30 dezembro 2003

Tristeza de aleijadING

¡Cada idéia de jirico!

Existe um acordo tácito entre os anunciantes e o público pedestre: anúncio fica ao nível dos olhos ou acima da cabeça; assim, quem não quer poluir a vista só precisa olhar o chão q pisa. ¿E não é q agora algum paralítico mental resolveu pintar anúncios direto nas calçadas? Nas esquinas mais civilizadas, o meio-fio tem aqueles rebaixos pra cadeiras de rodas. Agora a prefeitura loteou esse espaço no chão pra anúncios, o q é um despautério mesmo q seja só nos arredores da Paulista e só prà São Silvestre. O Dr Plausível viu alguns da Sul América ING: ou seja, algum paraplógico numa companhia de seguros achou q pintar um anúncio ali, como dizendo 'nós mantemos esta área', seria bom prà imagem da firma. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA E logo uma firma de seguros... ¡Q mau gosto!

O desespero mercadológico torna o organismo muito vulnerável a infecções oportunistas de hipoplausibilose. E convenhamos, tem q estar muito desesperado pra se rebaixar a pintar anúncios no chão. A mensagem q passa é q a Sul América ING, assim como os demais anunciantes rasteiros (se os houver), está tão necessitada de novos clientes q não se importa de encher o saco dos pedestres a cada esquina com a idéia prepóstera de q todo ãã... usuário de rodo-assento deveria estar agradecido a ela por sinalizar os acessos q todo o mundo já sabe onde estão. Sem falar no insulto implícito em supostamente pedir reconhecimento por implementar um direito. HAHAHAHA

¡Tem gente q não pensa, sô! Pois ¿vc faria seguro numa firma q apregoa um raciocínio tosco? Bastou esse anúncio pra conseguir minha antipatia eterna contra toda e qqer empresa q emporcalhe o chão com sua marca, e aposto q estou longe de ser o único a detestar esse truque chão. Já nosso equânime doutor, de tanto rir teve q ser levado às pressas em rodo-assento até sua biblioteca, onde foi se acalmando lendo Darwin.

Mas, ¡ô sarjeta safada!, parece q o Dr Plausível não gargalha tão alto assim.

23 dezembro 2003

Um Natal Trágico

Nosso emocionável Dr Plausível verte copiosas lágrimas qdo lê, ouve ou vê um conto de Natal redondinho, fofinho e totalmente inútil. É um espetáculo edificante examinar esse eminente exegeta enxugando da epiderme os eflúvios embevecidos. ¡Qta grandeza! ¡Qto sentimento!

Mas Natal tbm é qdo muito roteirista de filme se dá mal, e aí o estudado doutor chora mesmo mas é de rir. O cara quer bolar um enredo novo pruma estória velha e acaba se enredando todo.

Tem um filme por aí chamado Um Natal Mágico (One Magic Christmas), q precisa o qto antes ser levado pra tratamento, mesmo q esperneie e ameace se matar. A trama enrascada e resumida é assim: mulher casada, mãe de casalzinho, não gosta do Natal, não diz 'feliz Natal', acha tudo uma babaquice; um anjo é enviado pra fazer a mulher gostar; o método q escolhe é causar a morte do marido e dos filhos; o anjo (q aliás tem todo o jeito de pedófilo...) ressuscita os filhos e só traz de volta o marido depois q a mãe admite ter gostado do Natal qdo criança e então entra na festa.

A hilariante lógica é inescapável: ou vc gosta do Natal ou vem um anjo levar embora seus entes queridos. Mas ¡que maquiavelismo vergonhoso, hem? ¿Isso lá é espírito natalino q se preze? O ridículo é q, com toda a roupagem algodão-doce do filme, muita gente nem deve perceber q o anjo age descaradamente de má-fé.

É a versão pérfida daquela piada do bode:

Roceiro reclama ao vigário q o ambiente familiar vai muito mal.
Vigário: Faça isto: deixe seu bode viver na sala.

Dias depois, se encontram.
Vigário: ¿Pôs o bode na sala?
Roceiro: Pus.
Vigário: ¿Como vai a família agora?
Roceiro: ¡Muito pior! Todo mundo brigando. Ninguém agüenta mais.
Vigário: Tira o bode da sala.

Dias depois, se encontram novamente.
Vigário: ¿Tirou o bode da sala?
Roceiro: Tirei.
Vigário: ¿E como vai a família?
Roceiro: ¡Agora tá uma maravilha!

Roteirista muito carola sempre acha q não precisa ser plausível, pois ¿Deus não escreve certo por linhas tortas? Mas peraí! Deus não seria tão safado.

Êitcha.

21 dezembro 2003

Vc vai estar lendo isto:

Uma das crenças mais implausíveis é a de q alguém fala ou escreve errado neste vasto mundo. Ninguém fala errado. Mesmo "falar errado" já foi considerado 'errado', pois o 'correto' seria "falar erradamente". Ridículo.

Uma das críticas comuns de uns anos pra cá tem sido contra o chamado 'gerundismo'. Qdo ouve uma atendente dizer "Vou estar pedindo pro senhor estar ligando pra otro número", muita gente indignada jura de pé junto q a frase só pode estar saindo da boca de pessoa pouco "estudada", vítima de processos mentais confusos e estropiados, querendo empolar as palavras e se dando mal. ¡Qta empáfia! É uma crença tão errada qto a de q a língua deve-se aprender na escola.

O Dr Plausível também é dos q xingam esse uso do gerúndio, q virou gramática-jargão de telemarketing. Porém o estentóreo doutor não xinga porque considere que "vou estar pedindo pro senhor estar ligando" esteja 'errado': xinga porque isso é exatamente o que a atendente quer dizer, e ¡o diz muito bem!

Ela diz "vou estar pedindo" porque, nestes dias de terceirização e massificação, o q ela sente é q 'atender' não é o q ela 'faz', mas o q ela 'está fazendo'; ou seja, não está engajada numa profissão, está é marcando presença num emprego até q surja outro mais compensador. Além disso, a qqer momento ela pode ser inexplicavelmente despedida. Tudo é passageiro e instável. Ela então utiliza o gerúndio pra desvincular seu amor-próprio de seus atos profissionais. Se existe algo errado nisso, é q o foco da atenção dela está longe de ser o coitado do Dr Plausível, q só ligou porque precisava. A mensagem q passa é "olha, vou ignorar minhas próprias preocupações por uns segundos pra fingir interesse por teu caso". A atendente é duma sinceridade desconcertante, utilizando a gramática com uma eficiência espantosa pra 'dizer sem estar dizendo', num artifício subconsciente pra insultar quem liga e ao mesmo tempo ludibriar os controles da chefia.

Por outro lado, ela diz "o senhor estar ligando" porque espera q nosso evoluído humanista realize algo (neste caso "ligar") q pra ela nada mais é q uma rotina previamente estabelecida num fluxograma q lhe foi enfiado goela abaixo por seu empregador. O fato é q o Dr Plausível está longe de encarar sua ligação como rotina, pois só ligou porque está engajado na tentativa de resolver um problema. A atendente sabe conjugar mas não sabe atender. Não se trata de má gramática, mas dum serviço ruim, o serviço prestado por alguém q não vê a hora de ir embora.

Pois é. Quem faz pouco da capacidade gramática de qqer ser humano devia pensar melhor no q diz.

(Como introdução ao tamanho da coisa, o Dr Plausível recomenda aos indignados o livro Preconceito Lingüístico, de Marcos Bagno.)

17 dezembro 2003

Ai q dólar na cachólar

¡Ô santa pataca!

Na tv qqer idéia de jumento sem tutano pode dar tutu. Há alguns meses, além dos erros de tradução, de compreensão e de bom-senso, as legendas vem trazendo uma novidade q poderia dar algum tutu pro Dr Plausível se alguém se dignasse a levar o paciente a sua clínica. Algum funcionário bem-intencionado porém insufferably patronising de alguma firma de tradução achou esta pérola: ¿Por que não converter toda moeda pro dólar, já q todo mundo sabe qto ele vale? Genial! O cara fala "15 libras" e a legenda diz US$26, e assim por diante. ¡Q ótimo, tudo mastigadinho! É só converter pra reais e pronto. Assim nenhum brasileiro vai ficar sem saber qto custa um isqueiro na Inglaterra, um jantar no Japão, ou um terreno na Turquia. Mas ¿por que dólar? Ué, ¿quem é q precisa saber q sequer existe uma moeda chamada "leu"? ¡Põe tudo em dólar! ¿Não é a moeda de gente sofisticada?

Só q aparece então um novo problema. ¿Como é q o leitor da legenda vai saber qual era a taxa de câmbio na data em q a tradução foi feita? Qdo ouviu a descrição do caso, nosso esclarecido doutor tardou a controlar as gargalhadas mas achou a resposta óbvia: fazer referência ao câmbio vigente na data da tradução. Uma legenda corriqueira seria:

original: That's fifteen pounds, guv'nor.
legenda: São US$26 (JAN 2003, venda), governador.

Aí quem se interessasse só precisaria consultar os jornais pra ver qual foi a taxa de câmbio média pra venda do dólar em janeiro de 2003, e pronto. Uma outra solução seria conectar as legendas a uma base de dados dinâmica de modo q o número q aparece na tela variasse automaticamente de acordo com o câmbio na data de exibição do programa, e aí já legendar em reais mesmo. Genial! Sofisticadíssimo!

Que nada. Coisa de quem se acha.

13 dezembro 2003

De MOrth

Ai meus calos.

Quem já viu o programa Saia Justa sabe q de todas as sandices, as maiores são ditas por aquela q fica mais à esquerda na tela. A vizinhança toda começa a rir qdo ouve nosso egrégio Dr Plausível se escarcalhando no chão de ouvir as lorpas incoerências dessa moça. Mas embora a terceira da esquerda prà direita geralmente diga, ainda q empoladamente, umas coisas até q interessantes, às vezes também se deixa levar pela necessidade de não ficar quieta. Foi assim qdo as quatro discutiam o caso do semi-troglodita q, seguindo apenas seus instintos, matou o casalzinho naquele matagal. (Aliás, o Dr Plausível se abstém de comentar toda a celeuma q se seguiu já q, convenhamos, não é muito plausível a possibilidade de evitar tragédias resultantes de ignorar recomendações cujo intuito era justamente evitá-las. Pois então.)

E ¿não é q essa outra também conseguiu fazer toda a vizinhança rir por tabela? Deu pra se enfezar com a coitada da mãe do menor assassino, argumentando q se notou desde cedo q o pirralho não era muito normal, ¿por q foi q não o levou a um psicólogo, meudeusdocéu? ¡Podia até ter sido um psicólogo da prefeitura!

Mas ¡êêê, acorda, Orth! ¿Nunca viu pobreza e ignorância? ¿Não viu a choça em q eles moravam no meio do nada? ¿Não viu q a mãe mal sabe articular uma frase inteligível com mais de dez palavras? ¡Té parece q aquela semi-troglodita q nunca teve chance de nada teria tido a chance de pausar seus afazeres pra meditar! "Oh, vejo evidências de q meu rebento é portador de algum distúrbio emocional... Certamente poderei contar com auxílio profissional gratuito neste mesmo município. Um diagnóstico correto seguido de tratamento adequado deverá evitar q ele venha a perpetuar alguma cagada." (Bom, pelo menos UMA dessas palavras ela deve conhecer...)

O maior abismo entre a artista burguesa e a mãe desse menino é aquele entre o q uma é capaz de dizer e o q a outra é capaz de entender, e vice-versa.

(Só um parêntese impertinente: ¿vcs já perceberam q nesse programa todos os sobrenomes se originam de países do norte da Europa: Young, Lee, Orth, Waldvogel? Hmm...)

Os meia-roda

Muita gente acha o Dr Plausível retardado, mas pra mim é um privilegiado: é uma das poucas pessoas neste vasto mundo q caem na gargalhada lendo dicionário. Dia desses quase vomitou as tripas de tanto rir ao deparar-se com a indesculpável omissão da palavra 'bicicletaria' em quatro dos dicionários mais vendidos – o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa Michaelis, o Novo Aurélio Século XXI, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa e o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. ¡Êitcha inguinorança cabo da pexte! Tem gente q não se emenda, né?

Além de 'bicicleta', entre o Michaelis e o Aurélio encontramos, no máximo:

bicicletário s: lugar onde se guardam bicicletas
bicicleteiro s: [GO] bicicletista
bicicletista s: pessoa que anda de bicicleta; ciclista

¿Não é de matar de rir? Uma palavra q qqer brasileiro entenderia e produziria sem o menor problema simplesmente não é reconhecida por pessoas q faturam uma nota preta arvorando-se de árbitros da língua. Sem falar da gargalhável afetação em glosar 'bicicleteiro' apenas como um regionalismo de Goiás pra 'ciclista'.

¡Ó grandíloquo guidão da língua! ¡Ó senil selim semi-analfa!

Agora, a coisa q fez nosso efusivo doutor rir até lhe rebentarem as ilhargas foi lembrar o motivo q o levou a procurar uma palavra tão prosaica no asinino pai dos burros. É q uma certa firma de legendagem de filmes, sediada nos EUA, só aceita traduções com palavras incluídas no Aurélio, sem choro nem vela. Se a palavra não consta (tal como, digamos, 'sentimentalóide'), a tradução é devolvida com a palavra criminosa marcada 'this word does not exist'. Agora digam-me, se 'bike shop' não é 'bicicletaria', ¿então o q é? ¿chope de bico?

Não deve ser à toa q proliferam as bike shops no Brasil, pois muito brasileiro ao confirmar q 'bicicletaria' não consta nos léxicos vai dizer, "¡Olha só, 'bicicletaria' não existe!" HAHAHAHA Cartazes às dezenas de milhares estão na verdade em branco.

Mas o mais esputantemente engraçado é perceber q essa omissão em tantos dicionários não pode ser coincidência, e q portanto os dicionaristas copiam irrefletidamente os verbetes de outros dicionários. Como evidência, veja o caso do verbete "Dord" , q se originou dum erro de compilação e foi depois reproduzido por vários outros dicionários.

10 dezembro 2003

Barbárie humanum est

O Dr Plausível às vezes se deleita com esses noticiários do final da tarde em q um apresentador de pé finge indignação com cara de promotor com diarréia. Olho morto fixo na câmara e a matraca no automático, esses ratinhettes ganham a vida duvidando da humanidade alheia: "Esse sujeito não é mais um ser humano. ¡É um MONSTRO!" Alguns estão aí há anos, dia após dia dando 'notícias' como "filhinho de papai taca fogo em mendigo; pai estupra filha de dois anos; mãe mantém filho em gaiola, dando só água com farinha; drogado espanca a avó; ex-namorado degola a empregada da ex-namorada; motorista bêbado atropela dois irmãos de 4 e 6 anos; vizinhança lincha motorista". Monstros todos, é claro.

Mas ¡q idealização mais implausível! Alguém precisa dar uma cutucada no ombro desses matracas e dizer, "Ôô acorda, meu. O ser humano é isso aí mesmo. Monstro é coisa de filme." ¿Será q, após anos a fio regurgitando as atrocidades alheias, ainda não sacaram q o atroz também está no repertório do humano?

Aliás, se o Dr Plausível os tratasse, esses espantalhos estariam é dando risada a cada vez q alguém lhes trouxesse uma atrocidade de bandeja – pois ¿não é disso q vivem?

O Dr Plausível lembra das boas risadas de outrora qdo havia um programa jornalístico implausivelmente chamado Vamos sair da crise. HAHAHA ¿Como acreditar sequer numa palavra dita no programa, se o nome dele já fingia q seu objetivo era a própria extinção? Se tivesse a audiência e os anunciantes dos papa-sangue, ainda hoje estaríamos vendo o Vamos sair da crise – comendo pipoca inflacionada e bebendo guaraná cada vez mais aguado.

Êitcha. Esse pessoal parece q não tem senso de direção...

02 novembro 2003

Ingrêis é essenciar

Nestes tempos sacrificados, ecoa garbosa por todo o Brasil uma frase destinada a erguer dos recônditos e pútridos lamaçais da ignorância as almas desgastadas dos herdeiros de Cabral; uma frase, um refrão, um lema, um moto por todos entoado, cuja mera repetição consegue curar, empolgar e encher de esperança o coração brasílico: "O inglês é essencial."

Essencial, quédizê, pra ganhá uns trocado fazeno pose de inteligente chupano a produção intelectual dos otro. No Brasil, o público monoglota mal suspeita q uma das principais características da imprensa brasileira é a enorme porcentagem de frases, parágrafos ou até artigos inteiros pseudo-autorados por brasileiros mas na realidade traduzidos do inglês (principalmente; mas tb do espanhol e do francês), jamais mencionando-se a fonte original, claro. Por exemplo, grande parte da produção de Paulo Francis, um dos jornalistas mais ãã... célebres da história da imprensa brasileira, foi chupada e (mal) traduzida dos vários jornais q lia diariamente: além de parágrafos e parágrafos obviamente traduzidos, nos artigos assinados por ele tb notava-se uma clara diferença estilística entre as partes sobre assuntos brasileiros e aquelas sobre assuntos estrangeiros - evidência de q as duas não eram farinha do mesmo saco. E isso não acontece só na imprensa, obviamente. Tb a produção ãã... "acadêmica" brasileira chupa descaradamente. Eu já ouvi em primeira mão da secretária dum pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) q as "pesquisas" dele eram na verdade peneiradas por ela na internet. Da chupação no mundo dos negócios, melhor eu nem falar.

Mas qdo o mundo acadêmico e a imprensa se juntam pra ganhá uns trocado, sai de baixo. Li hoje no caderno Mais da Folha um artigo sobre o cientista inglês Robert Hooke, pseudo-escrito por um físico professor da UFRJ. Mesmo sem conhecer o original, é fácil ver q grande parte do artigo foi chupado do inglês. ¿Como é q eu sei? Entre várias outras evidências menores, veja estas frases:

"[...] muito pálido e magérrimo, cabelos longos e malcuidados escorrendo pela face, seu aspecto só era atenuado pelos vivazes e grandes olhos castanhos."

"A relação entre Newton e Hooke oscilou entre silêncio obsequioso, escaramuças leves e disputas pesadas."

"Newton gastou semanas para responder e mostrou toda a sua capacidade argumentativa e também suas garras."

"[...] a contribuição de Hooke foi bem mais importante do que Newton estava preparado para admitir."

"Pesquisadores [...] têm mostrado que Hooke chegou a essas idéias não apenas por adivinhação ou intuição [...]"

Q vergonha, ¿não? Dá pra ver nitidamente o inglês por trás das "escolhas" de palavras, das linhas de raciocínio, dos tempos verbais. Logicamente, o artigo não tem bibliografia.

E os trocado q o professô ganhô fôro surripiado dos borso docê.

22 outubro 2003

Tratamento de resíduos

Se vc tiver oportunidade de perder um filme chamado Tratamento de choque (Anger management), ¡não deixe de perder! - a menos q vc queira gastar o fundo das calças de tanto virar daqui pra lá na poltrona do cinema... Perca esse filme mesmo q passe daqui a três décadas na tv numa noite chuvosa no único canal q pegue num hotelzinho do interior. Totalmente reprovado pelo Dr Plausível. ¡Que bosta de enredo! Não vou nem perder meu tempo e o teu fazendo uma sinopse. E é daqueles tão implausíveis q passado um terço vc já desconfia de q todos os personagens estão mancomunados, como de fato estão. Dãã...

Amargamente arrependido de contribuir prà conta bancária de todos os envolvidos na produção e exibição do filme, é melhor eu parar por aqui antes q alguém me processe e eu venha a contribuir ainda mais.

25 setembro 2003

Inda lembro...

Não só de diagnósticos sombrios vive o Dr Plausível. Tb tece elogios. E por falar em cinzentas porcentagens (veja entrada abaixo), lembrei-me q entre os vários escritos de JLBorges q nosso escorado e estimulante doutor já consagrou com o Prêmio Plausível da Década, figura o conto "Funes, el memorioso", no qual Borges, muito antes dum trôpego qqer dizer q lastimavelmente só usamos 10% de nossos cérebros, meditou sobre as conseqüências plausíveis de usarmos mais neurônios q o normal. Funes é um cara q nunca esquece absolutamente nada e por isso não consegue dormir. Ele está permanentemente consciente de 100% de suas memórias e vê-se obrigado a passar a vida num quarto escuro pra não acumular mais memórias e enlouquecer.

Diga a verdade, leitor, ¿vc não sentiu o impacto q causa um sequitur perfeitamente plausível? ¿Não é muito melhor q ficar impingindo babaquices no tadinho do cerebrinho?

24 setembro 2003

Sua cabeça animal

Vira e mexe vem um enTVistado qqer com a cachola entupida de pseudo-fatos regurgitar a pseudo-informação de q os humanos não estamos fazendo jus a nosso destino pois só usamos 10% da capacidade do cérebro, e o enTVistado fala com aquela entonação de "¿Tá vendo?". Ou seja, num tom absurdamente sem sentido, dá um dado completamente inútil promovendo uma interpretação totalmente errada.

Aí, no caderno Mais vem mais um neurocientista corretamente atacar essa idéia, mas pelos motivos errados, falando de 'custo energético' e fazendo piadinhas pseudo-politizadas. Ou seja, o cara refutou uma idéia idiota com um argumento deficiente.

Qdo ouve esse 'dado' e suas refutações, o Dr Plausível pensa "¿Será q ninguém usa o cérebro neste mundo?", e faz questão de realmente usar apenas 1% de seu mediano cérebro pra raciocinar e demonstrar a total implausibilidade dessa crença. ¡Vc tbm pode! Me diga aí, quem está lendo isto agora, VOCÊ aí, neste exato momento ¿qtos quilos vc está carregando com os braços? ¿qdo foi a última vez q vc carregou 10kg? ¿e 5kg? Eu posso dizer por mim: neste exato momento estou carregando um total de 0kg e a última vez q carreguei 10kg foi... foi... ãã... ¡cacilda, não lembro! Mas, se precisar, posso carregar uns 50kg durante alguns minutos; numa emergência, posso carregar até uns 100kg ou mais durante alguns segundos, como já tive q fazer. E consigo, e vc tbm consegue, pq o corpo todo é super-dimensionado, inclusive o cérebro. E ¡só poderia ser assim! A capacidade total só é usada em emergências, e nenhuma vida é uma seqüência ininterrupta de emergências. Mas emergências, e todo organismo sub-dimensionado se estrepa.

Da primeira vez em q o Dr Plausível ouviu q a maior parte do tempo usamos 'apenas' 10% do cérebro, exclamou "¡¿Tudo isso?!" e caiu na gargalhada. Pois pense bem: ¡Usar 30% do cérebro 'a maior parte do tempo' é receita certa de esquizofrenia! Use 60% durante algumas horas e vc já vai estar com um pé na cova. Só se usa 100% por alguns milésimos de segundo qdo se está, por exemplo, prestes a ser atropelado por uma jamanta desembestada; daí é q vêm os relatos de pessoas q vêem 'a vida passar diante dos olhos': claro, o cérebro procura em sua experiência uma saída rápida pra um perigo iminente. No restante da vida, uns 2% já bastam pra ser feliz, próspero, saudável e ganhar no xadrez.

Da próxima vez q alguém soltar esse peido cerebral, vc já pode cantarolar "¡Doutor PlausÍÍÍÍvééél!"

18 setembro 2003

Olha o casto

O Dr Plausível é notoriamente avesso a discussões sobre religião, haja visto q muita gente já foi degolada, enforcada, fuzilada, extorquida e já teve blogues exterminados por levantar o pirex da plausibilidade. Mas qdo se trata de usar o aparato legal em defesa duma religião, nosso envergadoiro doutor não deixa de curvar-se às sonoras gargalhadas. O bom de ser agnóstico são as gargalhadas. Pois eis q um editor gaúcho, em vez de ser ridicularizado por cretinice, foi condenado a dois anos de serviços comunitários por escrever e publicar livros anti-semitas.

¿Sinceridade? Não vejo onde está o problema. O q o cara fez é o equivalente lógico de escrever um livro/artigo/&c expressando sua mais profunda convicção de q a girafa descende do elefante e q, por conseguinte, toda pessoa de pescoço comprido deveria arder eternamente no fogo do inferno. Como não há, nem provavelmente jamais haverá, qualquer mecanismo legal q autorize pôr em prática o q ele prega, os pescoçudos deveriam limitar-se a escrever outros livros/artigos/&c condenando o sujeito a arder eternamente no fogo do inferno, e nada mais.

Ainda q eu ache duma tremenda babaquice q um tapado qqer isole um determinado grupo religioso e registre prà posteridade sua opinião pessoal sobre o mesmo, tb acho q não há como aceitar a opinião segundo a qual o holocausto e outras perseguições devem outorgar aos judeus imunidade vitalícia e oficial contra a possibilidade de ser alvo de preconceitos babacas. Aliás, o fato de q ninguém ainda propôs uma "solução final" contra os pescoçudos deveria ser um argumento em favor de protegê-los mais do q aos judeus, visto q a probabilidade de estes voltarem a ser perseguidos sistematicamente é menor q a de qqer outro grupo vir a sê-lo (inclusive pescoçudos, como não?).

Outraliás, o mais justo seria q eu (por exemplo) pudesse processar uma religião inteira, ou todas elas, por pública e sistematicamente insultar minha alma. O mundo está abarrotado de livros, artigos e declarações q abertamente pretendem desabonar minha alma (segundo esses mesmos escritos, meu mais valioso bem), e por associação o restante de mim, insinuando q estou condenado ao fogo do inferno apenas pq não visito regularmente um agente a mando de Roma e a ele admito atos condenados por esses mesmos livros, ou então pq as mitocôndrias de minha mãe não descendem das da mulher de Abraão (presume-se q o judaísmo se difunde pelas mitocôndrias), ou pq duas ou três vezes ao dia não consulto uma bússola antes de enfiar a cara no chão e resmungar elogios a Alá. Entre essas três religiões, o judaísmo é a q insulta minha alma mais sistematicamente: o cristão e o muçulmano apenas requerem q eu me converta pra q deixem de me ofender; mas pro judeu eu não fui escolhido por seu Deus e ponto final: mesmo q eu me converta ao judaísmo, minha alma sempre será de segunda. Eu considero isso sufficient grounds pra processar o judaísmo por insulting my soul ou insoulting, termo criado por este q vos escreve pra ajudar o Brasil a passar à frente dos EUA em matéria de invencionices legais com finalidades lucrosas.

Se alguém pensar em me chamar de anti-semita, já vou dizendo q anti-semita é a vó, pq não sou de pisar em meus próprios calos. Tenho três sobrenomes: um judaico, outro europeu e outro árabe. Ou seja, dois deles são de origem semita. So there.

15 setembro 2003

[Inserir título imbecil]

Título nacional de filme estrangeiro é caso de internação nas Clínicas Dr Plausível.

Ontem fiquei olhando tv -- e pra quem disser q o "certo" é "assistir" ou "ver" tv ou qqer outra variante em voga entre os dogmáticos profissionais, digo q o q eu fiz ontem foi "olhar" tv e estatele-se quem não entender a distinção. Digo pois q estava olhando tv, qdo um filme q apenas começara me chamou um pouco mais a atenção e então passei a assisti-lo. Era uma comédia romântica com um cara q tem um tumor no cérebro, hhhh é traído pela mulher, decide viajar pra fazer uma operação, é roubado por uma bela malandra pfff q tem um casal de filhos ilegítimos e q deve uma grana a um mafioso, gngnhhhpff faz amizade com os filhos dela, é perseguido pelos mafiosos, sempre se safa na base do papo e da sorte e, hhhuhuhh é claro, conquista a malandra e os filhos. Final feliz. brpfgñgp Nada q comprometa ninguém, à parte dumas escorregadas na legendagem.

Muito bem. ¿E daí? Daí q no Brasil gng o filme foi chamado de... "Vítima da sedução" QUÁ-QUÁ-QUÁ-HH-HAHHA-nhããããã. ¡VÍTIMA DA SEDUÇÃO! ¿Sabe aquelas gargalhadas q sobem lá do intestino grosso? Pois foram essas.

O título original era "Beautiful Joe", sendo "Joe" o nome do tumorado e "Beautiful Joe" o apelido dum matador profissional com quem o Joe é confundido. Mas alguém da reprodutora brasileira achou por bem chamar o filme de "Vítima da sedução".

¡Vítima da sedução! Não tem absolutamente nada a ver com o filme. ¿De onde é q esse pessoal tira essas coisas, meu santo? É como chamar "A bela adormecida" de "Corrupção Fatal". Nada a ver. Mas ¿por quê, minha santa, por quê? ¿Q tipo de raciocínio torto está por trás desses títulos pseudo-interessantes? ¿Será pra atrair público? ¿Jura? Há quem diga q se trata de encontrar "o título q mais reflete o potencial de mercado do filme, não necessariamente aquele q reflete o enredo". Mas ¿pra quê toda essa dramaticidade, esse pega-pra-capar no mercado brasileiro, q nem é tão competitivo q justifique tanta emoção a priori nos títulos? Pois acho esse raciocínio da mesma inteligência tosca de quem implica com coisas como "olhar tv", ¿ora pois não?

Deve existir na internet algum site com um 'gerador de títulos' brasileiros. É só achar várias combinações usando palavras como sedução, fatal, corrupção, crime, grito, rebelde &c ¿Alguém aí conhece?

Vítima da sedução... ¡Cacilda!

(Só falta chegar outro imbecil e dizer, "¡Não tem nada a ver mas vc não esqueceu!" Dãã...)

11 setembro 2003

Onze de setembromation

¡¡¡HAHAHAHAHAHA!!! ¿Sabem da última do 11 de setembro? Os familiares dos mortos querem ser indenizados pelas companhias aéreas pq deixaram passageiros entrar com estiletes, pelos fabricantes dos aviões pq não fizeram cabine à prova de birutas, e talvez até pelos donos do WTC pq não construíram os prédios 200 metros à esquerda. No fundo é só pressãozinha pra fazer acordo por fora, mas mesmo assim, cacilda, ¡¡vá ter ataque de hipoplausibilose lá no 11 de setembro!! Disparate dos disparates, o juiz q deu seu aval ao direito de indenização disse que era previsível o risco de um punhado de fanáticos fazer o q fizeram, e q portanto os fabricantes de aviões, as companhias aéreas e o poder público deveriam ter tomado as devidas precauções. Então tá.

Eu prevejo q algum dia 300 pessoas, querendo se suicidar juntas e ao mesmo tempo matar muita gente em Nova Iorque, vão todas comprar passagens no mesmo vôo, e assim q decolar vão todas se amontoar perto da cabine e dançar frevo de rua até o avião perder o controle e cair encima dum megashow do Suicidal Geeks no Central Park. Esse é um risco previsível, visto q eu agora o estou prevendo. Os responsáveis por indenizações serão logicamente os parentes dos suicidas, a companhia aérea por vender passagens a 300 pessoas sem verificar se elas se conheciam, os Suicidal Geeks por promover o suicídio e também por juntar tanta gente no parque (¡aí tem coisa!), a administração do parque por autorizar o evento, e é claro o governo brasileiro por permitir a existência do frevo... ¡Pfff, vai andar de quatro!

¿Tem coisa mais decadente q o engraçadíssimo espetáculo de estadunidenses dizendo qualquer coisa pra ganhar um dinheirinho extra? Me faz lembrar das organizações de negros de lá q querem receber indenização pela escravidão de seus bisavôs. ¡Q coisa mais implausível! Alguém tem q chegar com jeitinho e dizer "¡Acorda, cara! A escravidão foi uma merda, mas se não houvesse existido, você nem teria nascido." É como se eu, uruguaio, quisesse pedir indenização ao governo brasileiro por toda vez q alguém daqui me chama de cisplatino.

Tenho mais do q fazer, não?

09 setembro 2003

Conversação fiada

Ao contrário do q pensa a maior parte do planeta, o Dr Plausível não é um sujeito muito bem informado. Já foi ouvido dizer q "manter-se bem informado é a maneira trabalhosa de ser neurótico", opinião esta q adoto e professo. É bem desculpável, portanto, q nosso experto doutor não tenha a menor idéia de quem se trata qdo o nome Luciano Szafir aparece num reclame de escola de idiomas, e tb ignore o apelo psicopopular do slogan q supostamente brotou espontaneamente da laringe do LS: "Se eu fosse estudar idiomas em São Paulo, entraria na Escola Universal." (¡Então tá!)

Mas para atender um caso agudo de hipoplausibilose, o Dr Plausível não precisa mais do q a protuberância produzida -- tanto faz se o autor for criador de gambás ou herói nacional. O fato é q a mente q produziu a frase acima deve ter pouco apego à realidade. A frase mais cria dúvidas do q esclarece. ¿O LS já fala outros idiomas ou não? ¿Se ele fosse estudar idiomas, estudaria em São Paulo? Afinal, ¿ele mora em São Paulo ou não? ¿Existe uma Escola Universal na cidade onde ele mora? Se não, ¿que respaldo tem pra apregoar as virtudes das EscUni? Aliás, ele não diz o motivo q o levaria a estudar na Escola Universal: ¿será pq ele tem desconto especial? ¿pq é parente ou amigo do dono? ¿pq a escola fica perto da esquina onde ele escorregou numa banana?

Todas essas perguntas são apenas pontos nebulosos; não são implausibilidades agudas. A hipoplausibilose maior reside no próprio fato de citar uma pessoa (supostamente) famosa dizendo algo q é clara, patente e obviamente mentira e trajá-la numa frase condicional como se, satisfeita a condição improvável, se seguisse uma afirmação inverificável. Mesmo q o tal do LS seja um especialista no assunto e o público saiba q ele sabe do q está falando, ou mesmo q seja uma celebridade nacional da música ou (ao q parece) da tv, ou talvez exatamente por esses motivos, ele jamais será ou seria um aluno da Escola Universal. Uma citação mais plausível seria: "Se eu não fosse rico e famoso, se a localização e os preços da EscUni me fossem acessíveis, e se já não soubesse inglês ou espanhol e quisesse aprender numa escola, é provável q eu estudasse na EscUni, pq o dono é meu amigo."

Pois é, frase condicional dá nisso. Enquanto nenhuma escola de propaganda & marketing tiver curso de Plausibilidade I, II e III, vai ficar essa bagaceira q aí está. Q vergonha.

05 setembro 2003

Neologismos e neomundos

Um dos órgãos cerebrais mais afetados pela hipoplausibilose é uma pequena região ao lado da área de Brocca chamada Centro de Simancol Gramático. Praticamente todo gramático normativo ou prescritivo profissional tem o CSG quase totalmente atrofiado por ataques sucessivos de hipoplausibilose. ¡Êta gente sem simancol! E o pior é q ficam com aquela pose toda achando q são mais 'desenvolvidos' e 'cultos' e o escambau.

Olhem a Academia Brasileira de Letras, por exemplo, uma instituição dedicada a baixar a auto-estima de todo brasileiro q não soletra, não conjuga e não pronuncia exatamente como seus membros. ¿Por que não vão plantar pirulito em careca de otário? O brasileiro médio acha q fala errado, q não pode usar palavras q não estão no dicionário, tira sarro de quem não soletra como está no dicionário, e coisas assim. E ao mesmo tempo, ¡êta ironia do terceiro-mundo!, admira, inveja e imita tudo q vem dos EUA e da Europa, de países onde ou não existe nenhuma academia normativa da língua ou onde cada um fala e escreve como quer e não dá a menor bola pra o q dizem as academias. Acho q nem você q está lendo pescou onde está a hipoplausibilose nisso, né?

A teoria do Dr Plausível é muito simples: cultura q rejeita neologismos, desvios do padrão, &c na língua q fala é cultura q não cria idéias novas, não desenvolve as antigas e em suma anda em círculos atarracados em volta do q já existe. ¿Vcs já notaram q toda idéia nova vem com um vocabulário novo? Logicamente não é o vocabulário q cria as idéias, mas é a liberdade de criar termos novos o q permite a desenvoltura na manipulação das idéias. Cada vez q um brasileiro tem uma idéia q poderia ir prà frente, fica gastando sinapses e neurônios com a regência verbal, a ortografia e o cuidado pra não passar um carão. ¡Qta bobagem!

Os malapropismos do Vicente Matheus são ridicularizados no Brasil enquanto q os do equivalente estadunidense, um jogador de baseball chamado Yogi Berra, ficaram célebres, a ponto de ele ser homenageado até em desenhos animados: o nome original do Zé Colméia é Yogi Bear. Os disparates q Berra disse continuam a ser citados, e são vistos exatamente pelo q são: frases estranhas e engraçadas; ao passo q a baixa estima lingüística do brasileiro transforma as frases estranhas e engraçadas do Vicente Matheus em veleidades vergonhosas e aberrações ignorantes.

E por essas e outras, o Brasil parece condenado a pegar a rabeira da história. ¡Êitcha!

03 setembro 2003

Acento reservado para gramáticos

O Dr Plausível vira e mexe recebe pra tratamento a teoria de que, quanto à acentuação, as palavras da língua portuguesa se dividem apenas entre oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. ¡Que classificação mais inepta! Basta vc mesmo, leitor, ler de novo a primeira frase deste parágrafo e verá que chegando ao final não leu oxÍítona, paroxÍítona e proparoxÍítona, mas sim "Ôôxitona, pÁároxítona e prÔôparoxítona "; e se lembrará q o próprio professor q insistiu em enfiar essa classificação em seus tímpanos inocentes provavelmente disse: "quÃnto à Ácentuação, as palÁvras da língua pÔrtuguesa são clÁssificadas em Ôôxitonas, pÁároxítonas e prÔôparoxítonas." Tal é a força da palavra escrita q 99,999% de todos os professores de português repetem fielmente o q lêem sem questionar nem mesmo a própria garganta.

Uma classificação q surgiu apenas pra padronizar a escrita vira dogma. A verdade é q na fala a acentuação das palavras no português é amplamente flexível, irregular e volúvel. Veja estes exemplos reais coletados por este q vos escreve:

"é nÊecessário fÍiscalizar esses processos dÔo congresso"
"a trÂansferência da Áadministração do Iraque"
"um estado Íindependente" ou "um estado indÊependente"

Ou seja, enquanto fala, o usuário da língua está pouco se lixando pra o q dizem os gramáticos. É só na hora de refletir q o usuário prefere repetir as baboseiras impostas. Aliás, dada a torrente de dogmas q regurgita e a tenacidade de seus vetos e suas condenações, todo gramático prescritivo tem vocação mesmo é pra padre.

25 agosto 2003

Ditado sem vírgulas

Quem passar pela Marginal Tietê estes dias pode deparar-se com uma visão incôngrua: à beira do asfalto, ergue-se a 15 metros do chão, como um anúncio de liquidação, um cartaz enorme vermelho onde se lê:

A IRA DE DEUS
O MUNDO SE CALA
AOS DITADORES

desse jeito mesmo, sem pontuação e sem a menor explicação.

Mas ¿q raio de geringonça cerebral bolou essa frase, encomendou o cartaz, pagou e instalou e ainda espera estar transmitindo uma mensagem? ¿Será q eu é q sou um desespiritualizado amístico e aminimalista? Fiquei vários minutos rodando a frase daqui pra lá na cabeça, tentando entendê-la. Ao recomendar a frase pra tratamento com nosso esplêndido Dr Plausível, ele simplesmente a leu e disse, "Esse cartaz não é implausível, assim como não o são as formações aleatórias de nuvens no céu ou os desenhos q fazem no chão do bosque as suaves gotas de orvalho caindo a esmo aqui e acolá numa manhã qualquer de primavera."

¡Qta sabedoria! ¡Qta sapiência!

O rústico pensar da colônia

Todo propagandólogo ou marquetinhólogo vive dizendo q todo mundo só faz o tempo todo anunciar o q vende. Então tá. Também todo músico diz q tudo é música, todo biólogo diz q tudo é biologia e todo lixeiro diz q tudo é lixo. Mas a crença do Zé Reclame até q tem um fundo de verdade. Por exemplo, se eu estou dormindo à sombra duma palmeira à beira da praia, eu logicamente estou anunciando q estou dormindo à sombra duma palmeira à beira da praia. Basta confrontar o Zé Reclame com esse fato e sua inescapável interpretação, q ele automaticamente cita consciente ou inconscientemente o velho Freud, "Às vezes um charuto é apenas um charuto", dito no susto qdo alguém insinuou algo sobre o uso do mesmo.

Mas citando nosso exímio Dr Plausível, "propaganda nunca é charuto": sempre tem algo escondido nas entrelinhas. Vejam por exemplo este texto encontrado no folheto dum bar numa cidade praiana meio histórica:

"Localizado na paradisíaca e histórica cidade de Blablablá, o Bar Blebleblé, com criatividade e sofisticação, resgata e concilia com o presente, todo o clima, a mística e os encantos do passado. Num ambiente despojado, alegre e aconchegante, com a melhor música e uma culinária fundada nos mais saborosos grelhados servidos na tábua, além do melhor chopp de todo o litoral bliblibli, oferece uma diversificada carta de vinhos com mais de 60 variedades especialmente selecionadas e acondicionadas em adega climatizada, serviços de Wine Keeper para a imprescindível degustação e espaços exclusivos para prazeres também exclusivos, como Clube do Whisky, Clube da Vodka e o Clube do Charuto."

¿Será q alguém acredita nisso? O folheto foi levado ao consultório do Dr Plausível pelo CBeetz e pela PDufrayer, q estiveram no local e traduziram o texto acima pra algo mais próximo à realidade:

"Venha ficar surdo e bêbado num ambiente q procura disfarçar o presente e só consegue insultar o passado, ouvindo alguém cantar no último volume, bebendo um chopp industrializado, comendo num pedaço de madeira q custou uma bagatela, e cheirando a pestilência dum charuto logo ao lado. Vc pode pedir qqer um dos vinhos q nosso comprador achou na distribuidora, e ao cambalear prà rua, não deixe de manter a tradição da cidade: tropece no calçamento irregular e caia de boca num pedregulho paradisíaco."

Mas também fazer texto pra folheto de barzinho deve ser uma tarefa inglória, não? ¡Caaacilda! Chega o dono do bar e pede, "escreve umas coisas bonitas aí... cidade paradisíaca... ambiente sofisticado... sei lá, inventa aí". Só podia dar no q deu. ¿Onde é q estão os fantasmas coloniais qdo a gente precisa deles?

24 agosto 2003

Pipocam et cinemenses

Como bem lembra o Zé Geraldo, ¡q vexame, esse tal Spielberg, hem? O cara misturou os genes dum tubarão com os dum leão e ainda enfiou os dum cupim, e criou um peixe q ruge e come madeira. Cada idéia.

Mas a pergunta do ZG ("¿por que ruge o tubarão do Spielberg?") só tem uma resposta: porque o filme é estadunidense e foi lançado no verão de lá. À primeira vista, essa resposta parece q não tem nada a ver. Mas lembro q o Dr Plausível estuda a hipoplausibilose no cinema há várias décadas, e em seu último livro "Tela à Vista" (Ed Sphincter, 540 pgs, R$5.400) demonstra q o grau de hipoplausibilose num filme estadunidense é diretamente proporcional à proximidade do lançamento ao verão boreal. Vcs podem checar. Todo filme q sai entre Junho e Agosto é um compêndio de enredos fáceis e rápidos, temas paranóico-sensacionalistas, atuações padrão e desenlaces idem, em que a plausibilidade tem mais chance de sair intacta q um ator coadjuvante tem de ainda estar vivo na última cena.

Mas aí a pergunta virou outra: ¿why the fuck filme de verão tem q ser implausível? Aha...!, reponde o Dr Plausível, porque os EUA são uma democracia rica, ou seja, são um país onde os anseios legítimos da manada são total e irrestritamente satisfeitos, ou seja, um país onde a Voz do Povo é soberana, e a Voz do Povo diz: "ué, ¿tubarão não devia rugir?".

Mas ¡ó panem et circences! o povo parece q não sei...

21 agosto 2003

Entre atentados e conseguidos, todos escapam

E aí, ¿vcs acreditam em notícia de jornal? Difícil, né? Ainda mais qdo o jornal noticia um comunicado dum governo. O Dr Plausível sempre diz q jornal noticiando comunicado de governo é como maquiagem de velha: uma tentativa de esconder algo q fica ainda mais evidente.

Pois vejam só esta: um comunicado hipoplausibilético do governo estadunidense avisa q gente ligada ao Bin Laden conseguiu entrar no Iraque (ué, ¿eles não estavam lá o tempo todo?). No dia seguinte explode um caminhão bomba embaixo da janela do chefe da missão da ONU em Bagdá, matando um cara q queria ver o Iraque governando a si próprio rapidinho. Ninguém assume o atentado conseguido, mas um outro comunicado hipoplausibilético lança suspeitas sobre aquela gente ligada ao Bin Laden.

¡Q coisa, hem? ¡O mundo todo parece que bebeu!

Muita gente diria q neste caso o tratamento do Dr Plausível seria um despropósito. Mas vejam bem, ¿eu estou dizendo alguma coisa? ¡¿Eu estou insinuando alguma coisa?¡ ¿Hem?

18 agosto 2003

Quem come tudo não come nada

A primeira vez q o Dr Plausível ouviu falar daquela turma q categoricamente afirma viver de luz e não precisar de comida, ele nos surpreendeu já com um comentário na ponta da língua: "¡¡hhhhrrrr-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-QUA-tóç-QUA-QUA-QUA-rrrrhhhh-pfrfrfr!!!" Desde então seus comentários têm sido mais moderados, e passaram do "¡¡hhhh-HA-HA-HA-HA-HA-HA-HA-tóç-HA-HA-HA-rrrrhhhh-pfrfrfr!!" ao "hhh-HO-HO-HO-rrrrhhhh-pfrfrfr!!", e agora o assunto não desperta mais q um "¡hrhrhrhr....pfrfrfr!" No entanto, o edificante e extrovertido Dr Plausível não deixa de dar ouvidos aos críticos q ressaltam o fato de q um terapeuta não deve tirar sarro de seus pacientes, especialmente aqueles q mais precisam dele.

Mas ¡q idéia essas mulheres foram ter, hem? Vejam só este sintoma de hipoplausibilose galopante:

"A possibilidade de viver totalmente e exclusivamente de Luz (...) é verdadeiramente um salto quântico na evolução humana."

(¿Já repararam como os hipoplausibiléticos pseudo-científicos têm tesão usando jargão das ciências exatas de última geração?)

E este outro:

"A escritora Evelyn Levy Torrence rebate a afirmação do endocrinologista, dizendo que as pessoas miseráveis morrem porque não têm conhecimento do processo de captação da luz."

¡Haja mau hálito!

Descontando a possibilidade de má fé pura e simples por parte dessas fotossintéticas hipoplausibiléticas, é possível q elas acreditem mesmo q "não comem coisa alguma": pois ¿não é do feitio de muitas mulheres e afins exagerar a interpretação duma observação? ¿Quem já não viu uma magrela reclamar q está gorda como uma baleia, ou uma desnarigada dizer q tem uma napa de tucano? Elas não estão descrevendo a realidade, mas apenas dizendo como se sentem. Então ¿não seria possível q essas pessoas-plâncton estejam apenas exagerando? De algum modo devem recuperar as forças perdidas na televisão vespertina insistindo q vivem de luz, e depois se alguém lhes pergunta se já jantaram, dizem "Não, nada.", frase esta q pràs pessoas racionais equivale a dizer "Nem sinto q acabei de devorar uma lasanha."

¡Ó anorexia cerebral! ¡Ó fome de miolo!

14 agosto 2003

A garoa e a rocha

A política e o Dr Plausível são como a garoa e a rocha: a primeira de vez em qdo molha a segunda por fora e estamos conversados.

É nesse clima de indiferença mútua q o exaltado e enfático doutor analisa a propaganda política. Digam a verdade, mes enfants, ¿tem coisa mais implausível q as esperanças eleitorais da maioria dos candidatos a qqer cargo? Tem gente q não tem simancol nem na terceira vértebra à esquerda, ¿não? Analisemos um caso tomado aleatoriamente: Quércia. Eu poderia falar de qqer outro empostado e falastrão de segunda: o nome não importa muito; aliás, q eu saiba, o Quércia pode até ser o ser humano mais correto, hábil, empreendedor, justo, transparente, capaz, eficiente, iluminado, honesto, competente e esforçado em todo o universo e mais dez metros. Mas até mesmo o mais correto, hábil, &c ser humano do universo pode ser vítima de hipoplausibiloses plantadas em seu cérebro pelas turbas ensandecidas de puxa-sacos. Pois ¿que é q enfiaram na cabeça desse sujeito q lhe dá a impressão de q é só aparecer por aí falando os lugares-comuns de sempre e de repente consegue ser eleito? Alguém tem q chegar ao pé do ouvido dele e dos outros sem-chance e dizer bem baixinho pra não assustar, "Escuta meu, se manca. Vai cuidar de tua vida. Aqui vc está fazendo papel de papel de parede."

09 agosto 2003

Ponto gelado

Mas ¡q coisa, não? Já vai fazer um mês q sugeri a criação de cursos de Plausibilidade I, II e III nas escolas de propaganda & marketing e até agora, nada. Enquanto ninguém se anima, nosso escrupuloso e evoluído Dr Plausível vai vivendo de favor, vendo aberrações plausibilógicas até em anúncio de sofá. ¿Já viram esse último do Ponto Frio? Nas agências de publicidade, esse tipo de anúncio deve ser dado aos estagiários. Pois vejam se não concordam com o Dr Plausível: logo no comecinho do anúncio, o garoto propaganda (q parece felicíssimo por estar anunciando sofás e batedeiras) diz algo como "¡O Ponto Frio quer ter vc aqui e agora baixou os preços de verdade!" Mas ¡¡¡o quêêêê??? ¿Quer dizer q toda vez q o Ponto Frio anunciou "preço baixo" até agora era mentira? Quando comprei aquela máquina de lavar Enxuta e aquele aspirador de pó Electrolux no Ponto Frio do Jabaquara, crente de q estava fazendo um bom negócio, ¿quer dizer q estavam descaradamente me fazendo de trouxa? Se mentiram antes, ¿quem garante q agora estão dizendo a verdade?

E outra coisa. Lá no fim, aparece o slogan padrão "¡Que bom ter você aqui!" Mas peraí. ¿Primeiro diz q me quer lá e logo fala como se eu JÁ estivesse lá? E ¿quem disse q eu vou?

¡O cérebro dessa gente parece q congelou!

06 agosto 2003

Pai dos burros tb pode ser babaca

A exemplo do Dr Plausível, q é um assíduo usuário de dicionários, nunca encontrei um dicionário da língua brasileira cuja reputação escapasse ilesa dum diagnóstico plausibilógico. Há pouco saiu o Dicionário Houaiss de Sinônimos e Antônimos, q é até bom e útil mas tb não é lá essas coisas, e q recomendo para tratamento com nosso energético e esclarecido humanista.

Todo dicionário de sinônimos impressiona pelo vulto, mas este é resultado de puro acaso, pois ¿toda palavra não deve aparecer no mínimo três vezes? Por exemplo: babaca: adj, s coió, papalvo; coió adj, s: babaca, papalvo; papalvo adj, s: babaca, coió. Mas ¿não parece malandragem? Pra mim parece. Todo dicionário de encontrar palavras deveria ser feito nos moldes do Thesaurus do Dr Roget. O único publicado no Brasil, q eu saiba, foi o heróico Dicionário Analógico (Idéias Afins) de Francisco FS Azevedo, dificílimo de achar (uso meu exemplar a toda hora, mas já está antiquado e se desmontando). Esse negócio de ter q ir daqui pra lá e de lá pra cá à procura duma palavra q nos escapa é coisa de coitado.

Nada disso é implausível, claro. Implausível é um editor alardear q fez um dicionário de sinônimos e antônimos do qual propositalmente tirou certas palavras q considerou demasiadamente informais. ¡¡É isso mesmo o q fez o moço q editou o DHSA!! O exemplo q dei (babaca) foi fictício, pois no DHSA aparece babaca: basbaque; e aí vc procura basbaque e aparece basbaque: babaquara, ingênuo, papalvo, pateta, simplório, tolo. ¿Cadê babaca? Sumiu. Mas não é erro, não. O próprio editor diz com todas as letras na introdução de dicionário mais empolada q já li: "Não há vocábulos de gíria inseridos nas sinonímias, mas eles aparecem no dicionário como entradas (veja fofocar, por exemplo). A intenção é sugerir ao leitor palavras não informais, se precisar evitar a gíria em seus textos." ¡¡SE PRECISAR EVITAR?? ¿Q catso de dicionário é esse? Se eu compro um dicionário de sinônimos, ¡é justamente pq não quero evitar certas palavras! (Além disso, notem q ele menciona um "leitor" e não um "escritor" ou "usuário". Sintomático, ¿não?)

E ¿qual é o critério pra "palavras informais"? Pro coió, deve ser "palavras que acho feias" ou "palavras de uso corrente", ¿ora pois não? Pois ¿vcs já ouviram alguém usar basbaque em vez de babaca? Eu, nunca. Quer dizer então q se eu estiver tentando me lembrar duma palavra q o editor do DHSA considerou deficiente em "não-informalidade", ¿vou ter q comprar outro dicionário? ¡Ora, façam-me o favor! ¡Quanta babaquice! Q seja, então.

31 julho 2003

A intenção apressada de fazer o errado

Um comentário sobre o texto anterior afirma q a "desinformação" na televisão brasileira é "propositalmente idealizada", ou seja, q existe uma curriola por trás das incontáveis implausibilidades q assolam as produções nacionais. Hmm. O Dr Plausível – q estuda o problema há décadas e não somente em relação à televisão – vê sim uma implausibilidade nesse argumento da intencionalidade. É como ver conspirações onde só existem agrupamentos. Uma emissora de televisão é uma organização por demais complexa pra q qqer intenção se transforme em erros de lógica hora após hora, dia após dia, por anos a fio. As implausibilidades televisivas demonstram antes de tudo inépcia ao lidar com dados e idéias, suas seqüências e suas interações – burrice mesmo. E tb não se sustenta o argumento de q muita besteira passa pq tudo é feito com pressa e pra ontem: a pressa prejudica o acabamento das obras mas não sua concepção. O relato sobre a filha raptada por exemplo, não saiu daquele jeito pq algum fodão na emissora quis desinformar, ou pq foi feito às pressas, ou pq em algum momento o produtor disse "ah, vai assim mesmo". A questão é mais embaixo: a pessoa q idealizou a trama e/ou escreveu o roteiro simplesmente não tem tutano pra perceber como as várias partes duma história têm q se encaixar.

Muita gente vê intenção nos erros alheios, como se vê um rosto nas nuvens, ou como qdo vc xinga a pedra em q tropeçou. Difícil é compreender o fato de q o mundo está abarrotado de gente burra e/ou preguiçosa; difícil é entender a burrice alheia.

30 julho 2003

Epístolas novelescas

O Dr Plausível às vezes não tem nada pra fazer à tarde, a parte do dia em q as improbabilidades matinais gradualmente dão lugar às impossibilidades noturnas. É a hora em q todo mundo relaxa um pouco e a televisão meio q abre espaço pra os menos favorecidos de simancol plausibilético.

Esses dias, nosso exímio e estudado analista refestelou-se de engulhos e embrulhou-se de gargalhadas durante o programa de Márcia Goldschmidt vendo a dramatização duma suposta carta q relatava acontecimentos supostamente verídicos:
Fulana vai dar à luz uma menina e decide chamá-la Júlia; Sicrana, irmã de Fulana, mora longe e vem ajudar durante os dias por volta do parto; ao nascer, a menina é raptada (Fulana grita "¿Onde está meu bebê? (?) ¡Quero meu filho!(??) "); "anos mais tarde", Sicrana (irmã de Fulana) telefona de longe dizendo q acaba de adotar um bebê (???), uma menina a quem chamou Júlia; Fulana e Sicrana, q são "muito próximas", ficam 15 anos sem se ver; ao cabo dos quais, "minha filha já devia falar, andar"; o marido de Sicrana é assassinado; Sicrana vem morar com Fulana e traz Júlia; Sicrana morre duma doença fulminante; entre seus pertences, Fulana encontra uma carta não enviada em q Sicrana confessa ser a autora do rapto.

¡Ó tripúdio dos tímpanos! ¡Ó castigo das córneas! ¡Quanta acochambração, hem? Reciclagem de fotonovela dá nisso.

(Vale dizer q, após rir às bandeiras despregadas, nosso estóico e egrégio militante sofreu a ressaca de passar várias horas desagradáveis lastimando as sinapses perdidas e condoendo-se pelos telespectadores coitados q as perdem diariamente vendo esses programas.)

25 julho 2003

Vacuidades

Inumeráveis críticos do Dr Plausível teimam em apregoar q teríamos q descartar quase toda obra de ficção, pois a apreciação de qqer livro, qqer filme, qqer peça teatral exige uma suspensão da realidade. Essa gentalha toda q critica nosso excelso e excêntrico humanista deveria lavar bem as cuecas e calcinhas antes de forçar o cérebro a pensar racionalmente.

A ficcionalidade dum relato não o exime do escrutínio plausibilógico. Qdo o autor se esquiva da plausibilidade pra facilitar alguma resolução, o leitor/espectador se sente traído: "Porra, paguei ingresso e fiquei aqui sentando todo esse tempo dando atenção a essa produção ¿e agora esse sem-vergonha me sai com essa?"

Como bem lembrou o mentor intelectual do Dr Plausível, explosões no vácuo em filme espacial são um caso típico e bem conhecido: só mesmo quem desconhece as leis da física sai do cinema deslumbrado com os efeitos especiais, pois ¿como é q pode algo explodir no vácuo pegando fogo e ainda por cima fazer barulho? ¿Faria alguma diferença na história se as 'explosões' fossem silenciosas? E não contentes em produzir estrondos no vácuo, o som ainda por cima chega instantaneamente até nós, q teoricamente estamos a milhares de quilômetros dali. Vácuo é o q os produtores têm na cabeça. Aliás qqer filme de guerra tem esse problema. Uma explosão acontece a cinco quilômetros e ¡personagens de costas pra ela a ouvem instantaneamente!

Aposto q todo técnico em efeitos especiais teve um choque de realidade ao ver os atentados do WTC: avião q bate em prédio não explode pra trás. Agora q todo mundo já sabe, vai ficar mais difícil enganar até os deslumbrados.

19 julho 2003

Ser pra ver

¡Aha!

Uma leitora mencionou a mulher invisível...

De todos os super-heróis impossíveis, tais como o homem-borracha, o aqua-man, a mulher-maravilha, etc, a figura q leva o Oscar de Implausibilidade é sem dúvida a mulher ou homem invisível, ou a politicamente-correta "Pessoa Invisível", criação original de HG Wells. Observem o raciocínio do Dr Plausível:

Todos os heróis têm algum poder humanamente impossível mas aceitável pela imaginação. A Pessoa Invisível, no entanto, além de já ser impossível no mundo natural, traz uma implausibilidade incontornável: ¿como é q ela enxerga? Uma pessoa invisível deve ser completamente cega, pois se a luz a atravessa, também deverá atravessar sua retina invisível, e portanto nenhuma informação de luz chegaria a seu cérebro invisível. Essa turma q fica inventando super-heróis deveria pensar mais nessas coisas, ¿ora pois não?

Assim, toda vez q sonhar em ser invisível pra poder ver o q outros estão fazendo, lembre-se de q 'ser invisível' e 'ver' são (¡ó ironia entre ironias!) duas opções incompatíveis entre si. E se lhe aparecer um gênio concedendo-lhe três desejos, não se esqueça de q, pra realizar esse sonho, já vai gastar dois. É mais prático pedir ao gênio uma mosca eletrônica com câmera & microfone.

14 julho 2003

¡Sebo neles!

¿Vcs já viram aqueles anúncios da coleção de livros editada e promovida pela Folha? ¡Q vergonha, não? Toda escola de propaganda & marketing devia ter curso de Plausibilidade I, II e III, ¿não acham?. Pois vejam se não concordam comigo: Esses anúncios mostram uma pessoa lendo um dos livros da coleção e distraidamente enfiando na contracapa alguma coisa q iriam colocar na boca - uma mulher enfia um batom, um homem enfia um sorvete de casquinha, uma escova de dentes, etc. A suposta mensagem é: se vc ler este livro, vai gostar tanto dele q não vai prestar atenção em mais nada.

Mas o Dr Plausível realizou uma pequena pesquisa com transeuntes anônimos: recortou os anúncios do jornal, mostrou-os aos anônimos transeuntes e perguntou, "Vc compraria ou leria este livro?" Eis uma sinopse das respostas:

- ¡Claro q não! Se eu gostar do livro tanto assim, vou estragar e jogar dinheiro fora.
- Eu nunca ia ler um livro q me impede de passar meu batom sossegada.
- Se ler é hábito de quem não tem coordenação motora, não quero não.
- Jamais colocaria em minha prateleira um gama de tons pastéis.
- ¡Tá louco! Ninguém se intromete entre mim e meu sorvete!
- ¡Eu não! Todo mundo vai achar q eu sou imbecil.
- Ah, nããão. Sou canhoto. Vou estragar a capa.

Como se vê, se a coleção vender bem, será unicamente pq o público está sendo impiedosamente bombardeado de anúncios. Com seu visual pífio e péssima encadernação, dentro de alguns meses esses livros serão o terror dos alfarrabistas.

Mas, perguntar-se-ão meus leitores, ¿q há de implausível nisso tudo? Ora, mas ¿tenho q explicar tudo?

12 julho 2003

Os bushas de canhão

O Dr Plausível deu imperdíveis gargalhadas qdo alguém alto do governo estadunidense finalmente admitiu o q todo mundo já sabia – q pro Iraque destruir alguma massa, tinha q colocar muito molho e queijo ralado. Agora, no dia da independência dos EUA, outro funcionário "descobriu" uma fita em q alguma persona non grata declara exatamente (notem q 'exatamente' está sublinhado) o q o governo estadunidense precisava pra manter o apoio do povinho. E ¡Ê, cacilda!, ¿não é q deu certo? [...impagáveis gargalhadas...]

Todo mundo acha q a principal característica dos estadunidenses é o título de povinho mais sem simancol do planeta. Mas o Dr Plausível discorda. Desde q Orson Welles noticiou uma invasão marciana e levou uma cidade inteira ao pânico, está claro e evidente q o q os EUA precisam mesmo é abrir um franchising de Clínicas Dr Plausível. Mas talvez nem isso bastasse, pois o problema, vejam bem, não é q os filhos do tio Sam sejam hipoplausibiléticos: o vírus da hipoplausibilose infecta informações, textos e enredos, e não pessoas de carne e osso. O q estas precisam é dum detetor de implausibilidades, um desconto-do-vigário. Mas, ¡ó ironias do destino!, parafraseando o q se diz de Salamanca, "Lo que la naturaleza no da, el Doctor Plausible no lo presta."

08 julho 2003

As loiras geneticamente morenas

Carlos P Motta, o mentor intelectual do Dr Plausível, sempre contribue pra engrossar a conta bancária do emérito terapeuta recomendando pacientes hipoplausibiléticos a seus cuidados. Uma de suas recomendações mais célebres é um caso de implausibilidade galopante que acomete grande parte da população brasileira: ¿Será plausível q um país com tantas morenas e mulatas de bundas maravilhosas e naturais produza tantas loiras tingidas de seios turbinados? Ou então esta: ¿Será plausível q o mesmo país q importou o conceito de 'loira burra' também importe a fórmula do xampú tingidor?

O comum dos mortais pedirá q não se confunda implausibilidade com incoerência. Diriam q os sintomas relatados indicam o segundo mal, e não o primeiro. Mas o Dr Plausível discorda dessa objeção, por motivos semânticos senão filológicos. Pra nós, usuários da língua (e não pros dicionários, diga-se de passagem), a palavra q empresta o nome a nosso emblemático cientista significa "aceitavelmente semelhante à realidade". Já "coerente" qualifica o bom nexo entre duas idéias ou fatos distintos. Seguindo esse raciocínio, dirão os críticos, brasileiro correr atrás de loira peituda em vez de correr atrás de morena bunduda é incoerente, mas não implausível.

¡Ó leviandade especulativa! O fato de morenas se mutilarem a fim de mimetizar um biotipo concorrente e assim desabonar o próprio, precisa sim duma consulta urgente com o Dr Plausível. ¿Há coisa mais "inaceitavelmente contrário à realidade" do q os resultados de toda a parafernália utilizada por mulheres e homens pra parecer aquilo q não são, desde lábios batonadamente carnudos a ombros enchimentamente largos?

¡Ó desgraça evolucionária! ¡Ó desastre genético!

04 julho 2003

A contabilidade da alma

Voltando à vaca fria das implausibilidades religiosas, o Dr Plausível recomenda tratamento prà oração de S Francisco de Assis q virou letra de música obrigatória em tantos encontros de jovens religiosos: "fazei com q eu procure mais consolar q ser consolado, compreender q ser compreendido, amar q ser amado, pois é dando q se recebe, é perdoando q se é perdoado e é morrendo q se vive prà vida eterna."

Parece uma oração imbuída dum sentimento altruísta e duma beatitude edificante, ¿não?

Mas observem o q está fazendo aquela palavrinha escondidinha entre as duas partes da oração: a conjunção "pois". O autor da oração quer consolar, compreender e amar pois quer receber, ser perdoado e viver eternamente. A oração passa imediatamente de altruísta pra interesseira, de beata pra maquiavélica: o suposto beato caridoso e amoroso pretende assumidamente usar o outro em benefício próprio! ¿Isso lá é sentimento religioso q se apresente? O altruísmo de S Francisco, e das gerações e nações inteiras q repetiram e repetem sua oração, seria mais plausível se a segunda parte fosse abolida, ¿não acham?

Mas, ¡ó alma encalacrada!, grande chance!

03 julho 2003

Nunca diga besteira

¿Já notaram como a hipoplausibilose faz o paciente deturpar o significado das palavras até q elas não signifiquem absolutamente nada? O Dr Plausível chama esse sintoma de "efeito incrível". Um porcentagem alarmante de chamadas de filmes na rede Globo contêm a palavra 'incrível'. Agora a palavra aparece também em revistas, especialmente em manchetes de capa. Observem o disparate, por exemplo, duma chamada na capa do último número de 'Cláudia':

Nunca diga nunca: mulheres incríveis provam que você pode tudo.

¡Ó meus calos! ¿Não é ridiculamente óbvio q se as tais mulheres q provam q vc pode tudo são mesmo incríveis, segue-se q vc (uma mulher supostamente normal) não teria a menor condição de conseguir coisa alguma? Pois se as tais mulheres incríveis são realmente incríveis, ¿q chance tem vc, sua lesma?

Aliás, se o artigo da revista fala de mulheres q por seu esforço e capacidade conseguiram boa credibilidade ¡¿por que é q são chamadas de 'incríveis'?!

¡Ó feminismo às avessas! ¡Ó despiadada incredibilidade!

02 julho 2003

A prece e a pressa

O Dr Plausível já atendeu diversos casos de prece coletiva, uma prática que inspira sérios cuidados. O último caso mais notório no Brasil foi a 'corrente de oração' pra orar pela vida ou a alma do cantor Leandro, q ao q consta era um bom cantor, um sujeito decente e uma pessoa agradável. Mas daí a merecer intervenção divina vai um bom pé de estrada. Muita gente se deixa levar por idéias totalmente incoerentes. Ao q parece, uma mesma pessoa pode simultaneamente crer q (1) Deus é justo e caridoso e q (2) um doente terminal tem mais chance de sobreviver se for suficientemente popular pra q um batalhão de rezadores interceda por ele, do que teria se ele fosse um desconhecido embaixo duma ponte rezando pela própria saúde. Há q ser muito hipoplausibilético pra crer q Deus, seja ele "O" Deus ou um outro deus qualquer, mudaria seus desígnios pra acomodar os desejos duma turba ensandecida por algumas jogadas de marketing.

¡Ora, mas tenham a santa paciência!

27 junho 2003

O comprimido contra o azar

¿Vocês já notaram q muita gente atribue à fé o poder de remover montanhas de bom-senso? ¿Já perceberam q a religiosidade está prà estatística assim como os camarões estão pràs maçanetas?

Na tv, todos os canais religiosos têm algum programa em q se convida os telespectadores a telefonar seus depoimentos de fé. Entre esses depoimentos, o Dr Plausível ainda não ouviu um único q não tivesse sérios sintomas de hipoplausibilose. Os depoimentos geralmente têm três estágios: (1) tudo estava bem até q (2) algo triste aconteceu e se repetiu ou continuou até q (3) foi removido pela prece. Um caso típico seria: (1) perdi um ótimo emprego; (2) achei outro, mas pagava pouco; achei outro, mas era muito longe; achei outro, mas não me satisfez; (3) rezei, tive fé, e recuperei meu primeiro emprego.

A crença de q a prece resolve alguma coisa q já não seria resolvida pela paciência talvez seja o maior achado dos dirigentes de religiões. Eles jogam com uma característica bem conhecida do mundo: nenhuma situação é permanente; portanto se tua situação presente é desagradável, apenas três coisas podem acontecer: ela pode piorar, pode continuar igual ou pode melhorar. Se vc reza e a situação não melhora, vc deve continuar rezando. Se ainda assim, ela não melhorar, vc continua rezando, desta vez com fé redobrada. E assim por diante até q a situação melhora e vc pode atribuir teu sucesso à prece. A implausibilidade desse raciocínio é bem conhecida dos pastores. Evidência disso é q eles nunca dizem: "tranque-se em teu quarto e reze com toda a fé de teu coração, q com certeza alguém vai bater em tua porta oferecendo emprego". O q fazem é promover a prece junto com alguns sábios conselhos práticos: "reze com toda a fé de teu coração, mas não deixe de sair toda manhã pra procurar emprego, ler todos os classificados e fazer um curso de computação!" Assim, até o Dr Plausível!! Pra eles, a prece é como o comprimido contra a sede: vc toma o comprimido com três copos d'água a cada três horas e a sede desaparece como por milagre. Se a prece tem algum sentido cósmico, com certeza não é pra atender pedidos.

Qdo algum missionário ou promoter dessas igrejas interpelar vc na rua, talvez a melhor resposta seja a q meu cunhado sempre dá: "Obrigado, mas já sou correntista do Itaú."

Amanhã, o Dr Plausível atenderá os casos de prece coletiva.

24 junho 2003

Novelas acochambradas

Basta uma personagem de novela dizer algo como "Ai, Letícia, a vida às vezes tem lições duras!" pra q então um comentário se ouça em dezenas de milhões de lares do Brasil: "Mas é veidade, né? A vid'aiz veiz tem umas lição bem dura!", ao q outra pessoa na mesma sala reclama: "Ô, Zoca, cê fica falano e entrô us comercial!" Essa rotina se repete dia após dia por anos a fio.

O Dr Plausível não atende novelas. O emérito filantropo, em toda sua humildade, reconhece q não seria capaz de tratar algo tão descomunalmente implausível como esses amontoados de chavões e burrices, enredos obtusos, diálogos absurdamente inverossímeis e truques baratos pra aumentar a audiência. Mas nosso estimado humanista há muito fica intrigado com pelo menos dois sintomas de hipoplausibilose crônica q todas as novelas compartilham – não pelo caráter semi-analfabeto das mesmas, mas pelo fato de esses sintomas serem tão evidentes q certamente escondem algo por detrás.

Um deles são as mensagens construtivas. É impossível assistir a qqer capítulo sem ser bombardeado a cada três minutos por lições de moral, frases feitas edificantes, intimações à sociabilidade, aulas de correção política, minutos de sabedoria, &c &c. ¡Mas q coisa absurda! ¿Já viram coisa mais implausível q dezenas de pessoas trocando chavões 24 horas por dia, como se estivessem numa fábula? É difícil imaginar q outra finalidade isso teria nas novelas a não ser (1) acochambrar o enredo pra ganhar tempo até os comerciais e (2) maquiavelicamente domesticar os vertebrados espectadores em suas poltronas. Acochambração e manipulação. ¡Que vergonha!

A segunda implausibilidade é menos pernóstica mas é mais ridícula. O Dr Plausível certamente não é o primeiro a notar q raríssimas vezes uma novela mostra alguém assistindo televisão, mas um fato raramente registrado é q o aparelho de tv é um eletrodoméstico q simplesmente inexiste na grande maioria dos cenários de novelas, apesar de estar presente em quase 100% dos lares brasileiros. Mas ¿por que será q não nas novelas? O Dr Plausível acha q personagem de novela não assiste tv pq isso imobilizaria a cena, tornaria os personagens passivos e mostraria ao telespectador sua verdadeira dimensão – além de obrigar os atores a fazer cara de idiota, coisa q nenhum deles gostaria de evidenciar. Qto à ausência de aparelhos de tv, o motivo é óbvio: pra q a trama se desenvolva, qqer aparelho de tv presente em cena tem necessariamente q estar desligado, e mostrar aparelho desligado seria contra-producente: os milhões de espectadores q imitam penteados, trejeitos e posturas desligariam seus aparelhos imediatamente.

21 junho 2003

Partido da Proa Liberal

¿E a nova campanha do PFL? Com aquele slogan estilo mensagem-de-fim-de-ano-da-globo, "Gente como você", certamente vai convencer muito eleitor a votar no PT.

Considerem: pra provar aos Zés Manés, Marias das Dores, Silvinos dos Santos e Deocléias de Jesus deste Brasil q as bancadas do PFL estão repletas de 'gente como nóis', a campanha orgulhosamente traz um cara super comum, super povão-povinho: Lars Grael, medalha de bronze em iatismo nas olimpíadas de 88 e 96. Só o nome dele já o coloca no centrão do Brasil, a meio caminho entre os Pampas e a Pororoca. Além disso, ele conseguiu essa coisa tão corriqueira q é ganhar medalhas olímpicas pra o Brasil (são 150 milhões de brasileiros e 66 medalhas em toda sua história; ou seja, todo brasileiro tem uma, ¿ora pois não?). E mais, ganhou defendendo um esporte super popular, um esporte brasileirão, de brazucas da gema como Burkhard Cordes (bronze 68), Reinaldo Conrad (bronze 68 e 76), Peter Ficker (bronze 76), Alex Welter e Lars Björkström (ouro 80), Robert Scheidt (ouro 96, prata 2000), e o irmão de Lars, o Torben (bronze 88, ouro 96, bronze 00).

¿Não é super plausível q um sujeito chamado Lars Grael, q tem um irmão chamado Torben, cada um com seu iate e suas medalhas olímpicas, seja chamado de 'gente como você'?

"Ora faça-me o favor!" dirá o Dr Plausível. "Esporte à vela de gente como nóis é jogar palitinho quando acaba a luz."

20 junho 2003

¡Kamchatka-bum!

Ou as bolas do protagonista e narrador de Kamchatka não desceram na adolescência, ou trata-se dum caso de hipoplausibilose melosa.

Vejam se não estou certo. O protagonista e narrador é um menino de 10 anos. Seus pais estão sendo perseguidos pela ditadura argentina (¿era pra entender isso? pode ser q o pai fosse um cafajeste criminoso de colarinho branco: o filme nunca esclarece esse ponto). No final, os pais deixam o menino a salvo com o avô e vão embora de carro se esconder em outro lugar. O menino sai correndo atrás do carro, vendo-o desaparecer no horizonte. O filme dá a entender q os pais foram pegos e mortos pelo governo (ou q foram constituir família em outro lugar, vá saber), pois a voz do narrador – ¡um menino de 10 anos! – diz algo assim como "nunca mais vi meus pais". ¿Mas como é q pode o menino dizer q nunca mais viu os pais? Ou esse menino tem um senso de fatalidade descomunal ou trata-se dum caso clássico pro Dr Plausível: personagem-diz-algo-q-não-poderia-saber. Ainda por cima, se a frase vem do menino, está na cara q o diretor quis fazer um truque barato pra ver se arrancava umas lagriminhas da platéia ignara.

O filme tb tem uns disparates anacrônicos; por exemplo, ao se dar bem num jogo de tabuleiro o menino faz, em plena década de 70, um gesto q só se popularizou nos anos 90, aprendido nos filmes americanos: com o punho fechado, joga o cotovelo pra trás e diz "¡Sí!" (americano diz "yesss!").

¡O tempora, o mores! ¿Custava ao diretor fazer uma consultinha com o Dr Plausível antes de se envergonhar em público?

19 junho 2003

Desmandos

Desmundo é mais um filme em q as crueldades do destino são resolvidas ironicamente qdo um bebê é parido. Além desse defeito incorrigível, está precisando consultar o Dr Plausível pra resolver problemas menores. Segundo o filme, lá pelo século XVI bastava alguém falar uma língua e já se dispunha a matraquear nela pra algum estrangeiro presente. Se fosse só uma personagem, ainda vai: vc pode interpretar q o calor, a demência, &c ataquem sem avisar uma pessoa por filme; mas duas já é demais. Tem uma indígena q destrava a epiglote tupinambá à menor provocação em cima duma coitadinha recém-chegada de Portugal, e depois vem um africano com cara de circunspecto q solta o verbo bantu em cima da mesma. ¿Era pra ela entender? Ou ¿era pra a platéia entender q ali foi feita tooooda uma pesquisa lingüística? Vale dizer q nenhum esclarecimento é dado qto ao conteúdo das falas dos dois, apesar de q toda fala em português da época esteja desnecessariamente legendada pro português de hoje.

Na mesma consulta já pode encomendar tratamento pra uma seqüência em q a heroína – uma órfã portuguesa q nunca tinha saído do bairro onde nascera e terminou numa fazendinha no meio da mata atlântica – foge mata adentro no meio da noite (!) e encontra o caminho q a leva direto a uma praia (!!) onde está uma caravela q pode levá-la de volta a Portugal (!!!), praia esta povoada única e exclusivamente por dois marujos q imediatamente se dispõem a estuprá-la(!!!!).

¡Ó engulhos! ¡Ó arrepios d'alma!

15 junho 2003

A hipoplausibilose e a morte

O Dr Plausível atende filmes, notícias, seriados, escritos, propagandas, idéias, &c q demonstrem claros sintomas de hipoplausibilose. Friso no entanto q ele atende mas não cura. Assim como por mais q vc consulte um médico pra cuidar de pequenos problemas (tipo seborréia, câncer, aids, lumbago), jamais se livrará da morte, assim tb o Dr Plausível jamais será capaz de resolver sozinho as endemias, surtos, epidemias e chiliques de hipoplausibilose q assolam a civilização há anos – digamos há 5 mil anos.

Vários estudiosos do assunto teseiam q o ser humano é assim mesmo: q a falta de plausibilidade em relatos humanos equivale à falta de pelos em ostras ou à ausência de pérolas no baço das ratazanas. Mas nosso eminente humanista discorda, quiçá implausivelmente. Pra ele, a hipoplausibilose equivale à lordose: tem causas, sintomas e histórico individual, mas só pode ser totalmente avaliada por quem dela não sofre. Há quem questione a capacidade do Dr Plausível ao arrogar-se diagnosticador da plausibilidade alheia. Essa crítica é facilmente descartada, bastando lembrar q nosso emérito estudioso não diagnostica: apenas atende.

Talvez chegue o dia em q os hipoplausibiléticos venham a ignorar as ações humanitárias desse grande homem, qdo já não se ouçam seus engulhos e revertérios ao expor-se às acochambraduras alheias. Mas cada pessoa q ouvir sua mensagem clara e inconfundível há de pelo menos pensar uma vez antes de falar besteira.