade incontornável: ¿como é q ela enxerga? Uma pessoa invisível deve ser completamente cega, pois se a luz a atravessa, também deverá atravessar sua retina invisível, e portanto nenhuma informação de luz chegaria a seu cérebro invisível. Essa turma q fica inventando super-heróis deveria pensar mais nessas coisas, ¿ora pois não?

Assim, toda vez q sonhar em ser invisível pra poder ver o q outros estão fazendo, lembre-se de q 'ser invisível' e 'ver' são (¡ó ironia entre ironias!) duas opções incompatíveis entre si. E se lhe aparecer um gênio concedendo-lhe três desejos, não se esqueça de q, pra realizar esse sonho, já vai gastar dois. É mais prático pedir ao gênio uma mosca eletrônica com câmera & microfone.

14 julho 2003

¡Sebo neles!

¿Vcs já viram aqueles anúncios da coleção de livros editada e promovida pela Folha? ¡Q vergonha, não? Toda escola de propaganda & marketing devia ter curso de Plausibilidade I, II e III, ¿não acham?. Pois vejam se não concordam comigo: Esses anúncios mostram uma pessoa lendo um dos livros da coleção e distraidamente enfiando na contracapa alguma coisa q iriam colocar na boca - uma mulher enfia um batom, um homem enfia um sorvete de casquinha, uma escova de dentes, etc. A suposta mensagem é: se vc ler este livro, vai gostar tanto dele q não vai prestar atenção em mais nada.

Mas o Dr Plausível realizou uma pequena pesquisa com transeuntes anônimos: recortou os anúncios do jornal, mostrou-os aos anônimos transeuntes e perguntou, "Vc compraria ou leria este livro?" Eis uma sinopse das respostas:

- ¡Claro q não! Se eu gostar do livro tanto assim, vou estragar e jogar dinheiro fora.
- Eu nunca ia ler um livro q me impede de passar meu batom sossegada.
- Se ler é hábito de quem não tem coordenação motora, não quero não.
- Jamais colocaria em minha prateleira um gama de tons pastéis.
- ¡Tá louco! Ninguém se intromete entre mim e meu sorvete!
- ¡Eu não! Todo mundo vai achar q eu sou imbecil.
- Ah, nããão. Sou canhoto. Vou estragar a capa.

Como se vê, se a coleção vender bem, será unicamente pq o público está sendo impiedosamente bombardeado de anúncios. Com seu visual pífio e péssima encadernação, dentro de alguns meses esses livros serão o terror dos alfarrabistas.

Mas, perguntar-se-ão meus leitores, ¿q há de implausível nisso tudo? Ora, mas ¿tenho q explicar tudo?

12 julho 2003

Os bushas de canhão

O Dr Plausível deu imperdíveis gargalhadas qdo alguém alto do governo estadunidense finalmente admitiu o q todo mundo já sabia – q pro Iraque destruir alguma massa, tinha q colocar muito molho e queijo ralado. Agora, no dia da independência dos EUA, outro funcionário "descobriu" uma fita em q alguma persona non grata declara exatamente (notem q 'exatamente' está sublinhado) o q o governo estadunidense precisava pra manter o apoio do povinho. E ¡Ê, cacilda!, ¿não é q deu certo? [...impagáveis gargalhadas...]

Todo mundo acha q a principal característica dos estadunidenses é o título de povinho mais sem simancol do planeta. Mas o Dr Plausível discorda. Desde q Orson Welles noticiou uma invasão marciana e levou uma cidade inteira ao pânico, está claro e evidente q o q os EUA precisam mesmo é abrir um franchising de Clínicas Dr Plausível. Mas talvez nem isso bastasse, pois o problema, vejam bem, não é q os filhos do tio Sam sejam hipoplausibiléticos: o vírus da hipoplausibilose infecta informações, textos e enredos, e não pessoas de carne e osso. O q estas precisam é dum detetor de implausibilidades, um desconto-do-vigário. Mas, ¡ó ironias do destino!, parafraseando o q se diz de Salamanca, "Lo que la naturaleza no da, el Doctor Plausible no lo presta."

08 julho 2003

As loiras geneticamente morenas

Carlos P Motta, o mentor intelectual do Dr Plausível, sempre contribue pra engrossar a conta bancária do emérito terapeuta recomendando pacientes hipoplausibiléticos a seus cuidados. Uma de suas recomendações mais célebres é um caso de implausibilidade galopante que acomete grande parte da população brasileira: ¿Será plausível q um país com tantas morenas e mulatas de bundas maravilhosas e naturais produza tantas loiras tingidas de seios turbinados? Ou então esta: ¿Será plausível q o mesmo país q importou o conceito de 'loira burra' também importe a fórmula do xampú tingidor?

O comum dos mortais pedirá q não se confunda implausibilidade com incoerência. Diriam q os sintomas relatados indicam o segundo mal, e não o primeiro. Mas o Dr Plausível discorda dessa objeção, por motivos semânticos senão filológicos. Pra nós, usuários da língua (e não pros dicionários, diga-se de passagem), a palavra q empresta o nome a nosso emblemático cientista significa "aceitavelmente semelhante à realidade". Já "coerente" qualifica o bom nexo entre duas idéias ou fatos distintos. Seguindo esse raciocínio, dirão os críticos, brasileiro correr atrás de loira peituda em vez de correr atrás de morena bunduda é incoerente, mas não implausível.

¡Ó leviandade especulativa! O fato de morenas se mutilarem a fim de mimetizar um biotipo concorrente e assim desabonar o próprio, precisa sim duma consulta urgente com o Dr Plausível. ¿Há coisa mais "inaceitavelmente contrário à realidade" do q os resultados de toda a parafernália utilizada por mulheres e homens pra parecer aquilo q não são, desde lábios batonadamente carnudos a ombros enchimentamente largos?

¡Ó desgraça evolucionária! ¡Ó desastre genético!

04 julho 2003

A contabilidade da alma

Voltando à vaca fria das implausibilidades religiosas, o Dr Plausível recomenda tratamento prà oração de S Francisco de Assis q virou letra de música obrigatória em tantos encontros de jovens religiosos: "fazei com q eu procure mais consolar q ser consolado, compreender q ser compreendido, amar q ser amado, pois é dando q se recebe, é perdoando q se é perdoado e é morrendo q se vive prà vida eterna."

Parece uma oração imbuída dum sentimento altruísta e duma beatitude edificante, ¿não?

Mas observem o q está fazendo aquela palavrinha escondidinha entre as duas partes da oração: a conjunção "pois". O autor da oração quer consolar, compreender e amar pois quer receber, ser perdoado e viver eternamente. A oração passa imediatamente de altruísta pra interesseira, de beata pra maquiavélica: o suposto beato caridoso e amoroso pretende assumidamente usar o outro em benefício próprio! ¿Isso lá é sentimento religioso q se apresente? O altruísmo de S Francisco, e das gerações e nações inteiras q repetiram e repetem sua oração, seria mais plausível se a segunda parte fosse abolida, ¿não acham?

Mas, ¡ó alma encalacrada!, grande chance!

03 julho 2003

Nunca diga besteira

¿Já notaram como a hipoplausibilose faz o paciente deturpar o significado das palavras até q elas não signifiquem absolutamente nada? O Dr Plausível chama esse sintoma de "efeito incrível". Um porcentagem alarmante de chamadas de filmes na rede Globo contêm a palavra 'incrível'. Agora a palavra aparece também em revistas, especialmente em manchetes de capa. Observem o disparate, por exemplo, duma chamada na capa do último número de 'Cláudia':

Nunca diga nunca: mulheres incríveis provam que você pode tudo.

¡Ó meus calos! ¿Não é ridiculamente óbvio q se as tais mulheres q provam q vc pode tudo são mesmo incríveis, segue-se q vc (uma mulher supostamente normal) não teria a menor condição de conseguir coisa alguma? Pois se as tais mulheres incríveis são realmente incríveis, ¿q chance tem vc, sua lesma?

Aliás, se o artigo da revista fala de mulheres q por seu esforço e capacidade conseguiram boa credibilidade ¡¿por que é q são chamadas de 'incríveis'?!

¡Ó feminismo às avessas! ¡Ó despiadada incredibilidade!

02 julho 2003

A prece e a pressa

O Dr Plausível já atendeu diversos casos de prece coletiva, uma prática que inspira sérios cuidados. O último caso mais notório no Brasil foi a 'corrente de oração' pra orar pela vida ou a alma do cantor Leandro, q ao q consta era um bom cantor, um sujeito decente e uma pessoa agradável. Mas daí a merecer intervenção divina vai um bom pé de estrada. Muita gente se deixa levar por idéias totalmente incoerentes. Ao q parece, uma mesma pessoa pode simultaneamente crer q (1) Deus é justo e caridoso e q (2) um doente terminal tem mais chance de sobreviver se for suficientemente popular pra q um batalhão de rezadores interceda por ele, do que teria se ele fosse um desconhecido embaixo duma ponte rezando pela própria saúde. Há q ser muito hipoplausibilético pra crer q Deus, seja ele "O" Deus ou um outro deus qualquer, mudaria seus desígnios pra acomodar os desejos duma turba ensandecida por algumas jogadas de marketing.

¡Ora, mas tenham a santa paciência!