27 junho 2003

O comprimido contra o azar

¿Vocês já notaram q muita gente atribue à fé o poder de remover montanhas de bom-senso? ¿Já perceberam q a religiosidade está prà estatística assim como os camarões estão pràs maçanetas?

Na tv, todos os canais religiosos têm algum programa em q se convida os telespectadores a telefonar seus depoimentos de fé. Entre esses depoimentos, o Dr Plausível ainda não ouviu um único q não tivesse sérios sintomas de hipoplausibilose. Os depoimentos geralmente têm três estágios: (1) tudo estava bem até q (2) algo triste aconteceu e se repetiu ou continuou até q (3) foi removido pela prece. Um caso típico seria: (1) perdi um ótimo emprego; (2) achei outro, mas pagava pouco; achei outro, mas era muito longe; achei outro, mas não me satisfez; (3) rezei, tive fé, e recuperei meu primeiro emprego.

A crença de q a prece resolve alguma coisa q já não seria resolvida pela paciência talvez seja o maior achado dos dirigentes de religiões. Eles jogam com uma característica bem conhecida do mundo: nenhuma situação é permanente; portanto se tua situação presente é desagradável, apenas três coisas podem acontecer: ela pode piorar, pode continuar igual ou pode melhorar. Se vc reza e a situação não melhora, vc deve continuar rezando. Se ainda assim, ela não melhorar, vc continua rezando, desta vez com fé redobrada. E assim por diante até q a situação melhora e vc pode atribuir teu sucesso à prece. A implausibilidade desse raciocínio é bem conhecida dos pastores. Evidência disso é q eles nunca dizem: "tranque-se em teu quarto e reze com toda a fé de teu coração, q com certeza alguém vai bater em tua porta oferecendo emprego". O q fazem é promover a prece junto com alguns sábios conselhos práticos: "reze com toda a fé de teu coração, mas não deixe de sair toda manhã pra procurar emprego, ler todos os classificados e fazer um curso de computação!" Assim, até o Dr Plausível!! Pra eles, a prece é como o comprimido contra a sede: vc toma o comprimido com três copos d'água a cada três horas e a sede desaparece como por milagre. Se a prece tem algum sentido cósmico, com certeza não é pra atender pedidos.

Qdo algum missionário ou promoter dessas igrejas interpelar vc na rua, talvez a melhor resposta seja a q meu cunhado sempre dá: "Obrigado, mas já sou correntista do Itaú."

Amanhã, o Dr Plausível atenderá os casos de prece coletiva.

24 junho 2003

Novelas acochambradas

Basta uma personagem de novela dizer algo como "Ai, Letícia, a vida às vezes tem lições duras!" pra q então um comentário se ouça em dezenas de milhões de lares do Brasil: "Mas é veidade, né? A vid'aiz veiz tem umas lição bem dura!", ao q outra pessoa na mesma sala reclama: "Ô, Zoca, cê fica falano e entrô us comercial!" Essa rotina se repete dia após dia por anos a fio.

O Dr Plausível não atende novelas. O emérito filantropo, em toda sua humildade, reconhece q não seria capaz de tratar algo tão descomunalmente implausível como esses amontoados de chavões e burrices, enredos obtusos, diálogos absurdamente inverossímeis e truques baratos pra aumentar a audiência. Mas nosso estimado humanista há muito fica intrigado com pelo menos dois sintomas de hipoplausibilose crônica q todas as novelas compartilham – não pelo caráter semi-analfabeto das mesmas, mas pelo fato de esses sintomas serem tão evidentes q certamente escondem algo por detrás.

Um deles são as mensagens construtivas. É impossível assistir a qqer capítulo sem ser bombardeado a cada três minutos por lições de moral, frases feitas edificantes, intimações à sociabilidade, aulas de correção política, minutos de sabedoria, &c &c. ¡Mas q coisa absurda! ¿Já viram coisa mais implausível q dezenas de pessoas trocando chavões 24 horas por dia, como se estivessem numa fábula? É difícil imaginar q outra finalidade isso teria nas novelas a não ser (1) acochambrar o enredo pra ganhar tempo até os comerciais e (2) maquiavelicamente domesticar os vertebrados espectadores em suas poltronas. Acochambração e manipulação. ¡Que vergonha!

A segunda implausibilidade é menos pernóstica mas é mais ridícula. O Dr Plausível certamente não é o primeiro a notar q raríssimas vezes uma novela mostra alguém assistindo televisão, mas um fato raramente registrado é q o aparelho de tv é um eletrodoméstico q simplesmente inexiste na grande maioria dos cenários de novelas, apesar de estar presente em quase 100% dos lares brasileiros. Mas ¿por que será q não nas novelas? O Dr Plausível acha q personagem de novela não assiste tv pq isso imobilizaria a cena, tornaria os personagens passivos e mostraria ao telespectador sua verdadeira dimensão – além de obrigar os atores a fazer cara de idiota, coisa q nenhum deles gostaria de evidenciar. Qto à ausência de aparelhos de tv, o motivo é óbvio: pra q a trama se desenvolva, qqer aparelho de tv presente em cena tem necessariamente q estar desligado, e mostrar aparelho desligado seria contra-producente: os milhões de espectadores q imitam penteados, trejeitos e posturas desligariam seus aparelhos imediatamente.

21 junho 2003

Partido da Proa Liberal

¿E a nova campanha do PFL? Com aquele slogan estilo mensagem-de-fim-de-ano-da-globo, "Gente como você", certamente vai convencer muito eleitor a votar no PT.

Considerem: pra provar aos Zés Manés, Marias das Dores, Silvinos dos Santos e Deocléias de Jesus deste Brasil q as bancadas do PFL estão repletas de 'gente como nóis', a campanha orgulhosamente traz um cara super comum, super povão-povinho: Lars Grael, medalha de bronze em iatismo nas olimpíadas de 88 e 96. Só o nome dele já o coloca no centrão do Brasil, a meio caminho entre os Pampas e a Pororoca. Além disso, ele conseguiu essa coisa tão corriqueira q é ganhar medalhas olímpicas pra o Brasil (são 150 milhões de brasileiros e 66 medalhas em toda sua história; ou seja, todo brasileiro tem uma, ¿ora pois não?). E mais, ganhou defendendo um esporte super popular, um esporte brasileirão, de brazucas da gema como Burkhard Cordes (bronze 68), Reinaldo Conrad (bronze 68 e 76), Peter Ficker (bronze 76), Alex Welter e Lars Björkström (ouro 80), Robert Scheidt (ouro 96, prata 2000), e o irmão de Lars, o Torben (bronze 88, ouro 96, bronze 00).

¿Não é super plausível q um sujeito chamado Lars Grael, q tem um irmão chamado Torben, cada um com seu iate e suas medalhas olímpicas, seja chamado de 'gente como você'?

"Ora faça-me o favor!" dirá o Dr Plausível. "Esporte à vela de gente como nóis é jogar palitinho quando acaba a luz."

20 junho 2003

¡Kamchatka-bum!

Ou as bolas do protagonista e narrador de Kamchatka não desceram na adolescência, ou trata-se dum caso de hipoplausibilose melosa.

Vejam se não estou certo. O protagonista e narrador é um menino de 10 anos. Seus pais estão sendo perseguidos pela ditadura argentina (¿era pra entender isso? pode ser q o pai fosse um cafajeste criminoso de colarinho branco: o filme nunca esclarece esse ponto). No final, os pais deixam o menino a salvo com o avô e vão embora de carro se esconder em outro lugar. O menino sai correndo atrás do carro, vendo-o desaparecer no horizonte. O filme dá a entender q os pais foram pegos e mortos pelo governo (ou q foram constituir família em outro lugar, vá saber), pois a voz do narrador – ¡um menino de 10 anos! – diz algo assim como "nunca mais vi meus pais". ¿Mas como é q pode o menino dizer q nunca mais viu os pais? Ou esse menino tem um senso de fatalidade descomunal ou trata-se dum caso clássico pro Dr Plausível: personagem-diz-algo-q-não-poderia-saber. Ainda por cima, se a frase vem do menino, está na cara q o diretor quis fazer um truque barato pra ver se arrancava umas lagriminhas da platéia ignara.

O filme tb tem uns disparates anacrônicos; por exemplo, ao se dar bem num jogo de tabuleiro o menino faz, em plena década de 70, um gesto q só se popularizou nos anos 90, aprendido nos filmes americanos: com o punho fechado, joga o cotovelo pra trás e diz "¡Sí!" (americano diz "yesss!").

¡O tempora, o mores! ¿Custava ao diretor fazer uma consultinha com o Dr Plausível antes de se envergonhar em público?

19 junho 2003

Desmandos

Desmundo é mais um filme em q as crueldades do destino são resolvidas ironicamente qdo um bebê é parido. Além desse defeito incorrigível, está precisando consultar o Dr Plausível pra resolver problemas menores. Segundo o filme, lá pelo século XVI bastava alguém falar uma língua e já se dispunha a matraquear nela pra algum estrangeiro presente. Se fosse só uma personagem, ainda vai: vc pode interpretar q o calor, a demência, &c ataquem sem avisar uma pessoa por filme; mas duas já é demais. Tem uma indígena q destrava a epiglote tupinambá à menor provocação em cima duma coitadinha recém-chegada de Portugal, e depois vem um africano com cara de circunspecto q solta o verbo bantu em cima da mesma. ¿Era pra ela entender? Ou ¿era pra a platéia entender q ali foi feita tooooda uma pesquisa lingüística? Vale dizer q nenhum esclarecimento é dado qto ao conteúdo das falas dos dois, apesar de q toda fala em português da época esteja desnecessariamente legendada pro português de hoje.

Na mesma consulta já pode encomendar tratamento pra uma seqüência em q a heroína – uma órfã portuguesa q nunca tinha saído do bairro onde nascera e terminou numa fazendinha no meio da mata atlântica – foge mata adentro no meio da noite (!) e encontra o caminho q a leva direto a uma praia (!!) onde está uma caravela q pode levá-la de volta a Portugal (!!!), praia esta povoada única e exclusivamente por dois marujos q imediatamente se dispõem a estuprá-la(!!!!).

¡Ó engulhos! ¡Ó arrepios d'alma!

15 junho 2003

A hipoplausibilose e a morte

O Dr Plausível atende filmes, notícias, seriados, escritos, propagandas, idéias, &c q demonstrem claros sintomas de hipoplausibilose. Friso no entanto q ele atende mas não cura. Assim como por mais q vc consulte um médico pra cuidar de pequenos problemas (tipo seborréia, câncer, aids, lumbago), jamais se livrará da morte, assim tb o Dr Plausível jamais será capaz de resolver sozinho as endemias, surtos, epidemias e chiliques de hipoplausibilose q assolam a civilização há anos – digamos há 5 mil anos.

Vários estudiosos do assunto teseiam q o ser humano é assim mesmo: q a falta de plausibilidade em relatos humanos equivale à falta de pelos em ostras ou à ausência de pérolas no baço das ratazanas. Mas nosso eminente humanista discorda, quiçá implausivelmente. Pra ele, a hipoplausibilose equivale à lordose: tem causas, sintomas e histórico individual, mas só pode ser totalmente avaliada por quem dela não sofre. Há quem questione a capacidade do Dr Plausível ao arrogar-se diagnosticador da plausibilidade alheia. Essa crítica é facilmente descartada, bastando lembrar q nosso emérito estudioso não diagnostica: apenas atende.

Talvez chegue o dia em q os hipoplausibiléticos venham a ignorar as ações humanitárias desse grande homem, qdo já não se ouçam seus engulhos e revertérios ao expor-se às acochambraduras alheias. Mas cada pessoa q ouvir sua mensagem clara e inconfundível há de pelo menos pensar uma vez antes de falar besteira.